Rio de Janeiro


Coraline vagava por seu apartamento em Copacabana de um lado para o outro com o pesamento perdido nos últimos acontecimentos que teimava e não acreditar. Seus passos tensos em ritmo acelerado a deixavam pensativa num estado de pura loucura temendo o caos que estava o mundo.

Depois da morte do primeiro ancião, notou que o caos se impregnara no mundo de tal forma que os crimes aumentaram consideravelmente, a taxa de mortalidade demostrava uma absurda elevação em uma estatística dos últimos dias mostrada pelo censo de vários países. Coaraline sabia que tudo isso estava interligado ao fato de cinco dos 24 anciões estarem mortos e, cada vez que esse número for diminuído a tendência é só a piorar.


Não sabe ao certo como que os anciões se encontram para lutarem entre si pela sobrevivência, mas entende que sua vez irá chegar assim como para todos. Desde que passou a sentir a presença da morte de cada um que já desfaleceu no leito da inexistência, entende que a cada dia que se mantem viva é um dia há menos que tem de respirando.
Depois de horas aos lamentos, de pensamentos de puro medo e pavor foi a cozinha procurar algo para comer, que para seu espanto não encontrou nada para calar a fome que sentia. Abriu os armários e não encontrou nada mais que uma lata de óleo e um pacote de açúcar, abrindo a geladeira se deparou com restos de uma coxa de galinha e um pote de sorvete já vazio... o que faria? Desde de que notara os últimos acontecimentos se trancafiou em casa com medo de tudo. O problema é que não se lembrou de antes fazer um estoque de comida e mantimentos necessários para sua sobrevivência em seu cativeiro domiciliar.


Com horas depois de ficar pensando no que faria decidiu que precisava fazer compras, mas que para isso precisava ficar irreconhecível, não que fosse uma criminosa, e sim para que não fosse reconhecida pelas poucas pessoas que a conheciam. Pegou a tesoura bem amolada que guardava na gaveta de mesa do escritório e cortou seus fios não tão longos deixando-os em um nível acima dos ombros, tomou um banho para retirar os fios que permaneciam colados em seu corpo e se vestiu apenas com uma camiseta, uma jeans afogada, colocou um tênis confortável e por fim pôs o boné do time de beisebol do seu ex que morrera em um terrível acidente de carro. Estava pronta para sair do seu apartamento e ir as compras. Pegou o máximo de dinheiro que tinha guardado em seu pequeno cofre atrás do quadro de Romero brito que ganhara de presente da irmã, Não queria usar cartão de credito, seu censo de psicose estava deixando-a completamente conspirativa.


Já na estrada decidiu optar pelo mercado mais próximo, escolheu um estabelecimento de atacado onde haveria muitas pessoas onde tinha quase certeza de que ninguém em sã consciência a atacaria em público, o que deveria a fazer pensar pelo contrario caso levasse em conta que sempre que um havia uma luta entre anciões uma multidão se encontrava presente. Mas a psicose tirava seu raciocínio lógico.


Chegando ao mercado estacionou o carro e adentrou ao prédio onde rapidamente pegou um carrinho de compras e foi direto para a seção de enlatados, se fosse ficar isolada em casa, comida enlatada era a melhor opção para uma dieta de prisioneira.


Depois de colocar tudo o que precisava para se manter por pelo menos 2 meses em casa se dirigiu para o caixa, mas antes de chegar ao destino sentiu sua mão começar a formigar em uma câimbra incomum. Nervosa com essa repentina irritação nos nervos tentou massagear-la para diminuir o efeito, segundos depois a dor passou e no lugar da irritação uma estranha luz se apossou do membro deixando a pobre Coraline em completo estado de pavor. Era uma luz violeta que provinha do estranho simbolo que tinha tatuado nas costas da mão.


Nervosa e preocupada que alguém visse o que com ela ocorria colocou a mão dentro da blusa que usava e continuou caminhando, no entanto escutou atrás de si uma voz masculina e familiar gritar seu nome. Tensa olhou para trás podendo reconhecer a face do homem que a ajudara no tal sonho real, seu nome era Christian, nunca esqueceria dele.


Nesse momento sentiu vontade de se aproximar dele e abraça-lo, mas nesse lampejo lembrou-se de que estava em uma corrida pela vida e que qualquer um que fosse como ela era um rival. Amedrontada abandonou o carrinho de compras e saiu correndo pelo corredor dos cereais rumando a saida do estabelecimento, enquanto corria ouvia o rapaz a chamar com certa delicadeza na voz como se para tranquiliza-la ou faze-la entender de que ele não era um assassino. Coraline pensou que isso podia ser uma estrategia dele para atraí-la pra a morte certa.


