Notas iniciais
HAHA, olá de novo e de novo :3
Bom, nada de demais a colocar aqui, não vou prender vocês.
Avisos lá em baixo ;)

Mais um dia amanhecia. Ou assim eu imaginava.

A única coisa que eu via ao abrir meus olhos era verde... E logo depois um teto negro, tão escuro quanto toda a minha existência.

Suspirei – eu fazia muito isso.

Uma leve dormência dominava meu corpo, resultado das minhas noitadas.

Que fique claro aqui que as “noitadas” para filhos de Hades não envolvem álcool e festas absurdas. Bom, pelo menos não para mim.

À noite, quando meus poderes estavam no auge, eu adorava viajar por aí, abusando mais do que demais dos meus poderes e exaurindo meu corpo até chegar ao palácio de meu pai a ponto de desmaiar.

Dessa vez eu tinha certeza que dormira na soleira da porta, seja lá quem fosse que me carregou até minha imensa e gelada cama, eu era grato. Ou nem tanto grato, eu simplesmente agradecia por não estar dolorido hoje.

Virei-me de bruços e me estiquei como um gato. Alguns ossos estalaram, mas nada parecia danificado.

Algumas vezes meu corpo cansava de mim, bom, não de mim, mas dos meus exageros, então eu ficava algumas horas – ou dias – sem mexer o dedão do pé.

Levantei-me e dei duas voltas em torno de Bonelord... Não me culpem por ser devagar ao acordar, tudo bem? Só estava tentando me lembrar o que eu planejava fazer ao me levantar.

Bonelord levantou a cabeça esquelética me olhando – bom, eu acho que ele me olhava -, claramente eu o havia despertado com minha andança confusa.

Para os leigos, Bonelord é meu gato. Meu gato morto.

Não que ele já tenha chegado aqui morto, mas os cães de Perséfone não gostaram muito do meu gato. E agora ele era só uma pilha de ossos que dependiam da energia do Mundo Inferior para se moverem.

Como todas as vidas que cruzavam meu caminho, ele era só mais um na lista das almas que passaram daquela para esta. Pra você a frase pode ser ao contrário, mas tente a organizar no Mundo dos Mortos.

Meio inconscientemente realizei minha higiene matinal, não é porque tudo ao meu redor fede a enxofre e coisas... bem, mortas, que eu deva ser assim também. Não inteiramente.

Saí do banheiro me sentindo um pouco melhor ao sentir o gostoso cheiro de morango da minha pasta de dente do Barney – alguma coisa tinha que compensar todo o negrume do lugar -, escolha, é claro, da minha adorável vovó. Sim, ela mesma. Deméter.

Troquei de roupa. As bermudas negras com ossinhos cruzados de pirata sendo substituídas pelo jeans enegrecido e detonado e a camisa do Dark Link – qual é? Nintendo nunca viciou vocês? — tomou lugar da cinza abarrotada que eu usava para dormir, quando eu me dava ao trabalho de dormir – ou desmaiar, como preferirem.

Sentei-me de qualquer jeito no chão enquanto Bonelord se aconchegava no meu colo, mas eu logo tratei de tirá-lo de lá.

Pode parecer cruel, mas eu quero ver alguém aguentar aqueles ossos pontudos perfurando sua pélvis. Eu não.

O gato então se deitou ao meu lado estalando os ossos da cauda como forma de retaliação.

O fuzilei com o olhar e ele apenas intensificou o barulho.

- Tudo bem, tudo bem. Deita aqui. — O gato pulou em meu colo me fazendo soltar um gemido de dor. — Só não se mexe se não te jogo no quarto de Perséfone.

Sem poder miar, o animal apenas arranhou levemente minha coxa com... bem, com seus ossos.

Liguei meu notebook que parecia movido a manivela.

Não, meu pai não me dava presentes de segunda mão, mas eu posso ter, sem querer, derrubado-o no Rio Lete. E se você está se perguntando se o rio tem poder de apagar a memória de aparelhos eletrônicos eu digo que, sim ele pode. E além de ter devorado grande parte dos meus arquivos e jogos, ele aparentemente engoliu a capacidade do dito cujo de como se funciona.

Esperei mais alguns minutos completamente exasperado. Paciência e filho de Hades nunca serão sinônimos.

