Estava na biblioteca, sozinho como de costume. Andei procurando informações na internet sobre “O Enforcamento de Kinghorn”, mas não achei nada. Muito alarde. Depois de que a carta foi encontrada e Kevin solto, nenhuma nova notícia tinha sido revelada.

Acho que já tinha passado da hora de eu ir até Portland resolver tudo aquilo, mas estava tarde e provavelmente na hora em que eu chegasse lá, os alunos estariam indo para suas devidas casas, coisa que quem deveria fazer era eu.

Minha mãe havia me ligado avisado que teria uma reunião rápida, então por isso não poderia ir me buscar na escola hoje. Eu estava com tanta preguiça… Mas resolvi ir andando mesmo.

O tempo estava um tanto fresco, eu estava de jaqueta jeans e tinha duas pernas. Podia caminhar mesmo que a preguiça impedisse.

Eu estava quase passando pela porta central da biblioteca quando ouvi alguém chamar meu nome. Ao virar, vi Mike Hranica se aproximando.

- Ouvi falar sobre o que aconteceu com Johnny. – disse ele. – É muito triste. Quer dizer, quem ia querer agredi-lo? Olha o tamanho dele. A menos, você sabe, que fosse inevitável. Talvez tenha sido legítima indefesa. Anões pelo caminho. Ouvi dizer que estava escuro e chovia, né, Johnny não pode ficar no caminho dessa forma…

— Me chamou pra isso?

Balancei a cabeça negativamente e fui até a saída.

— Espero que ele tenha evitado aquelas drogas do hospital – disse Mike me seguindo. – Ouvi dizer que viciam. Ele não pode ficar mais retardado do que já é.

Virei-me.

— Chega! Olha aqui, mais uma palavra e eu vou… — Nós dois sabíamos que era uma ameaça vazia.

Então foi o que Mike esperava. Ele se aproximou de mim, deixou o seu rosto em frente ao meu. Um sorriso de canto e pude ver a “janelinha”* que antes dava lugar a um dente normal. Um olhar bem dentro do meu e eu pude ver tudo o que ele poderia fazer comigo ali.

- Você vai o quê, seu viadinho de merda?

— Bastardo! – disse eu.

— Bastardo? Olha pra você. Quando é que a sua mãe tem tempo pra você? Aliás, cadê o seu pai, Baker? Você não temninguém.

Estreitei meus olhos e fui pra cima dele. Fechei minhas mãos e dei um soco certeiro em seu olho direito. Ele foi ao chão na hora. Eu não soube da onde aquela força tinha vindo. Eu só sei que estava arfando e nervoso demais para fazer qualquer outra coisa.

— Desgraçado.

Mike levantou rapidamente. A mão direita cobrindo o olho direito. Seu corpo másculo andou até mim. Assustei-me, não tive reação. Em menos de três segundos, me vi no chão. Mike tinha me dado um soco no queixo.

— Filho da puta. Desgraçado. Você vai pagar por isso, Hranica.

— Devo parecer ofendido?

Um segurança apareceu do nada, bem quando eu tinha levantado para acertar Mike de novo.

— Muito bem, vamos parar. Resolvam isso lá fora, aqui dentro eu não quero ninguém.

— Fala isso pra esse gordo. Eu não tenho nada com isso. – disse Mike apontando o dedo pra mim.

— Eu disse para irem lá pra fora. Agora.

Mike andou pra fora e eu o segui irritado, massageando meu queixo.

Quando chegamos à saída, cada um foi para um lado. Segui para a garagem subterrânea, que fazia o caminho até minha casa ser menor. Estava escurecendo e eu saí batendo os pés, reclamando de como o meu queixo doía. Pelo menos eu não ficaria tão marcado.

A minha frente havia um túnel que ligava a garagem á saída. Ele estava iluminado por luzes fluorescentes que brilhavam com um tom púrpuro pálido. Levei um momento para obrigar meus pés a iniciarem a caminhada. Não era mais preguiça. Era outra coisa. Fui assaltado pela súbita lembrança de meu pai na noite em que ele foi assassinado. Fiquei pensando se ele estava em uma rua tão remota e sombria quanto aquele túnel que se abria a minha frente.

