Theres a Hell...
21 Capítulo 20
Uma chuva fria caiu durante todo o sábado, e eu fiquei sentado próximo à janela do meu quarto, observando as grandes poças que a chuva havia deixado no gramado. Eu tinha alguns deveres escolares no colo e uma xícara de café quente nas mãos. Era o que o dia estava pedindo.
Minha mãe havia saído por quase trinta minutos. Nem avisei para ela que iria sair essa noite. Talvez ela não se importasse.
Quando o relógio na minha escrivaninha anunciou 16h30, fiquei satisfeito em deixar tudo de lado e ir para frente do meu espelho me arrumar. Tudo estava em ordem, eu tinha tomado banho a umas horas atrás e dei um jeito no meu cabelo que ainda estava arrumado para trás com gel, como sempre, exceto meu queixo que ainda estava um pouco roxo pelo soco que ganhei de Mike. A unica coisa que eu precisava trocar era minha roupa.
Vesti uma calça jeans escura não muito justa, uma regata branca por baixo de uma camisa xadrez em tons de azul com cinza e branco. Nos pés, calcei um all star preto eu já estava pronto. Ajeitei meus snakebites quando ouvi batidas na porta. Era Brian.
Me olhei outra vez no espelho então desci as escadas correndo. Quando abri a porta da frente, encontrei dois homens com capa de chuva diante da varanda.
– Zachary Baker – disse o detetive Radke. – Novamente nos encontramos.
Levei um momento para pensar. O que ele fazia ali? Achei que a conversa daquele dia estava acabada.
– O que vocês estão fazendo aqui?
– Você se lembra do meu parceiro Mabbitt, certo? Importa-se que a gente lhe faça algumas perguntas?
Ele não parecia estar pedindo permissão. Na verdade, o tom era quase ameaçador e eu não sentia medo.
– O que houve?
– Sua mãe está em casa? – perguntou Radke.
– Não. Vão falar o que aconteceu?
Sem permissão, os dois limparam os pés no tapete e entraram em minha casa.
– Pode nos contar o que houve entre você e Mike Hranica na biblioteca, na noite de quarta? – perguntou Mabbitt, desabando no sofá como se a casa fosse dele.
O detetive Radke continuou de pé, um pouco mais educado.
Precisei de um momento para entender. Biblioteca. Quarta. Mike Hranica.
– Ele ‘tá bem?
Não era segredo nenhum para ninguém que eu não ia com a cara de Mike. Mas isso não significava que eu tinha que guardar rancor dele a todo tempo.
O detetive Radke pôs suas mãos nos quadris.
– O que te faz pensar que ele não está bem?
– Eu não fiz nada com ele.
– Por que os dois estavam brigando? – perguntou Mabbitt. – O segurança da biblioteca disse que o clima entre vocês tinha ficado bem pesado.
– Não foi bem assim. – disfarcei.
– Então nos conte como foi.
– Trocamos insultos.
– Que tipo de insultos?
– Grosserias estúpidas – menti um pouco, quando na verdade trocamos socos estúpidos.
– Preciso ouvir essas grosserias, Zachary.
– Eu chamei ele de bastardo. Ele me chamou de viadinho, desgraçado…
Meu rosto corou e minha voz ficou um pouco engraçada. Os detetives se entreolharam.
– Você o ameaçou, né?
– Não. – menti
– Para onde foi depois da biblioteca?
– Pra casa.
– Você seguiu Mike?
– Não. Vão me dizer o que aconteceu com ele?
– Você tem alguma testemunha disso? – perguntou Mabbitt.
– Meu colega de biologia. Ele me viu na biblioteca e me ofereceu carona.
O detetive Radke aproximou-se de mim e ficou bem à minha frente.
– Fale-me sobre esse colega.
– Que tipo de pergunta é es…
Ele abriu as mãos.
– Sabe, Zachary, vou ser mais específico. Quando eu estava no ensino médio, só oferecia carona para as garotas ou garotos que me interessavam. – ele piscou para mim. – Qual é o tipo de relacionamento com esse colega de biologia?
