Notas iniciais
No capítulo anterior: O grupo de Hugo encontra um lugar onde podem chamar de lar, mas no caminho até lá, alguém fica para trás.

– Hey meninas! Precisaram retocar muito a maquiagem?

Clara e Alice se aproximam do caminhão de mudanças que bloqueia o portão principal do parque. As duas vestem calça jeans desbotada, com facas de caça presas aos cintos de couro. Clara havia optado por uma blusa branca comum sem adornos e uma bandana para fixar o cabelo rebelde. Alice era diferente. Sua blusa explodia em estampas coloridas e diversas, que combinavam perfeitamente com o casaco amarrado na cintura e os óculos escuros no topo da cabeça. Ela havia sido o motivo do atraso.

– Bom dia, Junior – suspira Clara, sem rir da piada – Hugo pediu para você ajudá-lo com os galões vazios, para caso dermos sorte no caminho.

– Vou fazer o que ordena, vossa majestade – responde ele, magoado pela falta de humor matinal das duas.

Enquanto Junior volta a subir a colina até o museu em passos apressados, Alice aproveita para abrir um dos últimos chicletes do grupo. Ela oferece para Clara e as duas sentam na grama atrás do caminhão, estourando bolas e observando sobre a copa das árvores.

No leste, o céu começa a clarear, com tímidos raios de Sol saindo de trás das fachadas mais altas. Do Sul, uma intensa tempestade espalha nuvens cinza chumbo pelos céus da alvorada iminente. No Rio de Janeiro, o clima do verão era exatamente assim, totalmente bipolar – com rápidas pancadas de chuva forte, sem hora para acabar ou começar.

Um estalo na cabine do caminhão surpreende as duas. A bola de Alice estoura com o susto.

Mal-humorado, usando um moletom surrado e um boné velho, André surge no campo de visão, limpando as mãos compulsivamente num pano úmido. Sua lança estava apoiada numa árvore próxima, junto à uma AK-47 e um engradado de refrigerantes.

– Essa droga não vai durar nem um dia! – resmunga ele, lançando um sinal de cumprimento com a cabeça, sem calor.

– Qual é o problema dessa vez?

– Ele não sabe ligar o motor! – as portas traseiras se abrem, e Júlia mete a cabeça para fora, rindo disfarçadamente. Os últimos dias também lhe caíram bem. Seu cabelo escuro e volumoso está agora preso numa trança, e as roupas rasgadas foram substituídas por um vestido simples, sob um casaco jeans. Seu rosto está mais limpo e até os olhos estão voltando ao brilho natural. O arco de a aljava cheia de flechas eram os únicos permanecentes, como um lembrete da vida real.

Junior volta carregando os galões vazios de gasolina, desta vez acompanhado de Hugo, vestido com uma mistura de lojas caras diferentes. Haviam dado sorte na última semana, ao encontrarem um shopping saqueado. Adquiriram alimentos e roupas suficientes para todos, mas aquilo fora na última semana. Então lá estavam eles, de novo.

– Jogue tudo na traseira, Junior – ordena Hugo, enquanto atira a chave do caminhão para o alto e André se esforça para pegá-la – Alice e Júlia, quero vocês atrás para caso toparmos com algum problema no caminho e Clara, tente controlar a ansiedade desse seu irmão, viu!

Junior solta um sorriso implicante e entra no compartimento de carga. Júlia e Alice o seguem, aos risos. Clara é a última a subir na atmosfera mofada e escura, enquanto André gira a ignição, rugindo o motor com o acelerador. Encontraram um corpo podre na traseira enquanto revistavam o caminhão, e todos os desinfetantes juntos não foram capazes de eliminar o odor. Por motivos óbvios, Clara não tranca as portas traseiras.

O cano de descarga cospe um rolo de fumaça e o caminhão ganha vida, rodando pelo estacionamento vazio do parque até se aproximar dos portões. Os quatro habitantes da traseira nada dizem, penas sentem o caminhão subir pela pequena rampa de acesso até o asfalto que liga a entrada ao museu, no topo da colina. André para de repente, uma das janelas se abre, seguido pelo som aquoso de aço entrando em carne.

– Ei Sarah, venha até aqui – chama a voz de Hugo, na cabine – Faça-me um favor?

– é só dizer – responde a voz da garota, por cima do ruído dos mortos.

– Confio a segurança em você – diz Hugo novamente, diminuindo o tom de voz, fazendo o quarteto da traseira se inclinar para ouvi-lo – Proteja-os, custe o que custar.

– Pode deixar comigo! Vá tranquilo, não se preocupe!

