The Sun and the Moon
1 Meu Aniversário de Oito Anos
Quando você tem sete anos sua vida é uma maravilha. Escola é divertido, amizades para brincar todo dia, comer comidas gostosas da mamãe, tudo nos faz feliz.
Acho que essa é a diferença entre mim e minha irmã mais velha, de 16 anos, tudo fazia ela triste, sempre tinha algo que puxava ela para baixo, eu não conseguia entender o motivo de ela odiar ir para a escola, ou de conversar com outras pessoas, ou de não ter amigos. Minha irmã era muito estranha, ela nunca conversava com nossos pais, estava sempre sozinha e reclusa em algum canto. Ela passava horas horas desenhando, sempre atendia aos meus desejos, e seus desenhos eram incríveis. Eu sempre amei minha irmã, mesmo ela sendo assim.
Apesar de amar e me dar muito bem com ela, minha irmã tinha gostos diferentes de mim, e às vezes, não confiava em mim. Muitas vezes, eu contava alguns segredos que descobria, ou coisas de outras garotas, mas ela só dizia para eu parar com aquilo, que fofocar era errado. E também, eu tinha uma raposa de estimação escondida no quintal de casa, ela era branca com uma máscara preta. Infelizmente minha irmã não acreditava, dizia que não existia raposa em nosso quintal, mas acho que era só ela querendo me irritar.
Quando eu fiz oito anos, meu pai levou eu e minha irmã para um clube, onde minha mãe me esperava com um bolo e todas as minhas amigas, uma festa de aniversário. Foi um dia incrível, fiquei com minha irmã e minhas amigas nadando por todas as piscinas. No final de tarde, por volta das 17h, dois colegas da minha irmã Carol apareceram para falar com ela. Achei engraçado, já que ela sempre chorava no quarto dizendo que não tinha amigo.
Levei os dois garotos até ela, que estava em um canto afastado do clube, desenhando enquanto escutava música. Os garotos pediram para eu dar espaço para eles enquanto conversavam. Aceitei com um sorriso e fui falar com minhas amigas, deixando minha irmã com eles.
Alguns minutos depois ouvi minha mãe aparecer, pergunto sobre a Carol.
— Filha, onde está sua irmã?
— Ela está conversando com os amigos dela mãe.
— Você pode ir chamar ela? Precisamos ir embora.
— Tá bom.
Caminhei calmamente em direção ao lugar onde estava minha irmã e seus amigos, e no caminho encontrei minha tia, que me deu parabéns e colarzinho muito fofo.
— Onde você está indo, princesinha?
— Estou indo chamar minha irmã, a gente já vai embora.
— Oh vamos juntos, quero conversar com ela também.
Minha tia Luíza segurou minha mão e a guiei até o local onde tinha visto a Carol. Quando fomos chegando perto, andei na frente da minha tia para saber o que eles estavam fazendo. Quando cheguei, pude ver minha irmã no chão, parecia estar dormindo. Ela estava sem seu biquíni, e aí achei estranho, e tinha marcas por seu corpo.
— Carol?! Carol você está bem?
Minha tia falou preocupada, tomou a minha frente e foi até minha irmã, ver se ela estava bem. Meu corpo não queria se mover, parecia estar de pedra. Demorei a perceber, mas comecei a tremer, minha irmã estava morta?
— Julia, por favor, vai atrás da sua mãe.
Minha tia estava falando comigo, mas eu só conseguia olhar para minha irmã, ela estava machucada, morta? O que aconteceu com ela? Minha tia veio até mim, me fazendo olhar para os olhos dela.
— Querida, chama sua mãe, vai lá.
Minha tia me deu uma sacudida e aí consegui me mover em direção a minha mãe. Corri por todo o clube gritando pela minha mãe e pelo meu pai, precisava deles, minha irmã foi machucada.
Minha irmã estava morta? Papai, mamãe, ela não está morta, né?
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Quando chegamos no hospital, fingi começar a dormir em uma cadeira para ouvir o que meus pais estavam falando, pois sabia que eles nunca falariam sobre comigo por perto.
Tudo que ouvi na conversa foi completamente perturbador. Minha irmã foi estuprada, não era a primeira vez que aquilo tinha acontecido, ela estava grávida, ela tinha ferimentos sérios de meses atrás. Meses. Minha irmã, Carol, que sempre foi a minha luz, estava passando por aquilo por meses.
