The virus of life
4 No Apologize
Notas iniciais
Jamais o caminho entre aquela tão familiar estrada de terra e a casa foi tão longo. Ando com a cabeça baixa, com uma certa vergonha. As vezes olho para Tracie, e quando abaixo meu olhar novamente reparo que minha vista começa a embaçar, lágrimas escorrem pelo meu rosto de novo, mas dessa vez, estou de certa forma desconsolada, só consigo pensar: “Que porra que está acontecendo aqui que ninguém quer me contar?”. Merda! Se eles me contassem os seus planos ia ser bem mais fácil, mas ao contrário disso, ninguém me da satisfação sobre o que aconteceu, como Will sobreviveu pra mim ainda é um mistério.
Tracie da uma corridinha até o portão de entrada e o abre, assim que eu, Jery e Will, que ainda estava sendo carregado porque acabou dormindo, passamos pelo portão eu paro no meio do pequeno caminho que nos separa da casa para esperar Tracie, ela dá uma última olhada para fora da chácara, fecha e tranca o portão. Ela vem caminhando em minha direção e quando chega ao meu lado ela, que é mais alta do que eu, e muito mais bonita, coloca seu braço ao redor do meu pescoço lança um sorriso e vamos caminhando abraçadas ao longo da pequena estrada
Quando finalmente chegamos na casa, Tracie me solta e corre até a porta para destrancá-la, Jeremy carrega Will e o deixa em meu quarto, deitado na cama. Eu entro em seguida e o sigo, ele passa por mim e fica na varanda com Tracie. Meio sem jeito dou um passo em direção à Will, eu tiro sua camisa e a calça, encharcada e suja de terra. Aquela mochila que ele carregava na estrada antes de eu atacá-lo foi trazida por Jeremy e coloca na cadeira que fica junto da escrivaninha. Eu a abro e encontro algumas roupas, visto nele já que elas estão mais secas que as que ele está usando, depois eu o cubro com a coberta mais grossa que encontro no meu guarda roupa, não quero que ele pegue uma gripe ou coisa pior por causa da mistura: fraqueza mais chuva gelada.
Fico no quarto sentada na poltrona ao lado da minha cama por uma meia hora, olho no relógio que está em cima da escrivaninha e vejo que são duas horas da tarde, ou seja quando acordei da transição lá na floresta ainda era de manhã. Após mais uns quinze minutos ele não treme mais. Agora sou eu que começo a tremer, mas de nervosismo e de preocupação também, afinal Will tinha virado ou não vampiro?
Era meio estranho, eu, uma caçadora, não se saber como uma pessoa se torna um deles, mas nunca tive o interesse nisso, e nunca descobri também, era meio que um segredo da linhagem vampiresca, “Nenhum vampiro deve contar como seus irmão foram feito”, e muito menos pra uma humana caçadora, sempre fiquei tentando entender porquê nenhum vampiro podia revelar como transformar um humano em uma deles, então cheguei à conclusão que só podia ser por um único e simples motivo, para não haver mais vampiros que humanos no planeta. E não era por pena ou por considerar os humanos como vítimas inocentes, era para que eles mantivessem um estoque de alimento, e nunca passassem fome por falta de sangue porque havia mais vampiros que humanos
Meu pensamento era diferente desse ponto de vista, não tinha nenhum pingo de interesse em descobrir isso, eu sempre dizia que já sou uma caçadora tolerável, não mato vampiros que não fazem mal às pessoas, como por exemplo, Jeremy que só toma bolsas de sangue quando tem no freezer, mas assim como um vampiro que conheci, acho que seu nome era Ted, eles sobrevivem de sangue de animais. Agora se eu soubesse como eles se transformaram, ou como acabaram transformando outras pessoas eu não ia mais tolerar nada.
Levanto da poltrona que fica ao lado da minha cama, desligo o abajur e o quarto fica no completo escuro. Caminho lentamente até o lado de fora, fecho a porta devagar para não acordá-lo. Saio dando passadas bem largas tentando chegar bem rápido perto de Jery e Tracie. Acabo assustando os dois que estavam do lado de fora da casa sentados no sofá e conversando:
– Alguém pode me explicar o que aconteceu? – Pergunto.