Cocei o crânio do bichano morto para segurar a minha vontade de enfiar meus dedos no monitor.

Minutos com gosto de horas depois a área de trabalho me foi apresentada, mais alguns minutos exasperadores depois meu reino secreto foi inicializado, o photoshop.

Surpresos? Preparem os corações então.

Fiz a transferência das imagens da minha linda Kodak professional 3.2 direto pra uma pasta previamente criada e mergulhei no mundo da criação NERD.

Por mais estranho que pareça, minhas alterações pouco faziam com meus modelos – sim, eu tirava fotos de humanos, por mais que eu mantivesse um cauteloso distanciamento de cinco metros de qualquer um deles -, meus retoques sempre se dirigiam ao cenário.

Eu tinha dois motivos para isso.

O primeiro e menos importante era que eu não gostava verdadeiramente daquelas paisagens. Eu tirava fotos daquelas localidades meramente por conta do acaso.

O segundo motivo? Bem, meu modelo era perfeito. Sem ponto nem vírgula.

Se você ainda não adivinhou te dou uma dica: Filho de Poseidon.

Pronto? Todos sintonizados? Ninguém ficou pra trás no raciocínio? Ótimo.

Jackson era um tremendo de um arrasa quarteirão que realizara a façanha de fazer com que eu cultivasse uma queda por sua pessoa por quase seis anos.

Queda não, hoje em dia eu tenho quase um precipício.

E acredite, a cada maldito dia de minha vida amaldiçoada esse abismo se tornava mais profundo, fazendo-me cair cada vez mais fundo num desespero insano de completo remorso.

Não havia um único dia, uma única semana de minha existência – existência porque isso não era uma vida, eu não sou vivo. Ninguém no meu lugar usaria tal palavra -, em que eu não me corroesse em arrependimento.

Pelo quê, você pergunta?

Por ser um covarde, hoje e sempre. Por não ter tido a coragem de encarar meus sentimentos tão claros, mesmo quando eu era tão novo, e ter preferido usar a morte de minha querida irmã como desculpa para me afastar daquele me confundia. Por ser fraco agora e não conseguir me aproximar mais do dono do meu coração.

Inclua também, por ser um mentiroso, mesmo odiando mentiras, por atuar melhor que os filhos do deus do teatro e esconder de todos o que tenho medo de revelar.

Por ser hipócrita o suficiente para declarar que odeio demonstrações de carinho e contato físico quando o que eu mais queria era um abraço de Percy, um beijo seu.

Por ser mau e cruel. Sim, cruel com as pessoas a minha volta por não saber lidar com os vivos porque sou morto.

Sim, eu sou morto. Morto por dentro. Um zumbi, um morto-vivo. Minha casca é capaz de respirar, mas minha alma já dava seus últimos suspiros de vida em mim porque eu estava preso em minha própria tristeza e eu nem mesmo sabia onde ela começava.

Existe um provérbio que ronda meus ouvidos desde quando nasci – o que faz algumas décadas -, “Diga com quem andas e lhe direis quem tu és”.

Se aplicar tal frase a mim você pode ter uma ideia do que sou.

O mundo de morte, tristeza, famílias destruídas e corações partidos. Eu havia incorporado aquilo a mim mesmo. Não é de se espantar que Hazel se mantenha à parte de tudo isso.

Mas minha meia-irmã era mesmo diferente de mim.

Eu havia tomado gosto – uma necessidade – de estar conectado a esse mundo e agora já não havia saída.

Eu não tinha ninguém para compartilhar essa dor ou implantar em mim algo melhor. Hazel tentou, Jason tentou. Todos falharam.

Esse sentimento, essa característica de esponja, não podia ser facilmente apagada, eles não entendiam.

Diziam que eu não tentava, que eu não queria e abriam de mão.

Eu não quero. Mas eu quero.

É diferente saber que precisa, desejar a cura, mas não querer e não saber como aprender.

Eu nunca aprendi a superar. Eu aprendi a passar por cima.

Mesmo que no fim tudo isso só seja um bando de desculpas pra minha própria fraqueza.

