– Solta ela! – repeti impaciente.

O sujeito me olhou de modo agressivo, me examinando com uma frieza calculada, depois estendeu os lábios no que parecia um sorriso.

– Claro! Dêem-me as armas! – ordenou.

– Não vamos fazer isso! – respondeu Shane.

O homem franziu a testa, guardou a pistola no coldre, tateou os bolsos da calça, retirando uma navalha. Um movimento rápido e a lamina saltaria.

Vanessa estremeceu.

– Por favor! – disse apreensiva.

O homem colocou a lamina da navalha rente ao pescoço de Vanessa.

– Se os seus amigos não me dar às armas, eu corto seu pescoço! – disse ele.

Iríamos entregar as armas por ela, mas estava receoso de que mesmo que se fizéssemos isso ele não a soltaria.

Abaixei a besta num gesto de rendição e a entreguei para ele, Shane continuou com a arma em punho mirada para o sujeito; Vanessa o olhava ansiosa, esperando que ele fizesse o mesmo.

Shane abaixou a escopeta e a estendeu para o homem, que a pegou num movimento rápido do pulso forte.

– Agora solta ela! – disse.

O homem soltou Vanessa, que imediatamente se juntou a nós.

– Você está bem? – perguntei.

– Estou! – Vanessa respondeu num fio de voz.

Mas sabia que não estava, eu não estava, ninguém estava, nós seriamos executados assim que déssemos as costas, conhecia muita gente assim, convivi com eles, uma hora ou outra vai te atacar pelas as costas, sem ao mesmo te dar uma chance de se defender.

O sujeito nos encarava, como que se decidisse o que faria com a gente.

– Vamos levar aquela belezinha ali! – apontou para o Impala – Peguem o carro! – ordenou para seus homens, que tão logo o fez.

– Não! Por favor! – pediu Vanessa, esforçando-se para conter as lagrimas que teimavam em querer surgir.

O homem a ignorou.

– Você já tem o que queria, tem as armas, o carro, não pode querer tirar mais nada de nós! – disse Shane.

– Se eu quiser, eu tiro tudo que vocês têm! É simples. Eu mato os dois, pego a garota, a caminhonete, faço a vadia falar onde é o acampamento de vocês, mato todos que estão lá e pego tudo que eu quiser!

– Você não faria isso. – disse Shane.

– Eu não tenho nada a perder! Sabe... Eu aprendi duas coisas com essa porra toda. Que quando alguém quiser alguma coisa sua, dê, ou se não eles iram atrás de quem você ama. E que podemos matar qualquer um, porque isso é sobrevivência, e só os fortes sobrevivem. Só quem é forte o suficiente parar seguir em frente sem olhar para trás, independente de toda dor e arrependimento. Vocês não conseguiram ir adiante e voltaram pela a garota, logo esse mundo vem e da uma rasteira em vocês.

– Isso aconteceu com você? – retruquei.

– Cala a boca!

– Então deixa que o mundo decida isso!

– Acontece que eu vou adiantar isso para vocês. – o sujeito apontou a escopeta para nós.

– Não! Você não precisa fazer isso, por favor! – Vanessa implorou.

– Cala a boca! – berrou o homem.

– Fique com as armas, pode ficar com o carro, mas nos deixe ir, por favor! – Vanessa insistiu.

– Quer saber. Mudei de idéia. Não quero o carro, quero você!

– Por favor! Eu... Eu to grávida. Você não quer fazer mal para uma criança inocente.

– Grávida? – repetiu o homem – Todo o mal que poderia existir você já fez para essa criança, trazendo ela para esse fim de mundo!

Vanessa não estava grávida, pois já teria falado a respeito, talvez fosse apenas uma forma que ela encontrou para tentar fazer com que o filho da puta voltasse atrás.

– Scott! Chamou – Venha aqui!

O outro homem, Scott, veio até o “líder” do seu grupo de depravados, com passos largos e pesados.

– O que é? – perguntou.

– Ela esta grávida. – apontou para Vanessa.

O homem deu um tiro na cabeça de Scott, que ecoou por mata a dentro. O cara caiu de costas no chão, com um estrondo forte pelo impacto. O sangue começou a se espalhar lentamente, um vermelho vivo.

Vanessa estava assustada com a cena que acabara de ver, os olhos arregalados e as mãos na boca, segurando um grito que estava na ponta da língua.

– Peguem os carros! Vamos dar o fora daqui antes que os caminhantes apareçam! – gritou para seus homens. – Já vocês, vão entrar naquela maldita loja!

– Não vamos entrar lá! – disse Shane.

– Olhem para ele. – apontou para Scott estirado na estrada – Ele era meu amigo e eu o matei! Por que não mataria vocês também? – o homem franziu a testa e nos encarou.

– Vamos! – disse eu. — Vem! – puxei Vanessa pelo braço.

Caminhamos em silencio até uma pequena loja de conveniência, com passos rápidos, mas temerosos.

A porta estava emperrada, Shane irritado, chutou a mesma que se abriu com um forte baque. Entramos.

Aquele odor de petrificação estava no ar, semelhante ao fedor que impregnava aquela loja no posto.

– Agora fechem a porta! – gritou o homem do lado de fora.

– Não vou fechar essa maldita porta! – disse Shane.

– Agora! – berrou o sujeito.

Vanessa impaciente e assustada fechou a porta.

A escuridão que se fez no local, parecia escarnecer de nós. Tateei os bolsos da minha calça a procura do meu isqueiro. Equipei-me com ele para explorar a loja e ele produziu um brilho forte que era bastante adequado – infernalmente adequado!

Aquele lugar estava devastado, prateleiras, cadeiras viradas e jogadas a esmo. Dinheiro, folhetos e enlatados jogados ao chão. Sujeira, mofo e poeira cobriam toda loja. E como se não bastasse, havia no chão uma trilha de pus escuro misturado com filetes de sangue. Acompanhei o rastro com os olhos que seguia em meio à escuridão. Fui andando seguindo a trilha, evitando pisar na gosma que sujava o chão. As paredes ecoavam meus passos e minha sombra parecia dançar e ganhar formas conforme eu avançava com a chama que o isqueiro produzia.

Uma tremenda e horrível forma apareceu emergir da escuridão. Larvas rastejavam na testa descarnada. Um avental apodrecido pendia das clavículas tortas e putrefatas. Os olhos amarelados fitavam-me com algo mais que loucura; com fome.

O errante avançou a fim de me atacar, cambaleei para trás, Vanessa me segurou.

– Você esta bem? – perguntou aflita.

– Vamos dar o fora daqui! – disse.

Corremos para a porta, ouvi os carros irem embora, ao mesmo tempo houve empurrões na porta, imaginava por quanto tempo resistiria contra o peso de um zumbi. Não por muito tempo.

Uma das janelas foi quebrada, o vidro se estilhaçou no chão e uma cabeça de zumbi surgiu do lado de dentro da janela, o braço tentando curvar-se de modo que pudesse nos agarrar.

Ouvimos mais baques do lado de fora do estabelecimento, desta vez de todos os lados, os gemidos aumentavam e isso nos apavorava.

Estávamos presos, sem saída, sem armas.