Era noite. Pensei em um lugar imeadiato para ficar. Acabei chegando a conclusão que o Bo's Arcade era a melhor saída. De forma ou outra, Brian iria saber onde eu estava. Só queria ter certeza de que tudo aquilo acabaria rápido. Queria saber logo que Rev não ia me atormentar mais. Mas eu tinha que continuar alerta.

(...)

Estacionei o carro ao lado do Bo's. O estacionamento estava bastante lotado, vários carros de vários modelos ocupavam todo o espaço. Lutei até encontrar uma vaga. Assim que parei o carro, desci do mesmo, dando a volta e encostando meu corpo na traseira. Nas minhas mãos eu tinha um maço de Marlboro Red e o Black Berry de Brian, os dois achados no console do carro.

Abri a caixa de cigarros e peguei um deles junto ao isqueiro que tinha dentro do mesmo. Eu não costumava fumar, mas aquele momento era bastante propício. Coloquei o cilindro entre meus lábios e acendi o isqueiro, queimando a ponta do mesmo. Dei algumas tragadas rápidas até ver a fumaça saindo. Assim que vi o cigarro queimando, guardei o isqueiro no bolso. Chupei o "canudo", sem respirar. Aos poucos, tirei o objeto dos lábios com os dedos e entreabri os lábios, soprando com força e vendo a fumaça se misturar a brisa. Repeti o mesmo ato várias vezes até o primeiro cigarro acabar.

Toda aquela noite parecia um pesadelo sinistro no qual eu me perdera e não conseguia encontrar saída. Olhei minha marca de nascença centenas de vezes enquanto fumava, e me arrepiei só em pensar na possibilidade de ser descendente de um nefilim.

Tirei o telefone do bolso para discar o número de Johnny, quando um copo plástico com uísque e gelo materializou-se em minha frente.

— Sede? — perguntou um voz que vinha de trás. A voz era calma e não estava feliz. — Entre no carro. — disse Brian.

Não me mexi nem um pouco.

— 'Tá surdo, Zachary? Ou quer que eu te arraste? Precisamos conversar! — e deu um grande gole no líquido em suas mãos.

— Conversar sobre o que, Brian? Sobre como você precisa me sacrificar para conseguir um corpo e ser humano?

— Seria bem infantil se você acreditasse depois de...

— Mas quem disse que eu não acredito?!

Um movimento estranho começou a se estabelecer no estacionamento, bem onde estávamos. As pessoas passavam por nós e ficavam nos olhando enquanto discutíamos.

— Cuidado, Brian... — disse um cara loiro, alto e magro passando por nós, pegando o copo plástico de suas mãos, bebendo o líquido, olhando-o de cima a baixo.

Virei-me para ele, olhando-o bem dentro dos olhos. Verde no verde.

— Varkatzas! — Brian sorriu para ele acenando com a cabeça, um pouco tímido pela minha reação.

— Ok, ok! Se precisar de alguma coisa, já sabe para quem ligar, certo?

E deu as costas, deixando-nos sozinhos outra vez.

— Entre no carro, ou eu vou te arrastar. Agora é sério, Baker.

Olhei furiosamente dentro de seus olhos, virando-me e indo em direção ao lado do passageiro. Abri a porta e entrei, batendo-a com toda força depois. O carro até chacoalhou.

Tempo depois Brian entrou também, trancando as portas, curvando o seu corpo para o meu. Os olhos dele se voltaram interamente para mim.

— Qual é o seu problema? — perguntei. — Queria que eu fosse para um lugar super longe só para você me matar sem ninguém saber? Se enganou.

Brian ficou completamente em silêncio, apenas me observando.

— Eu sei que você precisa me sacrificar para se tornar humano...

Ele continuou quieto.

— Porra, Brian...

— Você acha que eu levaria isso adiante? Precisa ser um sacrifício intencional, só matar você não adianta. Sou a única pessoa que sabe o resultado final dessa "aventura". — E fez aspas com os dedos. — Foi por isso que fui para a escola. Precisava me aproximar de você. Eu precisava de você. Foi por essa razão que entrei na sua vida.