Uma ordem é dita, e o raspar de ferro indica que os portões foram abertos. André pisa no acelerador e arranca com o caminhão, deixando Clara apenas com o vislumbre de Sarah, Gabriel e Bernardo, lutando para afastar os mortos da entrada.

...

O grupo leva um tempo considerável para se localizarem na cidade. Sem o auxílio de GPS ou o Google, as únicas ferramentas de localização disponíveis são panfletos turísticos da cidade que encontraram no museu. No meio do caminho, sob a abóbada do céu cada vez mais tomada de nuvens, André decide estacionar o caminhão no meio de uma rodovia secundária, declarando definitivamente perdidos.

Os seis se juntam no compartimento de carga, compartilhando latas de refrigerante e feijão, fazendo uma vistoria em todos os mapas à disposição. André, Júlia e Junior começam um debate sobre as lojas no caminho, marcando um “x” de caneta esferográfica nas que pretendem visitar. Os outros iniciam uma partida de Uno com um baralho qualquer manchado de sangue. Clara permanece afastada durante toda a hora do almoço, recostada contra a parede do caminhão, agradecendo infinitamente por àquela hora de descanso.

Clara está exausta, literalmente muito cansada. Faz agora duas semanas que habitam o parque da Quinta, e foram as duas semanas mais trabalhosas de sua vida. Além de caminhar toda a extensão das cercas, diariamente, Clara também participara da arrumação interna do museu, limpando a poeira do chão e do teto, esvaziando os cômodos com as relíquias sem utilidade do passado. Por sinal, aquela missão de coleta não era só alimentos e roupas, iam atrás também de móveis e mobílias para deixar o parque um pouco mais habitável.

O estrondo distante de um trovão e o inicio da tempestade acordam Clara e interrompem as conversas do resto do grupo. Uma cortina de água despenca ao redor do caminhão, encurtando o campo de visão, respingando para dentro do compartimento de carga. André recolhe os mapas, enquanto Hugo ganha a partida, e ambos saltam para fora do caminhão, deslizando pelo asfalto molhado até a cabine.

O caminhão ruge debaixo dos pés de Clara, arrancando pela rodovia como uma montanha-russa da Disney, quase jogando-a para fora. André dá uma guinada para a direita, e a inércia sacode o compartimento traseiro, empurrando pessoas e mochilas para a parede esquerda. Clara se levanta com um pulo, espumando de raiva pela boca. Tirá-la de uma boa posição, quando o sono gostoso se aproxima, é um crime ruim de mais para perdoar.

Alice se ajoelha para catar o baralho de Uno, sem um fio de cabelo fora do lugar. Maldita seja você, Alice pensa Clara. Você e essa sua beleza incorrigível.

– Sabe, conseguimos encontrar um bom local a poucos quarteirões daqui – informa ela, jogando a massa penteada de cabelos para trás ao se levantar – Tem um supermercado numa rua e uma loja de móveis logo na esquina. E o melhor de tudo, umas três lojas de marca! Awwn, é um sonho se realizando!

– Você não era assim tão focada com moda quando te conheci. Você estava usando o uniforme da escola e uma calça jeans. Quando foi que ficou tão assim?

O caminhão passa por um quebra-molas, sacudindo novamente o compartimento e estragando a resposta da garota. Mas Clara notou, da forma mais discreta possível, um rápido relance entre Junior e Alice.

A chuva ainda caia forte quando finalmente os freios foram acionados e o caminhão para, cantando pneu nas poças do asfalto, há vários quilômetros de distância da Quinta. Clara vasculha sua bolsa atrás de um moletom com capuz e se enfia dentro do primeiro que aparece, um cinza amarrotado com cheiro de naftalina. O campo de visão continua embaçado, e as sombras que se mexem à distância podem ser mordedores próximos, ou apenas um matilha de cães abandonados. As portas da cabine dianteira se abrem, e não leva nem meio segundo antes que Hugo e André apareçam encharcados até os ossos.

– Está caindo um dilúvio aqui fora – comenta Hugo, quase inaudível – Vamos logo gente, ainda temos que avisar ao Noé que a coisa ta feia!

Clara salta do caminhão, aterrissando com suas botas numa poça gelada de água escura, com várias mochilas nos ombros. Ela pragueja com si própria, tentando limpar a sujeira das canelas, mas a chuva transforma a ação em algo inútil. Quando finalmente consegue, as botas de Júlia e Alice caem exatamente na mesma poça, molhando a barra de sua calça jeans e as canelas desprotegidas, de novo. Ela solta um olhar fulminante para as duas, e descobre um sorriso envergonhado nos lábios de Alice. Clara abre a boca para indicar um lugar seco sob uma marquise, quando um mordedor se lança no meio do grupo.

