Theres a Hell...
25 Capítulo 24
Eu tinha rolado na cama a noite inteira. O vento batia em volta do casarão, jogando-se contra a janela, fazendo barulhos assustadores. Todos esses incômodos me fizeram acordar várias e várias vezes naquela noite.
Levantei cedo e decidi que naquele dia, eu resolveria minha vida. Eu colocaria Brian contra a parede e o faria esclarecer tudo de uma vez. E também, iria atrás do que Kevin me escondia de verdade. Estava um pouco de frio. Separei uma camiseta preta de malha com mangas compridas e um gorro de lã azul marinho, coloquei um jeans escuro e nos pés um Nike qualquer, combinando com minha roupa. Tratei de separar uma camisa xadrez flanelada em preto e branco, caso o frio apertasse. (...) Eu já havia estado em Portland outras vezes, mas não conhecia muito bem a cidade. Saltei do ônibus — eu não sabia dirigir até lá de carro -, armado com meu celular e minha camisa xadrez. Os prédidos eram de tijolos vermelhos, altos e estreitos, e bloqueavam a luz do pôr do sol, que reluzia atrás de um espesso grupo de nuvens de tempestade, vestindo as ruas com um véu de sombras. Depois de algumas ruas, a avenida da Kinghorn Prep apareceu. Uma placa sinalizou o colégio. Fiquei na calçada e dobrei a esquina para pegar a 32nd Street. O cais estava a apenas uns quarteirões. Vislumbrei barcos passando por trás das lojas do centro, enquanto tentava encontrar o restaurante Blind Joe's, onde Amanda Hendrick, ex-namorada de Kevin estava trabalahando antes de morrer. Vi o restaurante e me aproximei. Um sino soou quando eu atrevessava a porta. Uma garçonete morena, maquiada, vestindo um avental branco manchado apareceu ao meu lado. — Meu nome éAlexis Joice- disse em tom azedo. — Bem-vindo ao Blind Joe's. O especial do dia é o sanduíche de atum. A sopa do dia é o creme de lagosta. — Blind Joe's? — Franzi minha testa cinicamente. — Por que o nome desse restaurante não me é estranho? — Você não lê o jornal? Estivemos nos noticiários por uma semana inteira no mês passado. — Sério?! Acho que eu lembro. Houve um assassinato, não foi? A garota que trabalhava aqui? — Amanda Hendrick. — Ela tamborilou a caneta no bloco de papel, sem paciência. — Quer alguma coisa? Eu não queria nada. Mas olhar aquela garota com aquela maquiagem pesada não me faria bem, ainda mais com aquela cara entediada que ela tinha enquanto eu tentava ser simpático. Só concretizava o quanto eu não sabia seduzir e/ou conquistar garotas. — Deve ter sido difícil, vocês eram amigas? — Ela era minha melhor amiga. — Fechou os olhos por um tempo e vi que a maquiagem era mais negra do que imaginei. — Vai fazer o pedido ou não? Se eu não trabalho, não ganho. E se eu não ganho, não pago o aluguel e nem nada dessas coisas necessárias. — Sinto muito, não paro de pensar nesse caso. Sei que já devem estar cansados de tantas pessoas perguntando sobre... Ela me lançou um olhar penetrante. — Vai precisar de mais alguns minutos para examinar o menu? — Pessoalmente eu acho que repórteres são irritantes. Ela se curvou, apoiando uma das mãos na minha mesa. — Acho irritantes fregueses que demoram demais a decidir. Soltei um suspiro silencioso e abri o cardápio. — O que você recomenda? — Tudo é bom. Pergunte ao meu namorado, ele é o cozinheiro. Enfim um casal heterossexual naquela cidade. — Por falar em namorados, me fale se Amanda tinha namorados... — Diga o que você quer. — ordenou Alexis. — Você é da polícia? Advogado? Perito? — Apenas um cidadão preocupado. — Certo, muito bom. Vou dizer uma coisa. Peça um milk-shake, batatas fritas, algum lanche e uma tigela de sopa. Me dê 25% da gorjeta e então eu te conto o que sei. — Fechado. — Amanda começou a andar com aquele garoto, Kevin Skaff, o dos jornais. Ele estava com ela o tempo inteiro. Acompanhava ela de volta ao apartamento no final do turno. — Você já falou com ele? — Eu não. — Você acha que ela se suicidou? — Como vou saber? — Li no jornal que encontraram um bilhete no apartamento dela, mas também havia sinais de arrombamento. — E daí? — Você não acha um pouco estranho? — Se você quer saber se eu acho que Kevin poderia ter deixado o bilhete no apartamento, é claro que acho. Um garoto rico daqueles pode se livrar de qualquer acusação. Provavelmente contratou alguém para deixar o bilhete. — Não acho que Kevin tenha muito dinheiro. Acho que ele estudava lá como bolsista. — Bolsista? — ela repetiu rosnando. — O que você andou usando? Se Kevin não é rico, como ele deu o apartamento para Amanda? Lutei para não demonstrar surpresa. — Foi ele quem comprou? — Hendrick não parava de falar aquilo todos os dias. — Por que ele compraria um apartamento para ela? Alexis me encanrou, com as mãos nos quadris. — Diga para mim que você é um garoto normal, como todos os outros. Ah. Privacidade. Intimidade. Entendi. — Você sabe por que o Kevin deixou Kinghorn?
— Nem sabia disso. Examinei mentalmente as respostas dela e as perguntas que ainda queria fazer tentando recuperá-las na memória. — Ele encontrou amigos aqui? Alguém além de Amanda? — Não me lembro. — Revirou os olhos. — Sei lá. Um cara alto, cabelo comprido, preto, maquiagem preta, roupas pretas... Ela roeu as unhas com os dentes. — Me lembro desse cara. Difícil esquecer. Já saímos algumas vezes. Todo mal-humarado e silencioso. Veio umas vezes. Foi há pouco tempo. Talvez bem quando Amanda morreu, um dia ele veio aqui com Kevin e escutei uma conversa deles.
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