– Fica tranquila Bay, eu não o transformei. Sangue de vampiro tem poder curativo, ou regenerativo como vocês caçadores costumam dizer, por isso nós somos imortais – Diz Tracie como se tudo aquilo fosse normal
Uma dúvida cruel se forma em minha cabeça, não sei de devo perguntar, mas ela escapa sem querer de minha boca:
– Mas... se só beber o sangue não basta para se transformar, o que vocês fizeram comigo?
Aquela pergunta me deixou perturbada, eu tinha usado as palavras certas, mas não sabia se queria MESMO saber o que eles fizeram comigo, porem ao mesmo tempo era meio que necessário.
– Bailey – Começou Jeremy com um tom doce em sua voz e expressando o pouco de paciência que restava – Para transformar uma pessoa ela precisa morrer com uma mordida de vampiro no corpo, não é como tomar o sangue, é uma mordida sem tomá-lo, ela só serve para transferir o nosso, digamos assim, “veneno”, de um corpo para o outro, e se isso acontece sem querer não tem problema, se você não estiver morto não acontece nada. Esse veneno é o que “regenera” o sistema nervoso fazendo o cérebro voltar a funcionar, assim o corpo inteiro volta a fazer suas funções e você volta à vida
Então eu tinha finalmente descoberto a maneira de transformar alguém. Bom... eu era uma vampira, e pela lei de sangue passada pelos alphas, eu devia saber disso tudo mesmo...
– Quer dizer então que vocês me mataram? – A indignação toma meu corpo
– Bailey, querida, entenda que não HAVIA outra saída! – Jery tenta ainda manter um tom diplomático em sua voz
– Não me contem quem fez isso, eu não quero saber — Concluo
Eu estava de pé o tempo todo, mas após saber que bem , eu morri, e voltei, reparo que eu preciso me sentar, minhas pernas estão ficando bambas e estou quase caindo. Viro as costas e saio andando, praticamente os abandono. Pra mim não fazia mais diferença, já estava feito, eu já era uma vampira mesmo, quem me transformou não importava mais
Então eu volto para dentro da casa, dando uma corridinha rápida e nem olho mais para eles, simplesmente esqueço o último assunto que eu tinha comentado do lado de fora. Não quero saber quem me matou, ou me transformou, não quero saber de nada! Quero esquecer que sou vampira, porque sei que ainda posso fingir ser humana.
Olho ao meu redor e vejo o sofá, praticamente me chamando até ele, então tiro o meu par de tênis e me deito, no braço do sofá tinha um cobertor felpudo e bem quentinho eu o jogo por cima de mim, aquela chuva fez a temperatura cair, me aconchego em um travesseiro bem fofo que encontro no chão, que deve ser do Jeremy. Paro para pensar e concluo que como encontrei uma mala de viagem no meu quarto, a minha, uma no quarto de hospedes que eu reconheço que é a do Will, já que é uma mala pequena de couro marrom que o pai dele lhe deu antes a nossa viagem no fim do ano passado, e uma última na sala que eu vejo que é a do Jery já que ele não aceitava dormir no quarto do meu avô, nunca, deduzo então que estamos a um certo tempo já na casa. Passamos algumas noites lá, com certeza
Ligo a TV tentando me distrair um pouco, a ficha não tinha caído direito que eu tinha atacado Will, eu tentava fantasiar que aquilo tudo foi apenas um sonho. Mas era impossível. Ele ainda estava em minha cama, com sono e abatido, um pouco ferido, mas ele estava bem, e vivo, aquilo era o que mais importava.
Eu estava acabada, em todos os sentidos, mas quando são três e meia o cansaço já tinha tomado meu corpo e eu acabou embalando em um sono tão profundo quanto o de Will.