Quase um minuto depois que cruzou a saída do supermercado adentrou no seu carro, nervosamente colocou a chave na ignição e se distanciou para longe. Já na estrada, sem pistas do seu perseguidor se viu livre e aliviada, no entanto antes que pudesse respirar normalmente ouviu uma voz falar ao seu lado. Depressa se virou para o banco do carona onde pode ver Christian em todo seu charme jovem encarando-a com cara de quem estava exausto.


Um grito de pavor rondou o interior do veiculo e Coraline quase bateu com o carro em outro que vinha logo atrás, tremula continuou dirigindo temendo a morte certa. E foi só quando uma voz na sua cabeça se escutou que notou que a morte se lançava a sua frente "dois anciões se encontram combate formado, que vença o melhor".

—Por favor seja rápido.—disse Coraline.
—Calma, não vim pra te machucar.—disse Christian calmamente.
—Então porque está me perseguindo?
—Para conversar com você.
—Ótimo, estamos em pleno fim do mundo e você quer conversar com quem deveria matar?
—Exato, e acho que devia me escutar se quer pelo menos ter uma longa vida.
—Como conseguiu entrar no carro sem que eu visse?—perguntou Coraline olhando fixamente para a estrada.
—Já deve ter percebido que um ancião possui uma especie de habilidade extraordinária, então essa é a minha, teletransporte.
—Ok, e você não está usando-a muito bem já que a utiliza para encontrar outro ancião.
—Está certa, deveriamos nos matar agora mesmo, mas não sou assassino e nem pretendo ser—falava Christian—dos cinco anciões que já morreram prensenciei a morte de dois e vi o quanto dificil pode ser.
—Desculpa não quis insinuar nada...
—Claro que quis, mas não te culpo.—falou Christian interrompendo Coraline.

Os dois conversaram sobre muitas coisas ainda enquanto estavam no carro, mas para que a conversa perdurasse foram ambos para uma lanchonete onde pediram hambúrgueres com batata frita e coca.


—Está me dizendo que está recrutando anciões, é isso mesmo?—Coraline não acreditava no que seu mais novo amigo lhe contara.
—Mais ou menos isso.
—E porque acha que se uniriam a você?
—Pelo mesmo motivo que você e eu temos, não somos assassinos.—disse ele convicto de que Coraline era confiável.
—E já recrutou alguém?
—Apenas uma garota chamada Dakota, a mãe dela tentou mata-la é uma longa história.—disse Christian saboreando uma batata frita.
—Mas qual o objetivo de unir todos?
—Não todos, apenas os AR de boa índole.
—AR?
—Anciões Remanescentes.
—Existe muita coisa que não entendemos direito, por exemplo, cinco de nós já estão mortos, mas como se encontraram, e como controlam essas habilidades distintas?—Coraline não entendia muito bem essas coisas.
—Não posso responder essas perguntas, mas tenho quase certeza que conheço alguém que pode.
—Mas e se dermos de cara com um ancião que queira nos matar?—Perguntou Coraline temerosa.
—Primeiro tentamos o diálogo se não der certo nos defenderemos e você sabe que a melhor defesa é o ataque.


Coraline viu que seu recente amigo estava certo, mas além disso percebeu que não estaria sozinha nessa jornada, antes com ele que sozinha e desesperada. Depois que pagou a lanchonete já que o Christian não tinha moeda nacional foram para o apartamento dela, onde continuaram tentando formar um plano de defesa.


—Essa garota Dakota que você falou, é confiável?
—Sim, é apenas uma jovem de 17 anos que está procurando uma forma de escapar disso tudo.
—Você disse que presenciou a morte de dois anciões?
—Foi, e percebi uma coisa.
—O que?
—Sempre que um ancião morre, um desastre terrível acontece na terra, mas não só isso, como cada ancião representa uma sensação humana, essa se esvai quando seu portador morre.


Coraline parou para pensar um pouco e percebeu que a chuva de sangue ardente em fogo foi o primeiro desastre catastrófico que ocorreu, mas junto com ele o amor que sentia pela história do seu primeiro namorado não mais existia, a sensação de carinho pela mãe não era de muita importância, o AMOR não mais existia, por isso o mundo estava como estava. Depois disso o ódio e a sensação de traição que tinha pelo ex patrão não eram nada que devesse se importar, como se o motivo não se julgasse mais relativo a uma futura vingança. Por isso a população não ligava mais para as injustiças da terra, como se uma traição não instigasse mais ao ÓDIO nem esse levasse a TRAIÇÃO. Seguindo por este raciocínio, Coraline tentou pensar em algo mais que faltava em seu ser, sua força de vontade, seu ânimo para correr atrás dos sonhos e desejos não pareciam mais importantes como se sua CONFIANÇA se esvaísse em pó, notou também que sua vaidade, desejo de ser possuída pelo sexy e jovem Christian não era como o viu pela primeira vez, deixando claro que sua LUXURIA não mais existia. Podendo notar que a deterioração do mundo se dará não somente pelas catástrofes, mas pela pior de todas as mortes. A morte da alma antes da carne.


