The Sound Of War
2 Let's Get It Started
Notas iniciais
Na Segunda-feira pela manhã, Belle se encontrava nos degraus de Wanborough Manor, uma imensa casa de campo nos arredores de Guildford, em Surrey. Ela foi conduzida ao andar superior da casa, até um quarto que continha quatro camas de solteiro. Parecia que, até o momento, apenas uma estava ocupada. Belle desfez sua pequena mala e pendurou suas roupas no interior do espaçoso armário de mogno, percebendo que, quem quer que fosse a mulher com quem compartilharia o quarto, tinha um estilo muito mais extravagante em relação às roupas que usava. Um vestido justo e dourado para usar de noite estava pendurado ao lado de calças sociais de seda e uma echarpe longa e colorida.
“Você deve ser Isabelle” disse uma voz arrastada atrás dela. “Estou feliz que esteja aqui. Não queria passar as próximas semanas sendo a única garota neste lugar. Sou Ruby Lucas ou, melhor dizendo, Claudette Burroughs!”
Isabelle virou para cumprimenta-la e ficou chocada com sua aparência dramática. Ela tinha cabelos negros e brilhantes que lhe cascateavam quase até a cintura, pele cor de marfim e grandes olhos verdes ressaltados com delineador; para completar, um par de lábios pintados de vermelho. O contraste entre a aparência sensual da garota e o uniforme regular da FANY não poderia ser mais marcante. Belle ficou surpresa que aquela mulher fora selecionada; ela se destacaria naturalmente no meio de uma multidão.
“Isabelle French ou, melhor dizendo, Chesneau” disse Belle, sorrindo e cumprimentando Ruby com um aperto de mão.
“French? Você é parente do comandante French?” perguntou Ruby, se jogando na cama e ascendendo um cigarro.
“Ele é meu pai” disse Belle, aproximando-se do espelho e verificando que seu cabelo ainda estava em ordem, preso num coque comportado.
“Pensei que filhas de comandantes não eram mandadas para a guerra” Ruby disse, levantando as sobrancelhas enquanto inalava a fumaça. “Porque a escolheram?”
“Disseram que fui selecionada por causa do meu francês fluente e por conhecer o país”.
“Eu não conheço absolutamente nada na França. Fui selecionado pelo fato que sou fluente em alemão” Ruby se aproximou de um vaso de plantas que estava no peitoril da janela e bateu a ponta do cigarro na borda, deixando as cinzas caírem ali. “Parece que eles precisam desesperadamente de pessoas que saibam operar equipamentos sem fio na França. Como tenho habilidades com codificação, sou a garota de que eles precisam. Sabia que, atualmente, a expectativa de vida de uma operadora de comunicações especializadas em aparelhos de rádio é de cerca de seis semanas?” ela perguntou voltando para a cama e deitando-se.
“Não pode ser!”
“Bem, não chega a ser surpreendente, não é? Afinal, não é fácil esconder um transmissor de rádio debaixo das nossas roupas, não é?”
Belle mal podia acreditar na tranquilidade de Ruby ao comentar sobre a possibilidade de vir a morrer.
“Isso não a assusta?”
“Não faço ideia” respondeu Ruby “Só sei que os nazista precisam ser detidos. Meu pai conseguiu tirar minha avó de Berlim antes do começo da guerra, mas o resto da nossa família desapareceu na Alemanha. Devem ter sido levados para alguns daqueles campos da morte de que ouvimos falar. Assim, se houver qualquer coisa que eu possa fazer para prejudicar os alemães, eu farei” Ruby disse com um suspiro. “Imagino que a vida não valerá a pena, para qualquer um de nós, a menos que Hitler e sua quadrilha feliz sejam enterrados a sete palmos. E quanto mais cedo isso acontecer, melhor será. A única coisa que me incomoda é ter que cortar o meu cabelo, de acordo com que me disseram. Isso, sim, será um problema.” Ela disse, agitando sua cabeleira negra e lustrosa.
“Seu cabelo é bonito” Belle disse, pensando que, se alguém tivesse condições de ludibriar e derrotar os nazistas sozinho, seria essa mulher extraordinária.
“Como a vida muda” Ruby disse, deitada na cama e apoiando a cabeça nas palmas das mãos. “Há apenas quatro anos, eu era uma debutante em Londres. A vida era simplesmente uma enorme festa. E agora” ela olhou para Belle e suspirou de maneira conspiratória. “veja onde estamos”
“Sim” Belle concordou. “Você é casada?”
“De jeito nenhum!” Ruby disse, sorrindo. “Decidi, há alguns anos, que queria viver a vida plenamente antes de encontrar alguém e me acomodar. Parece que é exatamente isso que estou fazendo. E você?”
“Também não. E duvido que encontrarei alguém.”
“Eu duvido.” Ruby disse com os olhos cheios de compaixão. “Essa guerra é realmente horrível. Mas tenho certeza que você encontrará alguém, mais cedo ou mais tarde.” Concluiu, apagando o cigarro no vaso de plantas.
