Notas iniciais
As minhas lágrimas borraram a caligrafia fina nas páginas do diário

As coisas coisas aqui não são exatamente como eu pensei. Ao invés de um calabouço escuro e completamente mofado, encontrei uma linda e imensa mansão de campo rodeada por diversas árvores que nos dias de inverno ficavam cobertas por uma camada expessa de neve. Ao invés de moradores loucos e portadores de dislexia mental, encontrei amigos em que eu realmente possa confiar. Ao invés de pessoas mais velhas trajadas por um jaleco branco que nos tortura toda vez que sentem vontade, encontrei apoio e um ombro pra chorar quando a saudade aperta no peito… Mas, você deve estar se perguntando do que exatamente eu devo estar falando, correto? Bem, vamos voltar ao inicio, onde tudo começou.

A noite estava linda, o céu esculpia sobre a cidade uma paisagem de tirar o fôlego. Meus pais se aprontavam no andar de baixo enquanto minhas duas irmãs corriam sobre os corredores brincando de pique-esconde. Era a noite de confraternização na empresa do meu pai, onde então teria um jantar em um dos restaurantes baratos de minha cidade para comemorar sua promoção. Eles estavam muito felizes com a programação, diferente de mim, que se encontrava de pijamas jogada em cima da cama. Minha mãe perguntou diversas vezes se eu gostaria de ir no lugar dela — E se eu realmente soubesse o que viria a seguir, teria aceitado sem exitar. — Era uma empresa pequena, e os seus fundos não tinha dinheiro o suficiente para pagar a reserva de uma mesa de cinco lugares para a família toda, me faltava uma entrada, então, resolvi ficar. Minha mãe estava tão feliz quanto minhas irmãs, eu não tinha o direito de lhe tomar essa felicidade fazê-la com que ficasse sentada no sofá com cara de arroz enquanto eu me empanturrava de macarrões e fritas no lugar dela. Afirmei várias vezes que ficaria bem, até que ela se rendeu, e junto ao meu pai e minhas duas irmãs, partiu. Digo, partiu mesmo. Na mesma noite, quando eles estavam voltando, um acidente envolvendo uma carreta e mais dois carros os tirou a vida. Até hoje o fato continua sem explicação. A carreta perdeu o controle, esmagou os dois carros que estavam parados no farol atrás do carro da minha família, que os atingiu com uma força estrondosa. A policia local disse que não ouve dor, não ouve sofrimento… Foi uma morte rápida. Mas isso não foi e nunca será aceito por mim. Até hoje acordo em meio a noite com alguns sonhos estranhos, flashes bizarros da noite do acidente como se eu estivesse presente com eles dentro do carro. Mas isso é algo no qual já estou me acostumando, e pra dizer a verdade, isso nem me assusta mais. Então, como eu não tinha nenhum parente vivo fora os meus pais que agora também me foram tirados, eu fiquei Orfa, sendo levada á um orfanato na parte rural de Everywood, o instituto Olxforld Hill. Quando a assistente social veio conversar comigo no dia seguinte após a tragedia, disse que o instituto em questão seria a minha nova casa. Disse também que eu encontraria amigos que me ajudaria a passar por isso. Ela não mentiu quanto a esse fato, isso realmente aconteceu. Mas agora não é a hora de frisar essa parte da história. Na mesma tarde, um carro preto e muito bonito se prontificou a me buscar e a me levar até essa tal instituição e, se você me perguntasse como faria pra chegar lá, juro que não saberia como explicar. Até porque dormi o caminho inteiro, não porque eu quis, mas foi algo que aconteceu naturalmente. Eu diria que o motorista ativou algum dispositivo que liberou algum gás de efeito sobre mim, só pra eu não saber o caminho que ele havia pego, mas seria exagero e loucura de minha parte, não seria?

Ao chegar na instituição, fui apresentada aos docentes e aos demais moradores que residiam ali. Até fiz amizade com Pandora, uma garota ruiva, impulsiva e bastante inteligente que sempre tinha a resposta de tudo e pra todos na ponta da língua. Ela me contou que mora ali desde os dez anos de idade e que a instituição nem era tão ruim assim, até confessou que se um dia, por desventura, fosse adotada por alguma família, ela não iria. Sua família estava lá, em Olxford Hill e que seria insuportável deixá-los. Como se um imã a prendesse ali predestinado a nunca mais soltá-la. Conheci também mais algumas pessoas e entre uma delas, a senhorita docente Saint-Claire, que por sinal, me chamou a atenção. Por desta, de uma forma diferente e única. Não foi um sentimento bom como os que senti quando conheci Pandora. Tinha alguma coisa nela que não me cheirava bem. Seus cabelos grisalhos, o negror de seus olhos e sua roupa antiga guardava um segredo, que por curiosidade, agora, eu queria descobrir. Foi ai… Onde tudo começou.