— Você caiu por uma garota, não foi por mim.

Eu queria desesperadamente que Brian desse algum sinal de seus pensamentos, mas ele nem se mexia direito.

— Ela envelheceu... e morreu.

Como se eu me importasse.

— Deve ter sido duro, nã...

— Você quer que eu seja franco? Então eu serei. Não vou te poupar de minhas verdades mais, Zachary. Se você acha que saber de tudo vai melhorar, vou falar. Mas você vai ter que perguntar. Você pode ver quem eu fui, e quem eu sou agora. Não sou um cara doce, não sou nada bom — disse ele, penentrando os olhos em um ponto estratégico de meu rosto que jurei ser minha boca. -, mas com toda certeza, eu já fui muito pior!

— Pode contar!

— Na primeira vez que vi a garota, eu ainda era um anjo. Fui tomado imediatamente pelo desejo de possuí-la e nada mais. Aquilo me deixou insano. Eu nem sabia nada sobre ela, a não ser que faria qualquer coisa para me aproximar e obter o que eu queria. Observei-a por um bom tempo e então pus na cabeça que deveria descer à Terra e possuir um corpo humano, mas se eu o fizesse, eu seria expulso do céu e me tornaria humano, de todo jeito. O problema é que eu nem sabia nada sobre o Cheshvan. Desci em uma noite de Agosto, mas não consegui possuir o corpo. Ao voltar para o céu, fui detido por uma hoste de anjos vingadores apenas pela minha intenção, então eles arrancaram minhas asas. Imediatamente soube que havia algo errado. Quando olhava para os humanos, de ambos os sexos, eu sentia um desejo insaciável de estar dentro de seus corpos. Perdi todos os poderes, era uma criatura fraca e patética. Nunca fui humano, apenas um decaído. Percebi que havia desistido de tudo, sem mais nem menos. Durante todo esse tempo, odiei-me por certas coisas. Pensei que tivesse desistido de tudo por nada. — Seus olhos se concentraram estranhamente nos meus. Encarei aquilo normalmente. — Mas se eu não tivesse caído, eu não tinha conhecido você.

As informações corriam com tanta pressa dentro de meu peito e cabeça, que pensei que ambos me sufocariam.

— Rev disse que essa minha marca indica que eu sou parente de Dakota, é verdade? Só quero saber de que lado da família.

— Paterno!

— Onde Dakota 'tá agora?

Brian ignorou minha pergunta, aproximando ainda mais nossos corpos que ficaram separados apenas pelo console do carro. Sua mão foi até minha coxa e deslizou por ela enquando eu tentava me manter firme. Tossi algumas vezes mostrando o incômodo, mas não era satisfatório para Brian.

— Eu não vou te matar, Zacky. Não mato pessoas que são importantes para mim. — e apertou minha coxa ao terminar de dizer. Meu corpo se acendeu. — Você é a pessoa que mais me importa agora.

Meu peito deu um salto. Minhas mãos estavam imóveis. Eu tentava, pela primeira vez, manter uma barreira inútil entre nós.

— Você 'tá me constrangendo. — disse eu, esgueirando-me para o lado.

— Constrangimento? Essa era a última palavra que sairia da sua boca se estivéssemos em uma cama agora, não é?

Passei minhas mãos pelos meus cabelos com força e rapidez.

— Você me irrita.

Eu precisava de limites. Precisava de força de vontade. Precisava ser enjaulado. Por mais uma vez, demonstrei que não posso confiar em mim mesmo quando Brian está ao meu lado.

Eu não queria pensar em apenas uma parte. A parte sentimental, emocional. Eu ainda não sabia ao certo o que eu sentia por Brian. Por enquanto, sua presença me agradava e só. Também era inútil resistir por muito tempo.

— 'Tá escondendo alguma coisa importante de mim? — perguntei.

