The lost

3 Capítulo 02 — A dívida


Notas iniciais
Oi leitoras! (Tem alguma leitora por aí?) Me perdoem a demora, mas foi difícil escrever este capítulo, porque apesar de saber os objetivos dele... havia muitos caminhos. Espero que gostem, demorei duas semanas para conseguir termina-lo! Quero agradecer à leitora Lily pelo comentário motivador que escreveu no primeiro capítulo da fic (o primeiro comentário de "The lost"!). Obrigada Lily, espero cumprir suas expectativas.

Janelle bufou, pude ouvir o som do isqueiro enquanto ela acendia outro cigarro. — Devia contar a verdade a ela, sabe? Eu mesma já teria feito isso há muito tempo, mas você nunca me perdoaria. Acha que ela vai aceitar que você lhe diga que deve ficar o resto da vida aqui? Escondida? Ela nem sabe que está escondida!

— Eu sou a única pessoa que...

— Não me venha com essa — cortou. — Tem alguém muito mais capaz de protegê-la do que você. Não sei o que aquele pateta está fazendo em Washington que ainda não veio buscá-la.

Houve um silêncio. Em minha cabeça, um milhão de perguntas, o coração acelerado por ouvir a única pista que eu tinha para descobrir a verdade.

— É muito mais perigoso do que você imagina, não é apenas a vida dela que está em jogo — minha avó respondeu.

— Mas é o direito dela. É muito pior se ela um dia cruzar com um deles por aí, você sabe que isso é possível. O que vai fa...

— O direito dela é viver em paz — Laura interrompeu.

— Não me corte, responda, o que vai fazer sobre a promessa que fez a Carlisle quando isso acontecer? Sua consciência vai estar tranquila se ela decidir sair por aí chupando o sangue de quem não tem nada a ver com essa história? — a voz de Janelle se elevava enquanto ela cuspia aquelas palavras. — E se um dia ela perder o controle e nos atacar?

Aquela pergunta doeu. De repente era como se Janelle estivesse me dando um soco no estômago.

— Wanessa não vai decidir por isso, ela é uma criatura boa. Custa muito para você compreender que é uma dívida? Você sequer estaria viva agora se não fosse por eles.

— Caramba... eu não estaria viva se estivesse morando aqui, numa vida que não é a minha. Eu aprendi a ama-la, ok, mas você sabe o quanto custou pra nós. A nossa família, os amigos, nossa casa, o seu emprego! Tudo isso para viver como fugitivas... merda, se ao menos estivéssemos fazendo algum bem, mas não. Chegou a hora de dizer a verdade, a dívida está paga.

— Você não conhece a história toda... Como já disse, não é só Wanessa que está em risco.

Toda aquela conversa... como se eu ainda fosse uma criança, como se já não pudesse decidir por meu futuro levantaram toda a ira guardada durante aqueles anos. As palavras de Janelle e os falsos argumentos de Laura rodavam em minha mente como um furacão. No mesmo instante eu estava lá em baixo, encarando as duas faces pálidas e estarrecidas.

— E quem mais está em risco, Laura?

Ela levou as mãos à boca, os olhos assustados e o coração acelerado. Ela sabia que eu tinha ouvido toda a conversa. — Wanessa...

Inspirei o ar lentamente, tentando me acalmar. Minha garganta parecia se fechar, e o oxigênio chegava em lufadas até aos pulmões. Por todos aqueles anos, a minha infância enclausurada, o medo de ser diferente... e elas achando que podiam decidir minha vida por mim.

— Diz, que mais está em risco? E que risco é esse? Extra-terrestres, vampiros, mutantes? Vamos, fale! — gritei.

Janelle se levantou da cadeira, as mãos levantadas enquanto se aproximava lentamente de mim. — Nessie, calma...

— Calma! Você vem me pedir calma? — cortei-a. — Sou eu que não sei nada sobre mim, que vivo cheia de medo, como se fosse um bicho! E vocês mentido, escondendo, como se o que eu sou não fosse da minha conta! Aliás, vocês também têm medo de mim! Porquê essa farsa toda?

— Wanessa, por favor, não é o que está pensando...

— Essa frase nunca funciona na ficção, Laura, quanto mais na vida real.

Saí dali correndo, como quase nunca eu tinha a oportunidade de fazer, usando a minha força incomum, a minha rapidez monstruosa e assassina. Estava perdida, sem rumo, e ao mesmo tempo o medo me dominava. Não é como se tivesse sido enganada todos aqueles anos, à medida que cresci, foi impossível não notar aquela farsa. Mas de alguma maneira sentia que saber a verdade também não seria fácil — de fato, a única coisa que eu acreditava de tudo o que havia ouvido de minha avó durante todos aqueles anos é que a verdade era algo assustador.

Parei debaixo de uma árvore, o bosque fechado silencioso ao meu redor. Ali me sentia quase segura, envolvida por árvores, o cheiro familiar da folhagem me acalmando. Tinha que voltar lá e exigir a verdade, encarar o que quer que fosse com coragem, ir atrás do que era meu — o meu passado. Precisava me acalmar antes de tudo, digerir as certezas que eu finalmente havia conseguido alcançar. Carlisle, Washington, uma dívida...