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Abro os olhos devagar, quando eles estão completamente abertos viro minha cabeça para o alto do corredor, onde há um relógio marcando cinco e meia em ponto, não tive pesadelos, mas também não me lembro o que sonhei. Faz umas quatro horas que Will está dormindo. A TV estava desligada, imagino que Jery ou Tracie tenham feito isso para que eu pudesse dormir melhor. Eu estava em um completo silêncio, não ouvia nenhum ruído ao meu redor, dentro da sala pelo menos, quebrando o momento ouço dobradiças rangerem no corredor. Em seguida tiro a coberta de cima de mim e me sento no sofá,aquele leve susto fez o frio passar, por um tempo. Olho atônita para a porta do meu quarto e vejo Will cambaleando, ele sai do quarto passa pelo corredor e para no meio do caminho, ele olha para o meu rosto assustado e da a volta pelo sofá, se senta ao meu lado. Ele estava rápido para alguém que estava praticamente morto a algumas horas atrás. Mas ainda cansado ele se enrola na coberta que ele trazia consigo, a que eu o cobri, e deita a cabeça em minhas pernas.
Mal consigo olhar em seus olhos, sinto vergonha do que fiz, mas não tem como evitar, aquela conversa pode acontecer a qualquer hora, e para Will, seria agora
– E aí Bailey, como você está?
Seus olhos verdes olham pra mim com um ar de esperança, dava para ler em seu olhar que ele queria saber o que tinha acontecido.
– Will, você sabia? – Pergunto tentando desviar o foco do assunto
– Que você tinha que se transformar? – Pergunta ele com um ar irônico
– Claro né, o que mais poderia ser? – Respondo em um tom brincalhão
– A gente tomou essa decisão juntos se lembra? Você foi em casa, a gente conversou sobre isso e tal porque você não sabia se mesmo sendo necessário isso era certo ou não...
– Me desculpe Will, mas... Eu não me lembro de nada. Olha, minha última lembrança é de quando eu, você, Caroline e Bryan fomos ao Backstage Club, enchemos a cara para comemorar a semana do saco cheio
Pausa e silêncio novamente. Nós sempre íamos nesse bar, ele era de um primo da Caroline, por isso, ele sempre vendia bebida pra gente, contanto que Caroline não contasse pra mãe dela. Will retorna ao assunto:
– Bê... Isso foi a uma semana a trás exatamente, foi no domingo – Ele deu uma paralisada, parecia aterrorizado – Então você não se lembra de nadinha mesmo?
Fiz uma cara confusa, seu rosto estava tenso, ele não sabia se eu não me lembrava ou se eu estava mentindo pra ele. Antes fosse mentira, realmente eu não me lembrava de nada.
O silêncio volta a invadir a sala, meus pensamentos voam, e está começando a esfriar ainda mais por aqui, não consigo acreditar no quanto eu fui burra, a oferta deve ter sido muito boa pra eu ter aceitado me transformar em vampira, ou a necessidade era caso de vida ou morte... Essa frase acaba de fazer meu estômago revirar... Mas, quer saber?! Não faz sentido eu ficar me culpando, eu fiz, me transformei e agora não tem mais volta
Eu e Will aproveitamos o momento para pensar, nenhum de nós fala mais nada. De repente Jeremy aparece na porta, olha pra mim e depois se assusta ao ver Will já de pé, logo depois ele volta o olhar fixo em mim, com seu rosto frio e seguro ele diz:
–Vamos indo pessoal! Will, tem várias coisas na geladeira pra você comer, e pra você Bê tem uma garrafinha de sangue, não fique sem se alimentar, senão você vai acabar igual ao Simon, o viciado incompetente – Diz ele soltando sua risada sarcástica
Essa piadinha foi ruim, mas eu tinha entendido o recado, Simon era completamente descontrolado nesse termo, ele preferia se alimentar de sua vítima até a última gota de sangue, ou de vida, ele dizia que morrer dessa maneira devia ser uma honra para a raça humana
– Tudo bem Jeremy, já estamos indo. Não me pergunte por que, mas já deixei as malas prontas. Nós só vamos comer alguma coisa
Ele sai da sala satisfeito com minha resposta. Will vai até a geladeira e prepara seu lanche, eu abro a minha garrafa de sangue e a bebo inteirinha. O sabor do sangue era irresistível, quando tocava minha boca sentia o poder pulsar em minhas veias, esse poder é muito sedutor, causa uma tentação imensa de usá-lo e descobrir qual é o seu Dom.
