Then I'll Be Deathless For This Lifeless
5 Dead Inside - Parte 2
Notas iniciais
Percy me encarava esperando por uma resposta.
Seu semblante, no entanto, denunciava que ele já sabia da verdade e já havia se decidido sobre como lidar com ela.
Por trás daquelas esmeraldas havia algo, um sentimento que via refletido nos meus olhos quase todos os dias desde a morte de Bianca.
Não era uma reação incomum ou mesmo inesperada, mas estar acostumado com ela não deixou as coisas menos dolorosas.
Minha aparência assustava os mortais quando eu me esgueirava pelos becos das cidades durante a noite.
Eu não fazia por mal, na maioria das vezes só estava perdido ou fazendo uma pausa após quilômetros e mais quilômetros percorridos nas sombras.
Eu também causava desconforto e medo aos semideuses por conta de meu parentesco.
Ninfas e espíritos da natureza quase sempre fugiam da minha presença bem como os animais, enquanto que, assim como girassóis se inclinam em direção ao sol, a flora local parecia se inclinar na direção oposta a mim.
Como se eu fosse sua passagem para a morte.
Não era uma reação incomum realmente. Tampouco uma reação inesperada, dado ao meu comportamento que beirava ao fanático, mas ainda assim machucou.
– Você... – Percy iniciou, sua voz anormalmente séria. – Você coleciona fotos minhas. – Não era uma pergunta.
Mesmo assim respondi um “sim” baixo o suficiente para ser confundido com um suspiro.
Eu conseguia ver um curioso e exasperado “por quê?” serpentear sua língua, mas a resposta era tão óbvia que quase podia ser sentida no ar.
– Esteve me seguindo por todos esses anos. – Afirmou enquanto que eu, com o resto de dignidade que me restara, me colocava em pé. –Esteve por perto por todos esses anos e nunca pensou em talvez se anunciar?
O esforço de manter meu rosto neutro me consumia.
Eu não poderia dar o braço a torcer, seria mais fácil, mais prudente, que Percy nunca tivesse meus sentimentos declarados.
Eu conhecia o filho do deus do mar bem o suficiente para saber que por mais que ele viesse a me odiar, temer ou mesmo se ressentir, ele nunca deixaria de tentar melhorar as coisas.
Foi isso que o fizera se aproximar de mim afinal.
Não era isso que eu procurava nem necessitava.
Eu não queria ser o ponto negro na vida de Percy Jackson.
Por tudo que os deuses o fizeram passar. Nos fizeram passar. Eu não seria o empecilho ante a paz de sua vida.
Percy merecia toda a plenitude que pudesse alcançar em vida sem que eu me interposse em seu caminho como a sombra que incapaz de viver por si só, se agrega a outros.
Eu nunca havia planejado me apaixonar por Percy Jackson, mas aconteceu.
Eu nunca havia planejado que ele se tornasse a razão de minha existência, mas aconteceu.
E assim como ele mesmo havia dito, eu não deveria viver por ninguém se não por mim mesmo.
Como sobrecarregar os ombros de alguém? Alguém que já sofreu demais com o peso da vida de outro?
Eu não era egoísta a esse ponto.
Minha vida condenada desde o nascimento não merecia ser o peso de ninguém mais além de mim.
No entanto... Se apenas eu pudesse me amar como Percy desejava. Amar-me plenamente de forma que toda essa existência deixasse de ser apenas respirar e expirar e se tornar algo mais como viver.
E viver e sentir. Transbordar emoções e agraciar o mundo com mais do que pensamentos mórbidos.
Mas eu era incapaz.
Há muito meu eu se tornou indiferente às minhas necessidades.
Se tudo o mais, eu apenas seria capaz de me aceitar quando conseguisse expulsar de mim minha própria cota de sombras. Essas que se agarram ao meu corpo e não pretendem me deixar jamais.
Meus olhos se fixaram no belo verde que eu aprendi a amar.
Amar de forma errada, mas amar.
Afinal, qual o jeito certo de se amar?
Existe o modo saudável. O meu era a ruína da sanidade, porém, quem poderia dizer que não era amar?
Talvez Percy estivesse errado no fim. Ao menos nesse ponto.
Eu não precisava me amar para que pudesse despejar amor.
Eu só precisava amar sem compreender o amor.
Devagar uma forma humanóide se esgueirava por trás do deus do mar que nada mais do que me encarava. Confuso e cada vez mais exasperado com minha quietude.