Continue andando, disse para mim mesmo. Aquilo foi um ato aleatório de violência. Você passou o ultimo ano paranóico em relação a todos os becos escuros, todos os quartos escuros, todos os armários escuros. Não pode passar o resto da vida apavorado pela perspectiva de ter um revolver apontado pra você.

Determinado a provar que o medo estava só na minha cabeça, eu me dirigi para o túnel, ouvindo o som dos meus passos e reclamações no concreto. Enquanto mudava a posição da mochila em meus ombros, calculei quanto tempo demoraria para andar até em casa.

O túnel terminou, e uma silhueta escura estava postada do outro lado. Interrompi o passo e meu coração perdeu o ritmo. Brian vestia uma camiseta preta, jeans preto e coturnos pretos. Os olhos não pareciam amigáveis. O sorriso era malicioso demais para oferecer conforto.

- O que você ‘tá fazendo aqui? – perguntei, afastando minha pequena franja da testa e tentando ver, atrás dele, a saída de carros. Sabia que estava bem adiante, mas muitas luzes fluorescentes no teto estavam queimadas dificultando tudo. Se estupro, assassinato ou outras atividades criminosas passavam pela cabeça de Brian, ele havia me encurralado no lugar perfeito.

Enquanto ele vinha em minha direção, eu recuava andando pra trás. Esbarrei em um carro e vi minha chance. Dei volta a parei no lado oposto de Brian, com o carro entre nós.

Ele olhou assustado por cima do carro, com as sobrancelhas erguidas.

— Zacky, babe. Sou eu. Desde quando tem esse medo de mim?

— Tenho perguntas. Muitas.

— Sobre o quê?

— Sobre tudo.

A boca dele estremeceu, e eu tive praticamente certeza de que ele tentava reprimir um sorriso.

— E se minhas respostas não o satisfazerem, você vai tentar chegar ali? – gesticulou para a saída da garagem.

O plano era esse. Mais ou menos.

- Vamos ouvir essas perguntas.

— Como você sabe que eu estaria aqui hoje?

— Achei que era um bom palpite.

Eu não acreditei nem por um segundo que Brian estava ali por conta de um palpite. Havia algo nele que era quase predatório. Se as forças armadas ouvissem falar dele, fariam de tudo para recrutá-lo.

Brian disparou para a esquerda. Eu fiz o movimento oposto, fugindo para trás do carro. Quando ele parou, eu também parei. Ele estava na frente do carro e eu na traseira.

-Onde esteve domingo a tarde? – perguntei. – Você me seguiu enquanto eu almoçava com Johnny?

Brian talvez não fosse o homem da máscara, mas isso não significava que ele não estivesse envolvido na recente série de eventos perturbadores. Estava escondendo algo de mim. Vinha escondendo algo desde o dia em que nos conhecemos. Seria uma coincidência que o ultimo dia normal da minha vida tivesse sido a véspera daquele dia fatídico? Eu achava que não.

- Não, como foi alias? Comprou alguma coisa no centro?

— Talvez.

— Como o quê?

Pensei de novo. Johnny e eu só fomos almoçar.

— Então, você tem algo pra me dizer?

— Não.

— Você não tem a mínima ideia do que aconteceu com Johnny?

— Também não.

— Não acredito em você.

— É porque você tem dificuldade de confiar nas pessoas. – ele colocou as mãos abertas sobre o carro, apoiando-se no capo. – Já tivemos essa conversa antes.

Meu sangue ferveu. Brian tinha mudado o rumo da conversa mais uma vez. Em vez de iluminarem-no, os holofotes se voltaram pra mim. E eu realmente não gostava de ser lembrado de que ele sabia todo tipo de informação a meu respeito. Coisas particulares como minha dificuldade de acreditar nas pessoas.

