Notas iniciais
É isso ai, mais uma fic, espero que goste, pretendo postar os capítulos duas vezes por semana, mas não sei se vou conseguir, então não prometo nada.
Todo capítulo tem uma música no inicio ou final, onde o trecho diz algo sobre o capítulo, para que eu consiga muitos capítulos com música, preciso de indicações, então sintam-se a vontade para me mandar por mensagem nomes de música.

Todas estas linhas que contornam o meu rosto, contam a história de quem eu sou, tantas histórias sobre onde eu estive e como cheguei onde estou, mas essas histórias não significam nada, quando não se tem a quem contar” .

Brandi Carlile — The Story

(Jane)

Dona Angela chamou, ou melhor obrigou, toda a família a vir para um jantar, era sempre assim, minha mãe temia que com o tempo nos afastássemos igual aquelas famílias que só se veem uma vez por ano no natal. Após o jantar decidi sentar um pouco aqui fora, estamos em uma época do ano fria, mas eu estava bem agasalhada, pensei em tomar uma cerveja e olhar as estrelas, apesar de saber que ficar sozinha traria a tona pensamentos que eu venho evitando há muito tempo, especialmente hoje, dia 25/11. Ilusão minha achar que iria ficar só, Lydia sentou em uma cadeira ao lado da minha, mesmo sem olhar diretamente para ela eu percebi que ela estava olhando para mim, encarando, Lydia queria falar comigo, mas eu não iria facilitar, apesar de saber que queria essa conversa.

— Então, como vai a Ellen?

— Ela deve estar bem, nós terminamos semana passada, aliás, ela terminou comigo, disse que não poderia ficar com alguém que não está inteiramente com ela.

— E você como está?

Respirei fundo_ Você sabe que dia é hoje e o que ele significa, então sabe como eu estou... As lembranças me veem a mente, tudo, exatamente tudo me faz lembrar a Maura.

— Jane, eu sei que não adianta te dizer isso, até porque eu nem imagino pelo o que você deve estar passando, mas eu me preocupo com você. Porque não vamos a uma boate amanhã? Eu posso deixar o TJ com o Tommy e nós duas podemos sair, será bom pra você se distrair.

— Não sei se é uma boa ideia.

Lydia socou meu ombro_ Claro que é, o que só porque eu não tenho a mesma bunda de antes você está com vergonha de sair comigo?_ Lydia riu.

— Que bunda de antes?_ Provoquei.

— Jane Rizzoli, não ouse menosprezar a minha bunda, bem que você gostava, sempre que eu sentava no seu colo isso que você tem no meio das pernas acordava.

Corei e olhei para outro lado_ Acho que o Tommy teria um surto se te ouvisse falar assim.

— Eu também acho, mas eu nunca fui santa né, cê sabe_ Olhei para ela séria_ Não, hoje eu sou uma mulher casada, com um filho, estou falando de antes.

— Acho bom.

— Sobre a boate...

— Melhor não Lydia, não se preocupe, essa semana eu estou com muito trabalho, vou me concentrar nisso, você sabe que eu sempre fico bem_ Levantei da cadeira_ Vou pegar outra cerveja_ Disse sorrindo, quando me afastei ouvi Lydia falar baixinho.

— Não Jane, você nunca fica bem, você nunca se recuperou e é por isso que eu tenho medo.

Entrei e encontrei minha mãe arrumando toda a bagunça, resolvi ajuda-la, comecei a pegar os pratos e copos da mesa e levar para a pia, eu estava de costas lavando a louça e senti a mão da minha mãe sobre o meu ombro, olhei para o lado e sorri para ela, minha mãe tem um jeito único de se fazer entender sem precisar falar, apenas um sorriso, ou o jeito de olhar já me diz o que ela quer saber, ou que ela quer me confortar...

— Como acha que estão esses pratos Jane? _ Ela não estava falando de pratos, pratos era a metáfora escolhida pra falar de mim.

— Novos, estavam guardados desde o dia das mães, é bom que você os tire de lá, acho que eles podem se sentir sozinhos._ Essa última frase foi eu respondendo a sua pergunta.

— Mas eles não estavam sozinhos, estavam com xícaras, copos, taças_ Minha mãe falava de todos, ela, meus irmãos, Lydia e até o TJ, meu pai também, mesmo que eu não o veja há uns seis meses.

— Talvez eles quisessem estar com os pratos de porcelana_ Soltei o ar que estava preso_ Mãe...Sim, eu sinto a falta da Maura, sim eu não consegui esquece-la, mas eu vou continuar, eu me mantive de pé todo esse tempo não foi?