Cada vampiro tem uma espécie de poder em especial, que eu chamo de Dom, por exemplo, Jeremy era muito forte, mais do que qualquer outro vampiro para ser exata, Simon era excepcionalmente rápido, tanto no físico como pelo lado inteligente, era ágil e habilidoso, como um... Leopardo! Eu ainda não tinha experimentado esse meu Dom, ainda não tinha controle da situação, só testaria o meu quando eu conseguisse controlá-lo e desenvolvê-lo.
Ele até parece ser um poder seguro, porem nós não podemos confiar nele, foi por isso que Simon se descontrolou, ele abusou do seu Dom, e ficou completamente dependente dele, por isso incompetente, isso faz sua necessidade por sangue só aumentar, por isso viciado.
Falando nele, onde será que Simon se meteu? Naquela minha breve lembrança que tive na floresta eu tinha certeza que ele estava lá... Por que o cara que eu ajudei não estava aqui parar retribuir o favor? Ah, ele deve ter se metido em alguma encrenca pra variar... Ele era o cara mais imprevisível que eu já conheci, ele me ensinou a ser como assim também.
Apesar disso, Simon era muito mais próximo de mim do que Jeremy, ele sempre estava atrás de diversão, nós sempre conversávamos. Agora com o Jery era diferente, ele era como um irmão protetor, caseiro, me ajudava e cuidava de mim. Simon era diferente, era um cara divertido, um amigo pra tudo, falar besteira e ir atrás de farra, e eu que sempre estou atrás de uma também, saía com ele, por isso acabamos nos tornando amigos de verdade.
Por esse motivo, como ele sempre esta atrás de diversão e viver fazendo merda e acabar se tornando o bad boy da cidade, Jeremy e ele não se davam muito bem. Mas o principal motivo era porque Simon se entregou ao poder, ele se tornou um viciado em sangue fresco e humano
Voltando pra realidade, paro de pensar em Simon, eu e Will já terminamos o nosso lanche, nós saímos da cozinha, e vamos para os quartos, ele leva sua mala e eu a minha, vamos para fora da casa e ele me ajuda a colocá-las dentro do porta malas do Mustang GT azul de Jeremy, aproveitamos que o carro esta destrancado, abrimos a porta traseira e ficamos lá sentados esperando por ele e Tracie. Willian quebra o gelo daquela cena que acabou se tornando desconfortável:
– Bay, só me explica uma coisa, por que você me atacou? – Sua voz tem um tom preocupado
– Me desculpa Will, você não tem noção de como a vontade de sangue fresco é forte, nossos instintos acabam falando mais alto que a lógica – Digo tentando expressar calma e serenidade, mas não consigo
Olho para aquele rosto sensível em minha frente e começo a chorar, está na hora de agir, de assumir o meu erro e me conter com as consequências
– Will me desculpa, juro que eu não queria te machucar
Ele toca o meu rosto com sua mão forte e macia, fixa seus olhos nos meus,e me diz com sua calma sobre humana
– Está tudo bem Bay, não precisa se desculpar
Me sinto visível de novo, finalmente estou bem. Nos abraçamos e não nos soltamos por um bom tempo.
Jeremy e Tracie chegam, já tinham trancado a casa e apagado as luzes, Tracie coloca a mala do Jeremy no porta malas e dá a chave da casa pra mim através a janela do carro que estava semi aberta e entra no carro se sentando no lugar do passageiro.
Jeremy da a volta e entra no carro, procura as chaves no bolso e assim que a encontra coloca no contato e liga o motor do, ele acelera e vai dirigindo até o portão, Tracie sai do carro, destranca e abre o portão, o carro passa e para na estrada esperando por ela, que fecha a entrada e a tranca fazendo a mesma cerimônia de quando nós chegamos a tarde.
A casa está no escuro e na solidão mais uma vez, e nós estamos novamente naquela estrada, mas dessa vez estamos voltando para a cidade. Paro para pensar em como será minha nova vida em um lugar urbano com pessoas bombeando sangue ao meu redor o tempo todo. Will olha pra mim e procura pela minha mão que está em cima do banco, quando ele encontra a segura e da um sorriso, ele queria dizer que tudo ia ficar bem, mas eu não tinha tanta certeza. O que me aguarda quando chegar lá? Outro desafio
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