The Walking Dead - Rio de Janeiro/ Temporada II
12 Capítulo XII - Hugo
Notas iniciais
Os três passam o resto da noite num escritório abafado e bolorento, absortos na história que acabaram de ouvir. Júlia resumira, com duras e breves palavras, o mês em que passou sozinha. A morte de Pedro não era novidade para Hugo, no fundo ele sabia, mas a comprovação da verdade fora pior do que imaginara. Um enorme buraco negro se abriu em seu peito, engolindo suas esperanças. Por um momento, ele se recorda do garoto brincalhão, disposto a tudo, que apostara sua vida em Hugo. Culpa minha, pensou ele.
Clara e Gabriel parecem menos convencidos. Ele crê na história de Júlia, mas suspeita da menina tê-los encontrado segundos após a queda do ônibus. Ela, por outro lado, não entende como Júlia conseguiu fugir do prédio pela ventilação, sendo os dutos pequenos demais para um ser humano. Nenhum deles chega a uma conclusão, mas para Hugo isto pouco importa. Verdade ou mentira, Júlia estava viva e muito mais preparada para o mundo em que vivem.
Três batidas na porta fazem Hugo levantar a cabeça, tirando-o do estupor de seus pensamentos. André abre a porta com gentileza, segurando sua habitual lança e um vidro de xarope para tosse nas mãos:
– Aqui está, cara – diz ele, entregando-o à Hugo – Está um pouco vencido, mas dá para o gasto.
– Obrigado – Hugo abre o vidro e toma uma dose. Suas sessões de tosse tem se tornado mais frequentes, desde os acontecimentos na escola/reino – Quem está patrulhando as escadas e as janelas?
– Deixei Sarah e Junior nessa função. Alice e o meu avô vão substituí-los à daqui a algumas horas.
Hugo acena em concordância e André sai do escritório mofado. Desde que saíram da escola, Hugo tem pensado seriamente a respeito do adolescente comandante do ex-grupo de coleta do reino. Parece ser um cara legal, leal e batalhador, um pouco vaidoso, mas nada que atrapalhe muito. Serve para ser um líder, assim como Hugo ou Junior. Se tivesse o controle de uma colônia forte como o reino fora, Hugo não se preocuparia em deixar a segurança nas mãos dele.
Gabriel sai da sala, murmurando a procura do irmão. Mesmo a luz da vela, Hugo consegue vislumbrar o enorme hematoma roxo que se formou no lábio do amigo. Ele fizera aquilo, numa explosão de raiva e adrenalina. Ele não diz nada, mas consigo sentir seu olhar penetrante. Ele me culpa pelo shopping Iguatemi, pelas crianças mortas na escola, e até da situação onde estamos.
Clara termina de limpar a lâmina de seu facão e senta-se ao lado de Hugo. O garoto engole mais uma sessão de tosses.
– Vamos precisar de um nebulizador para você! – comenta ele, esticando os pés na mesma de carvalho – Vai só piorar, eu garanto.
– Eu sei, tive muitas crises assim na infância. Quase morri uma vez.
O silêncio pesa. Hugo se ajeita melhor na cadeira. Durante a queda do ônibus, ele cortara as costas e múltiplas direções diferentes. Agora tudo doía. O sono começa a acolhê-lo, envolvendo Hugo num abraço quente. Porém, antes de adormecer definitivamente, Clara deita a cabeça em seu ombro.
– Sabe, pensava que a Júlia estava morta. Ela era dócil, gentil e servia como nossa cozinheira e lavadeira. Nunca pensei que fosse sobreviver, não sozinha.
– Concordo – diz Hugo, sonolento.
– Mas você não. Durante os dias que estivemos separados, tinha minhas dúvidas sobre cada um. Pedro, Gabriel, Bernardo, Jefferson, Juliana ou Felipe. Mas você, você eu tinha certeza! Não morreria, ainda não.
– Obrigado. Lamento, mas não pensei o mesmo de você.
– Tenho uma coisa para te contar.
Os olhos de Hugo se abrem, tensos.
– Eu matei Zeus, como disse que faria.
– Isso é música para os meus ouvidos – diz ele, rindo – Menos um da nossa lista.
A garota ri, pela primeira vez em muitos dias. O silêncio se segue.
