The Witches of Olxford Hill
2 Festa Clandestina
Notas iniciais
Para minha sorte, e para a sorte de Pandora que dormia sozinha já fazia muito tempo, eu e ela, além de amigas, tornamo-nos inseparáveis colegas de quarto, onde agora dividíamos os mesmos pôsteres de banda na parede, o mesmo cabide de guarda-roupas, o mesmo banheiro e se bobear, aquele esmalte vermelho-choque que estava jogado em sua caixinha de unha era meu. Definitivamente nos tornamos cúmplices, tudo o que era meu, tornou-se dela também e, de certa forma, eu me sentia feliz por isso. Pois em meio aos tempos de dificuldade encontrei uma amiga para contar como fora o meu dia, para relatar segredos, para pedir conselhos, para contar o quão detestei a nova música do Justin Bieber, e o melhor de tudo, ela me compreendia e tinha os mesmos pensamentos que eu. Trabalhávamos em sintonia, como a engrenagem de um relógio. Porém, a única coisa que me deixava furiosa com ela, era seu excesso de humor que sempre me deixava corada devido algumas de suas brincadeiras.
Eu acordei um pouco mais cedo. Corri para o banheiro antes que Pandora despertasse. Ela ficava horas no banho enquanto cantava uma música romena que me doía os ouvidos. Tirei minha roupa de dormir e me lancei para dentro da banheira. A aguá quente me abraçou com afeto assim que as minhas costas relaxaram sobre a borda. Tive até a audácia de fechar os olhos. Mas não demorou muito até que a ruiva acordasse, fosse até o banheiro e apressasse meu banho batendo diversas vezes na porta.
...
Seguimos pelo hall de entrada assim que tomamos banho e nos vestimos. Ela trajava um vestido floral cor salmão e nos pés estava a sua indispensável bota vermelha. Ganhou de uma das docentes que havia no instituto antes mesmo de ela ter um treco e morrer sobre o tapete da sala. Seu cabelo hoje estava preso por um rabo de cavalo. Já eu preferi ficar um pouco neutra em relação a roupa, como sempre, vesti uma calça jeans preta, um all-star e uma blusa de moletom cinza que era ofuscada pelos fios negros do meu cabelo que caiam em ondas para baixo na altura do busto. O instituto, em alguns aspectos, não era tão tradicional assim. Pensei até que teria de usar obrigatoriamente aquelas saias de prega na cor pistache, e aqueles terninhos que eram moda na época de minha avó, que por sorte, não aconteceu. Hoje fazia exatamente uma semana que eu morava ali, e toda sexta, eles faziam uma festa clandestina em um casarão abandonado que havia próximo dali a alguns quarteirões mata a dentro. Pandora quem me disse, relatou também que adorava a música que eles tocavam e dos garotos que participavam. Ah, esqueci de mencionar… No instituto de Olxford Hill também tinha garotos, aliás, vários. Porém, o prédio é distribuído em alas e um grande jardim se concentrava no meio para ajudar na divisa. Ala Norte, Sul, Leste e Oeste. Os garotos ficavam nas alas Norte e Oeste; já as garotas, Leste e Sul. O que dificultava que ambos os gêneros se misturassem no dia-a-dia. A ideia então me assustava um pouco. Já fazia exatamente uma semana que eu estava ali e só conhecia o lado leste e as meninas que ali residiam. O restante, era inédito e estranho pra mim. Porém não tive a audácia de me aventurar por outras bandas.
Pandora se sentou sobre a mesa e debruçou seus braços sobre a delonga da mesma, voltando seus olhos atentos para mim.
– Fico feliz que agora tenho você. Antigamente as festas eram tão chatas e tediosas. Bebia até cair e só tinha a Fleur e mais algumas meninas para conversar e aquela cretina adorava falar mal de mim — Disse, agora entrelaçando seus dedos finos sobre a maçã vermelhinha que estava sobre a mesa.
