The man

1 Música


Notas iniciais
No meio do capítulo há uma música em inglês, sem a tradução. A letra é simples e recomendo que ouçam a música.
Aqui está: http://www.youtube.com/watch?v=jBDF04fQKtQ

Enjoyyyy! :D

É estranho como algumas coisas aparentemente insignificantes grudam na nossa mente. Um pequeno trecho de diálogo, mais precisamente, era o que me fazia refletir naquele momento, depois de toda a tempestade ter passado.


"Sexo não me assusta", Sherlock havia dito. Até aí, tudo bem. Aparentemente, nada realmente o assustava. Mas o que me fazia pensar nisso, era a réplica de Mycroft: "Como você pode saber?".


E como ele poderia? Na verdade, a questão era como ele não poderia saber.


— Você está pensando demais — Minha atenção foi atraída pelo homem que entrava no apartamento e se sentava no sofá.


— Não é algo bom?


— Depende sobre o que você está pensando.


Olhei o jornal a minha frente. Fazia alguns minutos desde que meus olhos estavam focados na mesma frase, e mesmo assim, teria que a reler novamente.


É claro que não conseguia mais prestar atenção ao jornal.


— Diga, Watson.


— Sherlock, você por acaso... Hm, já, você sabe...


O moreno levantou as sobrancelhas, esperando o término da frase. Enchi meus pulmões de ar, e soltei a pergunta em uma lufada:


— Você nunca fez sexo?

- Qual é o ponto?


— Oi? — Definitivamente não era essa a resposta que esperava.


- Onde isso vai nos levar, John? Essa sua súbita curiosidade na minha vida sexual deve ter sido fruto de algo.

Me senti corar. Aquilo era frustrante e constrangedor.


— Como você mesmo disse, é só curiosidade. Se não quiser responder...


— Não. Nunca fiz sexo.


Arregalei os olhos. Sherlock era um homem formado — muito atraente por sinal -, era estranho saber que alguém como ele era virgem.


— Hm, ok.


Tentei me focar nos jornais novamente, mas pelo canto do olho, observei Holmes pegar o violino e começar a tocar uma melodia lenta e profunda.


— Nem um... Nem um pequeno orgasmo? — Soltei, antes que pudesse me controlar.


A música parou subtamente, as cerdas de cavalo colidindo descuidadamente com as cordas do violino.


Não consegui aguentar. Me levantei, indo em direção à porta de casa. Precisava de um ar. Aquilo tudo fora demais para uma mente normal como a minha.


***


Quando voltei, avistei a silhueta de Sherlock tocando seu violino na janela. O crepúsculo tingia o céu com tons de azul que gradativamente se tornavam mais sombrios, iluminando precariamente o vidro, deixando apenas as sombras do detetive e de seu instrumento visíveis. A cada degrau, as notas doces se tornavam mais altas.


O barulho da porta nem mesmo fez com que Sherlock se virasse.


— Trouxe comida japonesa. Coma enquanto ainda está quente.


— Não estou com fome — Disse, ainda tocando.


Bufei. Pelo menos ainda ele ainda era o mesmo.


Me servi, comi e logo depois tomei um banho e durante tudo isso, a música não se interrompeu. Na maior parte do tempo, me sentia muito bem ouvindo Sherlock tocar, mas nesse dia, algo estava fora do lugar. Me perguntava se ele sentia falta de Irene Adler.


E novamente perguntas sobre o Grande Detetive começaram a martelar em minha cabeça. Então ele nunca tinha tido alguém? A mulher realmente mexeu com os seus sentimentos? Como um homem pode ser tão desprovido de sentimentos? Conexões? Como...


— Pare.


Em um sobressalto, me virei para Holmes, deixando o livro em minhas mãos cair. Imaculado na frente da janela, as luzes dos carros lá fora iluminavam seus traços concentrados.


— O que?


— Você pensando assim. É irritante.


— Bastardo — Murmurei.


Me arrastei até o quarto, cansado demais para tentar uma discussão com Sherlock Holmes. Peguei o notebook. Escrever me ajuda a pensar. E reler alguns casos me ajuda a segurar alguns impulsos de socar Sherlock, e até a vê-lo como uma pessoa normal.


Naquela noite porém, não funcionou. Irene havia exposto Sherlock, mas algo naquelas palavras — guardadas só para mim, já que não poderiam ser publicadas no blog — me trazia um gosto estranho a garganta.