– Boa noite, Hugo.
– Boa noite, Clara.
O grupo abandona o prédio comercial que usaram de refúgio às 5h45m da madrugada. André soara o alarme, abrindo as portas e chiando sobre um grande amontoado de mordedores. Reinara o caos. As pessoas iam e viam, cruzando o corredor apertado, fechando mochilas e calçando os sapatos. O pequeno Yan, filho da cozinheira aposentada Glória e seu marido Bento, saiu correndo pelos escritórios ainda de pijamas, enquanto sua mãe lutava para tentar penteá-lo. Os três faziam parte do grupo de colonos fugitivos que Hugo mal conhecia. Além da família, ainda restavam à namorada do maconheiro morto, sua melhor amiga, e um jovem guarda das muralhas.
Os dezoito integrantes do grupo saem pela portaria do prédio antes que os primeiros mortos alcancem a esquina. A vanguarda é liderada por Hugo, André e Alice, enquanto Junior, Clara, Bento e Amadeu revestem o meio. Gabriel, Júlia e o doutor constituem a retaguarda. O resto deles permanece no meio, como um anel. Juntos, eles saem do centro da cidade e sobem para uma avenida em direção a nenhum lugar. Os carros e os postes estão espalhados em várias direções, como se um bebê gigante tivesse atirado-os. O Sol escaldante surge através da linha do horizonte, queimando a nuca dos dezoito humanos vivos no meio da praga. O resto do dia se desenrola da mesma forma. Eles permanecem unidos, trocando garrafas de água e protetor solar, avançando cidade adentro.
Hugo dedica suas horas de caminhada a conhecer melhor os outros integrantes. A namorada do maconheiro morto e sua melhor amiga – Denise e Marta, respectivamente – mal interagem com os outros. Mas Hugo foi mais a fundo, perguntando sobre hobbies ou vontades. Marta sabia tocar uma grande variedade de instrumentos, enquanto Denise sonhava em se formar em direito e se tornar juíza. Não há mais necessidade para as leis, querida, Hugo pensou. Apenas o homem e a morte agora.
O doutor e a família foram mais abertos. Jonas Jonjer, ou apenas doutor, era um ex-médico do exército que perdera sua família nas primeiras horas da praga. Estavam os quatro, ele a mulher e os filhos gêmeos, num hospital público visitando a sogra de Jonas, quando as portas se abriram e os mortos jorraram para dentro. Só ele escapara com vida. A família era diferente. Glória era uma chef de cozinha famosa, como aquelas que aparecem nas capas de revistas. Seu marido Bento trabalhara como agricultor a vida inteira, vendendo suas colheitas para os restaurantes refinados da cidade. Os dois se conheceram durante um entrega de tomates frescos, e ai casaram logo depois. Dessa união surgiu Yan, o filho de cinco anos, serelepe e agitado. Estava caminhando em direção ao jovem e espinhento guarda das muralhas, quando André fez sinal para que se aproximasse.
– Tem um grupo de mortos adiante – revelou ele, apontando – Talvez uns quinze ou vinte, nada mais que isso.
– Temos alternativas?!
– Não
– Ok, faça o seguinte – ordena Hugo, usando sua voz de líder – Avise aos outros, sem gritar muito. Coloque o Bento e a Clara para protegerem os desarmados, o resto segue em frente. Diga para procurarem um carro e entrarem dentro dele.
André concorda e diminui o passo para comunicar as fileiras. As pessoas vão entrando em ação à medida que a informação se espalha. As conversas cessam, armas são destravadas e facas, desembainhadas. Hugo pede para Junior entregar-lhe a mochila de armas e retira de lá uma pistola Ruger 22 e uma machadinha enferrujada. Seus sentidos se aguçam, prontos para o que vem a seguir.
Os humanos armados se espalham pelas pistas da avenida como um leque invertido, esmagando com tudo o flanco direito da horda inimiga.
Por um momento, Hugo pensa que está tudo sobre controle. Ele faz a machadinha descer uma, duas, três, quatro, cinco vezes, cortando carne, osso e cérebro. Sua Ruger 22 estoura três vezes, arrancando o topo do crânio de uma criança e lançando dois caminhoneiros barbudos para fora da avenida. Uma fêmea se aproxima dele, seus dentes estalam a milímetros da nuca do garoto, mas Junior surge na multidão com a faca em mãos e o salva do pior. Ele agradece com um grito, enquanto dispara mais duas vezes, espalhando sangue e fluidos pelas roupas. O suor ensopa sua camisa e jaqueta jeans que usa por cima, mas ele não sai da batalha. A machadinha vai ao ar mais quatro vezes.
