The lost

4 Capítulo 03 — Na escuridão do passado


Notas iniciais
Olá leitor(a) ! Quase duas semanas depois, cá estou eu novamente. Fiquei muito feliz com os vossos comentários e agradeço muito os elogios e o incentivo para continuar. O capítulo de hoje traz uma carga emocional pesada, muitos sentimentos confusos.

— Com o passar do tempo as visitas ficaram cada vez mais espaçadas, até nunca mais acontecerem. Não os vimos ou tivemos contato com eles, até que... Sete anos depois, Alice — outra filha deles —, bateu à nossa porta.

— E... o que ela queria?

Janelle riu, havia alguma ironia no fundo de seu riso. — Cobrar nossa dívida.

De olhos vermelhos, nós voltamos para casa abraçadas. Finalmente eu tinha nas minhas mãos parte da minha história. Aparentemente, para me salvar de um grande perigo no mundo ao qual eu pertencia, minha família me entregara a Laura, antiga conhecida em quem confiavam. Ela tinha prometido a Alice que me protegeria — por tempo indefinido, ao que parece.

— Janelle, eles ainda moram perto de Seattle? — indaguei.

— E-eu... eu não sei. Laura apenas se comunica com um amigo deles, que ela acredita nem ser vampiro. A comunicação é quase unilateral, sabe, ela nunca perguntou sobre o destino deles — respondeu. Olhei em seus olhos em busca de algum resquício de hesitação ou mentira, mas ela parecia dizer a verdade. Aquilo me desanimou.

— Quer dizer... que vocês nem sabem se eles ainda estão vivos.

Ela me olhou com expressão triste, maneando a cabeça negativamente. — Não, Ness, não temos ideia.

Laura estava sentada numa das cadeiras do alpendre, sua caneca de café entre as mãos e os olhos úmidos.

— Wanessa! — gritou quando me viu, a expressão preocupada desanuviando.

Seu abraço foi tão terno e sincero, e eu não tinha como recusar. Não havia como sentir raiva, apesar de tudo ela tinha as melhores intenções, aquelas pessoas tinham mudado sua vida por mim e minha família.

— Tive... tive tanto medo que você tivesse ido embora! — revelou, enquanto acariciava meu rosto. — Nós te amamos, querida. É o que importa, por favor, não queira remexer no passado.

Suspirei. Laura ainda não mudara seu pensamento.

— Não vou esquecer o que a senhora fez por mim mesmo sem que eu soubesse, vovó, mas não me peça isso — respondi.

Subi as escadas do alpendre o mais rápido que pude, deixando Laura chamando lá em baixo. Precisava pensar, minha cabeça estava um nó e eu não tinha ideia do que fazer naquele momento. Tinha descoberto que existiam mais coisas como eu, que tinha uma família — ou tivera, no passado. Mas era tudo tão confuso e vago... Embora houvesse uma certa felicidade, meu medo turvava tudo.

Tentei organizar os pensamentos debaixo do chuveiro, mas a única coisa que conseguia fazer era chorar. Chorar compulsivamente.

Estava secando o cabelo com a toalha quando Janelle entrou de rompante. Quase deixei a toalha cair com o sobressalto. Minha irmãzinha querida nunca soube bater à porta.

— Não se preocupe, ver mulher pelada não é meu passatempo favorito — avisou enquanto se jogava em minha cama como um meteoro. — Caramba! Acho que você nunca chorou tanto nem quando Kelvin tentou te beijar na sétima série. Ele ainda gosta de você, ou tomou medo depois que quebrou o nariz dele?

Ri. — Como você consegue pensar nessas coisas numa hora dessas?

Deu de ombros. — Tô só tentando melhorar a cara de velório, aí.

Sorri. Eu não sabia como era a minha família, mas com certeza se eu tivesse irmãos, nenhum deles superaria Janelle.

— Obrigada — disse enquanto me sentava ao seu lado. — Não sei o que faria se você não estivesse aqui.

— Pra começo de conversa, você ainda estaria naquela sua crise existencial sem fim. Nunca ouviria aquelas coisas da boca da velha em outra ocasião.

— Como ela está?

— Não sei. Ela não olha mais na minha cara depois que eu falei que contei pra você tudo o que sabia.

Tinha que conversar com Laura, mas não naquele momento, nós duas tínhamos que estar mais calmas. Além do mais, nem sabia o quê exatamente iria lhe dizer, precisava de ter alguma coisa concreta em mente primeiro.

— Já sabe o que vai fazer? Vai procurar por eles?

Maneei a cabeça. — Não sei, estou confusa. Descobri tudo, e no entanto não sei nada! Não é como se eu pudesse chegar em … Forks? É esse o nome do lugar?

Ela assentiu.

— Não é como se eu pudesse chegar lá perguntando se ainda mora uma família de vampiros na região. Sinceramente não sei por onde começar, o que você me contou não é suficiente para me fazer sair por aí sem destino procurando por minha família. É um começo, talvez ajudasse se soubesse com quem Laura se comunica e o que essa pessoa tem a ver comigo.

Ela colocou as mãos atrás da cabeça e me olhou sorrindo. — Como você disse, é um começo.

O banho relaxou meu corpo e acabei adormecendo enquanto conversava com Janelle. Quando acordei já era noite alta e ela tinha ido dormir em seu quarto. Deitada na cama podia escutar o roncar cadenciado que vinha do seu quarto, e da salinha que usávamos como escritório, ouvia a respiração preguiçosa do velho computador de mesa e o som do teclado sob os dedos ágeis de minha avó.

