Then I'll Be Deathless For This Lifeless
4 Dead Inside - Parte 1
Notas iniciais
Respirei fundo tentando parar a tremedeira nos meus dedos.
Minha palma usualmente pálida como giz, agora se encontrava num tom escarlate brilhante.
Meus cabelos cheiravam a queimado e eu tinha certeza que teria de cortar as pontas chamuscadas
Apoiei meu pé esquerdo com toda a força restante em meu corpo exausto e me icei para cima, o topo da parede de escalada.
Ao chegar na plataforma me deixei cair deitado. Meus membros doíam e minha respiração beirava a um ofegar contínuo de cachorro.
– Parabéns? — Percy me ofereceu uma mão para me levantar, sua congratulação mais parecendo uma pergunta.
Ignorei a mão que me era estendida e continuei deitado tentando acalmar minha pulsação irregular. Claro que não consegui, após perceber que eu não me levantaria, o filho de Poseidon apenas se deitou ao meu lado, seu braço encostado no meu.
Inconscientemente me encolhi para mais longe de seu toque. O calor que eu sentia agora na região, puxando minha concentração para longe.
– Vamos lá, Nico. Já evoluímos mais do que isso, sim? — Percy exclamou meio aborrecido, seu corpo se aproximando do meu novamente.
Encolhi-me um pouco mais, não me afastando dessa vez, apenas me sentindo desconfortável com a proximidade prazerosa.
– Um pouco mais de tempo então. Até você se acostumar. — Percy ditou, fechando os olhos e pelo que parece, não se importando pelos campistas que nos alcançavam rapidamente e riam da cena.
Como se fosse possível me acostumar com aquilo.
Tocar Percy, ou ser tocado no caso, era a mais sublime das sensações. Apenas um leve contato com a barreira de panos levavam um suspiro aos meus lábios, que claro, era rapidamente trancado.
Por Hades, isso soava tão... emotivo, gay, menina, maricas... Eu não conseguia nomear, mas decidi que era melhor deixar tais pensamentos melosos como segredo profundo de minha alma.
Encarei o rosto do semideus ao meu lado com o canto dos olhos.
Percy parecia ressonar levemente, mas eu sabia que um mínimo movimento meu o colocaria em alerta.
Decidi que o melhor era permanecer no estado mumificado em que eu me encontrava.
A proximidade de nossos corpos era uma sensação tão boa que eu sempre queria mais... Ao contrário do que eu demonstrava. Minha vida era um complexo paradoxo, afinal.
Deixei que minhas pálpebras descansassem.
Os campistas aos poucos iam desaparecendo, o que me alertava que eu deveria me mover para a próxima atividade ou estaria encrencado.
O calor de Percy, porém, me levava a um novo patamar. Pelo visto eu era mesmo capaz de me acostumar com seu toque sem temer.
O problema era o nível que esse “costume” estava me levando.
Subitamente isso não era mais o suficiente.
O tecido de minha camisa era irritante. A camisa laranja horrenda dele era ainda mais irritante.
Tudo o que eu queria era me livrar de ambas. Rasgá-las e jogá-las no fogo.
O toque de pele com pele. Era isso que eu queria no momento.
Meu corpo se virou devagar, meu peso apoiado num único lado do corpo, minha mão direita pairando sobre o rosto semi-adormecido de Percy.
Engoli em seco.
Meus dedos tremiam e eu não sabia se era devido ao esforço do exercício anterior ou ao momento de apreensão que eu vivia agora.
Minha mente não raciocinava sobre o fato de o garoto poder se levantar a qualquer instante ou ao menos se questionava se ele estaria mesmo dormindo.
Meu dedo indicador teve a honra de ser o primeiro a tocar.
O toque leve como o de uma pluma. Uma pluma delicada e medrosa que logo se deixava levar pelo vento.
Tão rápido quanto retirara a mão, a retornei pro mesmo local, cutucando muito fracamente sua bochecha.
Observei o rosto adormecido com certo receio. Não haveriam outras chances como essa.
O dedo médio se juntou ao indicador e logo ambos cutucavam o ponto onde a covinha de Percy se pronunciava quando este sorria.
Não satisfeito, logo três dedos cutucavam sua bochecha.
Eu me sentia incrivelmente patético ao fazer isso, mas o calor gostoso na ponta dos meus dedos – muito diferente do calor “queimando sua pele” da parede de lava – me impulsionava a ter mais contato.
Deixei que meus dedos deslizassem para seu nariz. Ele era arrebitado, do tipo que diz logo de cara “Hey, sou metido a galã”, o que era bem verdade.