As coisas começam a dar errado logo depois. Um ex-executivo de terno se lança para Hugo, derrubando-o no chão com um único golpe. Os dois rolam pelo asfalto inundado de sangue, e os pulmões de Hugo começam a chiar por ar. Sua tosse sai estrangulada, enquanto suas mãos empurram o rosto do cadáver para longe do seu. Seus dedos afundam em algo gelatinoso, e Hugo sente que perfurou ambos os olhos do mordedor de terno, mas ele não para. Bile e baba preta escorrem de seu queixo e pingam no peito de Hugo. A bronquite ataca-o novamente, provocando uma série de tosses. Ele sente que precisa sair dali, empurrar o cadáver de seus pulmões espremidos, mas tudo o que consegue e se debater no chão.
– Socorro! – grita Hugo, pela primeira vez desde o começo da praga. Sua voz se engasga com uma tosse – Tire este merda de mim!
Tudo culpa minha.
O jovem das muralhas corre em seu auxílio. Ele arranca o ex-executivo de cima de Hugo e o lança para trás, jogando-o contra a lataria de um táxi. Os outros estão espalhados pelas pistas, lutando. O jovem, entre os vinte ou vinte cinco anos, estende a mão para Hugo levantar.
– Ele te mordeu, cara?!
Hugo responde com um suspiro esquisito e aliviado.
– Graças a Deus! Por um momento eu...
O cadáver de terno se lança contra as costas do jovem, derrubando ambos contra o chão. Hugo tenta se esquivar, mas acaba tropeçando no emaranhado de pés e pernas e o chão sobe novamente para beijá-lo. Seu peito se espreme no asfalto e metade do seu rosto esquerdo se esfola. Ele levanta novamente, com a faca em mãos e sangrado, pronto para exterminar de uma vez por todas este executivo filha da puta!
O jovem se debate no chão imundo, assim como Hugo fizera. O garoto tenta se aproximar da luta livre, mas é acertado na canela e cai pela terceira vez no dia. O mordedor tentar agarrar os dois ao mesmo tempo, como se estivesse indeciso no que comer. Suas mãos podres agarram o tornozelo do jovem, mas Hugo consegue engatinhar para longe. Porém, os dedos retorcidos se enroscam em sua camisa e a puxam para perto de si. O tecido se rasga e um vento frio atinge o peito nu de Hugo. Ele entra em pânico e rola para longe, só parando ao sentir o doloroso choque de seu crânio contra o para-choque do táxi. O garoto se levanta, bêbado de dor, mas consegue sentir a faca em mãos.
O mordedor se precipita, usando ambas as mãos para segurar a perna do jovem guarda, enquanto o mesmo se debate inutilmente no asfalto. Seus dentes podres arrancam um pedaço da panturrilha, cortando as veias como se fosse barbante. O jovem guarda solta um grito de puro desespero, enquanto o mordedor volta a morder sua perna, alimentando-se de mais um grande pedaço de tecido humano.
Hugo afunda a lâmina da faca com tanta força que seus dedos entram no crânio do infeliz. No segundo seguinte, ele e o mordedor desmoronam no chão.
E é assim que o resto do grupo os encontra. André grita por um cinto, ou algo para formar um torniquete. Junior e Clara içam Hugo pelos ombros, retirando-o dali. Lágrimas escorrem pelo rosto dele, limpando a sujeira do asfalto. Sua bochecha esquerda está completamente arranhada. Ele ouve vozes distantes gritando por álcool e algodão, mas sua cabeça dói tanto que ele mal pode distinguir de quem é.
– Precisamos limpar isso aí! – comenta Clara, com lágrimas nos olhos – Desculpe, mas vai arder!
Ela aplica o algodão, e o lado esquerdo da face de Hugo explode de dor. Ele consegue ouvir outras vozes, entrando e saindo de sintonia. Batera a cabeça com muita força naquele táxi. Clara termina de limpar seu rosto e se afasta. Hugo cambaleia, mas Gabriel o mantém em pé.
