Voltei aterrorizado para o local onde estávamos antes. Conversei com Kevin e o assegurei de que não precisava mais se preocupar com Brian. Jacoby tinha saído outra vez, o que me pareceu um pouco estranho.

Eu estava ficando com fome e decidi ir procurar o que comer na praça de alimentação. Kevin quis ir comigo, mas preferi que ele ficasse fazendo companhia para Johnny.

Tomei o meu rumo até a praça de alimentação que ficava por acaso perto do Arcanjo. Eu estava imaginando um lanche tão grande e tão recheado que eu parecia descontrolado. O parque estava tão cheio que a cada passo que eu dava, eu esbarrava em alguém. Mas estava com tanta pressa que não costumava pedir desculpas. Quando estava chegando ao meu fast food preferido, esbarrei em uma última pessoa com tanta força que tive que equilibrar meu corpo para não cair, fui obrigado a pedir desculpas.

– Desculpa, foi sem querer – me desculpei, sem nem encarar a pessoa.

Quando decidi voltar ao meu caminho, essa pessoa me segurou forte pelo braço. Pelo toque, eu supostamente já sabia quem era.

– Nossa, já apareceu? Parece difícil resistir à mim, né?

– Pode me deixar em paz? Só ‘tava indo comer – soltei-me de sua mão.

Ele negou com a cabeça e eu sorri meio nervosa.

– Johnny e Kevin ‘tão me esperando, tchau – comecei a andar quando senti suas mãos outra vez.

– Vamos no Arcanjo comigo.

Ergui o pescoço para observar melhor a montanha-russa. Gritos agudos ecoavam enquanto os carros desciam os trilhos com um estrondo.

– Duas pessoas por carro, eu e você.

– Não.

– Se você continuar fugindo de mim, nunca vai saber quem eu sou de verdade.

O comentário foi bastante desafiador, e eu sei que era o que Brian estava imaginando. Ele queria me desafiar mesmo se ele fosse um nada.

– Olha, eu não sei…

– Bom, se você aceitar e conseguir aguentar toda a viagem sem gritar e sem me agarrar, eu peço ao técnico me mudar de lugar.

– Ok, fechado.

Fomos até o fim da fila, uma onda de gritos encheu o ar e então desapareceu lá no alto do céu. Eu não tinha medo, mas… A montanha-russa tinha acabado de ser reformada, e se desse algo errado?

Começamos a conversar sobre o próprio Delphic e sobre outras coisas como escola, namoradas e comida. Eu ainda estava morrendo de fome.

– Sabe, eu vinha muito aqui, nunca tinha te visto.

– Ah, imagino que matou as aulas aqui ano passado em vez de ir pra escola, certo?

Eu estava sendo sarcástico, mas Brian respondeu:

– Se eu te respondesse isso, eu desvendaria todo o meu passado. E prefiro mantê-lo envolto em sombras.

– Por quê?

Ele se aproximou à mim até nossos braços se roçarem lentamente, me deixando arrepiado.

– As coisas que eu tenho a confessar, não são as do tipo que eu conto para um petulante parceiro de Biologia.

O vento gelado me envolveu e, quando inspirei, meus pulmões se encheram de frio. Brian nunca tinha sido grosso comigo, nunca tinha me respondido dessa forma. Confesso que talvez, eu tenha merecido, já que eu sempre o trato dessa maneira.

Brian percebeu como eu tinha reagido a resposta e não falou mais nada. Se afastou e sussurrou um “é a nossa vez”.

Passei pela porta giratória e Brian me seguiu. Ao chegarmos na plataforma de embarque, os únicos carros vazios eram os da frente e os de trás. Brian se dirigiu aos da frente, eu o segui.

A estrutura da montanha-russa não me inspirava muita confiança, reformada ou não. Parecia ter mais de um sério. Era feita de Madeira e passava muito tempo exposta ao clima de Maine.

As pinturas nas laterais eram ainda menos inspiradoras.

O vagão que Brian tinha escolhido era um conjunto de quatro pinturas. A primeira retratava um grupo de demônios chifrudos arrancando as asas de um anjo que gritava. A pintura seguinte mostrava o anjo sem asas pousado sobre uma sepultura, observando crianças brincando a distância. Na terceira, o anjo sem asas estava próximo as crianças, apontando o dedo para um garotinho de olhos verdes. Ele era branco, tinha cabelos levemente loiros e os olhos tão verdes quanto os meus. Na última, o anjo atravessava o corpo do menino como se fosse um fantasma. Os olhos dele estavam negros, não havia mais sorriso, e ele agora tinha chifres como os demônios. O menino estava envolto de monstros, monstros que pareciam algumas tatuagens de Brian.