Passei a mão pelos cabelos desajeitados. — Calma, vai ficar tudo bem, vai ficar tudo bem — repeti para mim mesma, embalando meu corpo como numa cadeira de balanço.

***

Um vermelho perturbador tomava minha visão, o calor aquecendo minha pele e me fazendo suar. Abri os olhos, quase ficando sega por um raio de sol que atravessava a copa do bordo-negundo, me atingindo em cheio. Rolei para o lado. A manhã era quase tarde, e eu tinha dormido o tempo todo debaixo daquela árvore. Talvez fosse melhor continuar dormindo, no sono todo mundo é igual, e nos sonhos a gente pode ser o que quiser... ser como quiser.

Fiquei ali, estática, deitada debaixo daquela árvore tentando não pensar em nada. Essa tarefa nunca fora fácil para mim, durante as noites antes de adormecer, meu passatempo predileto foi especular sobre minha natureza — e isso nunca saía de minha mente.

Ouvi os coturnos de minha irmã sobre as folhas do solo, vinham em minha direção. Permaneci como estava, esperando que ela me encontrasse.

Parou na minha frente, as sobrancelhas aparecendo sobre as lentes redondas de seus óculos de sol. Não disse nada, apenas olhava para ela com a mesma apatia do despertar.

— Tantos anos exigindo uma resposta... — sentou-se sob a árvore, recostando-se no tronco. — E foge quando está prestes a descobrir a verdade. Tsc...

Ela falava como se tivesse colocado “a verdade” na minha frente em uma bandeja, e eu tivesse saído correndo. Bem, as coisas não eram assim, mas não valia a pena discutir com Janelle.

— Precisava respirar um pouco... antes de ouvir novas mentiras. A minha vida inteira foi uma mentira, afinal — expliquei ácida.

— É verdade.

Ri. — Agora é assim tão fácil concordar comido?

Janelle escorregou as costas e deitou-se apoiando a cabeça na mão, nossos corpos em L, de maneira que era possível olha-la nos olhos — ou nas lentes escuras, que ela quase nunca tirava.

— Não estou concordando com você! Melhor que ninguém, você sabe que eu nunca concordo — gargalhou. — Estou dizendo que sua vida não foi uma mentira, baby.

— Não! Ent...

— Calma — atalhou. — Não quero brigar com você. Pela primeira vez em dez anos nós não vamos brigar como crianças. Estou falando sério.

Eu não iria discordar e explicar quem era mais criança todas as vezes que discutíamos, porque essa era uma das razões de nossas brigas bobas.

— Então fale.

— Todas as vezes que Laura disse que te amava, a educação que te deu, todas as vezes que eu também quis dizer isso mas achei muito brega... ninguém mentiu pra você. Também não concordo com Vovó ter omitido — frisou — que você não era minha irmã e neta dela, mas não muda o fato de nós te amarmos como se fosse.

— Não foi o que pareceu a noite passada... o que está tentando fazer agora?

Ela suspirou e tirou os óculos, o azul turquesa me engolindo.

— Eu fui uma idiota ontem, odeio admitir, mas fui sim. Agora só estou fazendo a coisa certa, nada mais, Renesmee.

“Renesmee”, um nome de veras incomum, mas o que era realmente comum em minha vida? Que raio de mãe iria colocar aquele nome em sua filha? Tinha medo do que mais, além do meu verdadeiro nome invulgar, iria descobrir. E o mais surpreendente, para mim mesma, foi a reação ao ouvi-lo: alívio, segurança. Um tipo de segurança que nunca havia sentido.

— Renemee — repeti, tentando habituar-me. — Então, esse é o meu nome. Onde estão os meus pais, eles eram tão ruins assim?

Janelle soltou um longo suspiro e se acomodou. — Quer ouvir a história?

Fiquei em silêncio, não precisava responder. Era uma retórica, é claro que ela sabia que eu queria ouvir. Essa era a minha maior vontade desde quando comecei a perceber que aquele não era o meu lugar, a minha família.

— Não vou contar a sua história. Vou contar a nossa, que fique claro que por segurança, nem mesmo Laura sabe de tudo. Isso começou há dezoito anos, vovó e vovô foram comigo e meus pais visitar uma prima que tinha acabado de ter uma criança, e nós estávamos voltando para casa — em Denver. Papai estava no volante e eu só vi quando ele perdeu o controle do automóvel de repente, batendo contra uma árvore. Era noite e a estrada estava pouco movimentada, nós não entendemos nada e foi tudo tão rápido... um homem estranho abriu a porta do passageiro, e uma mulher a do motorista, arrancando papai e mamãe para fora do carro. Eu gritava muito, vovó me abraçando e chorando, vovô saiu para fora do carro mesmo contra as súplicas de Laura. Tentou impedir a mulher, fazê-la largar papai, mas ela simplesmente o agarrou pelo colarinho e jogou contra o chão. Um outro carro vinha em nossa direção e parou, os dois monstros pareciam estar alheios a tudo e a todos, sofregamente grudados nas jugulares de meus pais. Do carro saíram dois homens e uma mulher, não demorou muito para percebermos que também não eram humanos, porque começaram a lutar com os dois assassinos...