As ações de defesa saem desordenadas com tamanho susto. Junior se atrapalha com a faca, derrubando a lança de André e arrancando a Ruger .22 das mãos de Hugo. Alice tenta se afastar do cadáver ambulante, mas escorrega na bendita poça e cai de joelhos no asfalto. Júlia é a única a ficar calma. Delicadamente ela retira uma flecha da aljava e encaixa no arco, como se tudo aquilo fosse o mais tedioso possível. Clara se irrita, empurra o arco de Júlia para o lado, e esmaga a cabeça do mordedor no asfalto, espalhando sangue e fluidos nos sapatos de todos.

– Estamos em desvantagem aqui – comenta Hugo, aborrecido, indo buscar sua pistola – Vamos nos dividir para agilizar as buscas. Meninas, vocês ficam com as lojas de roupas da esquina. Busquem tudo o que for usável. Junior, você fica responsável pelo supermercado. Quero todos os enlatados e alimentos não perecíveis que puder carregar. André, vou precisar de ajuda com os móveis pesados. Se estiverem em perigo, atirem com o sinalizador. Vai ficar complicado enxergar com essa chuva, mas é a melhor opção que temos.

Os três meninos desaparecem pela rua chuvosa, cada um em seus respectivos destinos, deixando Clara com Júlia e uma Alice acidentada. Ambos os joelhos da garota se ralaram com a queda, não muito sério, mas doloroso mesmo assim. Júlia ergue Alice pelos ombros e a ajuda a mancar até a fachada da primeira loja. Clara segue atrás, com todas as mochilas nos ombros e um rifle, só por segurança.

As três invadem o interior da loja, mergulhando no escuro profundo que se alimenta do local. O chão está repleto de tecidos rasgados, restos de manequins e taças quebradas de champanhe. Se não fosse o incidente do lado de fora e a chuva irritante, Clara até poderia se dizer sortuda. Encontraram uma loja de grife, aquelas onde as clientes bebem coisas caras enquanto experimentam os vestidos mais caros possíveis.

– Onde a coloco? – pergunta Júlia, com a voz cansada com o esforço.

– Tem uns sofás caros logo ali no fundo – indica Clara, apontando com o facho de luz da lanterna em suas mãos – Vou ver se consigo encontrar algum kit de primeiros socorros!

Júlia acena em concordância e Alice solta um gemido meio agradecimento, meio choro. Clara varre o interior da loja com o facho da lanterna indo do lustre coberto de pó no teto, até as fileiras organizadas de vestidos para casamento. Nada. Vasculha dentro dos provadores e atrás do balcão, nenhum sinal de band-aid ou merthiolate. Está quase desistindo e voltando para as outras duas quando seus pés tropeçam em algo cilíndrico que sai rolando pelo piso. Clara se equilibra num manequim decapitado e lança o feixe de luz para o objeto desconhecido, revelando uma garrafa de champanhe lacrada, com rolha e tudo. Um sorriso surge em seus lábios. Ela retorna até o balcão e recolhe três taças que havia visto anteriormente.

Alice estava esperando pacientemente pelo retorno de Clara. Quando seus olhos se encontraram, o sorriso da garota murchou ao ver que não retornara com o kit de primeiros socorros, mas se abrira mais forte ainda ao constatar a garrafa numa mão e as taças na outra.

– Oh Deus, você é incrível! – diz ela, estendendo a mão para aceitar a primeira taça – Até melhorei!

Júlia foi menos amistosa.

– Não sei – responde ela, encarando sua taça com desconfiança, como se ela pudesse se transformar na taça assassina – Acho que não devemos nos distrair da missão.

– Hugo nos colocou num mesmo grupo por uma única razão – responde Clara, estourando a rolha – Ele nos quer fora do caminho, enquanto cuidam das coisas. Só inventou uma desculpa para isso.

Júlia ainda não estava decidida.

– Olha, faremos como a “noite das garotas” – sorri Clara, torcendo para dar certo – Aquelas reuniões onde compramos sorvete e falamos mal das outras meninas do colégio. Só que sem sorvete, e sem meninas populares do colégio.

Júlia sorri, como se a menção retomasse lembranças boas do passado. Clara enche as três taças e se joga num dos sofás.

– Agora, faremos uma brincadeira enquanto a chuva não passa – começa Clara, arquitetando um plano na mente – Uma de nós fará uma pergunta, e as outras duas terão que responder. Não vale mentiras, nem repetir as perguntas. De acordo.

– Claro.

– Super de acordo!

