Não tinha cheiro de café da manhã quando levantei. Erik estava sentado no sofá junto de Jay e Ash.

— Ah! Bom dia, Sam. – ele disse.

— Bom dia. – respondi.

— Estava dizendo a eles que vou na cidade comprar algumas coisas. Transferi um dinheiro pra minha conta aquele dia.

— Certo. Mas, Erik...É perigoso você ir!

— Quem você sugere?

— Eu mesma.

— Não, não! Eu vou e acabou.

— Eu vou com ela, Eri. – suplicou Ashley. – Quero ter um passeio de garota.

Erik parou para refletir no pedido da irmã.

— Tá certo... – ele virou a cara. – Voltem em uma hora.

— Erik, uma hora não dá pra nada!

— Você sabe muito bem que uma hora é o suficiente, antes que capitem o seu sinal.

Ashley fez bico e cruzou os braços.

— Tá bem.

— Sam, tem certeza que está bem? – ele perguntou.

— Sim. – disse confirmando com a cabeça.

— Tome um banho antes de ir.

— Tá me chamando de suja? – cruzei os braços em tom brincalhão.

— Óbvio que não! – ele respondeu rindo. – É que talvez um banho te ajude a despertar. Você que sabe.

Ri enquanto me enquanto me encaminhava para o banheiro.

Tirei a blusa regata de Erik e observei o furo que havia resultado do tiro. Estava liso, havia pequenos pontos em formato de círculo, mas nada que fosse visível de primeira vista. Jay havia feito um belo trabalho.

Liguei aquela maldita ducha e tomei o banho mais breve do mundo. Quando estava me secando, alguém bateu na porta. Enrolei a toalha no corpo e respondi.

— Pode abrir.

Era Erik com uma pilha de roupas. Ele olhava para o chão.

— Trouxe suas roupas. Estão limpas. – ele colocou no balcão que havia perto da porta.

— Obrigada. – eu disse e ele fechou a porta.

Aquela minha roupa me dava uma lembrança ruim. Foi a última roupa que usei antes de abandonar meu pai e ver minha mãe doente. Mas como era a única opção, vesti sem reclamar.

Vesti minha blusa do filme Lucy, depois coloquei o moletom rosa, mas o deixei aberto. Mexi na calça e dele caiu minha calcinha preta. Eu nunca senti tanta vergonha na vida. Erik a teria lavado? Meu Deus.

Afastei os pensamentos e terminei de me vestir. Quando saí do banheiro, Ashley esperava por mim ansiosamente.

— Vamos, Sam? – ela disse rapidamente.

— Vamos. – respondi.

— Uma hora. – Erik relembrou.

— Fica tranquilo, Eri. – disse Ashley. – Tchau pra vocês.

Dei um aceno e segui ela.

— Quanto dinheiro Erik te deu? – ela perguntou enquanto descíamos as escadas.

— Ele não me deu nada.

— Confere seu telecomunicador, Sam.

Toquei no comunicador.

— Olá, Samantha.

— Oi, Diana. Erik fez alguma transferência?

— Sim. Deixe-me conferir... Mil e quinhentos dols.

— Dols? O quê é isso?

— Nossa moeda. – disse Ashley. – Mas, afinal, quanto ele transferiu?

— Mil e quinhentos.

Eles fez barulho com a boca.

— Mão de vaca. Isso só dá pra comprar comida.

— Mas mil e quinhentos é muito dinheiro!

— Na sua Terra só. Isso aqui é o troco do pão.

Fiz cara de espanto, mas não discuti. Desliguei o comunicador e fiquei pensando em como nossas realidades, literalmente, são diferentes.

Ashley abriu a porta com cuidado. Saímos do beco sem sermos vistas e rapidamente nos misturamos à população.

— Eu achei que no futuro, as pessoas usariam roupas de couro e látex bem justas. – falei brincando.

— Quem usa isso é as prostitutas ou assassinos. – ela riu.

— Só você mesmo.

Ela me guiou durante todo o percurso. Não iríamos para o centro, pois poderia ser mais perigoso.

Fomos em um mini mercado que havia logo na frente. Diana me dizia o preço de tudo e fazia as contas dos produtos que escolhíamos.

Os produtos eram caros e muito diferentes. Escolhemos pouca coisa e já havia dado mil e duzentos. Ashley parecia querer que sobrasse um pouco de dinheiro para comprar algo.

Quando saímos da loja eu pedi para que Diana transferisse o restante do dinheiro para Ashley.

— Ash, olha seu comunicador.

Ela o tocou e ficou muito feliz quando viu o dinheiro.

— Obrigada, Sam! – ela disse com um sorriso de orelha a orelha. – Vou na loja comprar uma coisa e já volto! Fica aqui.

Tentei protestar, mas ela correu e atravessou a rua até uma loja que havia ali. Atravessei a rua e a esperei do lado de fora.

Ela estava demorando e nosso tempo acabando.