– Fleur? Quem é essa? Ela está por aqui? — Perguntei, sentando-me delicadamente ao lado dela enquanto passava meus olhos sobre o salão, fitando todas as garotas que estavam por perto.
Não, ela é da ala sul e só aparece quando Saint-Claire não está presente — mordiscou a maçã que projetou um ruído entre nós. Eu suspirei.
– Essa Fleur também tem medo da senhorita Saint-Claire? Por isso não vem aqui? — Estreitei os olhos, tentando me concentrar na resposta de Pandora e não nos demais ruídos das outras garotas.
– Fleur?! Com medo de alguém? — Ela riu, tapando a boca com a mão vaga pelo fato de ainda estar mastigando — Não diga besteiras, S; Fleur não é o tipo de garota que sente medo, muito pelo contrário, ela faz você senti-lo.
Eu assenti positivamente com a cabeça e a observei devorar a maçã.
– Hãn… Okay, mas… Enfim. Quanto a festa de hoje, acha seguro irmos? Ninguém vai nos pegar? Não vamos nos complicar de alguma forma ou coisa assim? — Arqueei a sobrancelha.
– O único perigo é você beber demais, se descontrolar, dizer besteiras... — Ela pausou e olhou pra mim, sorrindo maliciosamente, prosseguiu em sussurros — Chupar algum gatinho da ala norte . — Riu outra vez, mas logo cessou quando eu joguei um pedaço da casca do meu pão em sua cabeça.
– Quanta besteira pra uma boca só… Mas tudo bem. Sendo assim, sem exagerar na bebida, nós iremos — Após ter dito isso, belisquei o pão e comecei a sentir uma pontada de arrependimento enquanto ela gritava animada como minha decisão, começando a cantar aquela música romena com seu timbre de siriena.
...
E então?! como estou? — Proferi em voz alta para que ela escutasse, enquanto eu admirava o vestido azul cetim que estava delineado sobre meu corpo, através o reflexo do espelho — Acha que ficou bom?
Pandora pendeu sua cabeça pela porta do banheiro pra espiar e me fitou minuciosamente, afirmando positivamente com o dedão em seguida, já que sua boca estava ocupada demais com a escova de dente para falar. Sumindo outra vez.
– Certo! — Suspirei, caminhando agora em direção a janela do quarto enquanto P terminava de se arrumar. Sim, adotamos a moda do apelido com as iniciais dos nomes “P” e “S” pra cá, “S” e “P” pra lá. Assim que me encostei sobre a parede, passando a fitar o imenso campo que se perdia pelo quintal do instituto, a imagem de minhas duas irmãs veio à minha cabeça em flashes para me torturar de uma forma levemente dolorida. Sei que não tenho falado muito delas ultimamente. Mas isso não significa que eu tenha desapegado e esquecido rápido e fácil de mais de minha falecida família, porém, desde que cheguei em Olxford, meus problemas tornaram-se mais leve, mais fácil de carregar. Era como se estivessem presos em balões de ar, que, quando passei pela porta de entrada, eles se desprenderam, passaram a ser parte do meu passado e voaram pra bem longe de mim. Fiquei quieta por um tempo, imaginando, fantasiando um destino diferente o qual eles tiveram. Não queria dizer que eles estavam mortos, apenas criei a ilusão que estavam em uma viagem, onde minhas irmãs se divertiam em uma grande piscina enquanto meus pais se empanturravam de churrasco. Então P chegou no quarto, me puxando novamente a realidade e absorvendo meus pensamentos.
– Já está pronta? — Borrifou seu perfume sobre seu pescoço e sobre o decote do vestido.
– Eu te perguntei a mesma coisa há duas horas atrás. Brinquei, voltando até ela. Mas tive que ignorar e fingir que não tinha visto seu “meio metro de língua” que mostrara a mim.
...