Desviei o olhar e garanti que era a frieza do ar que estava fazendo minhas pernas tremerem, não a semelhança das tatuagens e do garotinho comigo. Deslizei para dentro do vagão, ao lado de Brian.

– Seu passado não me assustaria – eu disse, apertando o cinto de segurança em meu colo.

Ele me ignorou.

Os carros foram para trás e depois para frente. De uma forma não muito suave, nos afastamos da plataforma, subindo rapidamente. Brian estava perto o bastante de mim, e eu sentia o seu cheiro.

– Você está pálido – disse ele perto do meu ouvido, rapidamente e alto para que eu não o confundisse com o barulho dos trilhos.

Eu estava pálido?!

No alto de uma das Colinas, os carros pararam por um momento. Eu podia ver a quilômetros de distância dali; percebia onde o mato escuro se combinava com os pontos de luz dos subúrbios e gradulamente dava lugar às luzes de Portland. O vento parou por um instante e eu tentei respirar com toda a minha força.

Sem querer, olhei para Brian, ele abriu um sorriso.

– Assustado?

Foi tudo o que ele disse antes do carro cair em queda livre.

Agarrei com força a barra de metal colocada na frente do vagão à medida que senti meu peso pender para frente. Deixei escapar uma risada vacilante.

Nosso carro voava, diabolicamente veloz. Meu cabelo voava junto, por mais que estivesse lotado de gel. Virando para a esquerda e para a direita, avançamos ruidosamente pelos trilhos. Sentia por dentro meus órgãos subirem e descerem dentro de mim. Olhei para baixo, eu estava me divertindo, não era não ruim. Eu ainda não tinha gritado e nem agarrado o Brian.

Foi então que percebi que o cinto estava solto.

Tentei gritar para Brian, mas minha voz foi totalmente engolida pela corrente de ar. Aquela sensação ruim em que você não pode fazer mais nada a não ser fechar os olhos. Eu não fechei. Senti meu estomago gelado e soltei uma das mãos da barra de metal para tentar prender o cinto, o vagão disparou para a esquerda me fazendo bater com o ombro em Brian, ele parecia não estar me vendo. O carro voltou a subir e eu senti sair dos trilhos.

Mergulhamos. As luzes que brilhavam pelo parque me cegaram. Não consegui distinguir a direção dos trilhos no final do mergulho.

Era tarde demais. O carro se jogou para a direita. Senti uma onda de pânico, e então aconteceu. Meu ombro esquerdo bateu com força contra a porta do vagão, que se abriu, fui jogado para fora enquanto o carro avançava pela montanha-russa sem mim. Rolei pelos trilhos e procurei me agarrar em algo, eu ainda não conseguia gritar e eu sentia Brian não me vendo. Minhas mãos não conseguiram se agarrar em nada, então eu mergulhei em um profundo e direto buraco negro. Enquanto eu caía, via imagens de coisas que ainda não tinham acontecido nunca na minha vida, como eu e Brian em um quarto totalmente escuro, sozinhos.

Eu via os desenhos do carrinho em movimentos. Eu via o menino loiro pedindo Socorro. Ele era eu, e o demônio era Brian.

O chão se aproximava, abri a boca de pressa para soltar um berro antes de cair no chão totalmente exausto.

Minha lembrança seguinte é do carro freando ruidosamente na plataforma de desembarque.

– Caralho, que grito foi esse? – disse, sorrindo pra mim.

Totalmente atordoado, observei em volta, não tinha nada de errado. Olhei para baixo e vi o cinto preso.

– Eu ‘tô vivo?

– Claro.

– Pensei que tivesse voado para fora do carro. Pensei que tinha morrido.

– Acho que o objetivo é esse.

Ele soltou os cintos dele e eu soltei os meus. Ele levantou e foi em direção à saída do brinquedo, eu o segui e nem sabia como eu ainda conseguia andar.

– Acho que vamos continuar como parceiros – disse Brian sorrindo debochadamente.

– O Arcanjo… — murmurei olhando para trás, observando a montanha-russa.

– Significa anjo de uma categoria elevada. Quanto mais alto, maior a queda.