— Tudo bem, entendo que não queira falar sobre o assunto, mas se a qualquer momento precisar, eu ou a Lydia estarem prontas para ouvir, Jane, eu não quero ter outro susto como aquele.

— Mãe, isso não vai voltar a acontecer e não foi intencional. Eu nunca faria isso com vocês.

— Sim, eu sei Jane. Só quero que saiba que eu te amo, mas isso não vai me impedir de puxar as suas orelhas quando precisar.

— Claro que não_ Eu ri e enxuguei as mãos, me despedi de todos e fui embora para o meu apartamento.

Após guardar chaves, distintivo e minha arma em uma gaveta eu sentei no sofá, amanhã era o meu dia de folga, eu nunca sei bem o que fazer com esse dia, mas já que eu não precisava acordar cedo decidi ver um filme, tirei meus sapatos e a calça e fiquei apenas de camiseta e cueca, é assim que gosto de ficar quando estou em casa. Já havia passado uma hora de filme e eu só lembro dos primeiros vinte minutos, meus pensamentos não estavam aqui em Boston, eles estavam com a Maura, onde quer que ela esteja. Eu tento encontrar traços dela em outras pessoas, o sorriso, os olhos, como a minha ex a Ellen, que é loira e é cientista, o vocabulário dela podia parecer com o da Maura, mas o jeito de falar, o jeito de sorrir quando eu olhava confusa, Ellen não tem nada disso, eu entendo que ela tenha terminado comigo, ela me disse que não poderia ficar com alguém que não estivesse inteiramente com ela, e isso é verdade, eu não posso fazer ninguém feliz porque estou incompleta, uma parte de mim morreu quando a Maura saiu da minha vida.

Decidi deitar, fui para o quarto e peguei um coberto lilás, o coberto da Maura, ela sempre andava com isso pra todo lado, até quando dormíamos na minha casa ou na casa da Lydia, no dia que eu ameacei queimar isso e comprar um novo ela passou a tarde toda com raiva de mim, essas lembranças sempre me trazem duas coisas, lágrimas e um sorriso.

Eu e a Lydia sempre sentávamos atrás, uma ao lado da outra, ela foi a primeira pessoa, depois da minha família, a saber sobre mim, Lydia não se importou, ela continuou sendo a minha amiga, aliás, Lydia achava legal, mais que legal, ela queria ver meu pênis e adorava sentar no meu colo para me ver vermelha e sentir a ereção. Essas coisas Tommy não irá saber nunca. Os outros não gostavam de nós, eu porque era estranha para eles e Lydia porque andava comigo, aprendemos a nos defender, principalmente eu, minha mãe precisou ir à escola algumas vezes, as queixas eram as mesmas, eu havia batido em alguém, eles não se importavam com o que esse alguém havia dito ou feito, o que importava era que a pessoa estava sangrando e eu havia causado isso. Sempre fui irritada e boa de briga.

Quando um aluno novo chegava eu e a Lydia nos aproximávamos, nossa boa ação de tentar enturma-lo resultava em uma coisa, ela ou ele se tornava um idiota como os outros, por causa disso paramos de tentar enturmar os novatos.

Aquele mesmo ano uma menina nova veio estudar na nossa sala, ela era loira, atrapalhada e linda. As patricinhas logo se aproximaram, gostavam do modo como ela se vestia, eu devo admitir que também gostava, mas a atenção que deram a Maura logo acabou, elas não entendiam o que ela falava e não viam nada de interessante nela além das roupas. Eu e Lydia víamos ela sozinha no refeitório, ela sempre comprava muita comida e eu sabia o porque.

— A Maura está comendo só de novo_ Disse para Lydia que imediatamente olhou na direção de Maura.

— E olha aquela bandeja, Jane eu cansei de comer frutas, podemos sentar com ela? _ Ela me olhou com olhos pidões.

— Sim, nós iremos sentar com ela, mas não só para comer Lydia, acho que devemos deixar Maura entrar no clube das Alone.

— Mas Jane, ela é tão estranha.

— Mas estranha do que eu?_ Esperei ela responder, Lydia deu de ombros_ Faremos um teste, se ela passar ela entra para o clube.

Sentamos as duas de frente para Maura, ela se assustou e baixou a cabeça evitando nos encarar. Lydia fez o teste.

— Ei, é Maura não é?_ Maura balançou a cabeça dizendo que sim_ Será que você pode dividir seu lanche com a gente?

— Claro, eu não ia comer tudo.

— Legal_ Lydia pegou um hambúrguer.

Resolvi testar minha teoria_ Você compra muita comida pra isso não é? Para que alguém sente aqui com você.

— Sim_ Ela disse baixinho.

