Notas iniciais
Universo baseado nos personagens de Once Upon a Time. Período da Segunda Guerra Mundial.

The Sound of War

Londres, Março de 1943.


Isabelle French acordou na manhã do dia 7 de março com uma forte dor de cabeça. Sua têmpora latejava como se pesadas barras de ferro estivessem comprimindo-a. A luz do novo dia invadia gentilmente seu quarto através das frestas das pesadas cortinas. Não tinha vontade alguma de levantar, mas ela sabia que não poderia ficar trancada naquele quarto para sempre, na esperança de que os tempos difíceis acabassem. Isabelle pensou sobre aquilo; sobre os tempos difíceis. Fazia quatro anos que a guerra havia invadido a realidade deles e não apresentava indícios de que iria acabar tão cedo. Os alemães mostravam uma ofensiva avassaladora, dominando diversas regiões e condenando todos àqueles que se opunham à Causa. Isabelle não tinha medo da Guerra ou do que poderia acontecer à ela; Isabelle tinha medo do que poderia acontecer aos outros, e infelizmente ela ouvira relatos de barbaridades que os alemães submetiam às pessoas inocentes. Embora ela detestasse qualquer coisa relacionada à guerra, ela não poderia tentar se esconder, pois, inevitavelmente, os sons da batalha chegariam até ela.
Isabelle morava em Londres, junto com seu pai, que era um dos grandes oficiais do governo britânico. Consequentemente, era frequente eles receberem visitas de outros oficiais e ela acabava se envolvendo com os assuntos da Guerra. Isabelle admirava o seu pai e a disposição que ele tinha para proteger o seu país, e ela, mais do que tudo, ansiava poder fazer o mesmo, mas seu pai jamais a deixou fazer parte dos planos desenvolvidos pelos britânicos. Segundo ele, a guerra era algo com que ela não deveria se preocupar, pois ele sempre a protegeria, e Isabelle estava grata por isso, mas ela não queria ser uma das moças que frequentavam bailes e festas, como se nada estivesse acontecendo e que a única coisa que ela precisaria se preocupar era em retocar a maquiagem. Não, Isabelle queria lutar. Queria defender o país em que morava e poder salvar ao menos uma daquelas vidas que os alemães tiravam levianamente.
Após relutar alguns instantes, Isabelle se deu por vencida, e levantou da cama, se espreguiçando. Tomou banho e colocando suas roupas, saiu do quarto, fechando a porta a suas costas. Ouviu algumas vozes vindas do andar de baixo, e percebeu que seu pai estava em reunião. Nos últimos anos, seu pai, Maurice French, passara a usar o seu escritório para reuniões de emergência, por isso, se tornara algo comum Isabelle ver homens vestidos com os uniformes do exército britânico adentrarem a sua casa.
"Senhorita Isabelle" Sara foi ao encontro de Isabelle quando ela chegou ao corredor principal. Sarah era a governanta da casa e trabalhava para a família French há trinta anos. Para Isabelle, Sara era como uma mãe para ela, pois aquela mulher sempre estivera presente na sua infância e, logo após a morte de sua mãe, Sara ficou responsável pela educação de Isabelle. "Seu pai pediu para que você se reunisse com ele assim que possível". Ela falou com uma expressão séria. Isabelle podia observar o quanto a governanta envelhecera. Seus cabelos negros estavam repletos de fios brancos e a pela estava enrugada, mas ainda assim, os olhos da mulher continuavam sempre em alerta, mostrando que a idade não prejudicara a sua mente aguçada.
"Obrigada Sarah, irei me juntar a ele após o café" Ela falou, indo até a cozinha, sendo acompanhada pela governanta. Não tinha pressa em se unir ao pai, aproveitando para saborear calmamente o café da manhã. "Eles estão lá há quanto tempo Sarah?" Isabelle perguntou sem demonstrar interesse.
"Eles chegaram bastante cedo. Seu pai não ficou muito satisfeito, mas tenho certeza de que ele lhe explicará tudo." A mulher limitou-se a falar apenas aquilo e seus olhos demonstravam a preocupação que ela sentia.
"Então irei me reunir com ele agora" Isabelle deixou a cozinha, indo até o escritório do pai e batendo levemente. As vozes no interior do aposento cessaram quando ela adentrou a sala. Além do seu pai, havia mais três homens com ele e pareciam estar discutindo algo de extrema importância.
"Belle!" Imediatamente, Maurice se afastou do grupo que estava na sala e a beijou carinhosamente nas duas faces. Ela pode notar no rosto do pai que algo o incomodava profundamente. "Obrigado por ter vindo".