– Você ‘tá brincando, não?
Um canto da boca de Radke se ergueu e eu queria rir. Parecia que 99% da população de Coldwater era gay ou bissexual.
– Foi o que eu pensei. Você mandou seu namorado espancar Mike Hranica?
– Mike apanhou?!?! – não pude esconder a surpresa em minha voz.
Ele se afastou de mim e parecia furioso. Logo se aproximou de novo, com os olhos penetrantes fixados em mim.
– Você queria mostrar a ele o que acontece com garotos que não ficam de boca calada? Achou que ele merecia apanhar um pouquinho só porque ele é um dos unicos heterossexuais da sua escola? Conheci garotos como Mike quando estudava. Eles pedem por isso, não é? Mike estava pedindo para que isso acontecesse, não é Zachary Baker? Alguém deu uma bela surra nele na noite de quarta, e acho que você sabe mais do que está dizendo.
Eu juro que estava me esforçando muito, muito para não abrir um grande sorriso na frente dos policiais. Mas por outro lado, parecia muita semelhança que eu tivesse me queixado de Mike para Brian na mesma noite em que ele levou uma surra.
– Vamos precisar falar com o seu namorado.
– Ele é apenas meu colega de biologia.
Eu ainda sim segurava a minha felicidade. Eu só não entendia como eles não sabiam das agreções que eu e Hranica trocamos. O segurança poderia me entregar numa boa já que ele viu tudo e viu justamente quando eu ia partir para cima de Mike para um nove golpe.
Me surpreendi também, por eles não terem percebido a possível marca em meu queixo. Melhor assim.
– Vamos precisar do nome e do número de telefone do seu namorado.
(…)
Dez minutos depois dos detetives partirem, a Range Rove preta de Brian estacionou na entrada da minha casa. Brian correu na chuva até a varanda, com medo de estragar o seu cabelo. Estava vestindo um jeans escuro justo, nike preto e branco e uma camisa branca em gola V. Por cima, para proteger-se do frio, colocou uma jaqueta de couro preta.
– Como você ‘tá? – perguntei, depois de abrir a porta.
Ele me deu um sorriso misterioso.
– Bem e você?
– Bem. Soube o que aconteceu com Mike Hranica? – soltei, esperando que ele ficasse tão surpreso quanto eu.
– Não, o que houve?
A resposta veio com naturalidade, e eu decidi que isso queria dizer que ele estava sendo verdadeiro. Infelizmente, Brian não sabe mentir.
– Alguém deu uma surra nele.
– Hm… Sério? – Brian perguntou enquanto me puxava pela cintura e me lotava de beijos pelo rosto.
Achei que ele estivesse tentando desviar a minha atenção.
– Tem ideia de quem poderia fazer uma coisa dessas? – perguntei, enquanto tentava não sorrir pelos beijos.
– Não.
(…)
Brian estacionou o carro atrás do Bo’s Arcade. Quando chegamos na frente da fila, o caixa me olhou apreensivo.
– E aí? – disse Brian, colocando algumas notas no balcão. Logo estavámos lá dentro.
Lá embaixo, a sinuca parecia exatamente como na primeira noite em que eu conheci o salão. Paredes de blocos de concreto pintadas de preto, mesas de sinuca forradas de feltro vermelho, mesas de pôquer espalhadas nas laterais, trilhos de luz baixa atravessando o teto e o cheiro irreconhecível de tabaco poluindo o ar.
Brian escolheu a mesa mais distante da escada, pegou dois copos com doses de Jack Daniel’s e usou a beira da mesa para sustentar as bebidas já que provavelmente, jogaríamos ali.
– Nunca joguei sinuca. – menti. Naquela noite, eu já tinha mentido demais.
– Escolha um taco.
Ele mostrou a prateleira com tacos pregada na parede. Tirei um e voltei para a mesa de sinuca. Brian que estava bebendo o seu uísque, quase o cuspiu de volta apenas para rir de mim.
– O que foi?
– Não tem home run no jogo de sinuca.