– Se soubesse que teria de pisar em gramas tão fofas quanto as nuvens, não teria vindo de salto — Me queixei pra Pandora quando torci meu pé pela terceira vez.
– Não reclame, estamos quase chegando. — Cantarolou ela animada, segurando meu braço.
– É sério, P, e se algum docente ou alguém da direção nos pegar? Teremos de lavar os banheiros e esfregar os tapetes como forma de punição? Afinal, é proibido sair sem a permissão deles, não é? — Continuei caminhando em meio a árvores, observando o chão.
– Claro que não, e pare de choramingar besteiras. Não tem ninguém aqui da direção fora o escrivão que passa maior parte do dia se masturbando com suas revistinhas velhas e grudentas de mofo por não ter o que fazer. Os docentes, diretores, camareiras e até o jardineiro têm família. Só porque trabalham em um orfanato não quer dizer que sejam órfãos como a gente. Eles costumam passar o final de semana em suas casas. Então relaxe. Essa é a primeira e não será a última festa que você irá participar. — Ponderou.
Agora estava claramente explicado a facilidade e frequência dessas festas clandestinas.
Caminhávamos já fazia alguns minutos sobre o campo do instituto, agora tomamos rumo em direção a uma pequena trilha de barro e pedregulhos que descia uma ladeira um tanto quanto perigosa para pessoas desastradas como eu. O instituto se escondeu em meio as árvores e conforme continuamos a caminhada, ele finalmente sumiu atrás de nós.
Então pude sentir as batidas da música que começaram a ficar cada vez mais altas conforme nos aproximávamos. Ao longe, pude ver algumas pessoas com copos e cigarros nas mãos.. Gritos e risadas se tornaram constantes entre os grupinhos que faziam um tipo de disputa de dança ou coisa parecida. Ao fundo, bem atrás do casarão de três andares, onde era o palco central de toda aquela bagunça, um lago um tanto quanto grande e escuro espelhava em suas águas a claridade da lua, que fora as velas espalhadas pelo lugar, era a única luz que os clareava.
– Bem vinda ao inferno! HA HA — Proferiu Pandora, estendendo sua mão vaga em direção as pessoas ao longe como referência a mim.
– Hãn... Devo agradecer por isso?
– Me pergunte isso no final da noite, aposto que terá sua resposta. — Ela rebateu. Esboçando um sorriso fraco enquanto aproximava-se e infiltrava-se na multidão, me puxando pelos braços como se eu fosse sua boneca de pano.
…
– Sutton, essa é MaryAnn — Disse a ruiva apontando para a garota loira que estava sentada em uma das banquetas de madeira no centro do salão, voltando sua mão em direção a mim logo em seguida — E Mary, essa é Sutton. Chegou semana passada e é a minha mais nova colega de quarto — Proferiu com certo orgulho, me exibindo como se eu fosse um troféu. A garota então descruzou suas pernas e levantou-se, estendendo sua mão em direção a mim. Eu a cumprimentei.
– É um prazer conhecê-la Sutton… Calma ai?! — Ela cessou a voz, e voltou seus olhos negros em direção a Pandora com um sorriso sapeca no rosto — Você disse nova colega de quarto?
A ruiva assentiu com a cabeça.
– Ah, pobrezinha. Mal chegou e já está sofrendo nas mãos dessa ai? — Apontou com a cabeça para P, que por sinal, lhe mostrou o dedo do meio.
– Sutton, aceita beber alguma coisa? — Perguntou Mary gentilmente, ignorando — Assim como eu algumas vezes — As malcriações e provocações de Pandora.
– Claro, eu aceito. Obrigada! — Agradeci e ela se afastou.