Dei um leve peteleco na ponta daquele nariz metido e não contive uma risadinha pela minha infantilidade. A risadinha que se tornou uma risada maior ao notar o tom afeminado daquela risadinha, por fim, nem percebi quando meu corpo se sacudia como numa convulsão. A razão? Eu apenas me sentia tão estupidamente feliz.
Quem diria que tudo que eu precisava era realmente contato humano?
Não, não era só isso. Era Percy, claro.
Eu não sabia se eu conseguiria alcançar aquilo que ele esperava de mim, mas apenas estar ali, debruçado sobre seu corpo e rindo de maneira silenciosa, era o suficiente para encher meu peito com uma sensação muito nostálgica.
Durante minha infância eu sempre fora estupidamente alegre e extrovertido. Talvez aquele menino ainda estivesse preso dentro da minha nova personalidade carrancuda.
À medida que os tremores no meu corpo iam se acalmando, tomei a liberdade de deixar que meus dedos esquadrinhassem o rosto de Percy novamente.
Contornei suas maçãs evidentes, a curva das sobrancelhas, a firmeza do queixo, a linha do maxilar... Até que meus dedos curiosos chegaram em seus lábios vermelhos.
Constrangido com meu próprio atrevimento retirei minha mão daquele rosto.
Pouco tempo depois Percy se levantou soltando um bocejo exagerado que eu sabia que era falso.
– Você não estava dormindo, né?
Percy apenas me lançou uma piscadinha e se dirigiu as escadas enquanto eu sentia meu rosto queimar de vergonha.
…
Os dias se passavam e eu começava a me adaptar ao ambiente. Com ênfase no “adaptar”.
Na verdade, por obrigação, eu agora respondia quando me desejavam bom-dia, dizia mais do que respostas monossilábicas quando diretamente perguntado – ou acuado, dependendo do ponto de vista -, ria como um velho tento ataque epilético e muito raramente, vestia cores vivas. Hoje era um desses dias.
Acabava de sair das aulas forçadas de matemática com Annabeth – eu nunca fui à escola, o que causou horror aos filhos de Atena.
Sentia-me desconfortável com a camisa amarela que estava usando. Mesmo que fosse estampada com caricaturas dos Beatles, mesmo assim. Ao me olhar no espelho – o que eu evitava mais do que tudo – só conseguia visualizar um ridículo ovo de galinha cuja a casca quebrara e agora deslizava por aí.
Eu sentia – cada vez mais frequentemente – olhares de campistas em mim. Talvez agora por eu ser proibido de corresponder com minha carranca habitual.
Eu queria tanto me enfiar em uma sombra e evitar tais olhares, porém, obedecendo a tudo que me era humilhantemente imposto eu obtia minhas preciosidades.
Minhas fotos. Já havia o bastante para formar uma piscina de fotografias – seria divertido me afogar com Percys se agarrando em mim... Tenho que parar de soar tão gay – e minhas visitas ao Mundo Inferior se mantinham constantes devido a isso. Não poderia correr o risco de deixar que ninguém as visse. Principalmente o próprio Percy que recentemente adquirira o irritante hábito de invadir meu chalé nas horas menos propícias.
Estalidos altos foram escutados e eu logo soube que Bonelord estava por perto.
Olhando ao redor notei que o monte de ossos se encontrava aninhado no colo de uma filha de Afrodite. O nome, eu nunca me dera ao trabalho de descobrir.
– Ah! Nico! Olha aqui! Parece que seu gatinho gostou de mim. — Riu.
Lancei-lhe um sorriso amarelo. Eu ainda não era assim tão amigável. E também não queria ser.
– Percebi.
– Isso foi uma resposta monossilábica? Ouvi alguém respondendo monossilabicamente?
Suspirei. Aonde quer que eu fosse, Percy parecia estar sempre no meu pé.
– Eu quis dizer, “percebi que ele gosta de você”. Melhor? — Questionei sarcástico.
– Alguém está regredindo.
Minha resposta madura foi um dar de ombros.
A garota – cujo o nome um dia eu ainda me lembrarei – pegou Bonelord no colo, completamente perdida na conversa.
– Estava procurando-o?
– Não. Quer dizer... Sim. Bonelord, está na hora de recarregar.
O gato miou agudo e se livrou dos braços da garota.
– Recarregar?
– Isso foi uma pergunta monossilábica, Percy? — Sorri maldoso.
Com o número de vezes que ele me perguntara aquilo, era bom poder pagar na mesma moeda.
Percy se limitou a suspirar.
– O que quer dizer com “recarregar”?
