The White Man.
4 Capítulo 4
Não demorou muito tempo para que Ritsu começasse a ganhar a confiança de Yuki. De algum modo, ele conseguia deixar o rapaz, extremamente tímido, à vontade. Todas as tardes visitava-o e quando não tinha serviço, passavam até mesmo o dia inteiro juntos. O moço de pele branca finalmente fizera um amigo. Apesar do receio de depositar sua confiança em outro ser humano, sentia que aquele homem a sua frente era digno desse feito. Porém, ainda não tinha soltado um sorriso mais na frente do outro.
Passados três meses e meio, Yuki recebeu uma notícia terrível. A senhora Kaede acabara de sofrer um derrame e teve que ser internada as pressas. Ritsu, que foi quem deu a notícia, naquele momento viu as primeiras lágrimas caírem dos olhos do menor, que ficara muito abalado com a situação.
- Shimizu-kun, não quer ir ao hospital? Eu te levo...
-NÃO! Ela vai ficar bem não é? Então eu posso esperar aqui. – Disse já entre soluços. Ritsu, vendo aquelo que, mesmo sem saber, já considerava precioso para si naquele estado, num ato carinho, compaixão, tristeza e outras tantas coisas mais, o puxou e abraçou fortemente. Yuki, que já não conseguia falar mais nada, apenas aceitou o abraço, agarrando com todas as suas forças a camisa de Ritsu.
- Então quer que eu fique? Shimizu-kun realmente não parece nada bem... – Falou enquanto tocava gentilmente os cabelos de Yuki, ainda em pé, abraçados porém já mais calmos.
- Não precisa. Yagami-san deve ter o que fazer. Só, por favor, me avise se qualquer coisa acontecer... Eu imploro!
- Não precisa pedir. É lógico que avisarei.
- Obrigado.
Enquanto Ritsu saia da casa de Yuki, não conseguia parar de olhar para o rosto do mesmo. Com aquela pele totalmente branca, devido ao choro, toda sua face estava rosada. Era como se alguém o tivesse pintado com lápis de cor. Yagami Ritsu, que antes tinha em sua mente que queria ajudá-lo a sair para o mundo, conhecer coisas e pessoas novas, enfim, tirá-lo daquele pequeno mundo, agora sentia como se não quisesse que ninguém mais visse que ele podia ter aquela cor em sua pele.
Na madrugada, o telefone de Ritsu toca com a notícia que ele, Yuki e todos menos esperavam. Após o choque, ele juntou toda coragem que tinha e foi até a casa do outro. Tocou a campainha com as pernas bambas e sua visão já começara a ficar embaçada devido ao surgimento de algumas lágrimas. A porta abriu-se lentamente, e um par de olhos vermelhos o fitou. Agora, não teria como esconder o ocorrido. Ao ver Yuki, Ritsu desatou em prantos no portão e toda sua coragem se foi. Já Yuki, ao ver o colega naquela situação, não teve escolha senão correr até ele, mesmo sem cobertor ou nada protegendo-o do mundo afora, abraçando-o. Ritsu, sentindo os braços do menor em torno de si, deitou sua cabeça no ombro alheio, dizendo baixinho:
- Shimizu-kun, desculpe... Ela não vai poder voltar mais.
Com a rua escura, ninguém ao redor e apenas com a lua iluminando-os, as palavras de Ritsu fizeram com que Yuki ficasse paralisado por uns instantes. Logo, o maior percebeu que o abraço do rapaz ia ficando cada vez mais leve, até o soltar completamente e cair no chão, desmaiado.
O mais velho o pegou e levou para dentro, querendo que ele não acordasse tão cedo. Reparou pequenos cortes em suas mãos, deixando-o preocupado. Enquanto o tempo passava, tudo o que desejava era que aquilo fosse um pesadelo. Yuki acordou em alguns minutos, e vendo o rosto de Ritsu, lembrou do que aconteceu e se pôs a chorar novamente. Desta vez o rapaz de cabelos negros não o abraçou, nem falou nada por um tempo. Se o fizesse, não seriam capazes de se recompor naquela noite.
Depois que o choque passou, Ritsu perguntou:
- Shimizu-kun não quer ir ao velório? Você pode ir coberto, eu ficarei ao seu lado.
- Nã... não posso. – Respondeu, com a maior dor no coração que já sentiu em toda sua vida.
- Ok. Eu explico para Kaede-san o por quê você não vai.
Yuki balançou a cabeça no sentido de negação – Não precisa, ela mais que todos, me conhece bem, Yagami-san.
Ritsu, por alguns momentos, se sentiu atordoado devido a serenidade que estava estampada no rosto de Yuki. A cada dia, a cada expressão aquele rapaz conseguia surpreendê-lo mais.
- Tudo bem. Mas se Shimizu-kun não se importa, eu decidi uma coisa.
- O que?
- Eu vou cuidar de você a partir de hoje.
- Uhn.