Um relâmpago sacode o interior da loja, clareando o mundo e fazendo chover poeira sobre as três.

– Comece você, Alice!

A garota pede tempo para pensar, engolindo alguns goles de sua taça. A tempestade sacode mais uma vez as estrutura do prédio.

– Qual é o seu maior medo?

Clara havia sido pega de surpresa. Oh, merda.

– Não encontrar minha fazenda – responde Júlia, baixando os olhos para sua taça.

– Que fazenda? – pergunta Alice, curiosa.

Clara conhece a verdade, mas não conta, pelo amor que tem por Júlia. Pedro e ela haviam combinado de fugir da cidade e ir morar numa fazenda longe de tudo aquilo, quando ainda estavam presos no shopping Iguatemi. Só que agora Pedro estava morto, e sonho da fazenda havia sido massacrado.

– Meu maior medo é nunca mais ter aquilo que perdi – responde Clara, decidindo ser sincera – Tenho medo de nunca mais voltar a sonhar com um futuro bom, tenho medo de não me formar numa faculdade, tenho medo de nunca mais comer um brigadeiro, ou até um sorvete. Merda, tenho medo de nunca mais ouvir o som da porra de um avião!

As três caem na gargalhada. Alice enche as três taças novamente.

– Sua vez, querida – sorri Alice para Júlia.

– Para onde iriam, se a Quinta fosse invadida?

Clara lança um olhar preocupado para Alice, e a resposta e a mesma no rosto da garota.

– Essa é difícil, Júlia! – reclama Alice – Mas meu voto vai para o interior do país, Minas Gerais ou algo assim. Talvez a praga não tenha chegado lá.

– Eu iria aonde o grupo fosse – responde Clara, entornando a taça inteira antes de abrir a boca – Para onde o meu irmão fosse, para onde Hugo fosse, eu iria também.

– Nossa! Profunda essa, hein.

Mais risadas entre o trio. A chuva do lado de fora diminui a intensidade, nada como uma típica tempestade de verão na cidade.

– Sua vez, Clara.

Uma risada maléfica ecoa pelos ouvidos de Clara. Agora sim, Alice. O motivo de toda a sua transformação. Sua vontade é abrir aquele sorriso dos vilões de novela, mas as duas iriam perceber a jogada.

– Ok, agora digam-me – diz Clara, pausadamente – De quem vocês gostam, entre os meninos do grupo?

O sorriso some do rosto de Júlia, e as bochechas de Alice ganham o tom de seu joelho ralado. Clara solta uma risada, divertindo-se com tudo aquilo.

– Bem... – começa Júlia – O André até que é bonitinho.

Clara abre um sorriso satisfatório e Alice solta um “Awwwwwwnt!”.

– Alice, meu bem, e você agora!

Alice abre e fecha a boca, como um estúpido peixe, sem soltar um som. Ela agarra a taça com ambas as mãos e fica encarando o líquido espumante no copo, até passar um tempo considerável em silêncio.

– Ok, você venceu, valentona – responde Alice, encarando Clara, vermelha como um pimentão – Eu acho, que estou gostando do Junior.

Clara solta uma risada tão alta que faz as outras duas pularem do sofá. O alívio era tão bom que até parecia engraçado. Alice gostava de Júnior, o estúpido e abobalhado irmão de Clara, e Júlia gostava do André, deixando seu caminho livre para... Clara, não seja estúpida. Foque-se em sobreviver, nada de romances adolescentes. Seu irmão e você estão em primeiro lugar da lista.

– Essa pergunta foi íntima demais, Clara – resmunga Júlia.

– Concordo – diz Alice, terminando sua taça – Você vai ter que responde essa também!

– Nada disso! – retruca Clara, praguejando por dentro – As regras são claras!

Alice salta do sofá, acende a lanterna e sai caminhando em passos rápidos pela loja, vasculhando armários e gavetas.

– Tudo bem, não importa – comenta ela, sem retornar – Todos já percebemos que você gosta do Hugo, Clara. Agora, esperem só eu achar outra garrafa dessas, deve estar em algum lugar do estoque...

Júlia termina o último resto de seu champanhe e se vira para encarar Clara, com um sorriso besta no rosto.

– E verdade? – pergunta ela, segurando as mãos de Clara – Você gosta mesmo dele?

– Besteira! – mente Clara, afastando-se da amiga – Eu e Hugo somos...

O grito de Alice sai vibrando pela loja, frio e medonho.