Só então quando ela praticamente levitou de tão graciosa a forma que andava para longe de mim, eu notei o quão era bonita. Digo, não que eu sinta algo por garotas, mas a beleza de MaryAnn era algo estupidamente notável e seria arrogância minha não citá-la nessa narrativa. Seus longos cabelos loiros, partidos em duas marias-chiquinhas perfeitamente arrumadas caiam até o início do quadril, onde então uma minissaia com estampa xadrez escuro acentuava seu corpo esguio. Seguido desta, uma blusinha branca servia de suporte para o casaquinho verde-claro que encontrava-se amarrado pelas mangas em seu pescoço. Era irritante a atenção que chamava pra si, o olhar de desejo dos garotos, os cochichos cheios de mesquinhêz das garotas. Nem se eu juntasse duas de mim eu conseguiria ser uma dela. Mas já chega de ficar babando manga.
– Sutton? Hello?! Se continuar secando Mary dessa forma a coitada vai acabar sumindo tão rápido quanto a dignidade da Lindsay Lohan após a primeira reabilitição. — Pan sorriu, estralando os dedos pra conseguir minha atenção.
– Ah não, não estou a secando, — Fiz careta, recuando meu olhar pro caminho onde a loira havia tomado, olhando Pan outra vez — Mas realmente ela é muito bonita.
– Quer que eu faça um esquema? Agite um lance? — Tombou a cabeça para os lados, me observando.
– Não, claro que não — Eu ri, levando uma mecha do meu cabelo para trás da orelha — Eu gosto de garotos, mas não sou hipócrita em não assumir quando acho uma menina bonita. — Expliquei.
– Sei como é, eu também fiquei impressionada quando a vi pela primeira vez, na verdade Mary foi a primeira pessoa com quem comecei a falar. Mas… Antigamente ele era mais legal, tínhamos mais tempo para conversar e dizer besteiras. Só que agora ela entrou na disputa contra Fleur pra tentar liderar o grupo das casas noturnas e por isso não tem muito tempo pra mim. — Suspirou, e sua feição, assim como suas palavras, expressavam certo desapontamento.
– Grupo das casas noturnas? hmm… E o que seria isso? — Perguntei.
– Funciona dessa forma... — Começou ela, sentando em uma das banquetas. — Como você sabe, o orfanato, instituição, ou seja lá a forma que você se refira àqui, é separado em quatro alas: Norte, Sul, Leste e Oeste. Cada ala funciona como… Hãn, como se fosse uma fraternidade por assim dizer. E como uma fraternidade tradicional, que precisa de uma líder, tutora, governanta, abelha-rainha ou o caralho a quatro, aqui também. Elas são responsáveis pela vigilância, conservação dos ambientes e essas coisas chatas que me deixam com sono só de pensar. Tem lá suas vantagens. Sempre tem uma ou outra que faz o seu café da manhã, puxa o seu saco só pra conseguir almoçar com você na mesa redonda, mas… Fora isso. É melhor assistir Lagoa Azul. — Ela suspirou. Eu prossegui.
– E porque chamam-se casas noturnas? E o que é mesa redonda? Eu nunca vi nenhuma no refeitório.
Notei a dúvida percorrer sua face e corar suas bochechas. Pandora havia ficado extasiada com minha pergunta. Não porque não saberia responder, o que intrigou a ela foi minha curiosidade em relação a algo, que pela sua expressão de espanto eu nem deveria ter perguntado, eu já deveria saber a resposta. Confesso, isso me deixou muito curiosa.
– Meninas, desculpem-me pela demora?! Jared me sequestrou para citar o novo poema que escreveu pra mim. Eu até pensei em achar bonitinho. Mas não consegui entender tudo já que sua voz falhou quando ele começou chorar — Relatou Mary assim que se juntou a nós novamente, entregando pra mim o copo de bebida.
– Ele está bêbado? — Pan fez a pergunta pra Mary ainda me fuzilando com seu olhar de dúvida, mas desistiu e olhou pra loira quando eu a encarei. Confusa.
– Ele está cheirando a rum e cerveja. O que acha?
– Tá bêbado! — Respondeu Pan.
– É... Tá sim! — Concordou Mary.
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