– Eu sei. – respondi óbvio.
O sorriso dele aumentou.
– Você ‘tá segurando o taco como se fosse um bastão de baseball, Zee.
Olhei em minhas mãos. Era verdade. Eu tava segurando o taco como um bastão.
– É que você sabe, eu sou ótimo no baseball.
Ele se moveu para trás de mim, deixando o copo de uísque na beirada da mesa. Pôs as mãos nos meus quadris e me colocou diante da mesa. Deslizou os braços à minha volta e segurou o taco.
– Assim. – disse ele conduzindo minha mão direita alguns centímetros para o alto do taco. – E… assim. – ele prosseguiu, pegando minha mão esquerda e formando um círculo com meu polegar e indicador. Em seguida, pousou minha mão esquerda na mesa, como se fosse um tripé. Empurrou a ponta do taco da sinuca pelo círculo, por sobre o nó que meus dedos formavam. – Incline o corpo.
Eu me curvei sobre a mesma, sentindo a respiração de Brian aquecer meu pescoço. Ele deu um puxão para trás, e o taco deslizou por dentro do círculo.
Meus movimentos ainda eram bruscos demais pelo fato de que no baseball, você usa muito de sua força. Brian não parecia se importar.
– Qual é a bola que você quer acertar? – perguntou, referindo-se ao triângulo de bolas arrumado na outra ponta da mesa. – A amarela é uma boa escolha.
– Vermelho é a minha cor preferida. – respondi.
– Então, que seja a vermelha.
E ele sorriu nasalmente. Contra o meu pescoço.
Brian fez o taco deslizar para frente e para trás pelo círculo, mirando na bola, ensaiando a tacada.
Eu não estava dando a minima para aquele jogo. Eu só sentia o corpo de Brian perto do meu, eu gostava daquele contato.
– Você ‘tá um pouco fora de posição, Brian.
Senti que ele sorria.
– Aposta quanto? – perguntei.
– Cinco dólares.
Balancei a cabeça.
– Prefiro sua jaqueta.
– Você quer minha jaqueta?
– Quero você sem ela.
Meu braço foi para frente, e o taco deslizou por entre meus dedos, acertando a bola branca, que por sua vez avançou, atingiu a vermelha e desfez o triangulo. As bolas se separaram em várias direções. Eu havia perdido.
– Tudo bem – disse ele, tirando a jaqueta de couro -, talvez você mereça um agrado.
Examinei Brian sem a jaqueta. Parecia que justamente naquele dia, ele tinha colocado a sua camiseta mais apertada. Seus peitos ficaram definidos sobre o tecido e além disso, o decote em “V”, fazia-o parecer que estava sem nada. Percebi que meus olhos mudaram as cores, minha expressão ficou séria, meu queixo tremeu.
– Bonito – disse eu.
Logo depois, dei a volta na mesa, peguei o meu copo de uísque e dei um grande gole. Brian sentiu-se confuso pelo meu ato.
– Bonito?! – perguntou.
– Uhum. O seu corpo. – respondi, olhando dentro dos olhos de Haner.
Brian deu a volta na mesa, examinando as bolas.
– Cinco dólares que você não consegue encaçapar a azul. – apostei, escolheando-a de propósito. Estava impossível de acertar.
– Não quero seu dinheiro. – disse Brian.
Nossos olhares se encontraram e os dois cantos da sua boca se ergueram em um sorriso malicioso. Minha temperatura subiu mais um grau.
– O que você quer, então? – perguntei.
Brian abaixou o taco até a mesa, ensaiou uma vez a tacada e acertou com força a bola branca. Ela atingiu a verde, bateu na rosa, que em seguida empurrou a azul para dentro da caçapa.
Dei uma risada nervosa e tentei disfarçar passando a língua pelos meus piercings.
– Ok, me impressionou. – foi a unica frase que me veio a cabeça.
Brian ainda estava curvado sobre a mesa e levantou o olhar na minha direção. Aquilo esquentou minha pele.
– Não tinhamos combinado a aposta – disse eu.