O susto explode no peito de Clara, jogando do sofá, a meio caminho em direção ao rifle, derrubando o sofá com apenas um gesto. Júlia leva outra fração de tempo para começar a perceber o perigo, tempo suficiente para Clara já se encaminhar para a sala dos fundos, com a arma em mãos. As duas derrubam um mostrador da joalheria no desespero da corrida, espalhando os cacos dos vidros em todas as direções, uma chuva reluzente e prateada de brincos e colares. Júlia tropeça numa das partes quebradas do balcão e o arco sai voando de suas mãos, rodopiando pela poeira. Clara não volta para ajudá-la, seu cérebro já decretou a ordem de correr para dentro do estoque, sem interrupções.

A porta atrás do balcão revela outra ampla sala, quase do tamanho da loja, construída quase totalmente por placas de gesso. De ambos os lados, pilhas incontáveis de caixas se acumulam junto à poeira e a escuridão fétida que assolam o local. O teto havia começado a se desprender e a fiação desprotegia balança como fios de cabelo. Clara quase escorrega ao frear naquele chão imundo, e a madeira podre sobre seus pés estala ameaçadoramente. Por um momento, ela fica confusa, lançando o facho de luz para o rosto de Alice, que está parcialmente soterrada por uma das pilhas de caixas.

– O que diabos foi isso? – pergunta Clara, ríspida – Você quase me matou de susto!

Alice nem responde, fica estatelada no chão, tremendo com o susto, olhando fixamente para os fundos da salinha de estoque. Clara revira os olhos, e levanta o facho de luz para analisar o motivo de tanto susto, sorrindo satisfeita por bancar a heroína.

O motivo surge na ponta da lanterna. O sorriso de Clara se vai.

A metade traseira da loja havia cedido parcialmente, afundando numa espécie de estacionamento subterrâneo. Porém, o subsolo todo estava inundado, possivelmente por conta das intermináveis chuvas de verão. Á água escura está repleta de pedaços do teto e do piso, misturados com corpos apodrecidos e partes do estoque da loja, até o teto amassado de um fusca é possível reconhecer. Mas o pior de tudo são os mortos. Uma dezena de cadáveres apodrecidos pelo tempo na água se amontoa sobre a cratera, esticando os braços inutilmente para a borda, acordados pelo grito de Alice e os movimentos no salão principal. Suas feições já se desfizeram, e quase impossível reconhecer o sexo. A pele verde cai em pedaços na água lodosa, expondo os ossos e a carne em decomposição.

Quando o rosto de Júlia surge ao seu lado, Clara percebe o quão frágil é o chão que estão pisando, com madeiras podres devido a água intensa e o peso de todos os vestidos, jóias e sapatos que não estavam á venda. O silêncio entre as três permanece igual, cortado pelas respirações irregulares, o barulho molhado dos mortos na água e os trovões distantes assolando a cidade. Alice leva um tempo para retornar ao seu estado habitual, e se levanta xingando e praguejando, limpando a poeira do corpo e espalhando as caixas que a cobriam em todas as direções.

– Está ferida? – pergunta Júlia, devolvendo uma flecha para a aljava, ciente de nenhum perigo.

– Só psicologicamente assustada, e fisicamente imunda!

As três caem na risada, mas de alívio que de graça. Dura apenas cinco segundos.

No sexto, o mundo inteiro afunda.

A queda dura apenas três segundos. O primeiro passa despercebido. A madeira estala pobre sob seus pés estala ruidosamente, silenciando as risadas. No segundo, a gravidade afunda o piso lentamente, separando as pranchas de madeira em lascas diversas. No terceiro, elas afundam.

Á água atinge Clara violentamente, chicoteando seu rosto, se infiltrando sob o moletom e a blusa, envolvendo-a na escuridão fétida e gelada. Seu grito sai em forma de bolhas, uma torrente de ar em direção a superfície. A luz lhe abandona, deixando-a só naquela imensidão verde musgo. Seus pés tocam o fundo. Clara dobra os joelhos e se impulsa para cima. Cada articulação dói de frio e seus pulmões gritam em pânico pelo ar que ela deixou escapar. Ela tenta nadar para cima, mas os braços e as pernas parecem não mais obedecê-la. Ela vai se afogar, tem certeza agora. Seu cérebro já se desligou, não há mais pensamentos. Seus olhos giram em todas as direções, mas a paisagem verde e escura não muda.

Clara emerge da água num último suspiro. O ar invade sua boca e as narinas, viajando pelas veias e as artérias, expulsando a água podre de dentro. Respira mais vezes, só para se lembrar da sensação prazerosa que dá. Passam-se uma fração de segundo, antes que seu cérebro volte à realidade, num choque tão intenso quanto o mergulho.