Brian avançou no sentido horário. Fugi dele, parando quando ele parava. Estávamos mais uma vez em um impasse, o olhar dele fixo no meu, quase como se ele tivesse tentando ler em meus olhos qual seria meu próximo movimento.

— O que aconteceu no Arcanjo? Você me salvou?

— Se eu tivesse salvado você, não estaríamos tendo essa conversa.

— Você quer dizer que se não tivesse me salvado, nós não estaríamos aqui. Eu teria morrido.

— Não foi o que eu disse.

— O que foi que disse então?

— Você ainda estaria aqui. – e fez uma pausa. – Mas eu provavelmente não.

Antes que eu pudesse entender o que Brian estava dizendo, ele disparou na minha direção mais uma vez, agora atacando pela direita. Fiquei confuso por um instante, deixei que a distância entre nós diminuísse. Em vez de parar, Bian deu uma volta completa em torno do carro. Tentei fugir, indo na direção do acesso à garagem.

Cheguei a passar por três carros antes que ele me segurasse pelo braço. Ele me virou e me jogar contra um pilar de concreto.

Se meu braço não tivesse quebrado, eu teria certos problemas na coluna.

— O plano falhou. – disse ele.

Olhei-o com raiva, mas havia um bocado de pânico escondido atrás da raiva. Ele mostrou um sorriso que transbordava intenções sombrias, confirmando que eu tinha todos os motivos do mundo para suar descontroladamente.

— O que ‘tá acontecendo? – exclamei, esforçando-me em parecer hostil. – Como é que posso jurar ouvir sua voz bem dentro da minha cabeça? E por que você disse que veio pra cá por minha culpa?

— Estava cansado de admirar sua bunda à distância.

— Quero a verdade, seu filho da puta. – cuspi as palavras com o rosto bem próximo ao dele. – Mereço saber de tudo. Faço parte da história.

— Saber de tudo. – ele repetiu, com um sorriso lindo e maldoso. – Será que tem alguma relação com a promessa que você fez de me desnudar? Sobre o que estamos falando?

Eu não conseguia me lembrar sobre o que estávamos falando. Tudo o que eu sabia era que o olhar de Brian parecia queimar. Precisei parar de olhar nos olhos dele, então fitei minhas mãos. Elas brilhavam com o suor, por isso as escondi atrás de meu corpo.

— Preciso ir.

— O que aconteceu lá, hm? – Ele levantou uma de suas mãos e a levou até meu queixo. Acariciou a parte vermelha e ficou observando-o por um breve momento. Sua boca entreaberta, sua respiração golpeando meu rosto levemente quente… Eu ‘tava gostando. Brian parecia preocupado.

Eu não queria responder a pergunta. Não sabia que eu tinha que o fazer ou não, então fiquei calado apenas observando o jeito com que Brian estava examinando o meu rosto. Corei.

Minhas mãos, particularmente queriam segurar o corpo dele, inteiramente, tudo ao mesmo tempo. E apesar dele estar ali agora, parecia que ele não estava. Eu tinha medo dele ir embora sem terminar aquela conversa… Eu era pego em meus medos, sempre. Mas contra isso, Brian segurou meu rosto entre suas duas mãos. Nós nos olhamos, e então a vontade partiu de mim, ao mesmo tempo em que partiu dele. Nossas bocas se chocaram exatamente no mesmo milésimo de segundo. Brian me segurava, dando o máximo de si no beijo. Eu tentava fazer o mesmo, mas eu só conseguia demonstrar o quanto eu estava totalmente preso por ele, à ele. Queria sentir seu cheiro naquele segundo, queria poder sentir a textura de sua pele, então o fiz. Minhas mãos correram o seu corpo.

Naquela hora, ninguém sentia raiva de ninguém. Só queríamos demonstrar nossas melhores intenções. A inocência de um sentimento ignorado dentro do peito de cada um.

Eu o abraçava com minhas mãos, sentindo o seu calor corporal envolvendo o meu. As mãos de Brian agarraram minha cintura, meu rosto, meus braços, ombros, mãos… Era muita informação de uma vez.