– O cara foi mordido?! – pergunta ele, cheio de tensão na voz.
Hugo engole uma tosse. Concorda.
– Ei, olhe para você! – diz ele, encarando o peito nu de Hugo – Até que ficou gostoso, hein!
Hugo fecha a cara e se cobre com a jaqueta.
– Não tenho tempo para brincadeiras, porra! – grita ele, as lágrimas escorrendo – Temos que sal...
André pigarreia. Hugo se vira.
O corpo do jovem guarda está estatelado no asfalto imundo. Seus olhos saíram de foco.
– Não, não, não – balbucia Hugo – Não, não, não...
Tudo minha culpa.
Algo se apodera deles. Foram eles, os filhas da puta que herdaram a cidade, os mortos. Não pode deixá-lo se tornar um deles, nunca ia deixar.
Tudo minha culpa.
Ele recolhe a Ruger no chão. Aponta.
Tudo minha culpa.
O tiro ecoa pelas pistas silenciosas.
– Temos que enterrá-lo – afirma Hugo, com um tom que não abre discussões – Ele salvou minha vida, não vou deixá-lo por aí para ser comido por outros daqueles.
Ele não. Tiveram que abandonar o pobre motorista do ônibus, mas porque foram obrigados.
O Sol agora se põe no horizonte, colorindo os prédios de rosa e laranja. O resto do grupo está espalhado pelos bancos de uma pequena praça em São Christóvão, um bairro histórico do Rio de Janeiro. O corpo do jovem está deitado no chão, coberto com um lençol listrado de Glória. O momento de luto paira sobre todos, principalmente Hugo, o culpado. Apenas Yan parece não perceber o que aconteceu, seus pais quiseram poupá-lo da fria verdade. Para ele, o jovem está apenas dormindo, enrolado num lençol manchado de sangue.
– A noite está para cair, Hugo – informa Alice, com os olhos molhados – Eu sei que é cruel deixá-lo assim, mas precisamos!
– Vou carregá-lo se preciso – responde ele, ríspido – Mas não vou dá-lo de comida, e ponto final!
Os olhos vermelhos se abaixam, doloridos demais para discutir. As estrelas começam a pipocar no céu azul-anil e o coro de gemidos dos mortos se torna uma melodia mais urgente, mais mortal. Alguns deles estão perambulando pelo campo de visão do grupo, mas longe demais para captar o cheiro ou ouvir o barulho. Hugo encarregou André, Junior e Bento de protegerem as entradas da praçinha, mas até agora nenhum aviso fora disparado.
– Tem um pequeno gramado ao redor daquela árvore – diz Clara, apontando para um carvalho com um carrinho de pipocas tombado ao lado – Podemos dormir num destes prédios e cavar a sepultura pela manhã.
– Nada disso – diz Hugo – Não quero carregar o corpo escada acima e depois descer tudo de novo!
A verdade é que ele não suporta mais olhar para o lençol manchado de sangue. A culpa invade-lhe o coração sempre que baixa os olhares para o corpo estendido. Eu fui um covarde pedindo socorro, pensou, E ele veio me socorrer. Um vento gelado sopra as folhas da praça e arrepia-lhe os pelos da nuca. Ainda está vestindo duas tiras destroçadas sob a jaqueta e, para piorar, os ventos se tornaram frios e gélidos. Sua bronquite vai destroçá-lo, ele sabe disso. Hugo tosse mais uma vez, e ingere mais um longo gole de xarope.
Passos apressados fazem-no virar o pescoço. André está voltando ao centro da praça, apontando com a lâmina da lança para uma das ruas próximas. Uma inteira legião de mortos surge na esquina, com o coro de gemidos esfomeados aumentando a cada passo. Hugo olha ao redor. Os outros cadáveres perambulantes notam a horda e começam a caminhar para a praça. O cheiro de decomposição atinge suas narinas, forçando-o a mais uma sessão de tosses. Eles têm alguns segundos apenas.