— Samantha, acho melhor você procurar Ashley e irem embora. Capito um sinal estranho.

— Defina estranho.

— Seguranças do Carter.

Meu coração acelerou e uma onda de pânico começou a se formar em meu peito. Ashley saiu sa loja no mesmo momento, ela estava radiante, mas logo que viu minha cara de desespero, o sorriso foi se desmanchando.

— Estamos sendo seguidas? – ela perguntou sem rodeios.

— Estamos. Vamos sair daqui agora. – eu disse pegando firme na mão dela e andando.

— Não podemos voltar para casa! Temos que nos esconder. – ela disse desesperada.

— Esconder onde?

— Não tenho ideia. – ela olhou para trás e voltou rapidamente. – Atrás de nós, Sam.

— Quantos?

— Uns dez.

Eu queria chorar. Gritar. Correr bem rápido. Eu não poderia deixar nada acontecer com a Ashley. Eu sabia que aqueles homens eram monstros horríveis, pois não tiveram dó de executar duas crianças.

Acelerei o passo. E na mesma hora, lembrei que Erik havia colocado um rastreador em mim.

— Envia um sinal pro seu irmão. – falei entre dentes enquanto virávamos uma esquina.

— Sinal do quê?

— Um sinal nosso. De onde estamos. De que estamos em perigo. Essas porcarias devem fazer isso. – falei irritada.

Ela agiu rapidamente. Eu vi um sinal vermelho que piscava exatamente onde estávamos. Erik devia saber o que significava.

— Vamos virar nesse beco. Joga fora o telecomunicador. – ela disse arrancando o dela e pisando com força. – Devem ter hackeado nosso sinal com os aparelhos do T.E.C que vocês deixaram para trás.

Eu não queria que Diana "morresse", então hesitei.

— Tem backup da sua I.A.. Joga fora logo. – ela pego meu comunicador e quebrou.

O beco havia uma saída logo à frente, mas dois homens apareceram e vieram na nossa direção. Andamos para trás e esbarramos em mais dois. Eles seguraram nossos ombros com força e impediram que corrêssemos .

— Samantha Willians da Terra 610, você vem conosco. – disse o que me segurava.

— O quê fazemos com a criança? – disse o que segurava Ashley.

— Executem e joguem o corpo na lixeira. – ordenou o mesmo homem.

Um desespero incontrolável tomou conta de mim. Matar a Ashley? Eu jamais permitiria isso.

Dei uma cabeçada que atingiu o homem com força, rapidamente, fechei o punho e acertei na parte de baixo. Peguei no pulso de Ashley e corri com ela, os homens pegaram armas e apontaram. Eu não queria que ela morresse, então fiquei em sua frente, formando um escudo.

Fechei os olhos esperando senti o mínimo de dor possível, mas só escutei tiros sendo trocados.

— Corre, mulher!

Abri os olhos e vi Yano lutando para nos proteger.

— Corre logo! – ele gritou enquanto puxavam um home para trás e lhe desferia um soco no rosto.

Ashley e eu corríamos como se o mundo estivesse acabando. Só paramos em uma esquina quando não aguentávamos mais.

— Aí tô morrendo. – eu disse arfando. – Nem comi nada hoje. Como consegui correr isso tudo?

Ashley permaneceu em silêncio.

— Ei, tá tudo bem? – perguntei.

— Sim. – ela respondeu secamente.

— Puts, larguei toda a compra pra trás. Espero que o Yano ache.

— Eu achei.

Dei um pulo de susto.

— Te assustei é? – ele brincou.

— Imagina...

Ele não parecia ferido de tiros, mas seu olho estava inchado e roxo.

— Por que vocês estavam sozinhas? – ele questionou enquanto colocava as sacolas no chão.

— Viemos comprar comida. Não imaginei que um batalhão nos atacaria. – respondi. – Mas por que você recebeu o sinal?

— Fui no apartamento e Erik não estava. Vi o monitor e o pedido de ajuda, vim o mais rápido que pude. – ele respondeu. – Vocês estão feridas?

— Não.

— Então vamos embora. – ele pegou as sacolas e seguimos caminho rapidamente.

Quando voltamos para o apartamento, Erik ainda não havia voltado. Jay veio ao nosso encontro.

— O que aconteceu? – ele perguntou preocupado.

— Onde o Erik foi? – Yano perguntou sentando no sofá.

— Não sei. – ele respondeu. – Vocês estão bem?

— Estamos, Jay. – falou Ashley. – Me ajuda a fazer algo pra comer.

Fui até a geladeira e peguei gelo. Coloquei em uma sacola e coloquei no olho roxo de Yano. Ele soltou um suspiro de dor.

— Desculpa. — falei.

— Tudo certo. Obrigado. – ele pegou a sacola e apertou no olho.

Peguei o kit médico e o sentei no sofá.

— Me deixa limpar esse corte. – falei gesticulando para a boca.

Ele se aproximou.

— Eu não agradeci antes. Mas obrigada por salvar minha vida.