— Escondo coisas importantes de você sempre.

— Como o quê?

— A forma como me sinto ao ficar trancado aqui com você.

Brian inclinou o corpo no meu de novo. A mão puxou minha coxa para perto dele, deixando nossos rostos bem próximos. Sorri em frustração, um pouco nervoso. Sua outra mão passou pela lateral de meu pescoço, escrevendo alguma coisa com o indicador, da qual só captei a inicial "F". Levantei meus olhos para os dele, enquanto ele pairava os seus em minha boca. Parecia que eu ia entrar em combustão.

— Você não tem noção do que faz comigo.

Ponderei. Fechei os olhos, respirando fundo. Procurei relaxar, mesmo que a distância entre nós fosse muito, muito perigosa. Não tive tempo para muita coisa, apenas senti os lábios finos pressionando os meus em um simples beijo. Nada de malícia, nada de língua. Nada de desejo.

Eu amo a sua boca, ouvi-o em minha cabeça.

Sorri, separando-me do beijo.

— Não acho que isso esteja certo. — tentei soar sério, mas um sorriso ainda brincava em meus lábios.

O proibido sempre parecia melhor. Estando certo ou errado. Era o melhor escape.

— Existem vários níveis de certo. — murmurou ele, sorrindo. Era lindo ver as marcas de expressão que seu rosto tomava quando ele ria. Me sentia sortudo por observá-lo de perto.

Levei uma de minhas mãos até minha boca, escondendo meu próprio sorriso ao ver o dele. As pontas de meus dedos tamborilavam em meus lábios.

— Absolutamente certo. Geralmente certo. Praticamente certo. Talvez certo. — prosseguiu Brian, ainda sorrindo. Dentro de mim, eu estava com um sorriso de orelha à orelha apenas por vê-lo daquele jeito.

Respirei fundo outra vez. Não era legal quando eu deixava meus sentimentos tomarem conta das razões. Na hora, pensei em abrir o carro e sair andando dali, mas não adiantaria muita coisa. Até porque, Brian provavelmente consegue ver o que tem em minha mente agora...

— É, não acho uma boa ideia. — disse ele, balançando minha cabeça suavemente.

De qualquer jeito, levei minha mão até a trava do carro, puxando-a com força. O carro não abria, a fechadura ao menos se mexia. Tentei com toda força, mas não consegui. Logo senti a presença familiar de Brian em minha cabeça e notei que era um jogo.

Relaxei meu corpo no banco e me permiti rir. Eu era um idiota. Brian contara quase todos os seus segredos e eu continuava fugindo. Que tal fazer um bom papel e ajudá-lo como uma pessoa normal faria a outra, Zachary?, pensei.

— Isso, fique. — Brian disse divertido.

Em segundos, estávamos um rindo do outro.

(...)

Brian achou melhor dirigir até minha casa e dormir comigo essa noite. Rev já teve seu fim e não corríamos mais perigo aparentemente. Minha mãe também não voltou e provavelmente não ia voltar. E eu, obviamente não queria dormir na minha casa sozinho.

Viemos no carro conversando normalmente, como se ele fosse um amigo normal. Brincamos o caminho inteiro e relaxei perante todas as coisas que tinham acontecido. Eu me sentia muito melhor assim, tendo um relacionamento de amizade com Brian.

Ao chegarmos em casa, Brian estacionou o carro na entrada e fomos direto para dentro. Não havia nenhum movimento estranho e minha casa estava impecável. Sem um indício de fogo, nada quebrado. Parecia que nada tinha acontecido. E de fato, não tinha. A única coisa real tinha sido Rev. O cenário, o fogo e todo o resto foram coisas que ele botou em minha cabeça para me deixar com medo. Anjos tinham esse poder e se eu fosse conviver com isso, teria que domá-los.

Tudo estava bem, até Brian começar a falar besteiras em minha cabeça. Tudo bem senti-lo vez ou outra, mas toda hora era falta de privacidade. Ele tinha que entender que ainda era difícil para mim, de todos os jeitos.