Meus olhos estavam vermelhos, eu chorei tanto que nem tinha mais lágrimas para sair, mesmo querendo sair uma tristeza enorme dentro de mim. Encolhi na cadeira, às lágrimas rolando devagar e percebendo o quanto minha irmã era triste. Eu nunca tinha pensado, de verdade, que o mundo era um lugar ruim assim, estava tão acostumada com o feliz e o bom que não acordei para o fato de existir essas coisas más. Pessoas más.
Alguns minutos depois minha mãe apareceu, sentando ao meu lado, seus olhos estavam inchados, ela chorou tanto quanto eu. Ela me abraçou bem forte, e eu me senti mais segura com aquele abraço, nada melhor do que amor de família.
Por volta de três horas da manhã, acordei sonolenta, acordava sempre por esse horário para ir no banheiro e beber água. Para meu alívio, minha mãe acordou também.
— Mamãe, quero ir no banheiro.
Ela sorriu e me deu um beijo na testa, logo me levando até o banheiro. Depois de dar descarga e beber água, passamos pelo quarto da minha irmã, onde ela estava deitada, inconsciente, descansando. Subi na cadeira perto da cama e dei um beijo na bochecha da minha irmã, esperando que conseguisse transmitir meus sentimentos para ela.
— Espero poder te ver logo.
— Vamos deixar sua irmã descansar filha, vem.
Dei um último beijo e fui até minha mãe, orando para Deus que cuidasse de minha irmã, ela aguentou muitas coisas, carregou muitos pesos, sozinha, como sempre dizia. Nessas horas eu queria ser como a Mulher Maravilha, forte, poderosa e ajudando as pessoas. Voltei a descansar nos braços da minha mãe, desejando o melhor para todos da família.
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No dia seguinte, fui com meus pais tomar café da manhã em uma padaria não muito longe, comemos pães de queijo deliciosos e um suco de laranja muito bom. Meus pais tinham uma cara cansada, mas consegui fazer eles sorrirem e até darem uma risada, estava preocupadas com eles também.
Não demorou muito e meus tios apareceram também, então foi bastante conversa e risada entre nós, e fiquei feliz pelo fato de estarmos ali em um ambiente em família. Mesmo sem minha irmã ali, eu sabia que todo mundo amava ela, e que logo ela estaria na mesma mesa que nós.
Quando voltamos para o hospital, estava tendo algum movimento intenso, pessoas conversando em um canto, médicos preocupados e isso me deixou tensa, o que será que aconteceu?
Meu pai foi na frente com meu tio ver o que estava acontecendo enquanto minha mãe e tia ficaram comigo na entrada do hospital.
— Mamãe, aconteceu algo ruim?
— Não se preocupe filha, papai foi ver o que houve.
Não demorou muito para eles voltarem, e meu pai estava com uma cara destruída, tinha lágrimas por seu rosto, e meu tio estava da mesma forma, então minha tia foi até eles perguntar o que houve. Não consegui ouvir o que falaram, mas minha tia começou a chorar também, e minha mãe ficou curiosa para saber o que era, mas acho que ela estava querendo me afastar da notícia ruim.
— Pai, o que houve?
Cheguei perto dele, muito querendo saber o que tinha acontecido, mas ele apenas deu um sorriso triste, dizendo que logo iria contar. Minha tia me levou para ir até o carro dela, que iria me mostrar uma roupa que comprou para mim. Meu pai contou a notícia para minha mãe, ela começou a chorar, não parecia aceitar a notícia e bateu no meu pai, logo ele abraçou ela, minha mãe continuava a chorar. Não sei o que foi pior, ver meus pais chorando, ou imaginar que eu já sentia uma dor em meu peito sem nem entender a notícia.
Um buraco em peito foi aumentando mais e mais enquanto o tempo passava, a ansiedade parecia me comer, e aqui era tudo novo para mim, nunca tinha me sentido assim.
Naquela noite meu pai me contou que minha irmã estava morta, e o buraco da ansiedade foi consumido pela tristeza.
Eu não entendi o motivo, como ela morreu, se parecia que estava tudo bem. Demorei anos para entender o que aconteceu naquele dia e o que significava as coisas que minha irmã sentia.
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