Belle assentiu. "O senhor queria falar comigo." Ela afirmou, olhando desconfiada para o pai.
"Na verdade todos nós gostaríamos de falar com você Belle." Maurice colocou sua mão sobre o ombro da filha delicadamente, guiando-a aos outros homens que ficaram em pé. "Gostaria de lhes apresentar minha filha Isabelle French, conforme vocês requisitaram. Isabelle permita-me lhe apresentar o Sr. Buckmaster".
Buckmaster era um homem alto de cabelos louros, e conforme ela ouvira seu pai falar várias vezes, ele era o chefe da Seção F da SOE (Special Operation Executive). A SOE era uma organização que os britânicos criaram em 1940 para conduzir ações de espionagem, sabotagem e reconhecimento nas áreas da Europa que estavam ocupadas pelas forças do Eixo e auxiliar movimentos locais de resistência.
"É um prazer finalmente conhece-la, senhorita French". Isabelle retribuiu o aperto de mão. "Estes são meus colegas, o Sr. Johnson e Sr. Smith" O homem apontou para os outros dois, que a cumprimentaram em silêncio. "Espero não a estar incomodando ao pedir que conversasse conosco alguns instantes".
"De maneira alguma, senhores. Creio que seja algo importante" A mulher falou diplomaticamente, pedindo para que os homens sentassem novamente e, ao sentar próxima ao pai, pediu para que Buckmaster continuasse.
"Srta. French, eu devo presumir que a senhorita esteja ciente da catástrofe que aflige nosso país, correto?"
"Sim, senhor."
"Pois bem, desta forma a senhora deve saber também que estamos tendo muitas perdas nestes últimos anos de agentes extremamente importantes, principalmente na França" Isabelle assentiu em silêncio. "Seu pai sempre nos ajudou quando precisamos dele, mostrando o quanto ele honra a sua pátria. E novamente, eu vim até ele pedir para que nos ajude".
"Tenho certeza de que meu pai fará o possível para livrar não apenas o nosso país, mas o mundo das garras de Hitler" ela falou, sentindo que qualquer que fosse a razão daqueles homens estarem ali, algo iria mudar a sua vida completamente.
"Sabemos disso senhorita e somos eternamente gratos. Mas eu me pergunto se a senhorita teria essa mesma coragem de seu pai".
"Senhor?" Isabelle queria entender o que aquele homem queria.
"A senhorita estaria disposta a lutar pelo seu país assim como seu pai?" Buckmaster perguntou, estudando-a. Isabelle percebeu que seu pai ficara extremamente pálido.
"Sim, Sr. Buckmaster" ela respondeu, vendo o pai estremecer ao seu lado.
"Mas porque o senhor pergunta?"
"A senhorita fala francês fluentemente?" O homem sentado ao lado de Buckmaster, Johnson, perguntou, sem responder a pergunta que Isabelle fizera.
"Sim, senhor."
"Diga-me como aprendeu a falar francês tão bem" indagou o Sr. Johnson.
"Minha mãe era francesa e me ensinou o idioma antes de falecer."
"E a senhorita costumava visitar o país?"
"Sim, nós costumávamos passar todos os verões na região. Conheço praticamente todas as ruas e lugares como conheço Londres."
Os olhos penetrantes do Sr. Johnson examinaram os volumosos cabelos escuros da mulher, os olhos azuis e o porte físico da mulher, o que a fez se sentir desconfortável.
"O disfarce encaixaria perfeitamente em você".
"Não, senhores." O pai de Belle se pronunciou após ouvir os homens à sua frente. "Já lhes disse que Isabelle não será mandada à guerra. Vocês podem levar à mim, mas não a minha filha".
"Maurice, nós já lhe explicamos que precisamos de alguém desconhecido para esta missão, e sua filha é perfeita, e tenha certeza de que após os treinamentos ela será a nossa melhor agente" Buckmaster falou como se estivesse repetindo aquele discurso pela quarta vez.
"Senhores, por favor, me digam sobre o que se trata esta missão. Tenho certeza de que poderemos resolver isto da melhor maneira possível".
"Não podemos dizer sobre o que se trata esta missão, Srta. French", Smith falou pela primeira vez. "Mas acreditamos que a senhorita possa ser útil em uma missão na França".
"Nós investigamos a senhorita nos últimos dias" Buckmaster retomou as explicações. "Acreditamos que a senhorita tem condições de se tornar membro do nosso grupo de agentes da SOE. Porém, devo alertá-la de que a missão que será designada é uma das mais perigosas, e precisamos considerar a possibilidade real de que possa morrer no cumprimento do dever". O Sr. Buckmaster disse com uma expressão séria. "Agora, eu lhe pergunto novamente se a senhorita estaria disposta a lutar pelo seu país."