No velório, enquanto fazia suas orações, uma voz ecoou na cabeça de Ritsu. Era a voz de Kaede-san dizendo: “Agora entendo. Deus enviou um anjo para cuidar de meu Yuki-kun, para que eu pudesse partir em paz. Por favor, cuide bem dele”. Silenciosamente respondeu:
- Sim.
Agora, Ritsu fazia tudo que o Kaede fazia antes para Yuki. A cada pequeno ato em benefício do outro, seu coração ficava mais e mais feliz. Agora, os sorrisos de ‘obrigado’ era ele quem recebia. Yuki por sua vez, tentava não abusar da gentileza de seu amigo, não pedindo muitas coisas. E assim passaram mais dois meses.
Na tarde de um dia qualquer em que fazia muito calor, Ritsu saiu do trabalho e foi direto a casa de Yuki.
- Chegou cedo hoje, Yagami-san.
- Sim, já que vim direito para cá. Tudo bem?
- Uhn. Mas por que tanta pressa?
- Tenho que perguntar uma coisa. Promete não ficar bravo?
- Sim. O que é? – Yuki perguntou, curioso.
- Tem uma pessoa que quer vê-lo. É de minha confiança e sei que não vai te fazer mal algum. Estava pensando se podia trazê-la aqui, já que quer muito te conhecer a tempos.
- Desculpe, mas não. Não consigo... E por que foi falar de mim?
- Por favor... Essa pessoa não me deixa em paz! Falei de Shimizu-kun porque gosto de conversar sobre aqueles que são importantes para mim. – Yuki, ouvindo isso não conseguiu conter a vergonha.
- V... Vou pensar.
- Ótimo! Amanhã a trago aqui! – Ritsu sabia que se o deixasse pensar muito, iria negar o pedido. Saiu quase fugindo antes que o outro falasse algo. – Então até amanhã Shimizu-kun! Agora tenho que trocar de roupa...
- Esper.... – Yuki tentou impedi-lo inutilmente, já que não saia da porta para fora.
Ritsu não voltou para a casa de Yuki naquele dia. Já o menor estava preocupado com a reação da tal pessoa quando o visse. O que lhe acalmava era que se alguma coisa acontecesse, Yagami-san estaria lá para defendê-lo. A noite, mal conseguiu dormir, devido à ansiedade.
No dia seguinte, quando a campainha tocou, Yuki se arrepiou inteiro. Pensou em se cobrir mas depois achou melhor enfrentar tudo de uma vez. Abrindo a porta, deparou-se com Ritsu ao lado de uma linda mulher, jovem, com o cabelo comprido, loiro e liso, além de olhos castanhos claro. Quando o viu, ao invés de se assustar, a mulher sorriu ternamente.
- Então você é Shimizu-kun! Prazer em te conhecer. Ritsu fala muito de você!
- Ah... é... Prazer em te conhecer também. Mas, qu... quem é você?
- Ah! Não acredito que ele não falou de mim?! Sou Yura, mas me chame de Yu-chan... Sou a namorada desse esquecido aqui.
Ritsu não conseguiu contar esse detalhe para Yuki. Por várias vezes tentou mas não conseguia. Mesmo não entendendo o por quê disto, não queria que ele soubesse de jeito nenhum. Mas agora não tinha volta. Vários dias desligava o telefone mais rápido para ir à casa de Yuki, o que deixou Yura curiosa sobre quem era esse rapaz. Após ouvir que ele era diferente, por ter a pele branca, não parou de infernizar Ritsu para que a deixasse conhecê-lo.
- Namo... rada? Ah, é claro que ele disse! – Yuki tentou disfarçar, para que não deixasse em Yura uma pior impressão, mesmo sentindo dentro de si seu coração se partir em vários pedaços. Queria entender o por quê, afinal, nunca sentiu isso antes.
Ritsu não conseguia falar nada. Desejava do fundo do coração que Yura fosse embora logo, para tentar explicar de algum jeito por que não contou. Mas, quando deu por si, estavam os três sentados no sofá.
- Ah, deixa eu pegar algo para bebermos. – Yuki levantou-se, sendo puxado por Ritsu.
- Pode deixar que eu pego. Enquanto isso conversem... Só não falem mal de mim pelas costas haha. – tentou brincar.
Sozinhos, Yura não parava de olhar para Yuki. Terminou puxando assunto:
- Sabe, Shimizu-kun... Você realmente é um rapaz bonito...
- Muito obrigado.
- Mas é meio nojento. Parece até um fantasma. Não sei como meu Ritsu não se assusta toda vez que te vê! – Sorriu maliciosamente.
Ritsu voltando para a sala com os copos na mão, viu Yura sorrindo e Yuki encolhido, olhando para baixo. Pensou que ele estava envergonhado e não devia tê-los deixado sozinhos.
- Aqui. Então, falaram sobre alguma coisa?
- Claro querido! Estamos nos dando muito bem. Não é, Shimizu-kun?
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