O tempo que passou, a duração do beijo, tudo se tornou banal quando Brian parou tudo a procura de ar. Respirou fundo e pude ver seu peito subir e descer. Sorri fazendo o mesmo. Ele me olhou, eu olhei pra ele, nós sorrimos um para o outro.

— Nada. – respondi num sussurro.

Antes que pudesse impedi-lo, ele apertou a palma de sua mão contra a minha, juntando-as. Deslizou os dedos entre os meus, prendendo-os. Ele não pareceu se importar com o suor. Sua mão estava gelada.

— Os nós de seus dedos estão brancos, Zachary. – disse ele, passando os lábios pelo meu queixo por um momento e depois fazendo isso com os meus próprios dedos. – Você ‘tá perturbado. Por isso fugiu de mim daquela forma. Me conta. Eu quero ajudar você.

— Deixe. Eu não estou perturbado, nem um pouco… E sabe, eu tenho que ir pra casa.

— Zee... – Brian pronunciou meu apelido suavemente, sem intenções.

— Tive uma briga com Mike Hranica. – Confessei. E a última coisa que eu queria, era dar a Brian mais uma janela para olhar dentro de mim. – Vai me deixar ir agora?

— Mike Hranica?

Tentei soltar meus dedos, mas ele não deixou.

— O Mike, Straight Edge. Hétero.

- Conta o que aconteceu.

— Ele falou mal do Johnny.

— E?

— Eu falei outras coisas. Aí ele me falou algo como “você é um sozinho no mundo, sua mãe não tem tempo pra você, seu pai morreu e você não tem ninguém”.

Ele apertou ainda mais meus dedos em sua mão e logo depois, selou nossos lábios. Eu não estive esperando por aquilo. Sorri.

— Então eu lhe dei um soco no olho esquerdo, ele levantou e me deu um soco no queixo.

— Vou ter que te ensinar a lutar? – ele disse sorrindo, enquanto selava seus lábios em meu queixo.

— Eu sei lutar.

— Então me dê um soco, quero ver…

— Não sou fã de violência gratuita, Brian.

- Estamos sozinhos.

Os pés de Brian estavam alinhados com os meus.

— Um cara como eu poderia muito bem se aproveitar de um cara como você. É melhor me mostrar que saber se defender.

Dei um passo para trás e o carro de Brian entrou em meu campo visual.

— Vou te dar uma carona.

— Vou a pé.

— Está tarde. Escuro…

Ele estava certo. Gostasse ou não.

Mas por dentro, eu estava envolvido em um feroz cabo de Guerra. Era idiotice pensar em voltar a pé para casa. E além do mais, Brian estava muito bom comigo hoje, não tinha porque não aceitar.

Andamos até o seu carro, ele tirou as chaves do bolso e destravou as portas. Abri a do passageiro e entrei logo depois, Brian fez o mesmo, ligando o carro. Ele olhou pra mim e eu olhei pra ele. Ele sorriu desconfortável e então seguiu as luzes até a saída.

(…)

Brian estacionou o carro na entrada de minha garagem. Abri a porta para descer e ele fez o mesmo, saindo os dois de dentro do carro.

— Obrigado pela carona. – eu disse.

— O que você vai fazer sábado à noite?

— Tenho um encontro com o meu par de sempre.

— Par de sempre?

— Dever de casa.

— Cancele!

Eu estava bem mais relaxado. Ninguém pulara sobre nós no caminho de casa e havia luz em todas as janelas do andar térreo do casarão. Pela primeira vez no dia me senti seguro.

A não ser por Brian ter me encurralado no túnel escuro e, possivelmente, andar me seguindo.

Talvez eu não estivesse tão seguro.

— Não saio com estranhos. – me aproximei dele.

— Sorte sua que eu saio. Pego você as cinco e te ligo antes.

Brian selou nossos lábios e foi em direção ao carro, indo para longe logo depois.