Os mortos não permanecem parados. Seus subconscientes reanimados não precisam mais de ar, portanto o avanço pode ser tanto sobre a água quanto embaixo dela. Clara entra em pânico, batendo os pés como se a qualquer momento uma mão apodrecida fosse puxá-la para baixo, as mãos descendo inutilmente até o cinto. Sua Glock .21 havia sumido, junto com o rifle e a lanterna. A única arma que lhe restava era a faca de caça atada firmemente ao cinto. Aquele fino e afiado pedaço de aço era o que separava a vida da morte.

Alice surge ao seu lado, cuspindo e tossindo, com os cabelos colados nas bochechas e na testa. Não há sinal algum de Júlia. Clara levanta os olhos para o andar de cima, mas não consegue enxergar nenhum vestígio dela, apenas a porta para o saguão principal da loja. Todo o piso havia cedido, junto com todas as caixas de roupas caras e, principalmente, elas!

– Oh meu Deus! – grita Alice, reparando no momento em que se encontrava — Estamos ferradas!

Clara tenta gritar algo de consolo, mas a voz tropeça nas cordas vocais, embolando um nó em sua garganta. Do fundo, uma estranha sensação de prazer a invade. De que serve a beleza agora hein? Quis gritar Clara. Este é um novo mundo, querida. A beleza perde para a força.

– Quando eu contar até três, prenda a respiração e me siga – grita Clara, impondo a mesma voz que Hugo usa para liderar – Procure qualquer porta submersa, ok?! Muito bem, vamos lá... Um... Dois... Três!

Clara retorna para a imensidão gelada e escura da água, desta vez batendo as pernas e os braços, como lhe ensinaram nas aulas de natação da escola. Lembrar dessa época lhe encheu de saudades. Costumava fazer natação com o irmão e Sophia, uma de suas melhores amigas. Eram quase inseparáveis, mas não estavam juntas quando a praga atingiu as cercas da escola, na primeira noite. Hugo lhe dissera que ela havia morrido, destroçada por meia dúzia deles. Talvez, se ficasse ali agora, absorvida pela escuridão gelada, poderia encontrar Sophia num lugar melhor, e as duas esperariam pacientemente pelos outros, aqueles que não cansaram de lutar.

Não, ela não iria tão fácil assim. Morrer era o caminho mais fácil, admitia. Mas Clara faria o que era certo, não o que era fácil. Ela lutaria novamente, sairia daquela água imunda para gritar em plenos pulmões como ela era guerreira, como era forte. Precisava disso, e Alice precisava dela. Forçou os membros a darem outro giro e guiou o corpo para frente.

A escuridão se adaptou aos olhos de Clara, e a garota pode ver a silhueta de vários carros submersos em suas vagas, com bolhas pequenas escapando da lataria e das rachaduras nos vidros. Os mortos continuavam avançando, mas num ritmo mais lento, devido à dificuldade de locomoção na água. As duas garotas afundaram ainda mais, com bolhas a rodopiar ao redor.

Alice para de nadar repentinamente, espalhando uma explosão de bolhas pela boca, e Clara percebe que está apontando para uma porta de madeira entreaberta, no final do estacionamento submerso. Ela concorda com um aceno e dirige o nado até lá, seguida por Alice e uma dezena de cadáveres esfomeados com pedaços de carne desprendendo dos ossos.

A porta abre espaço para um hall de elevadores completamente inundado. Ambas as portas de ferro estão trancadas e enferrujadas, soltando minúsculas bolhas para o teto. Porém, há uma terceira porta na sala, com uma plaquinha indicando uma escada e uma seta para o térreo. Clara aumenta sua velocidade e agarra a maçaneta antes que Alice sequer tivesse adentrado o hall. O ar em seus pulmões já está rarefeito, e seu corpo já grita internamente por mais. Clara joga o corpo todo contra a porta, abrindo-a de uma única vez.

A escada de serviço atrás da porta surge nos olhos de Clara assim que a água jorra pelos degraus, sugando-a do hall de elevadores. O ar volta novamente para os pulmões, espalhando-se com alegria. Alice surge logo depois, puxando o ar como um longo e dolorido arquejo. As duas nadam até os primeiros degraus secos e começam a subir a escada em disparada, saltando alguns degraus no caminho.

Elas sobem e sobem, sem parar para respirar, até que a escada desemboca num pequeno patamar de ferro, onde uma estante enferrujada bloqueia a porta antifurto da loja onde estavam. Clara solta uma risada estrangulada, novamente mais por alívio, enquanto ajuda Alice a retirar a estante do caminho para retornarem em segurança até o interior principal da loja.

