Theres a Hell...

26 Capítulo 25- Victim


Lá fora o clima tinha mudado e estava muito frio. Os postes emitiam uma luz pálida que não adiantava muito, o céu estava coberto por ume neblina espessa que tomava conta das ruas. Saí correndo do Blind Joe's, colocando a touca de minha camisa por cima de meu gorro.
Eu estava a alguns quarteirões do ponto de ônibus quando aquela sensação gelada desceu pela minha nuca. E ela estava coberta. Abaixei-me fingindo amarrar os sapatos e observei em volta disfarçadamente. As calçadas estavam completamente vazias.
Comecei a andar mais rápido, colocando as mãos nos bolsos da frente de meu jeans e torci para que o ônibus não atrasse. Cortei caminho por um beco atrás de um bar, entrei em outro beco e dei a volta no quarteirão. Verificava se estava sendo seguido a cada segundo.
Ouvi o ronco do ônibus e logo ele estava próximo a mim. Dei sinal e subi no mesmo. Eu era o único passageiro fora o motorista e o cobrador.
Depois de pagar passagem, escolhi um assento em uma fileira logo depois do cobrador. O ônibus começou a andar lentamente dentro a neblina. Meu telefone tocou, Johnny tinha me deixado uma mensagem:
"Onde você 'tá, Zee?"

"Portland. E você?"

"Eu também. Em uma festa com Kevin e Coby. Vamos nos encontrar."