— Não precisa agradecer.

Peguei outra gaze.

— Sabe, Sam. Você não é uma pessoa ruim. Me desculpe por aquele dia. Causei uma péssima primeira impressão.

— Tá tudo certo. Você só quer proteger sua família, eu entendo.

Ele sorriu.

Coloquei um curativo pequeno no machucado de sua boca.

Jay e Ashley fizeram panquecas salgadas para nós. Eu não havia percebido como estava com fome até aquele momento.

O sol foi encoberto por nuvens bem densas. Raios e trovões eclodiam no céu.

— Vai cair um chuvão. – eu disse.

O aparelho de Erik começou a apitar estridentemente.

— O Caça-Tempestade deve estar quebrado. – Ashley disse enquanto mastigava uma panqueca.

— Improvável. – disse Yano. – Erik sabe o que faz.

Jay foi até o Caça-Tempestade e o desligou.

Yano deitou no sofá, Jay voltou a ler seu livro e eu subi para deitar na cama um pouco. Ashley veio atrás.

— Sam...

— Oi! Que foi? – eu disse me sentando na cama.

— Comprei pra você. – ela me entregou um pequeno pacote embrulhado.

— Ah, Ash! Obrigada! – abracei-a.

Era uma pulseira de couro preta com uma borboleta de metal prateada.

— Eu amei! Muito obrigada! – disse enquanto a colocava no braço.

— Que bom! – ela deu um sorriso. – Sei que você gosta de borboletas, então escolhi com esse desenho.

— Decisão perfeita! – sorri de volta.

A porta de entrada foi aberta com tudo. Yano levantou na hora. Era Erik.

— Vamos sair daqui! Agora! – ele gritava alterado.

Desci as escadas com Ashley.

— O que tá acontecendo? – perguntei.

T.E.C e Jake apareceram.

— Carter. Ele está vindo. Ele quer levar a Sam.

— Por quê?!

— Seus poderes. Tem algo de especial. Diferente e ele quer. – ele falava enquanto revirava armários e enchia uma bolsa.

— Pra onde vamos? – Yano perguntou.

Erik parou um instante e olhou seu amigo nos olhos.

— O que aconteceu quando eu estava fora? – ele perguntou.

— Fomos atacadas por homens de Carter. – explicou Ashley.

Erik fechou os olhos. Seu corpo todo tremeu de raiva.

— Peguem tudo que é importante. Rápido!

Corri até o andar de cima e peguei meu diário. O coloquei nas costas.

Escutei um barulho de algo pesado caindo. Olhei e vi o corpo de Jake estirado e sangrando. Seus olhos estavam abertos. Ele havia morrido.

Desci rapidamente e senti Erik me puxar para fora dali. Os tiros vinham da sacada.

Descemos as escadas. Ashley, Jay, Yano, Erik, T.E.C e eu. Ouvimos a porta de saída ser arrombada, então Erik abriu e a trancou rapidamente.

T.E.C. acendeu uma lanterna e então disse:

— Pessoal, obrigado por tudo. Vocês me acolheram, me apoiaram, protegeram eu e meus irmãos. E eu preciso retribuir. Amo vocês. – ele jogou a lanterna para Yano e abriu a porta. – Se salvem. – e a fechou com tudo.

— T.E.C! – Erik gritava enquanto batia na porta e a tentava forçar. – Não faz isso cara!

Tiros foram ouvidos. T.E.C estava nos dando tempo para fugir. Yano abriu uma passagem escondida atrás de um armário.

— Anda, Erik. – ele disse, mas Erik não se moveu. – Ele fez um sacrifício e será lembrado por isso. Mas se você quiser viver, quiser que Sam, Jay e Ashley fiquem vivos, vai ter que desgrudar dessa porra de porta e entrar na passagem.

A mão de Erik escorregou pela porta enquanto ele ouvia os gritos de dor. Yano o puxou e o empurrou na passagem.

Era bem apertada. Uma escada estreita que nos levava para um final incerto. No final da escadaria, havia uma portinha, eu a destranquei e saímos para fora. Estava chovendo.

— Por aqui. – disse Yano apontando para a direita.

Ele se esgueirou no muro e observou a rua onde ficava a entrada principal.

— Lotada. – ele disse.

Erik ainda estava perdido. Então toquei em seu ombro, para lembrá-lo de que ainda estávamos ali. Ele sorriu para mim, mas era um sorriso triste.

— Eles estão ali! – uma voz masculina gritou de cima das escadas.

Inúmeros passos vieram na nossa direção. Corremos para a esquerda a fim de sair de vista, mas virei para o lado errado da rua. Enquanto os outros viraram para o lado da estrada, eu virei para o lado do inimigo.

O soco foi tão forte, que perdi os sentidos por alguns segundos. O som da chuva gelada ficou abafado. Os gritos de Erik também ficaram. Minha visão também vacilou e a última coisa que vi, foi quebrarem meu rastreador.