– Hnm, Bonelord utiliza a energia do Mundo Inferior para se manter... existindo? Bem, ele não pode ficar longe por muito tempo.
– Ah!... Hã? — Recebi como resposta brilhante.
– Se eu não levá-lo ao Mundo Inferior, Bonelord vai se tornar uma linda pilha de ossos, capisce?
– Hnm. Você não poderia... sei lá, usar seus poderes. Não gosto dessa ideia de ir ao Mundo Inferior, cheira a fuga.
Não contive uma risadinha.
– Eu estive indo e vindo do Mundo Inferior todo o verão e você me diz isso agora?
– Você saiu daqui em algum momento? — Percy perguntou chocado.
Revirei os olhos. Três neurônios, claro. Seus surtos de sabedoria me fizeram esquecer da dificuldade de perceber coisas explícitas na sua frente.
– Obviamente. E não foi exatamente escondido, sabe? Era bem óbvio. — Lancei. — Depois de alguns jatares... Ou logo ao acordar. Sério que não notou? — Perguntei, agora um pouco emburrado.
Percy grudara em mim como se fosse um chiclete durante todo o verão, mas nunca notara meus desaparecimentos? A constatação apenas me deprimiu.
Em contrapartida, Percy parecia terrivelmente constrangido.
– Eu fiz de novo não é? Eu não gosto muito de interferir na privacidade dos outros, Nico. Quer dizer, eu sou muito de interferir, mas por ser assim com todo mundo acabo não dando atenção especial para ninguém. — Olhou-me de canto, ainda envergonhado. — E alguns merecem mais do que favoritismo.
Corei levemente, virando meu rosto na direção contrária a sua.
A filha de Afrodite, que até agora eu nem havia notado, encarava nosso interagir, de repente se fez presente através de uma singela risadinha.
– Vocês são tão fofos com esse jeito lerdinho e ingênuo. — Colocou Bonelord no chão e se levantou para sair. — É bom que sejam um pouco mais honestos com seus sentimentos. Você esconde muitas coisas, Nico. E você, Jackson... Você é muito lerdo para o que está praticamente entregue a você numa bandeja de ouro. — A garota então se virou e foi embora na direção de seu chalé, deixando um Percy curioso ao meu lado e a mim, terrivelmente encabulado.
Apenas me movi quando tive certeza que meu coração não mais trairia meu estado de nervosismo. Se Percy agora não desconfiava de meus sentimentos... Então ele nunca desconfiaria.
Peguei Bonelord no colo e me preparei para correr até meu chalé, mas como sempre – parecia que meu dom especial de fugas estava desaparecendo – fui interrompido por alguém. E esse alguém, — dãn – era Percy.
– Eu vou com você.
Só isso. Uma simples afirmação. Sem nenhuma sombra de dúvida em seu semblante.
Minha resposta foi igualmente pragmática.
– Não.
Percy deu um sorriso de lado. Um sorriso que ativou um alarme de “alerta, chantageador à frente”. Aquele sorriso que eu conhecia tão bem, afinal, era o meu sorriso.
– Você vai me levar. Ou vamos começar uma DR aqui, sobre o que diabos aquela garota estava falando. Eu não entendi direito, aliás, não sei se quero realmente entender, mas sei que o assunto te incomodará o suficiente para preferir morrer do que abrir a boca de novo.
Gaguejei algumas vezes, mas por fim não achei resposta para lhe dar. Sua constatação era verdadeira, e eu realmente não queria dar mais margem para o que ele viesse a pensar.
Sua declaração, por outro lado, me encheu de desespero. É claro que ele não iria querer saber.
Eu era o erro que Percy tentava concertar em sua vida. Um novo amigo, um que ele tinha esperanças de tornar próximo o suficiente para ser um de seus mais preciosos.
Eu queria ser precioso para Percy, mas não daquela forma. Doeria mais do que qualquer outra coisa. Estar perto e ao mesmo tempo longe.
Eu estive assim toda a minha vida, eu queria mudanças, mesmo que no fundo eu soubesse que era covarde demais para tomar qualquer iniciativa.
– Ir no Mundo Inferior é muito perigoso para você. Eu não posso garantir que meu pai não vai lhe pulverizar.
– Ele não vai. Eu estou com você, não é? — Sorriu. — Eu confio em você.
Novamente aquele sorriso confiante e as palavras que sempre tinham o efeito de me dar estúpidas esperanças.
Cada vez mais se tornava difícil queimar as raízes que se instalavam no meu peito. Elas se fincavam cada vez mais fundo e eu podia sentir que o dia em que elas se prenderiam por completo dentro de mim não estava longe.