– Essa foi por pouco – comenta Alice, rindo, afastando os cabelos da face – Por um momento, achei que...

A frase nem precisa de complemento. Clara entendera. Também pensara que ia morrer afogada naquela poça imunda e gelada.

– Algum sinal de Júlia?

– Nenhum, mas não a vi caindo. Posso abrir a porta?

Clara estende as mãos, sinalizando caminho livre. Alice suspira, põe a mão na maçaneta e gira com toda a sua força.

A porta não abre. O sorriso some de Alice, e Clara sente o seu escorrendo por seu rosto. Ela empurra a garota bruscamente com os ombros e tenta ela mesma, esmurrando a porta a cada tentativa sem sucesso. O grupo de cadáveres invade a escada de serviço, marchando vagarosamente, degrau por degrau. Clara força o máximo que pode, entrando pela terceira vez em pleno desespero. As duas perderam suas pistolas, e há cinco mortos para cada uma delas. O pensamento de morte vem à tona novamente, mas Clara o afasta. Pensar negativamente era uma péssima idéia.

Alice solta um grito de pânico, agarrando-se na maçaneta como se fosse um bote salva-vidas. Clara se apóia no corrimão de ferro gasto e lança um olhar para os andares mais baixos. Os mortos já ultrapassaram metade do caminho, há apenas dois lances de escada. Ela se vira para gritar um aviso à Alice, mas a cena seguinte lhe faz perder o ar dos pulmões.

A maçaneta se solta nas mãos de Alice. A garota tropeça nos próprios pés e cai, devido à força que exercia contra a porta. Seu crânio se choca com os tijolos da parede, apagando a garota de primeira.

Clara fita a amiga desacordada por alguns instantes, antes que a realidade a atinja. Agora é só ela, com uma amiga inconsciente, e dez mortos esfomeados subindo para devorá-las. A última ajuda de Clara se foi. Não tem mais como afastar o pensamento de morte. Os planos giram em sua mente, um mais perigoso que o outro. Jogar Alice para os mortos seria uma idéia, mas não ia detê-los, só atrasá-los. Jogar-se contra eles daria o mesmo efeito.

O primeiro morto alcança o patamar logo abaixo da porta, há meros cinco degraus de distância. Clara mexe a cabeça em todas as direções, procurando uma saída, qualquer coisa que a fizesse escapar da morte ou pelo menos deixá-la mais agradável. Tinha sua faca, mas a idéia de suicídio a aterrorizava. Não havia alternativa, apenas levantar a cabeça e morrer sem ser derrotada.

Clara se levanta, dá alguns passos até o final da escada e abre os braços, como se desejasse aos mortos boas-vindas e bom apetite. Quatro degraus a separam de sua morte. Apenas mais quatro segundos. O tempo passa mais devagar, os mortos sobem em câmera lenta e as gotas que pingam de Clara caem no chão com a velocidade de um caramujo. Faltam agora meros três segundos, e Clara vira o rosto, preferindo encarar sua amiga a corpos apodrecidos. Alice ia morrer em seguida, logo após segurarem toda a carne de seus ossos. Torcia para ser destroçada até ser incapaz do seu corpo a reanimar. Ia morrer para eles, mas se tornar uma deles, nunca!

Seus olhos saem do rosto de Alice e sobem para a parede de tijolos, passando pela porta antifurto sem maçaneta e a lâmpada quebrada do teto e, finalmente, pousam exatamente a estante enferrujada, jogada num canto durante a euforia das duas. Clara se reanima, saindo do caminho dos mordedores, fazendo um deles tropeçar ao tentar agarrá-la. Suas mãos tremem de medo e frio, mas ela agarra a estante firmemente e a derruba escada abaixo, provocando uma avalanche de carne podre e metal.

O plano funciona. Os mortos voltam a subir a escada, mas desta vez empurrando a estante na frente, como um escudo. Mal sabem eles que aquele escudo é para proteger Clara e Alice de seus dentes apodrecidos, carregados pelo vírus da morte. Clara se prepara para recebê-los, virando-se de costas para escada, apoiando os pés na parede oposta e sentando no patamar de ferro.

A estante se encontra com suas costas, e Clara sente o fedor bolorento dos mortos invadir sua narina. Mãos e braços descarnados se estendem pelas prateleiras, tentando agarrar inutilmente os cabelos de Clara. Ela permanece ali sentada, segurando o peso da estante e dos mortos com as costas, dando o melhor de si para proteger a si própria e a amiga desmaiada.

Eu sou forte o bastante para isso, pensa ela. Vai dar certo, tem que dar.

Clara fecha os olhos.

