Notas iniciais
Oi galera, como estão? Boa leitura.

— Filha. – Consegui ouvir Alex dizer entre uma tosse e outra em uma realidade distante. – Avery, graças a Deus, tire Lucy daqui, leve-a para um lugar seguro.

— Mas como você vai sair daqui? – A voz daquele anjo era suave e macia naquele inferno.

— Eu acho o caminho para fora, eu trabalho aqui há quase 20 anos, conheço essa biblioteca melhor que a minha casa, agora, por favor, vá.

Fechei os olhos. Parecia muito difícil agora mantê-los abertos, então não vi o que aconteceu em seguida, apenas senti que alguém me ergueu pelos braços e em algum momento meu pé deixou o chão, mas isso não era mais importante. Estava cansada demais para fazer qualquer observação.

Então eu dormi.

~’’~

Catelyn havia perdido de vez toda e qualquer noção de tempo. Mal sabia se era dia ou noite, era tudo cinza, sempre.

O sangue em seu corpo havia coagulado e secado deixando uma sensação muito estranha na sua pele, como se ela estivesse tão suja que ela criou escamas. Sentia-se cansada e com medo o tempo todo, mesmo que passasse a maior parte do tempo dormindo.

Catelyn ouviu quando Max entrou, tinha ficado especialista nisso. Podia sentir pelo medo.

— Srta. Tess tenho uma proposta para você.

Catelyn ficou calada.

— E eu sei que você vai aceitar porque se aceitar, vou te tirar daqui.

Depois de tanto tempo presa naquele recinto, Catelyn não era burra, ela sabia que não ia ser assim tão simples. Ele estava blefando.

— É o seguinte, eu te solto, e você nos leva até sua amiga Lucy.

— Meio suspeito eu andar com uma sombra atrás de mim pela cidade não?

— Tola insolente.

Catelyn sentiu as consequências de suas palavras em forma de um tapa na cara. Depois de tanto tempo ali, aquilo não doera mais do que um arranhão.

— Te seguirei mas ninguém me verá. – Uma pausa. – Qual é sua resposta?

— Não.

Max então deu a volta na cadeira e alcançou a mão de Cat.

— Qual é sua resposta?

— Minha resposta é não.

Então Catelyn sentiu uma dor insuportavelmente horrível como se mil agulhas estivessem entrando na sua pele. A dor era tamanha que sua visão instantaneamente escureceu. Ela berrou de uma maneira quase desumana.

Max estava enfiando pedaços de bambu embaixo das unhas de Cat.

— Me desculpe, eu não ouvi sua resposta no meio de tantos berros.

Empurrou o pedaço de bambu no espaço restante de sua unha. Catelyn berrou mais.

— N...Não!

Outra unha. Dessa vez enfiou o pedaço de bambu mais devagar na unha de Catelin. Ele sentiu a carne da unha de Cat cedendo lentamente enquanto enfiava o bambu. Sangue pingava dos dedos dela formando já uma pequena poça no chão.

Catelyn gritou até ficar rouca. A dor que ela sentia era lancinante, pior do que qualquer outra dor que já sentira antes.

—ESTÁ BEM, EU AJUDO.

Max parou.

— Sabia que não iria recusar. – Riu.

~’’~

Acordei em uma sala iluminada pela luz do sol da tarde, fazendo com que a sala ficasse dourada.

Estava deitada em uma espécie de maca, isolada por uma cortina bege. Usava uma camisola branca e longa de um tecido muito leve e estava limpa. Alguém tinha me dado banho depois do incêndio.

Do lado da maca havia um criado mudo e em cima dele, estava um livro e um vestido branco um pouco semelhante com a camisola que estava usando, só que um pouco mais curto. Não via minhas roupas em lugar nenhum.

A cortina que cercava a cama abriu repentinamente, o que fez com que eu levasse um susto.

A menina que abriu a cortina riu do meu susto. Não sabia se achava isso simpático ou se pegava antipatia.

— Você acordou. – Dãã.

Ela sorriu.

Tudo bem, eu tinha que admitir, ela era extremamente linda. Tudo era lindo nela, o sorriso com seus dentes perfeitos e brancos, seu cabelo preto, longo e liso, sua pele que parecia feita de porcelana, seus olhos azuis vívidos, até as sardas no rosto dela eram bonitinhas. Por isso era muito mais fácil pegar antipatia por ela.

Tentei me levantar daquela espécie de maca (que parecia mais uma cama) mas a menina me empurrou de volta na maca de um jeito delicadamente firme.

— Nada disso, você precisa repousar depois do que houve na biblioteca. – Espera, mas como ela sabia?

Então lembrei do bibliotecário e me desesperei. Não sabia o que tinha acontecido com ele.

— ALEX!

A menina parou e me olhou por um tempo como se me avaliasse.

— Não se preocupe com Alex. – Olhou para baixo. –Tenho certeza de que está bem. – Desviou o rosto para o lado, encarando o além.

Havia algo errado. E eu percebi.

Tenho certeza de que a menina esperava que eu dissesse algo para preencher o vazio, mas era exatamente este o ponto; longas pausas de silêncio não me incomodavam tanto quanto incomodam os outros, na verdade, não me incomodam de maneira alguma.

E são nessas pausas que as pessoas falam o que não queriam.

— É que... – Ela estava claramente tentando preencher o silêncio estranho. – Alex é meu pai, sabe?