Isabelle permaneceu em silêncio, pensando no que haviam lhe perguntado. Era óbvio que a resposta que daria iria mudar o rumo de sua vida. Embora temesse o que aconteceria com seu pai, Belle sentia a necessidade de fazer algo, embora estivesse ciente de que pagaria um preço alto por aquilo. Assim como seu pai, ela queria ser útil. "Sr. Buckmaster, acredito totalmente na causa pela qual os Aliados estão lutando. E eu faria o meu melhor para nunca decepcioná-lo. Mesmo assim, também compreendo que, até o momento, em minha vida, nunca fui testada o suficiente para responder à sua pergunta. Tenho vinte e cinco anos e nenhuma experiência com questões como essas. Ainda tenho muito a aprender sobre mim mesma e sobre a vida".
"Aprecio sua autoavaliação cuidadosa, Srta. French, mas gostaria de garantir-lhe que sua inexperiência não é um problema. Nós faremos o que for possível para ajuda-la com qualquer coisa que precise antes que tenha que partir. A senhorita passará por um treinamento intensivo que irá prepara-la para lidar com as muitas situações perigosas que pode ter que enfrentar. E eu posso lhe garantir que, ao final desse processo, tanto a senhorita quanto as lideranças da SOE saberão se é capaz de executar as tarefas as quais será incumbida. Portanto, preciso perguntar-lhe: está preparada para assumir uma função que inclui a possibilidade de que venha a morrer?"
Isabelle olhou diretamente nos olhos do homem.
"Estou, sim".
"Belle, não!" Maurice olhou para a filha, suplicante, com os olhos marejados de lágrimas. "Belle, por favor...."
"Papai, eu já sou grande o bastante para tomar minhas próprias decisões. Isabelle segurou a mão do pai carinhosamente. Não aguento mais ficar trancada dentro desta casa fingindo que não está acontecendo, enquanto milhares de pessoas são mortas a cada dia. Quero ajuda-las!"
"Oh Belle... Você não imagina o horror que é lá fora!" Maurice choramingou. "Você não faz ideia do que a guerra é!"
"Eu sei que há certas coisas que eu não consigo nem imaginar, mas quero fazer algo pai, assim como o senhor."
"Oh Belle... Por favor. Você é a única coisa que importa para mim neste mundo" Ele segurou firmemente a mão da filha. "Eu não quero perde-la como perdi sua mãe."
"Você nunca irá me perder pai, eu prometo." Belle abraçou o pai. Sabia que, naquele momento, ela estava dando um passo enorme e não teria como voltar atrás. Mas ela percebeu que era a sua vez de ser brava, assim como seu pai era. Depois que o Sr. French se acalmou, Isabelle aceitou a proposta do Sr. Buckmaster.
"Excelente. Então, estamos acertados. Como a senhorita é filha do nosso comandante French, a senhorita já assinou o Termo Oficial de Assuntos Secretos e não precisamos continuar a incomodá-la. A senhorita receberá notícias diretamente da Seção F nos próximos dias. Meus parabéns, Srta. French. O Sr. Buckmaster disse, levantando-se para cumprimentá-la. Tanto a Grã-Bretanha quanto a França são gratas por quaisquer sacrifícios que a senhorita venha a fazer".
"Obrigada, Sr. Buckmaster. Se importa se eu lhe perguntar...."
"Nada de perguntas, Srta. French. O que a senhorita precisa saber lhe será revelado em breve. Não preciso dizer que nossas reuniões aqui e seu futuro devem permanecer em completo sigilo."
"Sim."
"Boa sorte, Srta. French.". O Sr. Buckmaster disse, apertando sua mão mais uma vez e abrindo a porta, saindo acompanhado dos outros dois homens. Belle os viu saindo da casa, andando pela rua e desaparecendo na esquina seguinte.
"Oh minha Belle, o que você fez?" Maurice abraçou a filha que tanto amava, deixando que lágrimas escorressem pelo seu rosto enorme. Fizera de tudo para proteger a filha, mas a guerra a encontrou para que Isabelle a recebesse de braços abertos.
Durante os dois dias seguintes, Maurice French rezou e pediu para que o bom Deus não deixasse sua pequena Belle ser levada para a França, mas ao seu ver, suas preces foram feitas em vão. No terceiro dia após o encontro que tiveram com os agentes da SOE, um homem bateu à sua porta, pedindo para que Isabelle French o acompanhasse.
"Bom dia comandante French. Venho até a sua casa em nome da SOE, convocar a senhorita Isabelle Jane French, que se comprometeu a prestar serviços à Grã-Bretanha. Peço que ela seja breve e me acompanhe." O homem miúdo falou seu discurso, voltando a se posicionar ao lado do carro preto parado à porta da casa.