Levantei devagar e sai do quarto com cuidado, evitando que a velha porta rangesse. Andar em silêncio não era uma tarefa muito difícil para mim. Da porta aberta observei enquanto vovó digitava, o navegador em uma página de e-mail onde ela escrevia ansiosamente. Um clique mais forte e a mensagem havia sido enviada. Me escondi quando ela se levantou, esperando que subisse as escadas devagar e com cuidado para não fazer barulho.

Nada tiraria da minha cabeça naquele momento que aquele e-mail era a meu respeito. Esperei que ela adormecesse e liguei o computador, tinha noções de informática suficientes para conseguir descobrir a senha.

Todos os e-mails enviados daquele endereço eletrônico tinham o mesmo destinatário, Jacob Black, e as mensagens recebidas também eram desta mesma pessoa. O espaço de tempo entre um e-mail enviado e outro era irregular, mas Jacob respondia quase sempre no mesmo dia. E eu estava certa, todos eles falavam de mim. Há nove anos, batendo exatamente com a história que Janelle contava.

Abri o último e-mail enviado, o daquela noite, apenas para verificar o conteúdo. Eu tinha uma ideia do que se tratava.

“ Protegi-a enquanto pude, mas ela conseguiu descobrir. Não sei por quanto tempo vou conseguir impedi-la de procurar pela família, e ela certamente quererá ir até Forks. Por favor, me ajude a proteger a minha menina.”

Sorri, algo concreto. Jacob Black, era essa pessoa que eu deveria procurar. Era amigo, ou Laura não daria notícias minhas sempre que algo novo acontecia. Meu gosto por animais, o primeiro dia na escola, a carteira de motorista, a faculdade... todos os detalhes de minha vida. A única coisa estranha ali é que em todos aqueles e-mails, eu parecia ser apenas a Wanessa, humana e sem nada de incomum.

***

Pernoitei sobre o assunto e me levantei assim que ouvi vovó se espreguiçar na cama, eu não poderia mais esperar por colocar tudo a limpo. Tomei um banho para tirar o peso do corpo, torturado enquanto me remexia na cama a noite inteira. Quando desci, Laura já colocava os seus muffins de mirtilo no forno para assar.

— Laura — chamei secamente, entrando na cozinha.

— Wanessa. Bom dia — saudou, os olhos vermelhos e fundos pela noite mal dormida.

Dei mais alguns passos à frente. — Você sabe que precisa me explicar muita coisa, não é?

Ela desviou o olhar e foi até à janela. — Por favor, esqueça tudo isso.

— Esquecer? Laura... Durante todos os anos de minha vida, ou pelo menos a vida que eu lembro, vivi escondida, temendo que as pessoas descobrissem que eu era diferente. Agora descubro que existem pessoas como eu e que tenho uma família, que aconteceu algo muito grave comigo e que ninguém quer me contar e você me pede para por favor esquecer tudo isso?!

— Mary era minha única filha, eu a amava de todo o meu coração. Vi-a morrer pelas mãos de um monstro — ela, o meu genro e o meu marido —, e apesar de terem salvo minha vida, aquelas pessoas tinham a mesma pele fria e dura, a mesma aparência ameaçadora dos algozes de minha família. Durante algum tempo recebi-os em minha casa, e sentia coisas confusas a respeito dessas visitas. Aprendi a gostar deles e sentir gratidão pelo que fizeram, no entanto tinha ódio da raça deles. Tentava viver a vida normalmente, atender meus pacientes, cuidar de Janelle e ter uma vida social, mas nunca mais fui a mesma. Então você apareceu, com seus olhos doces e o seu calor. Inicialmente, era para eu ficar com você por pouco tempo, foi o que combinei com a filha de Carlisle. Queria apenas retribuir o que tinham feito por mim. Mas as coisas não saíram como eles pensaram e eu me apeguei a você. Você mudou completamente a minha vida e curou o meu coração. Agora, por uma coincidência infeliz descobre tudo isso e me diz que quer jogar fora o que me empenhei tanto para construir.

Ela apertava o parapeito da janela até os nós dos dedos estarem brancos. A voz embargada e o coração acelerado, e eu podia sentir toda a dor que ela sentia ao falar sobre aquelas coisas. Eu a amava me magoava vê-la daquele jeito, mas ao mesmo tempo sentia raiva de tudo o que havia me escondido durante aqueles anos todos. Ela não tinha aquele direito, mesmo que fosse uma avó para mim, era a minha vida.

— Janelle me contou o que aconteceu com vocês. Sinto muito por isso e serei eternamente grata por terem me acolhido, mas não posso viver mais sendo quem não sou — forcei-me a dizer.

— Não posso te ajudar com isso Wanessa. Não vou desenterrar os mortos e trazer mais sofrimentos para nós, sua família foi dizimada por seres sem alma para te proteger, não posso concordar que você torne a morte deles vã. Eles morreram porque você nasceu, porque é fruto da união de um vampiro com uma humana, algo proibido na lei deles. Eles morreram porque amavam você e queria te proteger. Você não pode ignorar isso. Eu não vou permitir.

— Você não tem que permitir nada, a senhora não tem o direito de decidir a vida dela! — Janelle bradou entrando na cozinha.

Laura voltou-se, os olhos vermelhos e cheios de raiva. — Me respeite, garota!

— Wanessa, ou melhor, Renesmee, vai para Forks. E eu vou com ela.

Notas finais
O que acharam? Digam nos comentários por favor.