Talvez se lá no início eu tivesse agarrado minha chance... Talvez se lá no passado eu tivesse escutado Percy... Talvez se eu tivesse escutado Bianca e não ao ressentimento... Talvez se não tivesse ouvido Minos... Talvez se eu tivesse procurado ser mais forte... Talvez, talvez. Minha existência era uma grande interrogação e eu sentia que quando ela se findasse eu não obteria meu desejado ponto final, apenas reticências.

Fixei meus olhos e meus pensamentos sempre mórbidos na tela do notebook.

Percy sorria na direção da câmera – não que ele soubesse que havia uma câmera ali, eu sempre fui cuidadoso.

Se isso fazia de mim um stalker? Completamente, mas era uma das poucas coisas que me trazia aquele pouco calor que me fora roubado a tanto tempo. Ou talvez eu apenas o tenha entregado de bandeja ao destino. Que seja.

Na imagem editada, a paisagem sem graça das ruas apinhadas de New York estava mais brilhante, mais viva e colorida.

Era algo que me dava orgulho, um jeito de trazer a vida quando eu apenas a tirava.

Selecionei as melhores, sempre as que me mostravam claramente seus olhos. O verde que eu amava profundamente.

Levantei-me num único impulso – para variar, acordando Bonelord que me atacou com os dedos ossudos – e apoiei o notebook na mesa de “trabalho”.

Conectei o cabo da impressora com agilidade.

Tudo já estava configurado a muito tempo e o papel já esperava em seu devido lugar.

O barulho do maquinário inundou o quarto e eu preparei um espaço pequeno na parede do quarto – a da esquerda que era maior e só servia para isso – para colocar minhas novas obras-primas.

Diferente do notebook, a impressora não havia caído no Rio Lete então ela rapidamente deu conta do recado.

Esperei pelo tempo necessário para que a tinta fixasse e eu não estragasse a fotografia – com muita relutância – e assim que o último ponto brilhante de tinta molhada desapareceu eu me apressei para posicionar as fotos em seus lugares.

A parede esquerda do meu quarto era tomada por fotos, a maioria delas de Percy.

Eu me divertia pensando em como o filho do deus do mar reagiria ao ver seu próprio rosto tantas vezes repetido ali.

Mas isso nunca aconteceria.

Percy nunca se submeteria a uma viagem ao Mundo Inferior por mim.

Ele tinha Annabeth e eu... Eu tinha Bonelord, meu gato morto. Servia bem a mim. Um morto.

Eu nunca provaria o amor que Percy podia oferecer. Nunca provaria um milésimo da alegria que Annabeth possuía por ter direcionado a si todos os sentimentos românticos de Percy.

Eu a odiava. Eu a odiava tanto, tanto.

Ela era uma ótima pessoa, eu tinha certeza, sempre cercada de amigos como ela era. Mas eu não conseguia reprimir meu ódio, minha inveja.

Eu queria apenas um pouco da atenção de Percy. Um pouco do amor que o fez se atirar ao Tártaro por ela e recusar minha mão.

Aquele momento, aquela atitude me magoaram mais do que tudo que eu já havia passado. Era a resposta clara que eu receberia caso eu fosse honesto com Percy. Eu não possuía espaço em seu coração, Annabeth sim.

Sentei-me em frente àquela parede e chorei.

Chorei ao encarar seus olhos verdes, tão verdes.

Chorei como eu sempre chorava nesses momentos. Quando eu tinha coisas demais para aguentar dentro de mim. Então esses sentimentos guardados transbordavam por meus olhos em forma de gostas salgadas. Tão salgadas quanto o mar do meu amado.

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Primeiro dia das férias de verão.

Eu apertava minha câmera com força enquanto encarava o pinheiro de Thalia.
Depois de muito titubear eu havia me convencido de aparecer ali.

Eu queria vê-lo. Eu queria guardar mais imagens dele.

Mudei o pé de apoio e deixei meu corpo se inclinar levemente para a direita. Sendo destro eu tinha a tendência de me fixar do lado esquerdo, meu deficit. Dizem que é assim com todo mundo. Bom saber que não é só mais uma esquisitice minha.

Era um dia movimentado no Acampamento Meio-Sangue. A maior parte dos campistas estavam chegando naquele instante.