Então lembrei das últimas palavras do bibliotecário antes de eu desmaiar.

Filha.

Assenti devagar. Havia mais.

A menina me olhou rapidamente e logo em seguida encarou o chão, incomodada. Eu continuava a encarando.

— Nós... não nos víamos a muito tempo. – Me olhou de novo.

Dessa vez tinha algo de desafiador nos olhos da menina, como se ela estivesse me desafiando a perguntar mais sobre isso. Coisa que não me atrevi porque tinha algo no olhar dela, na postura dela, que me intimidava. Bastante.

Então resolvi ir por outro caminho.

— Por que está me contando tudo isso? Eu nem te conheço.

Ela abriu um sorriso travesso. Intimidante.

— Vou ter que conhecer e você vai ter que se acostumar comigo. – Abriu mais seu sorriso. – Sou sua nova acompanhante.

Minha nova o que?

—Minha nova o que? – Disse dando voz aos meus pensamentos.

— Acompanhante. – Disse dando de ombros como se fosse algo muito óbvio.

Encarei-a novamente com uma cara fechada. Não iria perguntar uma segunda vez, não ia fazer papel de retardada.

Ela riu.

Íamos nos dar muito bem, já estava até vendo.

— Treinadora, professora, guia, seja como for, era o que Alex era para você. – Ela fechou os olhos e deu de ombros mais uma vez, claramente orgulhosa. – Só que no nível oficial.

Eu não tinha mais nada para falar com ela. Claro que eu tinha mil perguntas, outras mil reclamações e mais outras mil preocupações para falar. Mas no momento, eu não tinha mais nada para falar com ela.

Ela apoiou no cano que segurava as cortinas de frente para minha maca, inclinou levemente a cabeça para o lado, estreitou um pouco os olhos e abriu um sorriso irônico.

Íamos nos dar muito bem.

— Você não é muito de falar. – Não foi uma pergunta.

Arqueei uma sobrancelha e balancei levemente a cabeça, como quem diz ‘desnecessário’.

Ela estreitou um pouco mais os olhos, abriu mais o sorriso irônico e desencostou de onde estava apoiada, se aproximando da minha maca de uma maneira levemente ameaçadora.

Ou muito provavelmente, era apenas uma cisma minha desde que a achei intimidante.

— Sabe... – Parou do lado da minha maca. – Nós realmente, vamos ter que passar muito tempo juntas e isso está sendo tão... Agradável para você, quanto está sendo para mim, acredite. – Deu ênfase no ‘agradável’. – Então sugiro que tornemos isso o menos maçante possível.

Afastou-se da minha maca, abriu a cortina e saiu, fechando-a atrás de si.

Que?

Repentinamente, a cortina abriu com tudo mais uma vez e de novo eu assustei.

Vaca.

A menina que tinha acabado de sair, entrou novamente sorrindo, como havia entrado da primeira vez.

— Olá Lucy, vejo que você acordou.

Caralho, de novo?

Estreitei os olhos me perguntando se ela tinha algum tipo de demência.

— Me chamo Avery. – Estendeu a mão ainda sorrindo. Persistente.— Sou filha do Alex, o bibliotecário.

Se o que ela falou for verdade, terei que passar algum tempo com ela e seria bem menos cansativo se isso não fosse uma completa merda. Ou seja, ela estava certa, é melhor nos entendermos.

Teríamos que nos dar muito bem.

Então estendi a mão e apertei a mão dela, sorrindo de volta.

— Me chamo Lucy.

— Eu sei. – Ela riu. – Então, você com certeza deve ter um monte de perguntas.

— De fato.

— Só vou responder duas e depois você tem que me prometer que vai voltar a descansar. – disse fechando os olhos e dando de ombros.

— Tudo bem, duas bastam.

Ela assentiu, esperando.

— Você tem notícias do Alex?

A expressão no rosto dela mudou completamente. Ela olhou para baixo novamente, como na primeira vez que falamos dele. Falar nele a deixava triste.

— Não, eu não tenho, mas tenho quase certeza de que ele está bem, Alex... – Se interrompeu e respirou fundo. – Meu pai, sabe se virar.

Assenti e olhei para baixo, subitamente me sentindo mal em mencionar o bibliotecário de novo.

— Última pergunta, escolha bem. – Falou sorrindo com um ar divertido.

Ela podia ser bem legal. Ou era apenas falsa.

— Onde nós estamos?

Avery abriu um meio sorriso e arqueou uma sobrancelha numa expressão engraçada.

— Especificamente, estamos ainda no espaço mundano, só que em um lugar onde só nós temos acesso, como um disfarce, os mundanos não podem ver e muito menos entrar. – Pensou um pouco melhor. – Exatamente como um portal.

Olhei desconfiada para ela. Tinha mais alguma coisa, então esperei.

— Ah você não vai querer saber. – Ela havia entendido meu silêncio.

— o que?

— Não é importante.

Íamos nos dar muito bem.

— Me fala!! – Estava ficando impaciente.

Ela suspirou.

— Tecnicamente estamos no meio da floresta. – Ela desviou os olhos para o lado escolhendo as palavras.

— Para todos os efeitos, estamos no fundo de um lago.

Notas finais
E então, o que acharam? Deixem nos comentarios, ajuda muuuuuuito muito, beijos.