Na manhã seguinte, fiquei surpreso ao ver Kevin aparecer na escola. Eu nunca tinha o visto por ali e ele também não tinha me contado que estudava na mesma escola que eu.

Usava um short de basquete que cobria os joelhos, uma regata da Nike. Estava de tênis com canos longos. Pareciam novos e caros. Ele me viu, acenou discretamente e se juntou a mim na arquibancada da quadra de Educação Física.

- Estava pensando em quando a gente se trombaria de novo. – Disse ele e eu apenas sorri.

- Você não disse que estudava aqui.

- Eu não sou daqui.

- O que aconteceu então?

- Eu perdi a bolsa da outra escola e meus pais não conseguiram bancar a mensalidade. Como aqui é mais barato, resolvi estudar aqui.

- Ah, então você não era daqui…

- Não.

Antes de continuarmos a conversa, a professora Michelle apitou.

- Eu não sei o que isso significa. – Kevin me disse um pouco apreensivo.

- Mais ou menos dez voltas em torno da quadra, sem cortar caminho. – Levantei da arquibancada sendo seguido por ele.

Kevin e eu corremos juntos as dez voltas. Depois disso, fomos para fora, onde o ar estava mais pesado. Eu respirava e aquilo parecia me sufocar. Algumas gotas de chuva caíam do céu e então eu entendi o motivo da pequena neblina.

- Preciso de dois capitães para jogar Softball. – Gritou a professora Michelle. – Vamos! Quero todo mundo levantando a mão. Melhor que sejam voluntarios ou serei eu quem vai escolher as equipes, será pior.

Kevin levantou a mão.

- Muito bem. – Disse para ele. – Quem vai ser o capitão do outro time? Que tal Mike Hranica?

Eu odiava aquele cara. Mike era o pior garoto do colégio depois de Brian. Ele era bruto, Straight Edge e se achava pra caramba. Sem contar que ele não tinha um dente da frente. Ele tinha a cara totalmente fechada, era grosso e não conversava com ninguém. Acho que também era o único garoto hétero que restou naquela escola. E por esse motivo, praticamente todos da escola tinham medo dele.

Os olhos de Mike examinaram Kevin de cima a baixo.

- Kevin escolhe primeiro. – Disse a professora.

- Zacky. – disse ele. Mike jogou a cabeça para trás e riu.

Olhei para Mike enquanto ele retornava sua cabeça e posicionava seus olhos sob os meus.

Kevin não demonstrou nenhuma reação, o que me fez achar ele mais interessante.

Depois de cada capitão organizar seu time, os mesmos levaram seu time para os bancos. De um lado Kevin explicava tudo o que cada pessoa tinha que fazer.

Eu sabia o que fazer, eu era muito bom no Baseball que é quase a mesma coisa. Só não sabia diferenciar algumas regras, mas não importava muito. Eu só queria acabar com o time do Hranica.

- Zee, você é o primeiro, sabe o que fazer? – Kevin me perguntou enquanto eu assentia rapidamente com o bastão já em mãos. Quanto ao capacete, eu era bom demais pra usar aquilo.

Equilibrei o bastão no ombro, esperando a bola de um dos integrantes do outro time.

Mike assumiu sua posição no montinho do arremessador. Estendeu a bola diante de si, e percebi que exibia o dedo do meio discretamente pra mim. Abriu um sorriso meio psicótico e lançou a bola com toda força.

Eu prestei tanto atenção nas feições que ele fazia que a bola escapou. Me senti um idiota.

- Strike! – Professora Michelle exclamou, parecendo gostar.

Mais uma vez a bola deixou a mão de Mike, agora com menos força e mesmo assim eu não consegui pegá-la. Tinha algo de errado comigo.

- Outro Strike! – Disse Daniel Williams, amigo de Mike. Olhei feio pra ele.

Afastando-me da posição, dei algumas rebatidas no ar só para treinar. Não percebi que Kevin vinha atrás de mim. Ele pôs os braços à minha volta e posicionou as mãos no bastão, junto às minhas.

- Deixa que eu te mostre, Zee... – Disse perto do meu ouvido. – Desse jeito, percebe? Relaxa e use os quadris, está tudo nos quadris.

Eu sentia meu rosto aquecer com os olhares da turma toda.

- Ok. – foi tudo o que eu finalmente consegui dizer.

- Vão para um quarto, caralho. – disse Mike.

Todo mundo da quadra deu risada.

- Se você lançar uma bola decente, Zacky vai devolver. – Kevin tentou nos defender.

- Estou pronto pra arremessar.

- Ele está pronto pra rebater. – Kevin disse por fim.

Eu sabia o que eu tinha que fazer. Eu tinha que parar de olhar nos olhos dele no minuto em que ele soltar a bola. Mike se acha bastante, mas os arremessos dele são feitos a base de força. Não são limpos, assim eu não preciso me esforçar para rebater.

- Vá logo com essa bola, Mike. – a professora gritou.

Nesse momento, algo do outro lado da quadra me chamou atenção. Achei que tivesse ouvido alguém me chamar. Mas não tinha ninguém me chamando, só era o Brian. Estava usando um boné estranho e eu nem fiz questão de reparar. Só olhei naqueles olhos. Opacos e impenetráveis.

Ouvi mais algumas coisas, parecia que tinham palavras correndo em minha cabeça.

Aulas de rebatidas? Que boa… pegada.

Respirei fundo e ignorei.

- Baker, volte ao jogo.

Pisquei e então me posicionei novamente, a tempo de ver a bola voando em minha direção. Estava me preparando para rebater quando ouvi outras palavras.

Calma. Ainda não.

Concentrei-me, esperando que a bola se aproximasse mais. Quando ela perdeu altura, dei um passo adiante e bati com toda a minha força. A bola foi na direção de Mike, que caiu de costas no chão depois de quicar na grama.

Depois disso, eu sabia que tinha que correr, então larguei o bastão e o fiz.

- Fique na primeira base. – Um dos caras do meu time gritou.

Eu não fiquei e juro que foi a pior coisa que eu fiz. Onde tinha ido toda a minha experiência no Baseball? Era quase a mesma coisa.

Eu não quero contar o resto do jogo. Não foi uma boa idéia correr além da base. Eu caí e ralei minhas coxas. Mas as ralei tanto que pareciam que dois gatos tinham brincado sobre elas. Manquei lentamente até o banco.

- Foi bom. – Disse Kevin.

- O que eu fiz ou as minhas coxas?

Encolhendo a perna junto ao peito, limpei com cuidado o máximo de sujeira possível.

Kevin inclinou-se e soprou meu joelho, vários pedaços de sujeira saíram e foi mais fácil.

- Você pode andar?

De pé mostrei que embora a minha perna estivesse coberta de arranhões e sujeira, eu ainda tinha condições de andar.

- Posso fazer um curativo se quiser.

- Eu ‘tô bem.

Olhei de relance para o lado da quadra onde Brian estava àquela hora. Vazio.

- Aquele cara que estava ali antes era seu namorado? – Ele apontou o espaço onde Brian estava antes.

Fiquei surpreso pelo fato de Kevin ter notado isso.

- Não. – Respondi. – Ele é só um amigo! Na verdade, nem isso.

Kevin não pareceu convencido.

- Você tem certeza? Não quero correr atrás de um cara “ocupado”.

- Tenho sim.

- Então, o Delphic Seaport reabre no sábado a noite. Eu vou com o Cobby. Você não quer levar o Johnny? Acho que o tempo vai estar legal.

- Nós vemos lá então! – Respondi sorrindo.

Era o único jeito de eu livrar minha cabeça de Brian.

Notas finais
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