Encolhi-me o máximo possível na sombra das árvores, mas a hipersensibilidade dos semideuses fazia com que a maioria me notasse ali. Todos passavam direto.

Havia muitos rostos novos e eu não sabia se me sentia melhor ou pior com isso.

Quando um grupo relativamente grande de semideuses desconhecidos passou por mim decidi me infiltrar no meio deles e passar despercebido antes que topasse com quem eu não queria.

Grande erro.

No momento em que coloquei meus pés para longe da sombra das árvores um ofego familiar demais me fez ficar estático.

- Nico! — A voz exclamou alegre.

Alegre? Por me ver?

Quase não contive um pequeno arrepio descer por minha espinha.

Claro que não era por mim. Tinha algum outro motivo.

Ele devia se sentir culpado ainda. Por Bianca. Claro, não era por mim. Nunca seria.

- O-olá. — Murmurei baixo demais.

- Quê?

- OLÁ! — Quase gritei em pânico.

Percy riu.

- Calma aí, Nico. Não precisa ficar com medo, eu não prometo não morder, mas juro que não arranco pedaço.

Senti meu rosto se contorcer numa careta.

Alguns pensamentos impróprios povoando minha mente quase me fizeram corar.

Resmunguei algo incompreensível, mas Percy já não me ouvia, acenava afobadamente para alguém que chegava na base da colina.

Meus olhos automaticamente acompanharam o movimento de seu corpo, seguindo o padrão de ondulação de seus músculos.

Meus dedos se contorceram com vontade de tocá-lo, mas eu já havia me acostumado a apenas desejar. Apenas assistir. Um telespectador, nunca um personagem ativo.

Percy virou-se novamente para mim.

- Viu algo que gostou? — Riu.

Corei, abismado com a ideia de que ele houvesse percebido a razão das minhas atitudes estranhas.

- N-não. Cala a boca. — Retruquei rude.

Percy riu novamente. Suas risadas eram tão boas, cheias de energia.

- Relaxe Nico, você é sempre tão sério.

Dei um sorriso duro à ele. Não, Percy. Eu não sou sério. O quão pouco você realmente me conhece?

- Percy! — Uma voz feminina cumprimentou-o ainda ofegante.

Analisei a figura loira que interrompia nosso diálogo – se é que existia um.

Annabeth. Ela estava tão linda quanto sempre fora. Na verdade, até mais bela.

Meus pensamentos afundaram ao vê-los conversando animadamente e me ignorando.

Eu não era digno de atenção. Eles tinham um ao outro.

Suspirei baixinho e me virei para a escuridão das árvores. Fora um erro vir até ali, afinal.

Antes de realizar meu planejado, porém, captei meu nome em meio a conversa e me virei automaticamente na direção da pessoa que o havia pronunciado.

- É bom te ver, Nico. — Annabeth sorria para mim.

Fui capaz apenas de lhe retribuir com um sorriso mínimo amarelo e um acenar de mão.

Eu não podia odiá-la. Ela não fizera nada a mim.

Apenas roubara o amor da minha vida.

- O mesmo. — Respondi sem emoção.

E o assunto morreu.

Annabeth olhava de mim para Percy como se esperasse que continuássemos o diálogo que ela interrompera, o que não aconteceu já que não havia diálogo algum.

Percy encarava de mim a Annabeth também esperando que alguém se pronunciasse. Eu apenas o encarava, não havia necessidade de desperdiçar meu tempo memorizando os traços perfeitos da namorada de Percy.

- Hnm... — Remexi-me desconfortável. — Vou deixar isso – Levantei a câmera. — No meu chalé. Até... Até depois.

Quase corri até o chalé número treze ainda sentindo o olhar de ambos nas minhas costas.

Adentrei o recinto escuro o encontrando da mesma forma de sempre. Vazio.

Os únicos objetos que adornavam o local eram meu antigo Nintendo DS ainda com um cartucho de Pokémon Diamond plugado nele, uma cartela de cigarros, um isqueiro e algumas camisas, dentre elas, a camisa laranja do acampamento.

Eram coisas que eu não tive coragem de voltar para buscar.