Nenhuma palavra é dita. Havia aulas de sinalização na colônia da escola/reino, e André se instruiu de ensiná-las aos fugitivos. Juntos, ele e Hugo içam o corpo do jovem e começam a carregá-lo por uma das ruas laterais. O grupo os segue, silenciosos e ligeiros. A munição que possuem daria conta da horda, mas os deixariam quase no zero e chamar a atenção dos mortos com tiros à noite era um belo pedido de suicídio. Sem chances de lutar, eles fogem pelas ruas do bairro, atravessando cruzamentos e congestionamentos vazios. O peso do corpo dificulta a corrida de Hugo, ainda mais com o estado dos seus pulmões. Não demora nem um minuto sequer, e ele já está respirando com dificuldades e bufando.
Atravessam mais duas esquinas e desembocam perante a uma enorme construção abandonada. O museu está silencioso e escuro, e suas janelas estão arranhadas e cobertas por uma fina camada de poeira. Ao seu lado, o pátio de veículos militares está disposto em fileiras pelo piso de asfalto. Há grades e um grande portão de ferro, forte o suficiente para passarem a noite. Mas Hugo mal lança olhares para o Museu Conde de Linhares, pois ele se lembra de outro local próximo, que pode decidir entre a vida e a morte de seu grupo.
Atrás do pátio de veículos militares há uma avenida vazia com uma rotatória enfeitada por um portão de ferro. Além dela, existe um enorme parque municipal totalmente às escuras. Mesmo assim, Hugo consegue ver as elevações e depressões arborizadas, cortadas por pequenos caminhos sinuosos. Consegue também enxergar os dois grandes lagos, com a luz do luar refletindo em suas águas, tudo isso protegido por uma extensa cerca de ferro que circunda toda a propriedade da Quinta da Boa Vista. E, lançando um olhar carrancudo sobre sua pequena colina, existe o imenso palácio imperial usado pela família real durante sua estadia, agora transformado no Museu Nacional. Hugo sente os joelhos quase cederem e algo bom preencher-lhe o coração. Pode ser esperança, ou apenas o tolo desejo de um local seguro. O parque pode ser uma dádiva, com campos para cultivo e segurança, mas também pode ser uma miragem, com grades enferrujadas e repleto de mortos. Não posso deixar mais ninguém morrer.
Os gritos de alerta o trazem de volta a realidade.
– Vamos! Já para dentro do parque! – grita Hugo, apontando para os enormes portões da Quinta da Boa Vista – Vamos nos esconder lá, agora!
Uma escolha. A dádiva, ou a miragem?
O grupo dispara pelas avenidas num sincronismo desesperado e irregular. Júlia, Denise e o doutor saem na frente, enquanto Amadeu e Elizabeth ficam por último na corrida. Hugo sente pena deles, ambos na casa dos setenta, obrigados a viverem a realidade dura do mundo pós-praga. Ele se lembra de seus próprios avós, e sua mente viaja até seus pais, abandonados pelo próprio filho. A culpa arde mais forte. Hugo voltara para casa depois do apocalipse, temia demais o que ia encontrar.
O doutor é o primeiro a chegar aos pesados portões de ferro, mas encontra-os trancados por enormes cadeados pesados. Agora que se aproxima, Hugo pode ver que não há movimentação nos bosques escuros. Talvez os militares tivessem isolado o parque após o comunicado da praga, recolhendo os itens históricos trancafiados lá dentro. O coração de Hugo se acelera a cada passo. A dádiva, então. Um enorme campo isolado, esperando delicadamente.
A solução é escalar as grades de ferro para chegar do outro lado. Primeiro, eles içam as mochilas por cima das lanças de ferro fundido que defendem o parque. Depois, eles escalam a lateral dos portões e saltam para a pista de asfalto que liga o museu a entrada, protegidos do mundo exterior. A horda de mortos esfomeados que os segue atinge o Museu Conde de Linhares, espalhando-se pelas ruas de São Christóvão. Clara aterrissa do outro lado das cercas e ajuda Hugo a transportar o corpo do jovem para o outro lado. André ajuda ambos os avós a subirem e segue logo depois, fazendo a travessia de forma elegante e silenciosa, provocando olhares ciumentos em Gabriel e Junior. Hugo fica por último, engole mais um pouco do xarope e lança um olhar ao seu redor.