Talvez essa fosse minha última chance.
– Amo você. – Disse. Minha voz mais calma do que eu imaginava ser possível.
Eu sempre me sentia mais calmo ao ser verdadeiro.
A expressão no rosto de Percy se suavizou um pouco.
– Isso o manteve afastado. – Foi sua resposta.
– Não pude me manter muito longe, no entanto. – Completei. A forma se aproximava lentamente de Percy. – Aqui. – Toquei minha cabeça. – E aqui. – Meu coração. – Viviam voltando para você. Mas isso não importa. – Completei. – Enquanto minha alma estiver presa nesse lugar, eu não serei mais do que um morto.
Devagar... Percy não sentia a aproximação nem conseguia ver a sombra que se esgueirava mais perto de seu corpo.
– Você é mais do que eles. Nico, eu já lhe disse. – Balançou os braços em puro desânimo. – Eu nunca soube de seus sentimentos... Eu...
– Não sabe o que pensar. – Completei.
Percy concordou.
– Mas não importa. – Repetiu o que eu mesmo dissera. – Se você está apaixonado por mim ou por qualquer outro. Não é o suficiente para que você viva conosco? Esse sentimento não deveria ser sua força para se libertar desse lugar?
– Pelo contrário. – Não desviei meus olhos dos seus.
Sem mais explicações de minha parte, Percy pareceu perceber onde eu queria chegar.
Eu não seria bagagem de ninguém.
O guerreiro esqueleto que eu transportara em silêncio se adiantou sobre a forma do semideus.
– Então ache o ponto de equilíbrio. – Percy disse. – Você não pode se livrar deles, já são parte de você, mas esse sentimento também faz parte. Todos nós temos coisas boas e ruins que fazem parte de nossa personalidade. Você não é diferente. Quando aprender a lidar com tudo isso você não será mais só uma sombra. Você é o Príncipe do Mortos, Nico. Está acima deles.
Antes que Percy dissesse mais o guerreiro esqueleto já lançava bastão sobre a cabeça do semideus.
Percy caiu desacordado aos meus pés.
– Desculpe, Percy, mas não sei se eu consigo. Não sou forte como você pensa e é melhor que você não se lembre disso também.
Manuseando a névoa o máximo que pude e recitando os encantamentos do sagrados do Lete, escondi as memórias recentes no subconsciente do Príncipe do Mar.
Ele ainda poderia sonhar com isso ou ter memórias muito vagas para que indicassem algo, mas ele não seria capaz de lembrar de meus sentimentos.
Não pude porém, esconder seus próprios sentidos.
Ele sentiria que eu o amava, teria uma vaga noção de certeza, mas isso nunca transpassaria a racionalidade, o saber que não havia ali nenhum conhecimento.
Embora eu dissesse a mim mesmo que isso era apenas porque não havia necessidade de apagar seus sentidos, era apenas uma desculpa. Na verdade havia a esperança de que lá no fundo, Percy sentiria por mim o suficiente para lhe esclarecer tudo.
Assim como no acampamento romano ele me reconhecera, mesmo sem suas memórias.
Levantei-o com cuidado do chão e entrei nas sombras.
Já era noite no Acampamento Meio-Sangue. Os campistas já haviam se recolhido para seus chalés.
Caminhei com calma sentindo o peso do corpo adormecido de Percy em meus braços, seu calor tão natural fluindo para meu corpo, me fazendo sentir.
O chalé número três se erguia à minha frente, parecendo incrivelmente frio para que qualquer um se sentisse à vontade dentro dele.
Parecia um erro deixar Percy ali, mas o fiz de qualquer forma, ajeitando seu corpo sob os lençóis com meu interior gritando para que eu me deitasse ao seu lado e lhe fizesse companhia nesse lugar solitário.
Meus dedos acariciaram de leve o ponto onde Percy levara a pancada na cabeça. Um galo já se formara no local e eu podia imaginar o rosto que descansava sereno naquela cama, acordar e se franzir em desconforto e confusão ao sentir a dor naquele local.
Era fácil para eu prever qualquer que fossem as expressões do semideus, tão acostumado a observá-lo de longe, acompanhar seus movimentos e reações.
Como naquela tarde na parede de escalada, deixei que meus dedos fizessem o contorno daquele belo rosto, rindo novamente pela besteira que representava o ato, continuando mesmo assim.
