Meu dia estava sendo um completo terror. Fui de aula em aula apreensivo por tudo o que tinha acontecido no dia anterior. Eu tinha de ir para a escola por dois motivos: Primeiro foi porque eu faltei quase metade do ano para dormir até mais tarde e segundo, eu precisava passar a matéria para Johnny.

Eu queria vê-lo, mas não seria possível até o final da tarde. Me ligaram do hospital informando o estado de Johnny. Eu estava despreocupado até que me disseram que ele teria que passar por uma cirurgia por conta de um de seus braços ter sido quebrado e o osso estar fora do lugar.

Durante as aulas, parecia que Brian sabia o que eu estava sentindo e também o que tinha acontecido. Ele não tentou se aproximar de mim e muito menos fazer piadinhas. Não sei se ele estava nervoso comigo por eu tê-lo deixado daquela forma no sábado a noite, só sei que ele não ousou se aproximar e eu agradeci Inúmeras vezes por isso, já que o que eu menos precisava naquele momento era alguém me enchendo o saco.

Estranhamente, Brian sumiu na aula de Biologia. Talvez tivesse cabulado para encher o saco de outra pessoa, mas no fundo eu sabia que aquela não era a resposta certa. Engraçado ele se ausentar exatamente na aula em que ele mais me irrita, mas não pude deixar de achar isso melhor.

Eu passei o dia inteiro tentando imaginar quem era a pessoa que tinha feito aquilo com o Johnny. Não entrava na minha cabeça quem era essa pessoa. A única coisa que eu sabia era que essa pessoa também tinha me atacado naquela noite. E eu tinha certeza, não era o Brian. Ele poderia ser irritante e o que fosse, mas ele não teria coragem de fazer isso comigo, mesmo ele não estando na aula naquele momento.

Ao final da aula, o professor Portnoy me abordou enquanto eu saía pela porta.

– Espere aí.

– Fala!

– O sr. Sullivan passou aqui mais cedo e pediu que eu te entregasse isso – disse ele.

Peguei o bilhete.

– Sr. Sullivan?

– É o seu novo psicólogo. Ele está substituindo o dr. DePoyster.

Desdobrei a folha e li o bilhete rabiscado nela.

“Querido Zachary,

Estou substituindo o dr. DePoyster na função de psicólogo na escola. Reparei que você perdeu as últimas consultas e também que não leu a carta que mandei para sua casa. Por favor, venha logo me visitor para que possamos nos conhecer.

Atenciosamente, dr. Sullivan.”

– Ah, valeu – agradeci ao professor e guardei o papel no bolso.

No corredor, me misturei à multidão indo de encontro ao novo psicólogo.

Percorri os corredores que conduziam até a antiga porta do dr. DePoyster. Lógico que havia outra placa agora com o nome do dr. Sullivan.

Bati na porta algumas vezes e ele abriu me encarando de cima à baixo algumas vezes. Me senti um pouco envergonhado e do dr. percebeu, me dando passagem.

– Sente-se, vamos ter uma longa conversa.

Assenti e me sentei em uma cadeira em frente a sua mesa. O novo psicólogo era bem mais velho que o dr. DePoyster, mas não deixava de ser novo. Ele era alto, completamente magro, tinha o cabelo nem tão claro e nem tão escuro. Era de um castanho duvidoso totalmente desfiado. Uma franja cobria uma parte de seu rosto e a parte de trás de seu cabelo era um pouco arrepiado.

Seu rosto era afilado, suas bochechas eram um pouco grandes e os olhos foi o que mais tinha me chamado atenção. Olhos pequenos completamente azuis. Azuis como… Seria muito sem graça dizer que os olhos dele eram azuis como o oceano, mas era exatamente daquela forma. Azuis como o oceano e nada naquela sala me chamava mais atenção do que isso.

– Você quer tomar água, suco, alguma coisa? – perguntou.

– Eu gostava do dr. DePoyster. Cadê ele?

– Ele mudou-se de escola por motivos maiores. Ele precisava ficar perto da sua família e eu precisava ficar perto da minha, trocamos de escolas. Você vai gostar de mim também.

Examinei a pequena sala. Havia mudado drasticamente desde a última vez em que eu estivera ali, algumas semanas antes.

O dr. Jeremy era muito religioso, tudo dele tinha Deus no meio então em sua sala não era diferente. Além das estantes que suportavam livros grandes e acadêmicos, ele tinha um Crucifixo gigante atrás da porta. Fora o crucifixo grande que ele tinha tatuado no peito. A sala do meu antigo psicólogo era um pouco escura e às vezes iluminada apenas por velas.

Agora, o ambiente estava bem mais limpo e cômodo. As estantes permaneceram lá, só os livros foram trocados por livros de capas douradas. Pelo jeito, o dr. Sullivan também era religioso. E muito. Ele tinha um crucifixo tão grande no pescoço como pingente. Havia uma bíblia em cima de sua mesa, com folhas douradas, aberta justamente em Salmos . Toda a sala de dr. Sullivan era decorada com cores douradas e prateadas. A sala agora estava tão clara que me fazia sentir bem mais confortável.