— Sai da minha cabeça!

Irritado, empurrei Brian, que me abraçava com força.

— Por que fez isso?

— Por causa de tudo.

Por me fazer ficar louco por ele quando eu sabia que aquilo era errado. Ele era o pior tipo de erro. O pior. Era um erro tão grande que quase parecia certo, e aquilo me deixava completamente fora de controle.

Eu talvez me senti tentado a lhe dar um direito no queixo, se ele não tivesse me pegado pelos ombros e me prendido contra a parede próxima. Quase não havia espaço entre nós, apenas uma camada de ar, mas Brian eliminou o problema colando de uma vez nossos corpos. Ah, paredes! Como eu gosto de vocês.

— Sejamos honestos, Zachary! Você 'tá caído por mim. — O olhar dele era problemático. — E eu estou caído por você. — Ele se abaixou e encostou a boca na minha. Aliás, não só a boca, ele encostou muitas outras partes em mim. Diversos pontos estratégicos de nossos corpos estavam juntos, e precisei de muita, mais muita força de vontade para me afastar.

Empurrei-o de novo, recuando.

— Ainda não acabei. O que aconteceu com Rev?

— Tudo resolvido! — E piscou para mim.

— Sejamos honestos, Brian?!

Ele riu.

— Ele não ficaria mesmo com as asas, depois de tramar sua morte. Assim que ele voltasse ao céu, os anjos vingadores as arrancariam. Aconteceria mais cedo ou mais tarde. Só apressei tudo.

— Você arrancou as asas dele?

— Estavam se deteriorando. As penas estavam quebradas e feias. Se ficasse por mais tempo na Terra, ficaria evidente certas coisas. Se eu não o fizesse, algum outro anjo caído que pudesse ler a mente dele o faria.

Ele avançou contra mim de novo, e eu o driblei.

— Ele vai aparecer do nada na minha vida outra vez?

— Não sei dizer...

Mais rápido que um raio, Brian agarrou a ponta de meu cardigã preto. Arrastou-me para junto de si, outra vez. Os nós de seus dedos esbarraram perto de meu umbigo. Calor e frio me atravessavam juntos.

— Você pode vencê-lo, Zacky. Você não precisa de minha ajuda.

— E quem disse que eu quero...?

Ele riu, riu alto que até pendeu a cabeça para trás. Não de forma abrupta, mas com um desejo contido. Os olhos tinham perdido a agressividade e tinham se concentrado em mim. O sorriso era astuto, e as marcas de expressão me convidavam como uma presa convidava uma raposa... porém mais suave. Algo dentro de mim subiu e desceu.

— Temos assuntos pendentes. — disse ele. — Muitos.

Meu corpo parecia ter descartado a parte lógica do meu cérebro. Asfixiado, para ser mais exato. Deslizei minhas mãos pelo peito dele e enlacei seu pescoço. Brian ergueu meus quadris com força, e eu envolvi as pernas em volta de sua cintura. Meu peito pulava, a lã do cardigã pinicava, mas eu ao menos conseguia me importar. Apertei minha boca contra a dele, desfrutando do êxtase de tê-la em fusão com a minha. Fora as mãos dele em mim... quase queimavam minha pele.

Brian começou em passos lentos andar até as escadas. Parecia que estava carregando uma pena, quando eu poderia ser comparado mais a uma baleia. Nenhum gemido de cansaço saiu de seus lábios, nenhum movimento de contração de músculos. Ele subia os degraus em direção ao meu quarto como se eu fosse a coisa mais leve do mundo.

Beijei-lhe os lábios outra vez. Beijar Brian fazia evaporar toda e qualquer preocupação.

Ao chegar em meu quarto, ele deitou-me em minha cama de solteiro, deixando-me sozinho por poucos segundos até fechar a porta. Depois disso, não vi mais nada. Estava ligado demais em Brian para fazer parte de qualquer outro detalhe.