O polegar contornou os lábios finos sem hesitar dessa vez, indo e vindo na curva em U.
Inclinando-me sobre o rosto adormecido consegui captar o aroma que provinha do ser logo abaixo de mim.
Aveia e água salgada.
Dessa vez, sem medo de que fosse surpreendido, capturei os lábios entre os meus em um beijo que não passava muito além de um encostar de lábios, mas que para mim já valera mais do que quase uma vida.
A sensação de tocar alguém em um lugar tão sensível, sentir seu calor e compreender o significado por trás do ato era simplesmente indescritível, e embora Percy não estivesse correspondendo o ato e eu sentisse que ele nunca seria capaz, me senti melhor ao conseguir pelo menos uma vez transmitir o quanto eu sentia e me importava com ele.
Silenciosamente me coloquei de pé e para fora do chalé de Poseidon num único ato, sem me dar tempo de temer minha decisão ou ter tempo de me arrepender e voltar atrás.
Caminhei em direção ao chalé número treze devagar sentindo um novo peso sobre meus ombros já exaustos.
(...)
O sol já ser erguia orgulhosamente no meio do céu, Apolo devia ter suas razões por estar alegre.
Coloquei-me de pé ignorando a contínua dor de cabeça que me assolava desde a noite anterior.
A culpa me dominava de pouco a pouco me fazendo sentir cada vez pior.
“Afinal, quem você pensa que é para brincar de portador da verdade?” Dizia uma voz irritante na minha cabeça. “Você não tem o direito de decidir por ninguém o que eles devem e o que não devem carregar por toda vida.”
Molhei meu rosto com água gelada numa tentativa de amenizar um pouco a dor.
Meu cérebro não me dava o descanso que eu desejava e continuava a brincar comigo mesmo.
“Percy é um mártir por si só. Ele parece tomar prazer por compartilhar a dor alheia.” Dizia-me.
Vesti-me em meu habitual preto de cada dia, os zumbidos de almas que partiam parecendo mais altos naquela tarde.
A maioria não passava de suspiros e indagações surpresas, pessoas que não percebiam que haviam morrido, mas ainda haviam os piores, gritos de dor, blasfêmias lançadas contra o deus que os permitiram morrer... E ainda alguns que simplesmente aceitavam.
Os piores, porém eram sempre aqueles que pareciam felizes com seu destino.
Esses eram os que apareciam com menos frequência, mas que sempre apareciam, tinham sua total atenção.
“Foi o melhor. Acamada naquele hospital, eu apenas causava dor e esperança desnecessárias àqueles que amo.”
“Dessa forma não serei mais um empecilho, certo, mãe?”
“Eles não sentirão minha falta. Eu apenas era um estorvo na vida de quem me conheceu. Disseram-me o suficiente disso para eu entender dessa vez. Okay, eu percebi, fiquem felizes. Não chorem...”
“Eu não sou o que vocês queriam, me desculpe. Assim é mais fácil. Vocês podem começar de novo, com outro filho. Um que seja inteligente e que possa se casar com a filha daquela sua amiga, mãe. Poderá discutir de futebol com você, pai.”
Sentei-me encostado à parede do chalé número treze tentando fazer as vozes desaparecerem, tudo aquilo estava me direcionando a um lugar de incertezas.
O caminho menos doloroso, certamente, mas seria o correto?
Alguns miados agudos me despertaram.
– Bonelord... – Murmurei um pouco culpado.
Eu havia me esquecido do felino no Mundo Inferior na pressa em trazer Percy para o Acampamento.
O gato não parecia particularmente ressentido quanto ao abandono, o que me fez franzir um pouco o cenho.
– Não está zangado comigo? – Perguntei.
Bonelord apenas se aconchegou no meu colo ronronando de leve.
Acariciei o crânio do animal.
– Você também não se zangou comigo quando Tod e Mord o mataram. — Continuei. – Mesmo que tenha sido minha culpa por deixá-lo no Jardim de Perséfone sozinho.
O gato apenas continuou em sua posição.
– Por quê?
– Isso se chama amor.
Pisquei confuso por alguns instantes.
Bonelord não havia se movido, mas quase esperei que ele levantasse a cabeça e falasse.
Passada a confusão, ergui o olhar para me deparar com a mesma filha de Afrodite do dia anterior.
– Meu nome é Camila, aliás. – Disse. – É bom que não se esqueça dessa vez.