Acabei me distraindo um pouco, deixando os meus olhos pousarem na bíblia a minha frente. Quando Dr. Sullivan percebeu o meu ato e me fez uma pergunta:

– Você acredita em Deus?

– Não. Ou talvez. – desviei o meu olhar, respondendo tudo num sorriso torto.

– Deveria. – disse sério, encarando-me pesadamente.

Eu não entendi a razão daquela palavra ser dirigida à mim. Cada um confia no que quer, cada um tem fé no que sente vontade e o que menos preciso agora é de alguém me dando ordens. Se Deus existisse de verdade, como ele acha, como DePoyster achava, por que levaram meu pai tão cedo? Por que fizeram com que matassem o meu pai enquanto ele comprava um presente para a minha própria mãe? Ok, para tudo há uma verdadeira razão na vida, mas eu não creio que a morte explique muita coisa além de dor. Ninguém consegue enxergar um futuro sem ter a sua família completa nele.

- Não entendi. – retruquei ríspido e seco.

- Um dia, quem sabe… — desviou seu olhar do meu, tomando minha ficha em mãos. – Sua mãe não passa mais tanto tempo com você?

- Desde que meu pai faleceu, não.

- Hm… — resmungou anotando algumas coisas em um espaço na minha ficha.

A conversa rumou outros caminhos, fazendo-me falar tudo o que eu sempre tive vontade e não conseguia. Eu disse que sentia falta de meu pai e atualmente de minha mãe. O dr. me apoiou e me deu alguns conselhos para todos os assuntos que discutimos.

Até que…

- Você se sente solitário?

- Hm, não. Tenho um melhor amigo e uma empregada que cuida de mim.

- Certo. Mas uma empregada não é o mesmo que sua mãe.

Aquela conversa estava me entediando, de fato. Virei-me um pouco e fitei a porta, tentando dizer de algum jeito que eu queria sair dali o mais rápido possível.

- Você tem uma namorada? Alguém com quem conversar e ficar nas situações em que a empregada não se enquadra?

Dr. Sullivan pousou seus braços sobre a mesa, me encarando mais atenciosamente agora.

- Eu não gosto de meninas.

Ele sorriu discretamente.

- Certo. Eu também não. Eu só finjo que gosto.

Foi a minha vez de rir.

- Então você tem um namorado?

- Também não.

Por mais que a conversa estivesse me interessando, eu precisava sair cedo daquela escola e ir ver Johnny de uma vez. Eu não gostava de falar. Muito menos com um psicólogo novo e gay.

- Bom, aqui diz que você está monitorando seu parceiro de biologia, Brian Haner Jr.

Ele ergueu o olhar depois de ler a ficha, querendo aparentemente que eu confirmasse a informação.

- Ele só é meu parceiro. Até agora não tivemos nenhuma reunião.

Ele arrumou o seu corpo na cadeira e voltou a me encarar. Logo depois, começou a arrumar uma pilha de papéis sobre a mesa.

- Vou falar com o diretor para nunca deixar você estudar ou sair com Brian fora da escola. Tudo tem que ser sob supervisão direta de um professor ou responsável.

Senti um calafrio.

- Por quê? O que ele fez? O que ‘tá acontecendo?

- Não posso falar sobre isso.

A única razão que eu podia imaginar para ele não querer que eu ficasse sozinho com Brian era porque ele era perigoso. Ele tinha me dito sobre o seu passado e agora tudo fazia sentido. Ou pelo menos parecia fazer.

- Bom, obrigado por vir. Não vou mais te prender.

O Dr. levantou e andou até a porta, manteve-a aberta enquanto eu me levantava e saia. Ele abriu um sorriso de despedida que mais me pareceu forçado.

(…)

Depois de sair daquela sala, liguei para o hospital. Eles me deram as informações certas e disseram que eu só poderia visitar Johnny depois das sete da noite. Ainda eram quatro da tarde, eu não sei o que faria nesse tempo todo.

Fui até o estacionamento e encontrei o “meu” carro lá. Me joguei dentro dele, na esperança de ir pra casa logo de uma vez.

Refleti um pouco antes de ir pra casa e decidi ir até a biblioteca perder meu tempo lá.

Juntei minhas coisas e dirigi até o local. Logo que cheguei, estacionei o meu carro em uma das vagas mais perto da porta. A biblioteca era bem grande, tinha uns três andares, mais ou menos.

Peguei o elevador no térreo e desci no ultimo andar do prédio. Acenei para a bibliotecária logo que cheguei e me bateu uma preguiça ao ver aqueles livros todos. Eu até estava pensando em fazer algum dever de casa, mas desisti no mesmo momento. Me conformei de alguma forma e fui até o laboratório de mídia usar a internet até que desse o horário e eu ir visitar o Johnny.