Em algum momento, perdido naquelas palavras, adormeci.
Acordei me sentindo leve. Abri os olhos quando meu corpo involuntariamente se chocou contra algo. Sherlock jazia sentado ao meu lado, o notebook no criado-mudo.


— Sherlock?


O moreno agarrava-se ao robe azul e não conseguia discernir para onde olhava, já que a luz da lua apenas me iluminava.


— Nunca tive um orgasmo. Nunca me toquei ou toquei alguém intimamente. Nunca beijei.


Me sentei, tentando ver seu rosto. Senti sua mão sob a minha antes de perceber o que estava fazendo. Era como magnetismo. Eu simplesmente precisava segurar sua mão.


— Sherlock... — Soltei sua mão, sentindo que aquilo era errado — Você não sabe o que está perdendo.


Vi um sorriso no rosto anguloso. E algo se iluminou dentro de mim. Ciúmes. Era isso que Irene Adler me fazia sentir. Eu passava todo e cada instante ao lado de Sherlock; desfazia qualquer compromisso a pedidos — nada gentis — dele. De alguma forma distorcida, éramos sim um casal.


— Bem, boa noite — E se levantou.


— Não! — Peguei seu pulso antes que pudesse se afastar — Hm, fique. Podemos, hm, ouvir música.


Por que eu estava fazendo aquilo? É óbvio que o detetive recusaria a oferta e voltaria para o seu violino, ou para qualquer atividade que atraísse seu interesse hiperativo.


Para a minha surpresa, Sherlock se sentou ao meu lado. Levantei-me, colocando o cd "Yellow Submarine", dos Beatles, no rádio portátil. No começo, foi estranho apenas ficar lá, sentado ao seu lado, ouvindo o som alegre reerveberar nas paredes claras. Aos poucos, comecei a cantar e, inesperadamente durante a nona faixa, Sherlock também.


Oh, I get by with a little help from my friends,
Mm, I get high with a little help from my friends,
Mm, Gonna try with a little help from my friends.


Sorri. Me levantei, puxando-o pela mão. No começo, o moreno resistiu, mas logo se levantou, torcendo a boca no príncipio, mas rindo ao me assistir dançar. Aos poucos Sherlock se entregou a dança. E, por Deus, ele sabia o que estava fazendo. O quadril acompanhava os braços, e logo, girávamos pelo quarto.


Do you need anybody?
I need somebody to love.
Could it be anybody?
I want somebody to love.


Subi na cama, pulado no colchão. Sherlock ria dos meus movimentos desajeitados.


— Você é um péssimo dançarino, Watson — Me puxou para baixo.


Fiz uma reverência exagerada, sendo puxado para mais perto. O mais alto colocou sua mão direita na minha cintura e segurou minha mão com a esquerda. Podia ver o sorriso brincalhão banhado pela luz da lua, sentir o cheiro da sua colônia e do seu xampu.


Would you believe in a love at first sight?
Yes I'm certain that it happens all the time.


Dois para lá, dois para cá, no ritmo da música. Seus olhos capturavam o brilho prateado que entrava pelo vidro, sua boca movendo-se com a minha, ambas concentradas na letra da música. Afinal, eu não era um dançarino tão ruim.


What do you see when you turn out the light?
I can't tell you, but I know it's mine


Paramos repentinamente, mas por alguma razão, não conseguia tirar minha mão do seu ombro. Estranhamente, essa mesma mão se arrastou para cima, para a nuca. Seu rosto se aproximou do meu. Senti como se uma onda elétrica percorresse meu corpo quando nossas bocas se tocaram timidamente. As mãos dadas caíram ao nosso lado, mas os dedos se entrelaçaram. Me separei um pouco, olhando-o. Jesus, eu não conseguia me separar mais. Ao invés disso, me aproximei mais, sentindo os braços de Sherlock se apertarem em volta da minha cintura.


Dessa vez, o beijo foi mais atrevido. As línguas, tímidas no começo, deliciando-se uma com o toque quente da outra.


Do you need anybody?
I just need someone to love,
Could it be anybody?
I want somebody to love.


Quando o oxigênio nos faltou, o beijo se rompeu. Me afastei. O que fora aquilo?


— Realmente, eu estava perdendo muita coisa.

Notas finais
Querem mais??
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