"Sarah..." Belle abraçou a governanta da casa, se despedindo. "Obrigada por cuidar de mim e, por favor, tome conta do papai por mim".

"Farei o meu melhor, querida" A mulher falou com a voz embargada por causa do choro. Belle pegou a pequena mala que levaria consigo, onde havia apenas algumas mudas de roupa, e saiu da casa. Entregou a bagagem ao motorista e olhou para o pai que a aguardava ao lado do automóvel.
"Papai eu..." Isabelle tentou falar algo ao pai, mas nenhum som saiu da sua boca. Maurice envolveu a filha nos braços. "Perdoe-me, papai..."
"Oh minha brava Belle. Jamais perca esta sua coragem minha pequena, mas lembre-se que você vai precisa muito mais da sua inteligência do que de coragem. A Guerra é como um jogo de xadrez, em que você terá que criar estratégias e estudar cada movimento para vencer. Não deixe que sua coragem lhe cegue."
"Eu não deixarei papai, eu prometo." Belle olhou o homem pela última vez antes de partir. Queria gravar a feição do pai na sua mente, para que pudesse lembrar-se dele como ele realmente era. "Eu te amo pai."
"Também amo você queria. Volte logo para casa."
E após se despedir, Belle entrou no carro e partiu rumo a um destino traiçoeiro, no qual deveria lutar com unhas e dentes para garantir que cumprisse a promessa feita ao pai; de que voltaria para casa.
Belle encostou a cabeça contra o vidro do carro, imersa em seus próprios pensamentos. Mal sabia que aquela poderia ter sido a última vez que vira seu amado pai. Naquele momento, ela ansiou que tudo aquilo acabasse logo e pudesse voltar para casa; para o lugar em que estaria segura. Mas sabia que deveria colocar estes sentimentos de lado para que pudesse completar a missão que seria designada.
Não percebeu que o motorista havia parado o carro e abriu a porta para que ela pudesse sair. Ela percebeu que estava em Orchard Court, perto de Baker Street.
Ela deu seu nome ao porteiro, que assentiu e abriu as portas folheadas a ouro do elevador. Em seguida, ele a escoltou até o segundo andar, destrancou uma porta no corredor e pediu que entrasse.
"Certo, senhorita. Aguarde aqui, por favor."
Em vez de um escritório, Belle viu que estava num banheiro.
"Eles não vão demorar, senhorita." Disse o porteiro enquanto fechava a porta. Belle sentou na borda da banheira preta, preferível que se acomodar no bidê cor de ônix. Começou a imaginar o que aconteceria a seguir. Após algum tempo, a porta se abriu.
"Me acompanhe, senhorita." Disse o porteiro, conduzindo-a para fora do banheiro e de volta ao corredor até uma sala onde uma mulher alta de cabelos loiras estava sentada sobre sua escrivaninha, esperando por ela.
"Srta. French, sou Emma Swan, coordenadora da Seção F. É um prazer conhecê-la. Ouvi muitas coisas positivas a seu respeito."
"O prazer é meu, senhora." Disse Belle, retribuindo o aperto de mão firme e tentando esconder seu nervosismo. Aquela era uma mulher cujo nome ela ouvira muitas vezes seu pai mencionar.
"Prefere conversar em inglês ou francês?" perguntou Swan.
"Qualquer idioma está ótimo." confirmou Belle.
"Ótima resposta" ela disse, com um sorriso. "Bem, falemos em francês então. Agora, tenho certeza de que está ansiosa para descobrir mais a respeito do que fazemos aqui na Seção F. Assim, vou enviá-la para falar com a Sra. Mills, que cuidará da senhorita agora em diante."
Swan girou as pernas por cima da mesa e andou em direção à porta. Seguindo-a, Belle percebeu sua energia e seu senso de dever enquanto ela caminhava pelo corredor até chegar em outra sala, com o ar carregado pela fumaça de cigarro.
“Bem, Regina, esta é Isabelle French.” Sr. Swan disse, sorrindo para uma mulher de cabelos negros que estava sentada atrás de uma escrivaninha. “Vou deixa-la sob seus cuidados. Isabelle, esta é a Sra. Mills, o verdadeiro poder por trás de toda a Seção F. Voltaremos a conversar em breve."

Swan as cumprimentou com um aceno de cabeça e deixou a sala.