Ver Annabeth e Percy todos os dias me deixava mal, então eu me distanciei. Por quase quatro anos eu não pisei no acampamento. Tudo que estava ali, permaneceu ali e eu fiz questão de repor meus pertences depois, nada, a não ser o videogame, tinha real valor – o Nintendo realmente quase me fez voltar, mas depois acabei adquirindo o 2DS, e depois o 3DS e o 3DS XL, de modo que não senti falta por muito tempo.

Encarei a cartela de cigarros. Fora da validade. Joguei-a no lixo e tirei uma nova do bolso da calça.

Tirei uma unidade e testei o isqueiro. Funcionava.

Coloquei o novo ao lado do antigo e me deixei cair na cama.

Entre alguns poucos tragos ia deixando minha mente se esvaziar. Eu não queria pensar, se eu refletisse demais acabaria dando meia volta pro Mundo Inferior. Ou pra Itália. Ou pro Alasca. Qualquer lugar longe o suficiente daquele garoto e sua namorada feliz. O casal de ouro.

Dei mais alguns tragos até que a unidade ficasse pequena o suficiente para chamuscar meus dedos.

Apaguei-o e o joguei no lixo junto com o maço vencido.

Inspirei o aroma de fumo que havia permanecido no recinto e me deixei divagar sobre preocupações menos dolorosas, como o fato de eu precisar comprar um novo notebook, ou meu desejo de capturar o nado dos pinguins em fuga das focas.

Batidas na minha porta me tiraram de minhas divagações.

Sentei-me apropriadamente na única cama do chalé e dei permissão a quem quer que fosse que entrasse.

Sem surpresa e eu mesmo tempo surpreso, observei Percy atravessar o arco de mármore negro.

- Ei. — Ele cumprimentou. — Meio frio aqui, né? — Questionou um pouco nervoso.

- Na verdade eu não sei. — Comentei. — Não sinto frio. — Acrescentei em resposta ao seu olhar confuso.

- Ah, é mesmo.

E novamente ficamos sem assunto.

Era incrível como eu parecia ser capaz de acabar com o clima de conversa de qualquer um.

- É melhor ficar mais próximo da porta. — Sussurrei.

- Hã?

- Por causa da aura. — Fiz um gesto circular com as mãos. — Sabe, eu usualmente a desativo, mas o pouco que resta é desconfortável para a maioria dos vivos.

- Que aura? — Percy chegou mais perto. — Perto de você? — Agora eles se encontrava exatamente à minha frente.

Franzi a testa.

- Bom, aparentemente você é lerdo demais para notar isso. — Revirei os olhos.

- Eii... — Ele reclamou fingindo estar ofendido.

Segurei a vontade de sorrir.

- Nico. — Ele me chamou mais sério. — Você não deveria se controlar quando quer sorrir.

Deixei que meus olhos se conectassem aos seus.

- É involuntário. — Dei de ombros. — Não há muitas coisas para se rir no Mundo Inferior.

O sorriso simpático de Percy murchou aos poucos.

- Então talvez você devesse considerar a ideia de vir aqui pra cima. Aproveitar a vitamina D, sabe? — Percy sugeriu, mas suas próprias palavras não pareciam ter nenhuma convicção. Ainda assim meu interior se remexeu com a ideia de ele me querer mais perto.

- É algo que você quer? — Não pude evitar a pergunta.

- Claro. Eu poderia te encher o saco mais frequentemente. — Sua mão se encaminhou até meus cabelos, mas antes de alcançar seu destino Percy freou o movimento, sorrindo encabulado.

- Posso considerar. — Ignorei o momento de tensão.

- Então considere. Eu... — Ele pareceu ponderar algo. — Bem, eu estava procurando um novo parceiro de apartamento, sabe? É um apartamento um pouco grande demais no Centro e eu não dou conta da renda sozinho, agora que a Annabeth saiu para morar com a Piper...

Quê? Eu escutei mesmo o que meus ouvidos entenderam?

- … Até porque a situação ficaria estranha, né? Eu morar com minha ex. A Piper ficaria com ciúmes demais...

EX??? EX???

Percy estava nervoso, o que o fazia falar mais e mais.

Mau me dava ao luxo de respirar temendo interromper sua faladeira.

- … As coisas já estavam meio estranhas mesmo antes. E depois a gente recebeu aquele aviso das filhas de Afrodite. Então Piper se declarou e veja só! Annie também sentia o mesmo. Eu fiquei bem surpreso, é verdade, mas acho que é melhor assim. HAHA, quem diria?