Quando isso ocorresse, a dor de deixá-lo seria o suficiente para me partir em dois, eu tinha plena certeza disso.
E mesmo assim, mesmo sabendo do futuro que me era reservado eu não me afastava.
– Não é uma decisão sábia. — Retruquei e me virei, me encaminhando para o meu chalé com Percy em meu encalço.
Ele não respondera nada, mas eu podia ouvir seus resmungos baixos à distância de onde estava. Claro que ele nem mesmo suspeitava de nada. Ele não estaria ao meu lado se suspeitasse. Talvez ele apenas tenha jogado verde. Talvez.
– Espere aqui. — Mandei, já abrindo a porta do chalé e a fechando na sua cara. Eu tinha que levar algumas coisas... E nem sonhando poderia deixar que ele visse o que eram. Ou que entrasse no meu quarto.
Pelos deuses! Meu quarto. Eu teria que deixar Percy sozinho no palácio. Ele iria definitivamente morrer.
Tentei controlar o nervosismo.
Era inverno, Perséfone estava trancafiada no Mundo Inferior e por mais que eu não confiasse na minha adorável madrasta, isso significava que Deméter estava com ela, e na adorável vovó que me presenteava com ursinhos do Barney eu confiava.
Percy não morreria. Bem, talvez ele sufocasse com alguns cereais, mas esse seria o pagamento por toda a humilhação que ele me fizera passar durante o mês.
Arrumei as novas fotografias cuidadosamente em uma mochila junto com meu notebook – era sua última viagem, meu novo pacote deve ter chegado um dia antes pelo expresso especial de Hermes.
Bonelord soltou um miado sofrido e se enrolou como uma bola na minha cama. Ele não aguentaria muito mais.
Aninhei o pequeno monte de ossos nos meus braços e saí apressadamente do chalé.
Ao chegar do lado de fora não avistei Percy em lugar algum.
Franzi o cenho. Não fora ele que pedira para que viesse comigo?
Alívio me inundou. Não havia nada a temer agora, não é? Então por que eu me sentia terrivelmente abandonado?
Suspirei – como eu bem fazia a alguns anos, sempre deprimido.
Caminhei um pouco apressado até o pinheiro de Thalia, atravessando a barreira do Acampamento.
Alguns passos além da proteção eu percebi a figura morena encostada numa das árvores da floresta além dos limites da barreira.
– Pensei que havia desistido. — Reclamei.
– Não te daria esse gostinho de vitória. — Sorriu pretensioso.
Revirei os olhos.
– Me agarre.
Percy arregalou os olhos.
– Quê?
O encarei duvidoso. Ele estava com medo de viajar pelas sombras...?
– Se segure em mim.
– Ah... Ah, ok. — Suspirou aliviado.
Continuei lhe encarando com dúvida.
– Se está com medo eu vou sozinho com prazer.
– Não. Não é nada disso. Vamos logo. — Murmurou rapidamente, agarrando a alça da minha mochila.
– Okay, okay.
Tentei me concentrar apenas nas sombras e esquecer o calor interessante na base do meu quadril.
As sombras demoraram um tempo além do normal para se desprenderem do chão e virem a mim, tudo culpa de Percy e sua presença perturbadora.
Pai, o que diria de mim se me visse fangirling desse jeito?
Mergulhamos na escuridão completa.
Parte de mim se sentia reconfortado com o silêncio e o frio, uma certa nostalgia pelo local que me acolhera por tantos anos.
A outra parte sentia falta do sol e das risadas, o lugar que me lembraria para sempre de Percy.
As sombras nos cuspiram em frente ao grande palácio do Rei do Submundo.
– Seja bem-vindo... Creio eu...
Percy engoliu em seco e eu pude imaginar porquê.
Ele não fora exatamente bem recebido no lugar em nenhuma das vezes em que estivera aqui.
– Você é convidado dessa vez, vamos.
Puxei-o em direção às portas escuras.
Dois guardas esqueletos, um em cada lado das portas, nos recepcionaram, apontando suas lanças ameaçadoramente para Percy.
– Esse vivo é meu convidado hoje.
Ambos abaixaram as armas e nos deixaram passar.
Dentro de minha casa. Finalmente.
O lugar, por mais sombrio e fantasmagórico que parecesse a olhos vivos, me trazia uma gostosa sensação de proteção e abrigo, como toda casa deveria trazer. Mas também me recordava de minhas responsabilidades e me propiciava uma bela visão dos Campos de Punição, o que com certeza não colaborava para meu sono.
