- Em que posso ajudar, Zacky?
Obriguei-me a sorrir para Valary Dibenedetto, moça da secretaria, esperando não parecer tão falso.
Eu precisava saber quem ele era. De onde tinha vindo, seu endereço, seus pais… Eu precisava de tudo isso para o maldito trabalho de Biologia. Brian nunca me respondia quando eu perguntava, então eu logicamente vim atrás disso sozinho.
- Hey Val, quanto tempo.
- Sem gracinhas, pode falar o que você quer.
- Ah, assim, eu precisava olhar o meu boletim. Quero somar minhas notas – Falei rápido. – Você sabe, pra saber se eu passei de ano em todas as matérias. Recuperação, essas coisas. Você poderia pegar esse pesadelo pra mim?

- Olha, como você pode ver, – Val estava fazendo as unhas — eu estou ocupada. Vá você mesmo. Segundo armário, terceira gaveta. Ache a pasta de sua série e suma daqui.

Val falou tudo da mesma forma que eu. Tudo muito rápido. Absorvi as informações e entrei na sala, indo ao armário e abrindo a gaveta. A pasta da minha série felizmente era a primeira, então a peguei e comecei a passar os alunos. O nome de Brian não demorou a aparecer já que ele era um dos primeiros da chamada.

Peguei sua ficha e a primeira coisa que li foi o “Brian Elwin Haner Jr.”. Não tinha mais nenhuma informação. Data de nascimento, endereço, telefones, nada. Nem mesmo a cópia de sua carteira de vacinação. Aproveitei e peguei a ficha de outro aluno, para saber se aquele era o padrão de todos os boletins e infelizmente era. Parecia piada.

Gravei o nome e saí da sala. Agradeci Valary que não pareceu se importar muito.

Brian Elwin Haner Jr., isso não era o bastante.

(...)

Eu e Johnny nos encontramos depois da aula para jantarmos em algum canto. Como se não bastasse eu sentir fome, Johnny queria comer em um restaurante mexicano, então fomos ao melhor da cidade. Sempre íamos lá de terças-feiras, mas dessa vez estávamos indo em uma quarta e isso não pareceu me dar sorte.

Enquanto eu fazia os pedidos, Johnny foi buscar sua carteira no carro. Estávamos no Borderline e eu havia esquecido que Brian trabalhava lá. Logo, o garçom que deixou os pedidos na mesma foi ele mesmo. Brian Haner.

- Muito bem. Não cansa de olhar pra mim o dia inteiro? Também precisa me encontrar a noite?

Não respondi.

Ele se acomodou no lugar do Johnny.

- O que você vai fazer domingo?

- Não quero sair.

- Você está ficando abusado e eu gosto disso.

- Não importa o que você gosta. Não vou sair com você e fim.

Ele ficou calado. Parecia ter funcionado.

- E você me chamou de abusado? – Perguntei inconformado.

- E se chamei?

- Eu não gosto. Me respeite, por favor.

Ele sorriu.

- Agora é ainda mais um abusado.

- Você que é um.

- Ok, eu só pensei que poderia ir a praia comigo domingo.

- Segunda eu tenho aula. E outra, por que está me convidando? A sala de aula está cheia de alunos gays.

- Queria ficar sozinho com você.

- Olha, eu não quero ser grosso, mas…

- É claro que você quer.

- Ok, você começou. Eu não vou a praia e nem a canto algum com você Brian Haner.

Ele sorriu curioso e eu fingi ignorar.

- Viu, acho que ‘tá na hora de você voltar pro trabalho.

- Se quer saber, gosto do fato de nunca ter visto você com ninguém na escola.

Ignorei-o como todas as outras vezes naquela noite.

Passaram-se alguns minutos e eu pude perceber Brian me examinar de uma forma que me fazia sentir transparente, era como se o olhar dele queimasse sobre a minha pele, mas queimasse de uma forma fria. Tão fria que chegava a queimar.

- Você não é tão fechado assim. Nem tímido, nem nada. Só precisa de uma boa razão para conhecer alguém.

- Chega de falar de mim?!

- Você acha que sabe de tudo, não é?

- Claro que não. – Disse eu — Não sei nada sobre você.

- Nem vai.

- Engraçado, Brian Haner, olhei seu boletim hoje.

Minhas palavras saíram de repente, Brian e eu levantamos os olhares no mesmo segundo, fazendo assim eles se alinharem.

- Isso é ilegal.

- Não havia nada além do seu nome. Por mais que seja o padrão, eu achei isso intrigante.

- O que foi? Eu não sou um assassino.

- Estou dizendo isso porque quero que saiba que eu sei que há algo de errado com você. Vou descobrir tudo. Vou fazer você mostrar.

- Estou ansioso por isso. Vá em frente.

Desviei o olhar e logo vi Johnny voltando.

- O Johnny. Some!

Ele ficou parado no lugar do Johnny, olhando com atenção bem dentro dos meus olhos.

- Pára de me olhar assim. Por que ‘tá olhando assim?

- Porque você é muito diferente do que eu imaginei.

- Você também. – Retruquei sorrindo – Muito pior.

Ele inclinou-se, preparando para se levantar, quando Johnny chegou, ele se foi.