Percy parou o falatório para recuperar o fôlego e eu só conseguia o encarar.

Quer dizer... Seria essa a chance? A chance que eu sempre tive?

E ao mesmo tempo que a esperança foi brotada em meu coração eu a esmaguei.

Não era uma chance, não mesmo.

Para começar, o que me impedia de me declarar àquele garoto nunca fora Annabeth.

- Pode ser, Percy, depois eu vejo isso. — Cortei meio grosso. Não foi intencional, mas eu não sei mesmo como ser muito gentil.

- Ah. Tudo bem. — Ele sorriu constrangido. — Eu vou... — Percy parou em meio a fala para... cheirar o ar?

De uma forma engraçada Percy começou a fungar o ar a minha volta, como um verdadeiro cachorro, se aproximando mais e mais até que eu pudesse sentir seu hálito quente bater contra meu rosto.

- Isso é cheiro de cigarro, Nico? — Perguntou meio zangado.

Revirei os olhos para esconder como sua proximidade me afetava.

- É. — Apontei a mesinha de canto onde o maço de cigarro repousava inocentemente.

- Desde quando você fuma? Sabia que isso faz mal? Você pode adquirir um câncer! Aí você morre...

- E daí? — Cortei-o novamente.

- Como? — Perguntou.

- E daí se eu adquirir um câncer e morrer? Só vou passar umas poucas horas a mais no Mundo Inferior. Vendo as mesmas coisas que vejo todos os dias. Nenhuma diferença. — Argumentei grosseiramente.

Percy abriu a boca uma ou duas vezes, mas não parecia saber como rebater meu argumento.

- Também não é como se eu fosse fazer falta a esse mundo. — Continuei. — Ninguém vai perder uma única noite de sono se eu de repente for mantido lá em tempo integral. Se eu não estiver aqui amanhã, ninguém vai questionar. Seja eu morto ou apenas “viajando” — Fiz aspas com os dedos.

Levantei-me passando por Percy que continuava estático me ouvindo.

Tirei mais um cigarro do maço e o acendi, dando uma longa tragada e a despejando na direção do ainda paralisado Percy.

Ao sentir a fumaça bater contra seu rosto Percy reagiu se esquivando um pouco mais para trás. Como todo faziam quando me notavam perto demais.

Lancei-lhe um sorriso sarcástico.

- Alguma novidade? — Perguntei retoricamente.

- Eu não sabia. — Percy disse baixinho.

- Do quê?

- Da profundidade da sua dor. Desculpe, Nico. Eu deveria ter ido atrás de você todas aquelas vezes, mas eu não fui. Eu sou um inútil.

Pisquei confuso algumas vezes.

- Aa, vamos lá, Percy. Eu convivo com tudo isso a muito tempo, não é como se me quebrasse mais. — Menti descaradamente.

- Machuca sim. Eu vejo isso.

Sem poder contradizê-lo eu apenas traguei meu cigarro languidamente.

- A gente se acostuma. Não se preocupe. Faz parte do meu DNA. — Ri sem humor

Percy se moveu para mais perto de mim ignorando o cheiro do cigarro.

Seus braços se estenderam na minha direção por um instante, mas novamente ele pareceu desistir no meio do caminho. Ao invés disso ele apenas tocou meus ombros.

- Eu vou estar aqui durante todo o verão esperando que você me procure. Quando você estiver pronto, me conte. Conte tudo. Todas suas preocupações, eu vou ouvir. E quando o verão acabar eu ainda vou ter esperar. O endereço... — Ele pegou minha palma anotando algo ali com uma caneta vinda do além. — você já sabe.

Sorriu tristemente para mim e partiu.

Deixando-me sozinho naquele lugar com meus pensamentos confusos em polvorosa.

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Música do capítulo: Would it matter – Skillet
Pros manjadores e não manjadores de english:

If I wasn't here tomorrow would anybody care?
(Seu eu não estivesse aqui amanhã alguém se importaria?)
If my time was up I'd wanna know you were happy I was there.
(Se meu tempo acabasse eu queria saber se você era feliz quando eu estava aqui.)