"O que você 'tá fazendo aí?"
Não esperei resposta. Liguei.
— E o que me diz, Zacky? Estamos te esperando. — Ele atendeu.
— Porra, Johnny, o que você 'tá fazendo aí?
— Você 'tá parecendo um neurótico.
— Não posso acreditar que você veio para Portland com dois homens. Eles sabem que você 'tá comigo no telefone?
— Para poder ir até aí e matar você? Não, sinto muito. Ele e Coby foram correndo pegar alguma coisa em Kinghorn. Estou sozinho, relaxando. Bem que eu precisava de um acompanhante. Ei! — Johnny começou a gritar alguma coisa no fundo.
— Me fala onde você 'tá?
— Em alguma número com 1-2-7 na Highsmith.
— Chegarei em alguns minutos. Nós vamos para casa quando eu chegar. Pare o ônibus! — gritei grosso ao motorista e me dirigi até a porta.
Ele pisou no freio. Desci as escadas correndo e comecei a andar pelas ruas. Parei um homem que atravessava a rua ao meu lado e perguntei onde ficava a rua que Johnny tinha me dito.
— Você vai de pé? Preciso lhe avisar, o caminho é perigoso. É a leste daqui.
Que ótimo.
Andei apenas alguns quarteirões antes de constar que o homem que havia me dado as informações estava certo. A paisagem mudou na hora. As fachadas curiosas deram lugar a prédios com pichações de gangues. As vitrines eram escuras, as lojas eram como brechós. As calçadas eram caminhos desoladores que se estendiam através da neblina.
Um som arrastado, chacoalhante, atravessou a névoa. Uma mulher empurrando um carrinho repleto de sacos de lixo apareceu à vista. Os olhos eram como passas, eram pequenos demais, reluzentes e escuros.
— O que temos aqui? — exclamou a mesma, deixando à mostra sua gengiva sem dentes.
Dei um discreto passo para trás e apertei minhas mãos no bolso.
— Parece um casaco e um gorro de lã bem bonitos — disse ela. — Sempre quis ter um gorro de lã bem bonito.
— Olá. — falei limpando a garganta e tentando ser amigável. — A senhora poderia me dizer se falta muito para chegar à Highsmith Street?
Ela gargalhou.
— O caminho não é esse.
— Qual é o caminho?
— Não posso te contar de graça. — falou em um tom de reprovação. — Tem um preço. Uma moça precisa ganhar seu dinheiro. Ninguém nunca lhe disse que nada na vida é de graça?
— Não tenho dinheiro
Pelo menos não tinha muito. Tinha tudo ido no restaurante.
— Você tem uma camisa flanelada, quentinha.
Olhei para minha camisa preta e branca. Um vento gelado eriçou os cabelos de minha nuca e me senti quase morrendo de hipotermia sem aquela blusa.
— Acabei de ganhar de Natal.
— Quer saber o caminho ou não?
Não podia acreditar que estava ali por causa de Johnny. Não podia acreditar que estava negociando uma de minhas camisas com uma sem-teto.
Tirei a camisa e observei a mulher se vestir, fechando os botões.
Minha respiração parecia fumaça. Abracei a mim mesmo e bati os pés para conservar o calor corporal.
— Agora me fala.
— Você quer o caminho comprido ou curto?
— Curto.
— O gorro.
Tirei o gorro azul marinho e a entreguei.
— Está vendo aquele beco? Você atravessa e do outro lado está a Highsmith.
— E você precisou me deixar pelado para isso? Um quarteirão?
— Se você me der alguma coisa, eu te acompanho.
— Eu me viro.
Ela deu de ombros e continou a empurrar seu carrinho até a próxima esquina, onde ficou parada, apoiada em uma parede de tijolos.
O beco estava escuro e entulhado com lixeiras, caixas de papelão manchadas e uma protuberância não identificável descartado. Também havia ali um tapete, que poderia estar enrolado com um cadáver. Uma cerca alta de malha de aço acompanhava metade do caminho. Em um dia bom eu mal conseguiria escalar uma cerca de um metro de altura, quanto mais uma de três metros. Prédios de tijolos me ladeavam. Todas as janelas estavam sujas, oleosas e eram gradeadas.
Pisando em caixotes e sacos, abri caminho pelo beco. Meus sapatos esmagando cacos de vidros. Uma mancha branca correu entre minhas pernas, deixando-me com medo. Era um gato, só um gato. Ele descapareceu.
Procurei o celular no bolso, para mandar uma mensagem para Johnny, dizendo que era para ele me esperar. Lembrei que tinha deixado o telefone no bolso da camisa. Que ótimo! Quais as chances da mulher me devolver meu celular?
Decidi que deveria tentar e ao me virar, vi um carro preto polido passar em alta velocidade diante da entrada do beco. Subitamente o brilho avermelhado das luzes dos freios se acendeu.
Por razões que eu não poderia explicar além de uma simples intuição, mergulhei nas sombras.
Uma porta do carro se abriu e ouvi o barulho de tiros. Uns dez, mais ou menos. Era para matar.A porta bateu e o carro saiu cantando pneus. Podia ouvir o coração martelando dentro do meu peito, som que se fundiu com o de passos apressados. Percebi um momento depois que eram meus próprios passos. Eu corria até a entrada do beco.
Virei a esquina e parei brutalmente.
O corpo da mulher dos sacos estava desmoronado na calçada. Corri e caí de joelhos ao seu lado.
— Você 'tá bem? — disse freneticamente, virando seu corpo.
Ela havia caído de bruços. E quando uma pessoa caí de bruços, significa que instantaneamente ela morrerá engasgada com o próprio sangue.
E minhas previsões estavam certas. A boca estava aberta, os olhos vazios. Um líquido escuro escorria da camisa xadrez preta e branca, manchando-a com uma nova cor.
Eu usava aquela camisa a três minutos atrás.
Senti uma ânsia em pular para trás, mas me obriguei a procurar dentro do bolso da camisa meu celular. Mas ele não estava ali.
Havia uma cabine telefônica na esquina, do outro lado da rua. Corri e disquei o número da polícia. Enquanto esperava que a telefonista me atendesse, olhei em volta para o corpo mulher, e foi naquele momento que senti uma injeção de adrenalina atravessando lentamente minhas veias. O corpo havia desaparecido.
Com as mãos trêmulas, desliguei. O som de passos se aproximando, ecoou em meus ouvidos, mas não podia dizer se estava perto ou distante.
Toc, toc, toc.
Ele está aqui, pensei. O cara da máscara de esquiador.