Acessei um dos computadores e estava a ponto de mergulhar em alguma tarefa quando uma ideia passou pela minha cabeça. Como eu não tinha pensado nisso antes? Depois de confirmer que ninguém me observava, procurei no Google por “Brian Elwin Haner Jr”. Talvez encontrasse alguma informação que pudesse lancer algo sobre o passado dele. Se ele fosse um garoto normal, teria um blog contando suas aventuras ou qualquer outra merda. Mas foi uma tentativa falha. Só achei algumas coisas sobre Brian Haner pai e soube que ele era um guitarrista muito bom. Talvez Brian filho era igual nas possiveis habilidades. E talvez ele não tinha nada a esconder. Enfim, eu não havia encontrado nada. Nada no Twitter, Facebook, MySpace ou qualquer outra coisa. Era como se ele não existisse.

Parei pra pensar um pouco e notei que perdi um bom tempo fazendo isso. Comecei a fazer buscas sobre assuntos aleatórios no Google quando um nome veio a tela do computador. Kevin Skaff.

Procurar por Brian e não ter informações é uma coisa. Não procurar pro Kevin e seu nome aparecer no site de busca do nada é outra bem diferente. Por curiosidade, cliquei no link.

Kevin estudava em uma escola chamada Kinghorn Prep antes de ser transferido para a minha escola. Onde ele estudava parecia ser bem interessante, então a página que abriu era um jornal virtual, parecia ser um pouco antiga.

ESTUDANTE SUBMETIDO A INTERROGATÓRIO PARA ESCLARECER ASSASSINATO EM KINGHORN PREP.

Fiquei vidrado na tela do computador.

“Foram retiradas as acusações contra o aluno de 16 anos da Kinghorn Preparatory que prestou seu depoimento no inquérito do que ficou conhecido como “O enforcamento de Kinghorn”. Depois que o corpo de Amanda Hendrick, de 18 anos, foi encontrado pendurado emu ma árvore no campus da escola, a polícia colocou sob suspeita o aluno do segundo ano Kevin Skaff, visto com a vítima na noite de sua morte (…)”

Meu cérebro digeriu a informação lentamente. Kevin foi interrogado emu ma investigação de assassinato?

“(…) Amanda trabalhava como garçonete no Blind Joe’s. A polícia confirmou que a garota e Kevin foram vistos caminhando juntos pelo campus tarde da noite no sábado. O corpo de Amanda foi encontrado na manhã de domingo. Kevin foi liberado na segunda-feira, depois de ser encontrado um bilhete suicida no apartamento da vítima.”

– Encontrou alguma informação interessante?

Quase cai da cadeira ao ouvir a voz de Kevin logo atrás de mim. Girei meu corpo na cadeira e vi ele apoiado no batente da porta. Os olhos azuis apertados, a boca sem expressão… Uma sensação gelada havia me invadido, como se fosse um rubor, só que ao contrário.

– Yeah! Terminei meu dever. E você? Nossa, você ‘tá tão sexy hoje. – O ritmo de minhas palavras estava fora de controle e naquele momento percebi que a convivência com Brian havia me afetado duramente.

Kevin se afastou da porta e andou até mim. Virei-me rapidamente para a tela do computador, tateei o mouse e fechei a página rapidamente.

– Mas me diz, babe. O que ‘tá fazendo aqui?

– Só ‘tava passando. Algum problema?

– Nossa, claro que não.

Kevin sorriu e puxou uma outra cadeira, sentando perto de mim. Ele sentou-se nela com o encosto para frente, contra o qual se inclinava para ficar mais perto.

– Quer ajuda em algo?

– Claro que não, eu já terminei mesmo.

– Então deixa eu te pagar um jantar. Nem nos falamos do parque, você sumiu, Zee...

– Poxa, hoje não vai dar. Tenho coisas pra fazer em casa. Minha mãe voltou de viagem hoje, quero ficar com ela.

Me levantei rapidamente antes de outro convite e tentei passar por ele, mas, ele estendeu o seu celular para mim, fazendo-o atingir meu umbigo.

– Avise pra ela que vai estar comigo.

– Sério, ela está à mais de um mês fora. Eu sinto saudades, sabe como é?

– Sei. Sei também que existe uma coisa chamada mentira.

A voz de Kevin tinha tomado um tom que eu nunca tinha ouvido antes. Os olhos azuis estavam frios. A boca emu ma linha fina.

– Eu estou com saudades dela, Kevin. Você pode esperar por outro dia?

Kevin sorriu, mas não era um sorriso simpatico.

– Você nem liga pra isso!

– Ela é minha mãe. – sussurrei tentando parecer indignado com a teimosia de Kevin. Falhei.

Passei por Kevin e saí quase correndo do laboratório, lembrando que se ele vise o historic, veria o artigo.

Quando cheguei ao meio do corredor, ousei olhar para trás. Vi que o Kevin não estava mais lá. Então voltei, reabri a aba do navegador que eu tinha fechado e mandei a matéria para a impressora mais próxima. Assim que tudo terminou, peguei a folha, dobrando-a e guardando de qualquer jeito no meu bolso. Desliguei o computador e logo fui embora.