Eu sou forte o bastante.

Vai dar certo.

Ela houve o disparo de uma arma, mas nem sabe mais se é realidade ou apenas sonho. Tudo parece flutuar em uma sintonia diferente da sua. Clara vai perdendo a sensibilidade dos pés e das mãos, mas ainda permanece ali, agüentando o peso do mundo. Ela ouve gritos distintos, e mais um disparo.

No momento seguinte, tudo escureceu.

...

O som fraco da chuva acorda Clara, meia hora mais tarde, no compartimento de carga do caminhão. Ela foi enrolada numa coberta quente e alguém lhe tirou o moletom molhado. Sua faca não está mais em suas mãos, e Clara se sente em perigo sem ela por perto, levantando-se rapidamente e ficando em pé. Arrependera-se depois, sua cabeça ficou tonta com o movimento repentino.

– Fique calma! – sussurrou uma voz, no escuro bolorento – Você está segura agora...

– Hugo?

– Eu mesmo. Consegue se lembrar do que aconteceu?

– Não, não muito bem – responde ela, com sinceridade – Estávamos jogando um jogo, e aí Alice foi buscar mais bebida... Tinha muita água, e havia mortos também. Júlia havia sumido. Éramos só eu e Alice, depois ficou só eu. Não me lembro de mais nada.

Hugo surgiu de um canto, ensopado da cabeça aos pés. Os outros dormiam em sacos de dormir ao redor dela. André devia estar na cabine, dirigindo de volta para casa. O alaranjado do entardecer coloria as nuvens de chuva, deixando o céu com uma aparência bizarra, cor de abóbora.

– Clara, você pode não se lembrar, mas você foi incrível – contou ele, abrindo um sorriso caloroso – Você salvou a vida de Alice e a sua, colocando-se na frente deles tempo suficiente para Júlia disparar o sinalizador. Você foi uma verdadeira heroína hoje.

Sou forte o suficiente.

Clara pretendia sorrir para ele, dizer alguma coisa ou corar. Mas ela se limitou a chorar, colocando seu desespero pelo tempo naquela loja para fora, em grandes soluços e cascatas de lágrimas. Ela tenta parar, está fazendo papel de idiota ali, chorando feito uma criança fraca. Mas não consegue.

Hugo a envolve num abraço apertado, estilhaçando o coração de Clara. Ela afunda o rosto do ombro dele e chora mais ainda, apertando-se contra o pescoço do garoto a cada soluço. Ele tenta afagar seus cabelos, mas a posição torna o ato desleixado. Durante pouco tempo, ou uma eternidade, ela chora no ombro dele, afogada em seus pensamentos. Talvez Alice estivesse certa, talvez ela realmente tivesse uma queda por Hugo. Ela era forte o suficiente para aquilo, e ele era mais forte ainda. Até que formavam uma boa dupla.

O caminhão freia inesperadamente, e a inércia joga Clara e Hugo contra a parede do compartimento. Os outros acordam assustados, gritando em busca de armas ou facas, acreditando num ataque. O silêncio paira sobre eles, como nos filmes de suspense. A porta da cabine se abre, o grupo prende a respiração. Os passos de André duram eternamente, abafados pela chuva fina.

O rosto do garoto surge na traseira do caminhão. Seus olhos estão marejados, como se ele estivesse lutando muito para não chorar.

– Hugo, acho melhor você dar uma olhada aqui – comenta ele, com a voz embargada confirmando as suspeitas de Clara.

Hugo salta para o asfalto em desespero, Junior e Júlia o seguem. Clara fica para trás, na frente apenas de Alice. As duas descem juntas do compartimento e Alice segura nas mãos de Clara, sussurrando um singelo, mas sincero obrigado.

A resposta de Clara some com a cena que se ergue na frente do caminhão. Estavam diante dos portões da Quinta, o lugar intocado pela praga que começavam a chamar de lar, mas aquele não era o lar que Clara tinha deixado para trás, naquela mesma manhã.

Os portões estavam escancarados, as depressões e vales fervilhavam com meia centena de cadáveres reanimados, vagando sem rumo em todas as direções. Não havia nenhum sinal do resto do grupo. O interior do museu era escuro como o breu, sem nenhum sinal de vida.

Os joelhos de Hugo bambeiam e cedem. O garoto cai de joelhos no asfalto, tossindo descontroladamente. Clara vai até ele e apóia sua mão em seu ombro, o mesmo que ele emprestou para ele chorar.

Eu não sou forte o bastante. Mas eu vou ser. Se não por mim mesma, por Hugo ou Junior. Eu não sou forte o bastante, mas preciso ser.