—E como você presenciou a morte de dois anciões?—Coraline estava curiosa.
—Depois da primeira baixa, que ocorreu em Nova York, e da que ocorreu na Bahia, a todo instante me imaginava presenciando a luta de dois anciões e, foi em meio a isso que descobri minha habilidade—Christian ficou pensativo—você ouviu algo sobre o desabamento de um prédio na França?
—Acho que sim, que teve uma sobrevivente.—respondeu Coraline.
—Então, eu estava na minha cama me imaginando presenciando uma luta entre anciões quando de repente puff, estava na entrada de um prédio enorme—ele falava de forma grandiosa—mas as pessoas corriam para fora do edifício, curioso me aproximei um pouco para ver o que ocorria lá dentro, avistei um casal em pé de frente para uma mulher que estava deitada no chão, o homem possuía um arco nas mãos, e pude notar mesmo distante que a mulher cai da no chão emitia uma tremedeira incomum.


—O que ouve?
—Do nada tudo começou a tremer, senti o chão ondular quando escutei uma explosao, apavorado fechei os olhos e quando os abri estava de volta na minha cama.
—Nossa, que sorte a sua.
Os dois passaram o resto do dia conversando sobre muitas coisas, até que Christian convenceu Coraline a se juntar a ele e Dakota que estava escondida em um lugar seguro. Receosa, mas sem outra alternativa fez uma pequena mala e segurou forte na mão de Christian, depois de escutar um puff não estava mais em seu apartamento e sim em uma pequena sala onde as paredes de madeira escura era da mesma cor que os moveis que pareciam se camuflar no ambiente.


Escócia


Pouco tempo depois escutou na cabeça. "três anciões se encontram, batalha tripla formada, que vença o melhor".


Nervosa agarrou o braço de Christian com muita força e sussurrando o perguntou se estavam sozinhos ali.


De uma porta ali perto uma garota com aparência de ter 15 anos se aproximou dos recém chegados e os encarou curiosa. Seus olhos claros eram grandes, seus fios castanhos claros eram longos e sua magreza se opunha ao porte físico de uma pessoa normal, "deve ter anorexia" pensou Coraline.


—Quem é essa?—perguntou a garota com uma voz aguda.
—Essa é a Coraline, está conosco.—disse Christian.
—Olá, eu sou Dakota.
—Como ele disse, sou Coraline.


Depois das apresentações Coraline percebeu que estava em uma cabana no meio de uma floresta que Christian disse que ficava na Escócia, sua terra natal, era casa de pesca dos pais, antes de morrerem e que agora pertencia a ele. Sentaram-se próximos a lareira e Dakota serviu uma xícara de chocolate quente e biscoitos de manteiga.


As chamas além de os aquecer os deixava tranquilizados, que mesmo apesar de não se confiarem muito, tinham um ao outro e não estavam sozinhos nessa batalha do fim do mundo.


—O que você representa Coraline?—Perguntou Dakota encarando-a.
Coraline não sabia se devia dizer para seus concorrentes qual era seu papel nesse terrível xadrez, por isso baixou a abeça e ficou em silêncio.
—Tudo bem, você ainda não confia na gente, mas não vejo problema em admitir de uma vez o que você é. —disse Dakota.
—Eu sou RESPEITO, já sabe qual minha habilidade.—disse Christian encorajando-a.
—INSEGURANÇA, eu posso manipular as pessoas com as palavras.—disse Dakota seria.
—Bom, me sinto no dever de fazer o mesmo—Coraline ainda estava insegura, mas sabia que devia ser verdadeira—Sou MEDO e acho que posso manipular as sombras ao meu redor.


Dakota e Christian ficaram curiosos por saber como funcionava o poder da terceira membro do AR, então pediram para ela fazer uma pequena demostração, de inicio ficou temerosa, mas se levantou e ficou em pé diante dos novos amigos.


—Não sei como usar muito bem essa coisa, mas consigo fazer isso—disse Coraline fazendo a sombra da xícara que estava no chão se levantar como uma cortina fantasmagórica e engolir a xícara em um manto de trevas que depois de segundos quebrou o copo e devorou os cacos de porcelana—acho que posso controlar as sombras.
—Meu Deus, que habilidade maravilhosa.—disse Dakota com os olhos arregalados.
—Realmente é uma ótima arma para se proteger.—falou Christian.


Horas depois os três caíram no sono ali mesmo no chão úmido daquela cabana escondida numa floresta distante da civilização em algum lugar da Escócia. Nenhum dos três tiveram sonhos, perderam essa capacidade, o nada em qual estavam era melhor do que a guerra que se aproximava.