- Você acha que Kevin assassinou alguém?

— Cala essa boca, seu porra. – chiei para Johnny, observando as fileiras de mesa do laboratório para ter certeza de que ninguém ouvisse.

— Sem querer te ofender, mas isso ‘tá começando a ficar ridículo. Primeiro, ele me agrediu. Agora, ele é um assassino. Pelo amor de Deus, Zachary. Kevin? Assassino? Ele é um dos caras mais legais que eu conheço. Quando foi a ultima vez que ele se esqueceu de abrir a porta pra você passar? Hm… Isso mesmo… Nunca!

Johnny e eu estávamos na aula de biologia fazendo uma atividade para nota. Normalmente eu estaria fazendo essa atividade com Brian, mas o professor nos deu um dia livre e eu me senti muito melhor fazendo aquilo com meu melhor amigo.

Johnny e eu estávamos no fundo da sala. Brian estava ocupado com Mike Hranica. Sim. O homofóbico da escola.

— Ele prestou depoimento como suspeito em uma investigação de assassinato. – sussurrei, sentindo que os olhos do professor se desviaram para nós. Rabisquei algumas coisas na ficha. – Obviamente, a polícia achou que ele tinha motivos e meios para fazer isso.

- Você tem certeza de que é o mesmo Kevin?

— Quantos Kevin Skaffs poderiam estar matriculados em Kinghorn?

— É que parece difícil de acreditar, de qualquer maneira. Mas, qual é o problema dele ter sido interrogado? O importante é que ele foi descartado. Não acharam que ele era o culpado.

— Por que a polícia encontraria com ele um bilhete suicida escrito por Hendrick?

— E quem é Hendrick?

— Amanda Hendrick, – eu disse com impaciência. – a garota que supostamente teria se enforcado.

— Talvez ela mesmo fez isso. E se um belo dia ela acordou dizendo “Poxa, minha vida é uma porra” e resolveu se amarrar na árvore? Isso acontece.

— Acontece na sua mente. Coincidência demais que o apartamento tivesse sinais de arrombamento quando o bilhete foi encontrado.

— Ela morava em Portland. Arrombamentos lá são normais.

- Acho que alguém colocou o bilhete lá. Alguém que queria livrar Kevin.

— Olha aqui Zachary, você não é nenhum detetive e muito menos Sherlock Holmes. Kevin não te fez nada, por que tá implicando tanto? – Johnny olhou-me nos olhos.

— Ele só precisa se preocupar se for culpado. – disse baixo.

— Ok, Kevin pode ser o autor da agressão se isso te ajuda. – disse Johnny tentando me satisfazer. – Mas ainda existem muitos fatos para analisar.

— Para começar, esteve envolvido em uma investigação de assassinato. E depois, ele é bonzinho demais. Chega a assustar. E, em terceiro lugar é amigo de Jacoby.

Johnny se irritou.

— Coby? Qual o problema com o Jacoby, Zachary?

- Você não acha estranho demais, quando o Jacoby desaparece, sempre que estamos juntos?

— E daí?

— Na noite em que fomos pro Delphic, ele sumiu e apareceu. Saí pra comer e ele havia sumido de novo…

— Ele estava com problemas.

Ignorei.

— Então, na noite passada ele estava misteriosamente doente. Ele parece ficar doente com muita frequência.

— Acho que você ‘tá exagerando.

— Acho que você ‘tá se fazendo de cego. – cortei-o.

Descartei a sugestão de Johnny e fiquei tentando achar uma explicação que estava logo ali, mas eu não a enxergava. Kinghorn Prep ficava à uma hora de distância indo de carro. Se a escola era tão chata quanto Kevin alegava, como Jacoby tinha tanto tempo pra dirigir até Coldwater e fazer visitas? Eu o via quase todas as manhãs na Starbucks com Kevin. Além disso, ele dava carona pra Kevin depois da aula. Era quase como se Kevin tivesse Jacoby na palma das mãos.

E depois de um tempo, eu subitamente sabia o que estava faltando. Aquilo estava me incomodando o dia inteiro, gritava no fundo da minha mente, mas eu envolvido demais com tudo o que aconteceu não parei para prestar atenção. O detetive Radke me perguntara se eu havia dado falta de alguma coisa. Só agora eu percebia que algo tinha desaparecido. Eu tinha deixado o arquivo sobre Kevin em cima da cômoda na noite anterior. Mas naquela manhã – consultei a memória para ter certeza – não ‘tava mais lá. Sumiu.

— Porra! — exclamei. – Kevin entrou na minha casa e roubou o artigo.

Como o artigo estava bem à vista, óbvio que Kevin revirou meu quarto pra me aterrorizar, possivelmente para me punir por ter encontrado a tal matéria.

— Quê?

— Qual o problema? – o professor perguntou parando bem ao meu lado. A sala toda se despertou.

— Sim, qual o problema? – repetiu Johnny.

— Nada. – respondi.

— Não faça com que eu me arrependa de ter deixado vocês escolherem seus parceiros – exclamou o professor.

— Não faça com que eu me arrependa por ter vindo à escola hoje. – disse Johnny com doçura.

O professor lançou lhe um olhar de advertência, então pegou minha ficha do laboratório, passando os olhos pela folha completamente em branco.

— Vocês acham que a aula de biologia no laboratório é brincadeira? – disse Johnny sarcasticamente para o restante da sala.

O professor apitou, e todos os olhares da turma se dirigiram para nós.

— Brian? – chamou. – Você se importa de vir pra cá? Parece que nós temos um problema entre parceiros.