Caminhamos durante todo o tempo em silêncio, com exceção de quando eu apontava e explicava a serventia de alguns cômodos.
Ao passar em frente a sala de visitas parei por alguns instantes.
Do corredor podíamos ouvir alguns resmungos do meu pai e as réplicas abusadas de minha avó.
– Traga-o para cá logo, Nico. — A voz profunda do Senhor do Mortos quebrou meus questionamentos interiores.
Sem olhar para Percy me encaminhei até onde os três deuses se encontravam.
– Pai. — Abaixei minha cabeça em uma pequena reverência. — Perséfone. Deméter. — Fiz o mesmo com as outras. — Creio que não precisam de apresentação, mas de qualquer forma. Este é Percy Jackson.
– Hunf. — Foi a resposta de Hades. — Se não tivesse sido convidado por meu filho, Jackson, sua alma estaria rastejando numa poça de ácido sulfúrico agora.
– Você está muito magro, querido. O que Dionísio dá para vocês comerem naquele lugar? Venha cá. Coma um pouco de aveia. Aveia faz muito bem para jovens como você. — Deméter logo expressou sua opinião.
– Mamãe, ele não está magro. Está bonito assim. — Minha madrasta se intrometeu.
Percy assistia àquela interação encabulado. Não poderia culpá-lo, eu me sentia assim às vezes mesmo estando acostumado.
– Boa sorte com eles. — Murmurei baixinho, me virando para fugir para o meu quarto.
– Nico! Nico espe...
Não esperei o resto da sentença, apenas me apressei em chegar ao meu local de descanso.
Embrenhei-me mais profundamente no palácio até chegar ao meu quarto – o ponto mais distante da entrada -.
À medida que eu me distanciava, o número de guardas diminuía até que não sobrasse nenhum no corredor particular que dava no meu quarto.
Essa era uma das medidas de privacidade que meu pai me fornecera e que eu era grato, de certa forma.
Coloquei Bonelord no chão. O gato miou suavemente enquanto se espreguiçava, como se acordasse de um sono longo e profundo.
Eu podia sentir sua energia sendo revitalizada e ele não era o único. Meus poderes se recarregavam aos poucos e eu me sentia mais alerta.
Ao passo que começava a perceber o leve sussurrar das almas dos mortos em meus ouvidos. Aquele farfalhar dos que foram de maneira trágica. Dos que buscava vingança. Dos que guardavam ódio, ressentimento.
Ignorei-os, meus fantasmas pessoais já eram o suficiente.
Retirei as fotografias da mochila e as espalhei pela cama.
Sentei no chão – a cama tomada por fotos — e pus-me a classificá-las entre as que ficariam em minha parede e as que entrariam para os álbuns.
Assim que arrumadas em pilhas organizadas me virei para meu antigo notebook.
– Hora de dizer adeus, amigo.
Desembrulhei o pacote que se encontrava na cabeceira de minha cama.
Cheirava a coisa nova, um odor revigorante.
Distraí-me com o plástico bolha enquanto lia o manual de instruções.
Eu definitivamente ainda tinha sérios problemas com tecnologia, e mesmo sendo um semideus cercado por magia, achava esse avanço da humanidade como algo muito sobrenatural para se lidar.
Com algum esforço consegui ligar e configurar algumas poucas coisas no novo aparelho. Até mesmo consegui transferir alguns dados restantes do antigo para o novo notebook.
Sentindo-me satisfeito e incrivelmente inteligente pelo meu feito, virei-me para a porta, pretendendo jogar a caixa do novo notebook e o antigo aparelho fora.
Ao erguer os olhos, no entanto, deparei-me um um par de olhos esmeraldas que não encaravam a mim, mas sim o mesmo olhar repetido centenas de vezes na parede atrás de mim.
(...)
To find this love of mine I'd walk through wind and fire
(Para encontrar esse meu amor eu andaria através do vento e fogo)
Forever and always
(Para sempre e sempre)
These hollow hands reach out for you to touch me now
(Essas mãos vazias se estendem para que você me toque agora)
Forever and always
(Para sempre e sempre)
Dead inside
(Morto por dentro)
My heart and soul flatline
(Meu coração e alma estão parando*)
Put your mouth on mine and bring me back to life
(Ponha sua boca na minha e me traga de volta à vida)
Dead inside
(Morto por dentro)
No other satifies
(Nenhum outro satisfaz)
My blood runs dry, take my life
(Meu sangue corre seco, tome minha vida)
Save me from this death inside
(Salve-me dessa morte interior)
Dead Inside — Skillet (primeira parte)
Fale com o autor