“Por favor, queria, sente-se” disse a Sra. Mills, fixando seus penetrantes olhos castanhos em Belle. “Estamos felizes por sua decisão de se juntar a nós. Estou à sua disposição para responder quaisquer perguntas que tenha e para explicar o que vai acontecer em seguida. Você tem mais algum familiar além de seu pai?”

“Não, Sra. Mills. Minha mãe faleceu quando eu tinha dez anos de idade e desde então eu vivo apenas com meu pai e a governanta da casa, a Sra. Peter. " Ela disse.

“E você não tem irmãos” a Sra. Mills lia o conteúdo de uma pasta que estava à sua frente. “Isso facilita as coisas. Você dirá a qualquer pessoa que lhe perguntar que você está indo prestar serviços à FANY, que, como você sabe, Isabelle, é a Divisão de Enfermagem de Emergência e Cavalaria. Você dirá que foi convocada para prestar serviços de condução de veículos na França. Sob hipótese alguma deve lhes dizer a verdade.”

“Sim, Sra. Mills”

“Você partirá para o treinamento em breve, que será num lugar fora de Londres. Você ficará lá durante algumas semanas e o seu progresso será monitorado por mim diariamente, em todos os aspectos referentes às tarefas que receberá no futuro.”

“Em que consiste o programa de treinamento?” Belle perguntou.

“Você aprenderá todas as habilidades que irá precisar Srta. French.” Mills falou, olhando para os arquivos sobre a mesa. “Após discutir seu codinome com o Sr. Buckmaster, decidimos que você deve usar o sobrenome de solteira de sua mãe, que, se não me engano, é Chesneau. E sua tia por parte de mãe mora em Saint-Raphaël?”

“Sim.” Belle assentiu.

“Então é assim que se apresentará na França, como sobrinha de sua tia. Cremos que é uma boa ideia acostumar-se com seu novo nome assim que possível” explicou a Sra. Mills. “Passará a atuar com o nome de Isabelle Chesneau.”

“Perfeitamente.” Concordou Belle. “Quanto tempo até que eu vá para a França?”

“Gostamos de treinar nossos agentes por um período de oito semanas, pelo menos. Entretanto, dadas as condições na França e a necessidade de enviar nossas garotas até lá com urgência, pode não demorar tanto.” Suspirou a Sra. Mills. “Temos uma dívida de gratidão para com a senhorita e seu pai, por permitir que você se preparar para executar um trabalho tão perigoso. Tem mais alguma pergunta querida?”

“Posso perguntar exatamente quais serão minhas atribuições quando eu chegar à França?”

“É uma excelente pergunta.” Concordou a Sra. Mills. “Embora a maioria das nossas agentes vão a campo para executar tarefas de comunicação e sabotagem, a senhorita será designada a uma missão mais complexa de espionagem. Nosso objetivo é frustrar e desmembrar o regime nazista na França, entretanto a tarefa que a senhoria irá executar está diretamente ligada ao nosso sucesso nesta guerra.”

“Entendo. Mas pensei que havia pessoas com qualificações melhores que as minhas para esse trabalho.” Belle disse, franzindo o cenho.

“Duvido que haja Isabelle.” Respondeu a Sra. Mills, em tom reconfortante. “Seu francês impecável e o conhecimento de Paris e do sul do país, combinado com sua aparência, a tornam perfeita para a função”.

“Mas... Certamente essas funções são mais adequadas a homens, não são?”

“É interessante perceber que isso não é verdade. Qualquer homem francês pode ser convocado para um interrogatório por sua milícia local ou pela central da Gestapo. Eles também podem ser revistados. Ao mesmo tempo, uma mulher que viaje pela França, num tem, ônibus ou bicicleta, tem uma chance muito menos de atrair atenção.” A Sra. Mills levantou as sobrancelhas e abriu um sorriso sombrio. “Tenho certeza de que, com sua aparência atraente, Isabelle, você conseguirá encontrar uma saída para qualquer problema que venha a enfrentar.” Ela disse, olhando para o relógio. “Bem, se não tiver mais perguntas, sugiro que volte ao seu apartamento por enquanto, e aprecie aquele que pode ser o seu último fim de semana em Londres durante um bom tempo. Estaremos passando mais informações a você sobre quem você irá espionar nas próximas semanas.” Concluiu a Sra. Mills, escrutinando-a com seus olhos castanhos. “Acho que você irá fazer um ótimo trabalho, Isabelle. E você deveria se orgulhar do que conquistou: somente os melhores são selecionados como agentes da Seção F.”

Notas finais
Espero que gostem do primeiro capítulo e por favor comentem!