The Union Game - Interativa
3 A Captura, por Larissa J. Parks & Caio Andrade
E da forma mais inesperada, vejo pela nossa pequena televisão que os apresentadores do The Union Game mencionam meu nome, o de Samanny e Jason. Eu nunca iria imaginar que jovens da ex-Antártida seriam obrigados a participar desse jogo medíocre. E de uma hora pra outra sou eu que devo ir pra lá. É algo inesperado que nos deixa sem chão por algum tempo, mas acredito que eu reagirei diferente da maioria dos jovens que foram selecionados ou sorteados.
Como a população aqui na ex-Antártida é bem reduzida, conheço bem os dois jovens que vão comigo para aquele lugar. Ambos são filhos de pesquisadores que já trabalharam com meu pai, que infelizmente não está mais aqui. Os demais pesquisadores apoiaram a mim, minha mãe e meus irmãos, já que não tínhamos para onde ir. Desde então, passei a ter presença mais forte em casa, auxiliando em tudo o que eu podia, fazendo de tudo para vê-los felizes. Mas agora terei de ir ao Campo. terei de deixá-los sozinhos, mas eu voltarei para buscá-los. Tenho certeza disso.
Aslan, o meu leão dourado, parece tranquilo e relaxado. Na verdade, até menos preocupado do que eu. Acho que ele já passou por tanta coisa, que saber que terá de guerrear pela vida não é algo que o espante. Ou talvez seja porque ele é de fato, muito durão.
– Alô? – o telefone toca poucos minutos após o anúncio surpresa. Atendo tendo certeza que do outro lado da linha está Jason ou Samanny.
– Você viu? – era ela. – Viu que teremos que lutar pela vida?
– Sim, eu vi. – respondi friamente. – Como você está se sentindo?
– Eu estou apavorada. Sei que logo eles estarão aqui para nos pegar, e eu não sei o que fazer depois que soube da notícia.
– Imagine então aqueles que nem sabem e serão pegos de surpresa.
Desde que me conheço por gente, vivo assim, perambulando de um canto para o outro, sem rumo. Só eu e ele. Já passei por muita dificuldade na vida, mas depois de um tempo, você passa a se especializar no que faz, e aquilo se torna normal e fácil. O que eu faço? Eu roubo para viver.
Sei por alto o que acontece aqui na Junção e lá na Central também. Sei porque escuto as pessoas comentando nas ruas, ou então em jornais antigos que encontro nos lixeiros. Sei que é geralmente nesta época que são selecionados jovens para irem ao TUG. Sempre pensei em como seria engraçado se um dia meu nome aparecesse naquela tela. Como é que os centrauros (os soldados da Central que vem ao encontro dos escolhidos e sorteados para levá-los à preparação ao Campo) iriam encontrar a mim e Chooper? Somos nômades. Uma hora estamos aqui, outra acolá. Eles passariam um bom trabalho me procurando em todas as ruas da ex-África.
Ouvi dizer que este ano está repleto de meninas. Não dou muita bola pra isso, prefiro nem saber quem são os participantes. Apenas continuo a minha rotina: lutar (e roubar) para viver.
Eu sabia que estava sendo um pouco rude com Samanny, mas era necessário. Meus sentimentos em relação à aproximação estão bastante confusos. Ela agora é minha adversária. Não podemos sair ambas vivas de lá. Então, prefiro já me afastar desde então.
– Samanny, se não estou enganada, nós seremos os primeiros a serem buscados. – comentei, expressando minha opinião, com a intenção de desligar logo o telefone. – Eles sempre buscam primeiros aqueles que estão mais longes, ou em lugares de maior dificuldade, para preservar os participantes.
– Também pensei nisso. Aqui é muito frio, então, antes que algum de nós morra congelado, eles estarão aqui com lareiras personalizadas para nos manterem aquecidos até entrar no Campo. – Samanny ainda conseguia fazer piada com a situação. É por isso que (as vezes) a admiro.
– É verdade. Só lhe digo uma coisa, Samanny. Quando os centrauros chegarem não torne as coisas difíceis. Vá de livre e espontânea vontade. Dizem que é menos doloroso.
– Vou me lembrar disso! – um silêncio pairou no ar durante alguns segundos. – Obrigada. É... Vou ligar pro Jason. Até mais.
– Até. – coloquei o telefone no gancho e logo me dirigi ao meu quarto. Era preciso arrumar minhas coisas, se bem que os escolhidos e sorteados levavam pouquíssimas coisas pessoais, a maioria era doado pela própria Central.
Fazia cerca de meia hora que eu estava no meu quarto, Aslan deitado no tapete no chão, quando os centrauros chegaram. Penso eu que, como somos os únicos nessa faixa etária aqui na ex-Antártida, eles já estavam viajando para nos buscar, antes mesmo de o anúncio ter sido feito na televisão. Minha mãe, chorosa, abriu a portas para um dos soldados, totalmente vestido de preto. Ele seria o responsável por me levar ao casulo.