— Maura você quer fazer parte do clube Alone?

— Clube Alone?

— Sim_ Lydia respondeu com a boca cheia_ É um clube formado por mim e pela Jane, nós duas contra todo mundo e você pode fazer parte, se quiser.

— Eu preciso fazer alguma coisa pra entrar?

— Eu aceitaria um convite para ir à sorveteria_ Lydia respondeu, eu bati nela com o cotovelo_ Ai!

— Não Maura, não precisa fazer nada, basta não se tornar idiota, como todo mundo da nossa sala e metade da escola.

Ela sorriu_ Bom, eu posso convida-las para tomar sorvete, eu pago.

— Nós aceitamos_ Olhei séria para Lydia_ O que? Ela que fez o convite.

— Qualquer dia desses Maura_ Eu sorri com o canto dos lábios.

— Então...Você tem muita grana?

— Lydia!_ Repreendi Lydia, claro que Maura tinha muito dinheiro, mas ela poderia pensar que nos aproximamos dela por interesse.

— Jane tudo bem_ Maura virou-se para Lydia_ Sim, meus pai é médico ele escreveu alguns livros importantes e minha mãe, é de uma família rica também.

— Então porque você está estudando aqui?_ Perguntei curiosa.

— Meu psicólogo disse que eu precisava socializar com as pessoas, em um ambiente diferente do colégio interno, pessoas diferentes das que eu costumo conviver.

— Colégio interno?_ Estava fazendo bastante perguntas, mas queria saber um pouco mais sobre Maura, então continuei.

— Fui mandada para lá aos dez anos, então fiquei lá os últimos quatro anos e meio_ Descobri que Maura era apenas alguns meses mais velha que eu.

— Espere, vamos voltar um pouco, psicólogo? Eu sabia que você não é normal.

— Lydia!_ Novamente eu a repreendi, Lydia nunca teve noção do que podia ou não falar.

— Tudo bem Maura, nós também não somos normais, eu sou assim um charme especial e também muito sincera e a Jane...

— Lydia!_ Interrompi aquela matraca antes que ela falasse demais, ela ia dizer a Maura que eu tenho um pênis, claro que Maura descobriria um tempo depois.

— A Jane e eu somos maluquinhas, acho que já deu pra você perceber né.

Quando Lydia comeu quase tudo que Maura comprou seguimos as três para a sala, no meio do caminho a bibliotecária chamou Lydia, provavelmente para cobrar todos os livros que ela nunca devolveu, acontece que ela nem sabia onde eles estavam.

— Devemos esperar por ela?

— Não, isso pode demorar, Lydia nunca devolve os livros que pega.

— E você Jane, você gosta de ler?

Cocei a cabeça_ Eu gosto de ler romance policiais como Sherlock Holmes, ele é o meu investigador preferido, Sherlock sempre soluciona os crimes mais difíceis.

— Eu também gosto dos livros sobre o Sherlock Holmes.

— Elementar meu caro Watson_ Dissemos ao mesmo tempo e acabamos rindo disso.

Quando chegamos a sala eu entrei e um cara mais velho que estava voltando para a sua sala impediu Maura de passar, ele colocou uma mão de cada lado da porta e ficou parado lá.

— Com licença, eu preciso entrar_ Maura tentou, mas não conseguiu passar por ele.

— Você é muito bonita sabia? Já sei, eu deixo você passar se me der um beijo_ Maura corou e parecia assustada, acho que ela nunca havia estado em uma situação semelhante, ela veio de um internato se não conseguia lidar com as garotas, imagine com garotos idiotas.

— Ei deixa ela passar, você sabe quem eu sou e o que eu fiz com Jimmy Anderson na semana passada_ Falei erguendo a sobrancelha e demonstrando irritação. Bastou dizer isso para que ele saísse da porta e voltasse para sala, não sem antes me olhar feio. Maura segurou firme a minha mão.

— Obrigada.

— Sem problemas, você agora é uma Alone.

Ela sorriu_ O que você fez com Jimmy Anderson? _Fiquei calada por alguns minutos_ Desculpe, eu não devia ter perguntado_ Ela falou envergonhada, Maura era tão educada que chegava a irritar.

— Quebrei o nariz dele e deixei uma cicatriz no seu rosto_ Maura não perguntou o porque eu fiz isso, mas eu mesma contei para ela depois.

Ela sentou na frente como uma boa nerd e eu fui para minha cadeira no fundo da sala. Quando a aula acabou, eu e Lydia fizemos companhia para ela até o motorista da família vir busca-la. Maura acenou e correu para o carro, acenamos de volta. Mal sabia eu, que aquela garota loira e estranha marcaria toda a minha vida.