If I wasn't here tomorrow would anyone lose sleep?
(Se eu não estivesse aqui amanhã alguém perderia o sono?)
If I wasn't hard and hollow then maybe you would miss me.
(Se eu não fosse difícil e vazio então talvez você sentisse minha falta.)

I know I'm a mess and I wanna be someone,
(Eu sei que sou uma confusão e eu quero ser alguém,)
Someone that I'd like better
(Alguém que eu gostaria mais)
I can't never forget so don't remind me of it forever
(Eu nunca posso esquecer então não me lembre disso pra sempre)

What if I just pulled myself together?
(E se eu me recompusesse?)
Would it matter at all?
(Isso importaria afinal?)
What if I just tried not to remember?
(E se eu só não tentasse lembrar?)
What it matter at all?
(Isso importaria afinal?)
All the chances that have passed me by,
(Todas as chances que passaram por mim,)
Would it matter if I gave it one more try?
(Importaria se eu desse mais uma chance?)
Would it matter at all?
(Isso importaria afinal?)

If I wasn't here tomorrow would anybody care?
(Se eu não estivesse aqui amanhã alguém se importaria?)
Still stuck inside this sorrow, I got nothing and going nowhere
(Ainda preso dentro dessa tristeza, tenho nada e vou a lugar nenhum)

I know I'm a mess and I wanna be someone,
(Eu sei que sou uma confusão e eu quero ser alguém,)
Someone that I'd like better
(Alguém que eu gostaria mais)
I can't never forget so don't remind me of it forever
(Eu nunca posso esquecer então não me lembre disso pra sempre)

What if I just pulled myself together?
(E se eu me recompusesse?)
Would it matter at all?
(Isso importaria afinal?)
What if I just tried not to remember?
(E se eu não tentasse lembrar?)
What it matter at all?
(Isso importaria afinal?)
All the chances that have passed me by,
(Todas as chances que passaram por mim,)
Would it matter if I gave it one more try?
(Importaria se eu desse mais uma chance?)
Would it matter at all?
(Isso importaria afinal?)

I know I'm a mess and I wanna be someone,
(Eu sei que sou uma confusão e eu quero ser alguém,)
Someone that I'd like better
(Alguém que eu gostaria mais)
Can you help me forget? Don't wanna feel like this forever.
(Você pode me ajudar a esquecer? Não quero me sentir assim pra sempre)
Forever.
(Pra sempre)

What if I just pulled myself together?
(E se eu me recompusesse?)
Would it matter at all?
(Isso importaria afinal?)
What if I just tried not to remember?
(E se eu não tentasse lembrar?)
What it matter at all?
(Isso importaria afinal?)
All the chances that have passed me by,
(Todas as chances que passaram por mim,)
Would it matter if I gave it one more try?
(Importaria se eu desse mais uma chance?)

If I left tomorrow, would anybody care?
(Se eu partisse amanhã, alguém notaria?)
Stuck in this sorrow
(Preso nessa tristeza)
Going nowhere
(Indo a lugar nenhum)
All the chances that have passed me by,
(Todas as chances que passaram por mim,)
Would it matter if I gave it one more try?
(Importaria se eu desse mais uma chance?)
Would it matter at all?
(Isso importaria afinal?)

Link: http://m.youtube.com/watch?v=82hLvgGuDu8

Notas finais
Primeiramente, queria agradecer por lerem até aqui haha. E queria fazer uma pergunta. Sou acostumada a escrever PRA CARAMBA, e percebi que a maior parte dos autores não o fazem ... Fica muito cansativo capítulos desse tamanho?
Segundo, queria avisar aqui que diferentemente das minhas outras fics (quem já leu sabe), aqui não vai ter lemon todo capítulo por que pela primeira vez, hehe, meu personagem principal é virgem :O Então entendam que o Lemon vai demoraaaaaar. E MUITO.
Terceiro, essa fic não tem prazo para postar. Tudo depende da minha alegria, boa vontade, do PC funcionando corretamente e da postagem e não exclusão das fics da galera do PCS ù.ú
Por último, queria deixar claro aqui que apesar de me atentarem para ir pro lado Jasico da força minha veia Pernico fala mais alto. Beijo pro recalque, ADIÓS ;*