Chooper estava dentro da minha blusa, estávamos combinando de entrar em uma casa para pegar algo para comer. Caminhando como quem não quer nada, avistei uma senhora saindo de casa com uma sacola retornável em suas mãos, para ir ao mercado que ficava a algumas quadras de sua casa. Percebi que havia certo “fuzuê” nas ruas da cidade, mas eu não sabia o motivo. Mas é claro, notei que aquela era a chance de entrar lá e poder me alimentar um pouco. Eu nem precisaria pensar muito. Ela havia deixado a porta aberta e com a distração gerada pelo barulho, que pareciam ser de viaturas militares, eu entraria lá sem ser percebido por ninguém.
Meu esquilo estava nervoso dentro de minha blusa, ele sempre ficava assim quando estávamos prestes em nos meter em enrascada. Eu tinha consciência que não poderia abusar da sorte. Entrei na casa da senhora e fui direto à dispensa. Peguei alguns pacotes de biscoito, algumas bebidas em caixinha. Fui à cozinha e peguei algumas frutas sobre a mesa. Estava voltando à dispensa quando escuto alguém bater na porta.
“Não atenda a porta” – Chooper me disse, em pensamento.
“E por que não?” – eu gostava de provocá-lo, e ele sabe disso. Chooper não me respondeu mais, ele sabia que quanto mais ele insistisse, mais eu iria contrariá-lo.
Caminhando em direção à porta pensei que se alguém batia a porta, a proprietária não seria. Também não devia ser nenhum dos vizinhos, primeiro porque não há nenhum muito perto e segundo, porque praticamente todos da região estavam curiosos e agitados com todo o barulho lá fora. “Falando nisso, cadê o barulho?” Minhas mãos já estavam abrindo a porta quando esse pensamento me ocorreu. Vários homens de preto estavam do lado de fora da casa. É claro que eu sabia quem eles eram: centrauros. Estavam atrás de mim, e sabiam que eu estava aqui.
Eu não iria permitir que eles me pegassem, não sem antes tentar lutar. Lutar por mim. No mesmo instante virei as costas para os centrauros e sai correndo pela casa. Eu tinha algo ao meu favor: eles tinham armas, mas nunca me matariam. Como é que anunciariam que um sorteado para o joguinho deles foi morto por um dos centrauros?
A casa dela era grande, eles corriam atrás de mim. Eram muitos e eu tinha certeza que alguns também tinham ficado do lado de fora. Passei pela cozinha com a intenção de ir à dispensa. Na cozinha, peguei uma faca que estava em cima da pia, me virei rapidamente e a joguei num deles, que quando atingido, caiu no chão atrapalhando os demais. Peguei outro objeto cortante, um pouco maior que uma faca, e corri para a dispensa. Lá, fechei a porta e derrubei um grande armário, para dificultar a abertura da mesma. Eu sabia que uma hora ou outra eles conseguiriam entrar, então eu tinha que me esconder ou fugir. Em outro armário, tinha algumas grandes caixas onde ela estocava alimentos. Joguei os alimentos de uma caixa no chão, para parecer que eles tinham caído do armário que derrubei, abri uma das janelas e me escondi na caixa. Cerca de cinco minutos depois eles já estavam andando pelo local. Todos eles circularam pelo ambiente e, acreditando que eu havia pulado a janela saíram da dispensa.
Eu tinha pouco tempo para me despedir de minha família. Eu não iria chorar, não daria esse gostinho para a Central, e não permitiria que o último momento que minha família lembrasse de mim antes de ir para o TUG fosse com lágrimas correndo pela face.
Abraçando um de meus irmãos, pude ver um pouco do que acontecia lá fora. Havia outros centrauros e nos braços de um deles, já estava Samanny. Ela chorava, mas não resistia às ordens dele. Suas forças já deviam ter se esgotado e ela sabia que não adiantava de nada fazer aquilo. Nosso futuro já estava descrito e ninguém poderia mudar isso. Kishan, o cão de caça de Samanny estava enfiado em meio as suas pernas, estavam ambos esgotados.
Depois de algum tempo, por não ouvir mais nenhum passo, movi a caixa lentamente de cima de mim. Não havia mais ninguém na dispensa: era minha chance. Pulei os produtos e sai correndo pela porta, quando uma rede envolveu minhas pernas e me fez cair ao chão. Um deles estava atrás da porta, esperando eu sair para dar o golpe final. Chooper ainda no meu bolso resmungava. Eu não conseguia me desvencilhar da rede. O centrauro que me pegou falou com seus colegas, e de maneira imediata vários deles estavam me levantando e levando-me para seu veículo. Não havia mais jeito, eu teria que ir.
Após abraçar a todos, assobiei para que Aslan me seguisse e estendi a mão para o centrauro, que com cavalheirismo, me deu a mão e me dirigiu para seu veículo. Olhei mais uma vez para minha família e sorri para eles, tentando tranquiliza-los. Samanny sentou ao meu lado e juntas, fomos buscar o último integrante da ex-Antártida.
Notas finais
Vocês acham que tá ficando confuso usar duas histórias num capítulo só? bjsss
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