Joguei umas moedas no aparelho e agarrei o fone com uma das mãos. Tentei me lembrar do número do telefone de Brian. Fechando os olhos com força, lembrei dos números que ele mesmo havia escrito em minhas mãos com caneta. Digitei-os no painel de números e a unica coisa que eu esperava era que ele me atendesse.
— O que houve? — Brian soou do outro lado.
Quase solucei ao ouvir o som de sua voz. Eu podia ouvir o estalar das bolas de sinuca colidindo na mesa, ao fundo, e sabia que ele estava no Bo's Arcade. Ele poderia estar ali comigo em quinze, talvez vinte minutos.
— Sou eu. — eu apenas sussurrava.
— Vee?
— Eu 'tô em Portland. Na esquina das ruas Hempshire e Nantucket. Pode vir me pegar? É urgente.
(...)
Eu estava encolhido no chão da cabine, contando silenciosamente até cem, tentando permanecer calmo, quando um Range Rover preto se aproximou lentamente da calçada. Bran abriu a porta da cabine e agachou-se contra mim.
Ele despiu a jaqueta de couro que usava por cima da costumeira camisa preta em gola V. Colocou a jaqueta sobre meus ombros e depois enfiou meus braços. O casaco ficou certo em meu corpo e eu me sentia mais aquecido. Senti a combinação dos cheiros de tabaco e o próprio aroma de Brian. Algo naquela mistura preenchia o sentimento de vazio que se instalava dentro de meu peito.
Ele me levantou. Ao meu lado, envoltou minha cintura com uma das mãos e envoltei seu pescoço da mesma forma.
— Acho que vou vomitar. Preciso dos comprimidos para emagrecer. — As palavras soavam vacilantes.
— Zacky. — disse ele, apertando-me contra si. — Eu estou aqui agora, tudo vai ficar bem.
Acenei com a cabeça.
— Agora vamos para o carro.
— Precisamos encontrar o Johnny. Ele 'tá em uma festa aqui perto.
Entramos no carro. Enquanto Brian dobrava a esquina com seu carro, ouvi o som de meus dentes batendo dentro da boca. Nunca na vida fiquei tão assustado. Ver a mulher sem-teto morta me fez pensar no meu pai. Minha vista estava tingida com a cor do sangue esparramado em minha blusa e, por mais que eu tentasse, não conseguiria eliminar aquela imagem de minha memória.
— Você 'tava jogando?
— Eu 'tava quase ganhando um apartamento?!
— Um apartamento?! — Quase gritei.
— Você tem o número da festa?
— Não consigo lembrar.
Todos os prédios pareciam abandonados. Não havia sinal de festa. Não havia sinal de vida.
— Você 'tá com seu celular?
Ele tirou o Blackberry branco do bolso e me entregou.
— A bateria 'tá fraca, mas creio que consiga completar a ligação.
Preferi a mensagem.
"Onde você 'tá? Esse é o número de Brian.""Mudança de planos. Acho que eles não conseguiram encontrar o que queria. Estão me levando pra casa agora."
A tela ficou negra.
— Apagou. — eu disse para Brian. — Você pode me deixar na casa de Johnny?
Minutos depois estávamos na estrada, dirigindo bem ao lado de um penhasco sobre o oceano. Eu já havia passado ali antes, mas quando o sol batia no céu. Era noite, o mar parecia um veneno negro e liso.
— Me conte o que aconteceu.
Eu ainda não havia entendido. Sem chances de contar. Eu não tinha certeza do que tinha acontecido. Eu poderia dizer que a mulher dos sacos tinha levado uns tiros logo depois de ter me feito dar a ela meu casaco. Eu poderia dizer que achava que a bala era pra mim. Então poderia tentar explicar que o corpo da mulher dos sacos, havia desaparecido misteriosamente.
Lembrei-me do olhar enfurecido do detetive Radke quando lhe disse que alguém entrara em meu quarto. Eu não estava com vontade de ganhar olhares. Não de Brian. Não naquele momento.
— Eu me perdi e a mulher dos sacos me encurralou — disse eu. — Ela me fez tirar o casaco... — Sequei o nariz com as costas da mãos e funguei. — Também ficou com meu gorro.
— O que você 'tava fazendo ali? — perguntou Brian.
— Ia encontrar com Johnny em uma festa.
Estávamos na metade do caminho quando o carro de Brian parou. Uma fumaça tomou conta do capô do mesmo. Brian freou, parando o carro na beira da estrada.
— Fique aí. — disse ele, saindo do carro.
Abrindo o capô do carro, ele desapareceu de vista.
Um minuto depois, ele fechou o capô. Esfregando as mãos nas calças, aproximou-se de minha janela gesticulando para que eu a abrisse.
— Más notícias. O motor fundiu.
Tentei parecer bem-informado e inteligente, mas não tinha espaço para mecânica em minha cabeça.
Brian ergueu uma sobrancelha e disse:
— Rest in peace.
— Não vai mais andar?
— Só se você carregar nas costas.
De todos os carros do mundo, ele tinha que ganhar um carro ruim.
— Onde 'tá seu celular? — perguntou.
— Eu perdi.
Ele abriu um sorriso.
— Deixei eu advinhar... estava no bolso do casaco? A mulher dos sacos de lixo se deu bem, não foi?
Ele examinou o horizonte.
— Duas opções, podemos pegar uma carona ou andar até a próxima saída e encontrar um telefone.
Saltei do carro, batendo com força a porta atrás de mim. Chutei o pneu e a lataria do carro diversas vezes. Sabia que estava usando a raiva parar desmascarar meu desespero e medo que sentira naquele dia. Se eu estivesse sozinho, acho que tinha caído em lágrimas.
— Tem um motel na próxima saída. Chamamos um táxi de lá. — eu disse com os dentes batendo mais forte. — Você fica aqui que eu vou.
Ele abriu um leve sorriso, mas não parecia estar se divertindo.
— Não vou deixar você sozinho depois do que aconteceu. Acha que eu sou maluco, James?
Ele me chamou de James?
Cruzando os braços, encarei ele de frente. Fui obrigado a inclinar meu pescoço para olhar dentro de seus olhos.
— Não vou entrar em um motel com você.
Era melhor parecer firme, para diminuir a probabilidade de mudar de ideia.
— Você acha que a combinação de nós dois em um motel sórdido seria perigosa?
— Quer a verdade? Acho.
Brian se apoiou na caminhonete.
— Podemos ficar aqui e discutir o assunto. — Ele estreitou os olhos na direção do céu escuro. — Oh, espera, podemos aguardar a tempestade, o que acha?
Como se Brian tivesse um mandato nos céus — e ele tinha -, o mesmo se abriu, e uma combinação densa de chuva e neve começou a desabar.
Lancei meu olhar mais frio que pude para Brian. Sentia minhas púpilas queimando sobre as suas.
Como sempre, ele tinha razão.
Eu ia me meter em um hotel sórdido com um anjo caído.