Ouvia atenta e assustada toda a história, enquanto ela narrava compulsivamente todo o episódio. Então Janlle parou, os olhos azuis saltando do rosto, como se estivesse vivendo tudo de novo. Rapidamente ergui-me e a abracei. Não entendia o que toda aquela tragédia tinha a ver comigo, mas sentia por descobrir todo aquele passado monstruoso... e principalmente, por deduzir que eu era da mesma estirpe daqueles que mataram seus pais.

— Você não precisa falar mais, deve ter sido horrível... shhh...

Ela soltou do abraço e se sentou, limpando as lágrimas e voltando a tomar novamente sua máscara de insensível. Agora eu entendia porque ela era tão calada sobre si mesma, como quase nunca falava dos pais.

— Não, está tudo bem. Já passou muito tempo, me desculpe por esta reação... nunca falei disso com ninguém durante esse tempo todo. Eu e Laura nunca falamos sobre os acontecimentos dessa noite... apenas sobre a dívida que temos com Carlisle.

— Carlisle é... um dos homens que desceram do carro? Ele é... meu pai?

— Calma... eu vou contar tudo o que sei. Bem, os dois homens lutaram com os vampiros, fizeram-nos largar o pescoço dos meus pais, e eles caíram no chão praticamente mortos. A mulher abriu a porta traseira, onde eu e minha avó estávamos abraçadas, eu chorava muito e Laura tremia. Nós gritamos quando ela colocou metade do corpo dentro do carro, mas então ela disse “calma, eu quero ajudar vocês, vamos! Vou tira-las daqui”. Estávamos completamente em pânico, ela me pegou no colo e segurou Laura pelo braço. Nós entramos no carro e Esme — acho que esse era seu nome — saiu dali em alta velocidade. Não me lembro quanto tempo depois, mas estávamos em um quarto de hotel, sob efeito de calmantes enquanto ela falava coisas ininteligíveis ao telefone. Ao amanhecer os homens chegaram, sozinhos.

Ela abaixou as vistas, ficamos por um longo tempo em silêncio. Rodava ansiosamente os anéis nos dedos, tirava-os e os colocava novamente. Eu não sabia o que dizer, queria saber o que havia acontecido, mas temia ouvir.

Então ela ergueu os olhos novamente. — Eram vampiros, Ness. Aquelas criaturas dos filmes de terror que sugam o sangue das pessoas... elas realmente existem. Foram elas que mataram meus pais, e o meu avô, que morreu depois de bater com a cabeça no asfalto. Carlisle, Edward e Esme conseguiram salvar a mim e Laura, mas não puderam fazer nada quanto aos meus pais. Como era uma morte estranha, forjaram um acidente e provocaram uma explosão. Os corpos foram carbonizados — suspirou. — Não podemos dizer que fizeram errado, fizeram o possível. Eles também eram vampiros, mas se esforçavam para lutar contra sua natureza, não eram como os que cometem essas atrocidades. Podiam ter nos matado, mas nos salvaram e cuidaram de nós.

Assenti, sem entender ainda como aqueles fatos todos nos ligavam. Aquela era a história da bendita dívida que Laura havia citado, mas e daí?

— Carlisle ofereceu uma boa quantia para Laura, mas ela não aceitou. Não precisávamos disso, ela era uma médica renomada e tinha a sua clínica. Levou algum tempo para se recuperar, mas logo voltou a trabalhar e com esforço tentávamos seguir a vida normal. Fui viver com ela, eu não era assim antes, mas aos poucos fui me tornando rebelde e cheguei ao que sou hoje. Foi a minha maneira de resistir à vida e de secar as feridas, me protegendo. Tinha apenas cinco anos na época. De uma maneira estranha, Carlisle se tornou amigo e as vezes aparecia para nos visitar — era uma maneira de se “redimir por sua espécie”, como ele dizia. Esme e o filho deles também vinham às vezes. Foi com a ajuda deles que voltei a falar depois de um ano, durante esse tempo fiquei imersa em mim mesma, o trauma bloqueou e eu perdi a voz — naturalmente, não podia ter tratamento psicológico, ninguém podia saber da verdade. E ninguém acreditaria na verdade, também. Com o passar do tempo as visitas ficaram cada vez mais espaçadas, até nunca mais acontecerem. Não os vimos ou tivemos contato com eles, até que... sete anos depois, Alice — outra filha deles — bateu em nossa porta.

— E... o que ela queria?

Janelle riu, havia alguma ironia no fundo de seu riso. — Cobrar nossa dívida.

Notas finais
Então? O passado sendo revelado. Ps: me inspirei na Avril Lavigne para criar a Janelle http://25.media.tumblr.com/tumblr_m52khonaY51qekaheo1_500.png Aguardo os vossos comentários! É muito importante para um ficwriter recebe-los. Beijos, até a próxima.