- Eu só ‘tava brincando. – disse Johnny rapidamente. – Olhe, vou voltar a fazer a tarefa.

— Você deveria ter pensado nisso há quinze minutos.

— Desculpa, por favor. – pediu ele, piscando os olhos com ar angelical.

O professor enfiou o caderno debaixo do braço bom de Johnny.

— Não.

”Sinto muito!” Foi o que Jo fez com os lábios, olhando pra trás, enquanto caminhava com relutância para a frente da sala.

Um momento depois, Brian sentou-se ao meu lado. Deixou as mãos descansarem entre os joelhos e ficou me encarando.

— O que foi? – perguntei um tanto nervoso.

Brian sorriu.

— Só ‘tava lembrando do beijo. Da noite passada

Senti uma coisa no estômago. Não sei se era uma sensação boa ou vontade de vomitar. Aquelas sensações normais que Brian causava em mim.

- Como foi sua noite? – perguntei com uma voz cuidadosamente casual, em uma tentativa de quebrar o gelo.

- Interessante e a sua?

— Nem tanto.

— O dever de casa foi dureza, né?

Ele ‘tava rindo da minha cara. Como sempre.

— Não peguei no dever.

Seu sorriso era como o de uma raposa.

— Então em quem você pegou?

Fiquei sem palavras por um instante.

— Isso foi uma indireta?

— Só estou curioso pra saber quem é meu concorrente.

— Vai se foder, Brian.

O sorriso dele aumentou.

- Relaxa!

— Você já viu que o professor tirou o Jo daqui, né? Então me faça um favor, vamos nos concentrar na aula.

— Não posso, não tenho coração.

Disse a mim, mesmo que literalmente, ele não queria ter me dito aquilo.

Deitei-me na cama do laboratório e coloquei minhas mãos sobre a barriga.

— Avise-me quando os minutos passarem.

Cerrei os olhos para não observar os olhos negros de Brian me examinando. Minutos depois, abri ligeiramente um dos olhos.

— Acabou… — sussurrou tão baixo que mal pude ouvir.

Levantei o pulso para que ele pudesse verificar minha frequência cardíaca.

Brian pegou minha mão, e uma onda de calor disparou pelo meu braço até terminar com um aperto no estômago. O que fez meu corpo se mexer um pouco.

— A frequência cardíaca do paciente se elevou com o contato. – disse ele.

- Não escreva isso.

Era pra soar indignado. No entanto, parecia que eu estava tentando não sorrir.

— O professor quer que sejamos minuciosos.

— O que você quer? – perguntei.

Os olhos de Brian se fixaram nos meus. Por dentro, ele estava sorrindo, eu sabia.

— Você. – disse tão baixo quanto da outra vez.

E o paciente acaba de desmaiar… Brincadeira.

(…)

Depois das aulas, passei na sala do Sr. Sullivan para nosso encontro marcado. Ao final do dia, Dr. DePoyster sempre deixava a porta aberta, como um convite implícito para que os alunos parassem lá. Todas as vezes que passei por aquele trecho do corredor, nos últimos tempos, a porta do Sr. Sullivan estava fechada. Completamente fechada. Não incomodem, era a mensagem implícita.

— Zacky. – disse ele, abrindo a porta depois que bati – Entre, por favor. Sente-se.

Zacky?

A sala já estava sem caixas e completamente redecorada. Ele trouxera diversas plantas novas. Uma série de gravuras religiosas estavam arrumadas na parede acima da mesa.

— Andei pensando sobre o que você me disse na semana passada – Sr. Sullivan falou. – Cheguei à óbvia conclusão de que nosso relacionamento precisa ser construído sobre bases de confiança e respeito. Não vamos falar sobre seu pai novamente, a não ser que você queira.

— Tudo bem – respondi com alguma preocupação. Sobre o quê então conversaríamos?

— Ouvi algumas notícias decepcionantes. – disse ele. Os lábios crispados em uma linha reta.

Ele se inclinou para frente, descansando os cotovelos sobre a mesa. Estava segurando uma caneta e a rolava entre as palmas.

– Não tenho intenção de me intrometer em sua vida particular, mas eu já falei o que pensava sobre o seu envolvimento com Brian…

Eu não tinha ideia de para onde aquilo se encaminhava.

— Não estudei mais sozinho com ele.

E por a caso era da conta dele?

— Na noite de sábado, Brian lhe deu uma carona para casa na saída do Delphic. E você o convidou para entrar…

— Ok, e daí?

— Parte do meu trabalho como psicólogo da escola é lhe fornecer orientação. – disse ele. – Por favor, prometa que será muito, muito cuidadoso quando Brian estiver por perto. – Ele me encarava como se estivesse esperando que eu prometesse.

— É uma história meio complicada – expliquei. – Eu me perdi da carona do Delphic. Se eu ficasse sem ir com Brian, seria muito pior. Não é como se eu estivesse caçando oportunidades de me aproximar dele.

- Estou feliz em ouvir isso, – respondeu Sr. Sullivan, como se não estivesse completamente convencido da minha inocência. – Agora que encerramos esses assuntos, há algo que gostaria de me dizer?

Eu não ia contar a ele que Kevin tinha entrado na minha casa. Eu não confiava nele. Não sabia dizer por que, mas algo nele me incomodava. E não gostava da forma como ele ficava insinuando que Brian era perigoso, sem me dizer o motivo. Era como se ele tivesse uma intenção com isso.

Levantei minha mochila do chão e abri a porta.

— Se querem que Brian me deixe em paz, o tirem da escola.