O taco estava um tanto quanto escorregadio em minha mão. Discretamente, passei minha mão na coxa.
Como se eu já não estivesse suando o bastante, Brian disse:
– Você fica me devendo. Um dia eu vou cobrar. Isso é uma promessa.
Ri de nervoso.
– Vai sonhando.
– Vai sonhando você, esteja preparado todos os dias de sua vida de agora em diante, Baker.
(…)
Passos ressoaram a escada do outro lado da sala. Um sujeito alto, musculoso, cabeça raspada e coberto de tatuagens apareceu. Olhou primeiro para Brian, então se voltou para mim. Um sorriso maravilhosamente branco apareceu em seu rosto, desviei o olhar para algo mais que chamava a minha atenção: duas covinhas completavam aquela perfeição.
Ele se aproximou, pegou o meu copo de uísque e deu um gole.
– Com licença, acho que… — comecei a falar incomodado.
– Você não contou que ele era tão agradável aos olhos – ele disse para Brian, exugando a boca com a parte de trás da mão.
– Também não contei para ele como você é desagradável –devolveu Brian.
O sujeito se apoiou do meu lado na mesa e estendeu uma mão em minha direção.
– Meu nome éMatt Sanders, mas me chame de Shadows.
Com medo, apertei a mão dele. Shadows?
– Zachary.
– Será que estou interrompendo alguma coisa? – perguntou Shadows, lançando um olhar questionador para nós dois. Seus olhos eram de um verde tão lindo…
– Não – exclamei na mesma hora em que Brian disse “Sim”.
De repente, ele pulou sobre Brian, com ar brincalhão e os dois caíram no chão, rolando e trocando socos. Eu me assustei. Shadows era quase o dobro de Brian, ele iria matá-lo. Comecei a ficar desesperado quando houve som de risadas, punhos batendo contra carne e tecido sendo rasgado. As costas de Brian ficaram nuas diante de meus olhos. Duas cicatrizes espessas as atravessavam. Começavam na altura dos rins e subiam até o começo das costas, unindo-se para formar um grande V de cabeça para baixo. As marcas eram tão assustadoras que quase engasguei de dor.
– Saia de cima de mim! – gritou Shadows. E eu juro que não sabia como Brian, daquele tamanho, tinha tido força para domar Matt.
Fora que ninguém dentro do Bo’s Arcade parecia se importar.
Brian saiu de cima dele e enquanto se levantava, terminava de rasgar sua camiseta com as mãos. Ele a tirou e a jogou em uma lata de lixo próxima.
– Pode me dando sua camisa – ele disse a Matt.
Matt me lançou uma piscada mal-intencionada. Eu não conseguia parar de prestar atenção no corpo de Brian.
– O que você acha, Zacky? Devemos dar minha camisa a Brian?
Brian avançou sobre ele novamente, mas Shadows o parou.
– Calma, vou dar.
Ele tirou apenas seu cardigã preto e jogou para Brian, revelando uma camiseta branca justa, igual a que Brian havia rasgado por baixo. Ele era ainda mais gostoso do que Brian.
Enquanto Haner enfiava o cardigã nos músculos definidos, Matt se voltou para mim.
– Você sabe do apelido do Brian?
– Não… qual?
– Synyster Gates. Um dia, quando erámos jovens, em volta dos 17, estávamos bêbados por aí, num carro com alguns amigos. Então Brian gritou para seu ex “Eu sou o Synyster Gates e estou apavorando”. Ninguém do carro sabe porque ele disse isso, mas é o apelidinho secreto dele, não se sinta perdido se um dia ele olhar para o lado quando o chamarem assim.
Olhei para Brian, que me deu um sorriso. O sorriso era um pouco assustador, mas até que analisando direitinho, havia uma pontada de timidez em seus lábios.
– Vamos sair daqui – disse, me estendendo a mão.
– Pra onde? – me aproximei, com um pouco de receio.
– Você vai ver.
Enquanto subíamos a escada, Matt gritou para mim:
– Boa sorte com esse aí, Zacky.
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