The man
2 Esquecer ou aceitar
Notas iniciais
A música agora era "Baby, you're a rich man". Não que isso importasse. Sherlock saiu do quarto sem dizer mais nada, me deixando atônito, parado, encarando a escuridão. O que fora tudo aquilo? "Tenho quatro explicações possíveis", Sherlock diria. Mas eu não me atreveria a perguntar.
Oh, Deus. Aquele havia sido o primeiro beijo do detetive. De certa forma, o meu também, já que antes nunca havia beijado um homem. Um homem! Eu, que sempre fiz questão de deixar claro que não somos um casal, o beijei. John Hamish Watson havia beijado, espontaneamente, Sherlock Holmes.
Passei a noite em claro, pensando nisso e em coisas aparentemente sem ligação, que povoavam minha mente, roubando meu sono. Quando finalmente amanheceu, decidi então me ocupar, fazendo o café da manhã.
O número 221b da Baker Street continuava imerso em silêncio. Várias vezes me aproximei do aparelho de som ou da televisão, mas parecia que se algum som se iniciasse, algo naquela redoma de calmaria se quebraria. Era como saber que se uma moeda a mais cair em um saco, esse saco se rasgará. Sensação estranha para um domingo. O ano novo não deveria ser assim, deveria?
Enfim o almoço chegou, e Sherlock não havia dado as caras. Fiz macarrão com molho branco. Mesmo com medo do detetive estar em casa, bati a sua porta.
– Sherlock?
Alguns segundos depois, quando já pensava em sair dali, a porta se abriu.
– Pronto? — Ele perguntou, os cachos pulando no meu campo de visão.
– Pronto para o que?
O moreno parou e me olhou de cima a baixo. O que ele estava fazendo?
– Vista-se, vamos almoçar.
– Sherlock, eu fiz o almoço — Protestei.
– Oh, por favor.
Suspirei. Mesmo tendo que guardar a comida fresca, não poderia deixar aquela chance passar. Sherlock tinha o apetite mais estranho que já vi. Não seria bom desperdiçar uma chance dessas, já que depois, só Deus sabe quando ele voltaria a ter vontade de comer.
– Ok.
Subi ao meu quarto. Escolhi jeans escuros, camisa azul com finas listras azuis escuro e cadigã bege por cima. Olhei para o espelho, as lembranças da última noite novamente me perturbando. Então seria isso? O Grande Detetive simplesmete esqueceria?
Desci, esperando encontrar um Sherlock impaciente perto da porta. Primeiro grande engano. Sherlock se encontrava sentado em uma almofada, as costas apoiadas na sua poltrona. A sua frente, a mesinha de centro fazia papel de mesa de jantar, coberta com um pano branco, uma garrafa de vidro transparente com alguns jacintos, duas taças. A travessa com macarrão no meio de dois pratos, um enfeitado com floreios dourados e outro com pequenos flocos de neve prateados — os pratos costumavam sofrer com os experimentos e períodos de tédio de Sherlock.
– Mas o que...?
– Sente-se, John.
Me sentei na almofada encostada a poltrona que costumava usar.
– Sirva-se.
Coloquei o meu prato, vendo Sherlock pegar uma garrafa no chão e encher nossas taças com vinho tinto.
Comemos em silêncio, apreciando a luz morna que aos poucos se movimentava no apartamento.
– Sherlock... Sei que vou me arrepender disso, mas não gosto de te ver tão quieto — Rompi o silêncio.
– Estava esperando o momento oportuno para falar.
– Pode falar, então — Beberiquei o líquido avermelhado na minha taça.
– Eu nunca havia me apaixonado. Até pouco tempo.
– Irene — Murmurei.
– O que?
– Irene Adler. Você se apaixonou por ela.
O moreno franziu as sobrancelhas. Olhava incrédulo para mim.
– Não! Como você não vê, John? — Holmes olhou para a lareira ao nosso lado — Irene só me fez... Entender. Fez com que eu desenterasse os sentimentos que tentava mascarar.
O encarei.
– Molly?
– Molly? Você está falando sério?
Dei de ombros. Parecia o mais certo.
E esse foi o segundo grande engano.
– Você, John — Ele suspirou.
– Eu? Eu o que, Sherlock?
O moreno espalmou as mãos no espaço que restava e se aproximou sobre a mesa, levantando-se um pouco.
– Você é um idiota. Mas estou apaixonado por você.
Foi como se o mundo parasse de girar. Como se tudo de repente virasse uma cena de ação em slow motion, e você mordesse seus dedos, esperando pelo desfecho.
– O que? — Me ouvi dizendo.
– Você entendeu, John.
Ele se aproximou pela lateral da mesa, sentando-se ao meu lado. Seus dedos se enlaçaram nos meus.
– Sherlock isso é errado — Sussurei — Eu não... Eu nem ao menos sou gay.
– A sexualidade não passa de um espectro, John — Aproximou seu rosto do meu, olhando em meus olhos — Preconceitos modificam a atração. E isso é contrário aos fatos biológicos, você sabe...
Sua voz foi se perdendo com o fim da frase. Lá estava ele, o Grande Detetive se declarando com fatos científicos. Não que eu tenha prestado atenção. Só conseguia encarar seus olhos e, vez e outra, sua boca. Algo me puxava. Havia uma necessidade em mim, que fazia com que eu ignorasse o que dizia. Negava, mas por dentro gritava por aquilo.
Afinal, ele havia preparado aquilo tudo por mim. Para mim.
Acho que Sherlock entendeu, já que a distância entre nós foi diminuindo até nossos lábios se encontrarem novamente. Ele não tinha esquecido.
O beijo dessa vez foi... Selvagem. Línguas sedentas se chocando, mãos buscando conhecer cada parte das costas e da nuca. Nos separamos ofegantes.
– Sherlock...
– Shhh — Colocou um dedo sobre meus lábios.
O moreno aproximou o rosto do meu pescoço, respirando ali, me causando arrepios. Beijou a pele sensível, me fazendo fechar os olhos. Percebo que não estou usando mais o cardigã.
Nos mexemos o suficiente para que não esbarremos na mesa, parando no espaço de carpete livre em frente a janela. A luz que banha Sherlock evidencia sua pele clara em contraste com a camisa bordô. Ele é lindo.
Aos poucos as roupas vão sendo esquecidas, camadas e camadas de tecido apenas nos servindo como apoio. Traço caminhos tortuosos sobre a sua pele, expressando sem palavras as coisas que não posso dizer em voz alta. Saboreio os sons que causo nele, e o vejo intensificar sua exploração pelo meu corpo com os sons que involuntariamente produzo.
É a primeira vez dos dois, mas não me sinto nervoso. Aos poucos Sherlock se deita sob mim, e com calma nos tornamos um. Os movimentos são leves e fluidos, ondas de prazer me fazendo estremecer. Sherlock arranha minhas costas quando um jato quente atinge minha barriga. Escondo meu rosto em seu pescoço, o sentindo, e é o suficiente para acompanhá-lo no clímax.
Deito ao seu lado, apoiando minha cabeça no seu peito. Não quero mais lutar contra o que transborda de mim, agora.
– Acho que também estou apaixonado por você, Sherlock Holmes.
Ele ri. O cheiro que sinto é um misto enebriante de paz, livros velhos, suor e seu xampu.
– Eu sei, idiota.
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