Aquele lugar ali não fora mera coincidência. Aparecera quando Hugo mais precisou de ajuda, assim com a colônia da escola/reino surgiu quando Gabriel precisava de um médico. Tinham ali campos, uma vasta casa, cercas e até um pequeno templo grego, na margem de um dos lagos. Talvez Deus estivesse finalmente jogando a seu favor. Ou, para o temor de Hugo, estivesse apenas zombando, enchendo seus corações de alegria, antes de destroçá-los, como fizera no Shopping Iguatemi.
– Isso é maravilhoso! – grita Alice, andando pelas margens de um dos lagos – Daria para caber umas quatro escolas aqui, e sobraria!
Hugo finalmente põe os pés no interior do parque. Seguro. Uma palavra que ele jurara nunca mais ouvir em sua mente. Ele estava seguro, eles estavam seguros.
Hugo passa a maior parte da noite cavando a sepultura do jovem, usando as pás que conseguiram roubar da escola. Junior e Gabriel o ajudam a terminar o buraco, e depois depositam o corpo com cuidado no fundo. O grupo se reúne ao redor, para uma última homenagem. Alguns velhos conhecidos, com Alice e Glória, choram durante o velório. O resto deles, incluindo Hugo, nem sabia seu nome.
– Alguém quer dizer alguma coisa?! – responde Hugo, com a voz seca.
Amadeu passa por trás do grupo e agarra a pá, fincada num monte de terra.
– Faremos assim – diz ele, erguendo um pouco de terra com a pá – Cada um joga um pouco de terra, dizendo aquilo que quer enterrar. Pode ser uma palavra, uma lembrança, o que quer que seja! Entendido?
O grupo concorda com um único aceno.
– Bem, começarei eu – diz ele, suspirando – Minha vida repleta de médicos, exames e remédios... Adeus!
O montículo de terra se espalha pelo lençol. André é o segundo.
– Ao meu pai.
Hugo lança um olhar para Junior, e percebe a tristeza abatida nos olhos azuis do garoto. Ele sabe de alguma coisa, Hugo nem imagina o quê, mas ele sabe. Percebeu isso desde que André revelara seu apelido, Pequeno Ned. Elizabeth, Clara, Alice, Junior, Gabriel, Bernardo, Yan, Bento, Glória e Sarah. Todos enterram suas lembranças. Resta apenas cinco pessoas.
– Ao Pedro! – diz Júlia, atirando seu monte de terra.
– À Maria, ao João e o Lucas! – diz o doutor e Hugo percebe, com uma pontada de tristeza, que ele está se referindo a sua família.
– À minha diabetes! – diz Marta, provocando troca de olhares entre os integrantes do grupo. Eles não possuem insulina, nem mesmo uma única gota.
– Ao pobre Julio, que morreu me defendendo – diz a namorada do maconheiro, Denise – E ao seu filho que vou trazer ao mundo!
Os olhares se repetem. Mais um problema sério. Uma grávida e uma diabética. O silêncio recai sobre o grupo e Hugo percebe os dezesseis olhares postos em suas costas. Só falta ele.
Mas o que, ou quem eu quero enterrar? Sua mente viaja a milhares de quilômetros. Seus pais, Sophia, Os militares, Albert e Silas, Zeus e os olimpianos, Bruno e o irmão Patrick, Amanda e Felipe, Juliana, David e Oliver, Todos aqueles que ele queria enterrar, por amor ou por ódio, vieram-lhe a cabeça.
– Ao nosso passado! – diz ele, lançando o último monte de terra, sobre a cova já quase cheia – Aos que perdemos, ao que sofremos, a tudo!
O silêncio recai sobre todos. Marta abre a mochila, retira o violão e entrega um pequeno copo de plástico para a melhor amiga. Juntas, começam um versão um pouco mais lenta da cup song “When I’m gone”. Hugo começa a chorar, sem motivo, engasgando-se com uma nova crise de tosses.
– Para onde vamos agora? – pergunta Glória, com a voz embargada.
Uma facha de luz laranja se espalha pelos campos da Quinta da Boa Vista, anunciando o novo amanhecer. Hugo levanta os olhos para observar ao redor, todo o parque, isolado do resto do mundo, um paraíso verde no meio do caos cinzento. Um bando de pássaros levanta voo de uma árvore quando ele responde.
– Lugar nenhum – diz ele, cobrindo o peito nu com a jaqueta – Nós estamos em casa.
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