A garota se sentou ao meu lado a uma distância aceitável para mim, a agradeci mentalmente por isso.
– O que faz aqui? – Perguntei.
– Um gatinho me trouxe até aqui. Acho que ele está preocupado com o dono. – Respondeu.
Soltei uma risada seca pelo nariz e caímos em silêncio. Apenas Bonelord fazia algum som e embora o silêncio me agradasse com todas essas vozes na cabeça, eu ansiava por alguma distração.
– Você sempre tem esse semblante de dor. O que se passa nessa cabeça? – A garota perguntou.
Talvez fosse todo aquele sentimento de culpa. Talvez fosse a necessidade de sobrepujar as vozes da morte. Talvez fosse minha necessidade de me abrir finalmente, mas eu contei tudo.
Desde minha incapacidade de seguir em frente quando todos esses sentimentos tomavam conta de mim até o modo como eu apagara as memórias de Percy.
Camila permaneceu em silêncio por longos minutos.
Dando um longo suspiro, ela tomou Bonelord do meu colo e colocou em seu próprio.
– Mas que dono problemático você tem. – Ela murmurou enquanto brincava com as patas ossudas. – Ele não percebeu ainda que as decisões dessas pessoas não afetam em nada a vida dele. — Continuou. – Sabe gatinho, eu tenho boas histórias assim. De pessoas que se deixam afetar pelo mundo a sua volta e, por estarem sempre isoladas não conseguem ver que não são os únicos que sofrem dessa maneira.
“Daí aparece alguém, sempre aparece alguém, e os mostra algo diferente. E então essa pessoa se apaixona. Se apaixona pela única outra pessoa que os fez enxergar. Era tão óbvio no fim. Nós sempre nos apaixonamos pelos nossos salvadores. É comum, mesmo que nem sempre seja o seu amor verdadeiro.
“Mas aquela pessoa, tão insegura por sempre estar sozinha, acha que não tem chance, que não possui nenhum valor, que não é o suficiente para aquele que ama. Que grande bobagem! Todos temos valor, diferente e adaptáveis para cada situação. Eles não percebem que amar é se arriscar. É uma grande aventura num caminho cheio de corações partidos.
“Eles tem medo de se aventurar e de se machucar, mas por quê? Cair e se machucar, se levantar e sorrir faz parte de tudo isso. Faz parte da vida. Isso é viver. É errar e acertar. Rir e chorar. Sofrer e amar. Ganhar e perder.”
Camila se virou para mim me encarando nos olhos.
Pela primeira vez eu a encarei de verdade.
Seus olhos eram verdes, os verdes que eu amava.
Seus cabelos eram negros e curtos, como aqueles que eu tocara na noite anterior.
Seu rosto, embora feminino tinha parte dos traços marcantes que formavam Percy. As bochechas pontuadas por covinhas, o nariz empinado e mesmo os grandes e volumosos cílios.
– Afrodite... – Murmurei ainda em choque.
A deusa piscou para mim uma vez e desapareceu em uma única respiração deixando para trás um enorme girassol diretamente apontado para mim.
(...)
I can't escape this love
(Não posso fugir desse amor)
I want it the way it was
(Eu o quero do jeito que era)
Forever and always
(Para sempre e sempre)
Don't you leave me here
(Não me deixe aqui)
Alone in all this fear
(Sozinho nesse medo)
Forever and always
(Para sempre e sempre)
Dead inside
(Morto por dentro)
My heart and soul flatlines
(Meu coração e alma estão parando)
Put your mouth on mine
(Ponha sua boca sobre a minha)
And bring me back to life
(E me traga de volta à vida)
Dead inside
(Morto por dentro)
No other satisfies
(Nenhum outro satisfaz)
My blood runs dry
(Meu sangue corre seco)
Take my life
(Tome minha vida)
Save me from this death inside
(Salve-me dessa morte interior)
I can't escape this Love
(Não posso fugir desse amor)
I want it the way it was
(Eu o quero como era)
You remind me of a time
(Você me recorda de um tempo)
When I felt alive
(Quando eu me sentia vivo)
Dead inside
(Morto por dentro)
No other satisfies
(Nenhum outro satisfaz)
My blood runs dry
(Meu sangue corre seco)
Take my life
(Tome minha vida)
Save me from this death inside
My blood runs dry
(Meu sangue corre seco)
Take my life
(Tome minha vida)
Save me from this death inside
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