Durante a refeição daquela noite, na elegante sala de jantar, Belle foi apresentada aos quatro outros agentes que participariam do treinamento. Conforme o vinho era servido, Isabelle observou as pessoas reunidas ao redor da mesa, percebendo que a cena poderia passar por um jantar casual, ocorrendo em várias mesas por toda a Grã-Bretanha naquele momento.
Após a sobremesa, Capitão Hooper, o instrutor encarregado, bateu palmas para pedir silêncio.
“Senhoras e senhores, espero que esta noite tenha dado a todos a oportunidade de se conhecerem melhor. Vocês passarão a próxima semana trabalhando em conjunto. Entretanto, receio que a diversão acabe aqui. O café da manhã será servido às seis horas e, em seguida, cada um de vocês receberá uma avaliação da condição geral de suas saúde e aptidão física. Daqui a dois dias, terão que correr um percurso de oito quilômetros todos os dias antes do café da manhã”
Houve protestos em meio ao grupo.
“Muitas das atividades que farão aqui vão se concentrar no aumento da resistência física de vocês. É de suma importância que todos partam para a França na melhor condição física que puderem alcançar. É o tipo de aptidão que poderá salvar suas vidas. Alguns já passaram por treinamento militar, então estarão acostumados aos rigores do exercício físico. Para os outros, especialmente para as damas” disse olhando para Ruby e Belle. “Pode ser um pouco mais difícil. As próximas semanas serão as mais difíceis de suas vidas. Entretanto, se realmente dão valor a elas, dedicarão todas atenção e energia para aprender as habilidades que lhes ensinaremos. Vou colocar a programação do dia no mural ao lado do hall de entrada às seis horas da tarde, todos os dias. Durante as semanas que estiverem aqui, vocês aprenderão a atirar, detonar dinamite, o básico do código Morse, habilidades de sobrevivência e como saltar de paraquedas. Tenho certeza de que todos sabem que os agentes da SOE estão, provavelmente, entre aqueles que enfrentam os maiores perigos se compararmos com todos os compatriotas que estão lutando contra os nazistas na França pelo direito comum à liberdade.”
A sala ficou repentinamente em silêncio. Todos os olhos estavam focados no capitão.
“Também devo acrescentar que sem homens e mulheres do calibre de vocês, que conhecem e compreendem os perigos, e mesmo assim estão preparados para enfrentar o desafio, essa guerra e nossa vitória nunca poderiam ser conquistadas. Assim, em nome dos governos britânico e francês, agradeço a presença de cada um de vocês. Agora, temos café e conhaque na sala de artes para quem desejar. Para quem não quiser, me despeço aqui.”
Enquanto os outros companheiros desapareciam pela porta da sala de artes, o capitão Hooper pediu para que Belle aguardasse alguns instantes.
“Senhorita Chesneau, presumo que a senhorita ainda não tenha sido informada sobre sua missão na França?”
“Ainda não, senhor” Belle confirmou.
“Pois bem, a Sra. Mills pediu para que eu lhe entregasse este envelope. Amanhã ela irá se reunir com você para explicar mais alguns detalhes.”
“Obrigada, capitão” Belle pegou o envelope amarelo, que estava lacrado.
Isabelle preferiu não se reunir na sala de artes, subindo as escadas indo para o quarto.
Acomodou-se na cama, deixando a luz do abajur ligado. Olhou para o envelope em suas mãos, qualquer que fosse o conteúdo dele, Belle sabia que aquilo era o seu futuro em meio à guerra. Relutou alguns instantes, pensando se deveria abri-lo ou não. Isabelle suspirou, abrindo o envelope e despejando o conteúdo sobre a cama.
Havia uma parta e um saco plástico com alguns cartões e um relógio. Belle abriu a pasta e viu o rosto de um homem retratado nas páginas. Ele tinha cabelos negros que desciam como cortinas entorno do rosto. Belle deduziu que ele deveria ter em torno de 50 anos; seus olhos revelavam pouco sobre quem aquele homem poderia ser. As fotos estavam datadas de 1940. Eram fotocópias de todos os artigos que detalhavam o desaparecimento de Adrian Gold.
Belle examinou todos os anúncios que relatavam que Adrian Gold, agente especial da SOE, havia desaparecido durante missão na França, em julho de 1940.
Depois de ler, Belle pegou as credências que Gold usara durante suas missões e, por fim, ela examinou o relógio, que a intrigou intensamente. Era um belo relógio, folheado à prata e com pulseira de camurça.
Belle ouviu alguns passos no corredor e guardou tudo novamente no envelope, colocando-o embaixo do travesseiro. Ruby entrou no quarto, com uma risada enquanto tropeçava em algo que estava no chão.
“Está acordada, Belle?” ela disse, num sussurro.
“Sim” respondeu quando ouviu a cama de Ruby ranger.
“Minha nossa, esta noite foi divertida! Hooper é realmente um sonho, você não acha?”
“Ele é muito bonito, sim”.
Ruby bocejou e disse:
“Creio que as próximas semanas vão ser muito mais agradáveis do que eu imaginava. Boa noite, Belle.”
Isabelle estava sentada no fundo da sala de artes, segurando o envelope que recebera na noite passada junto ao corpo. Durante toda a noite, o rosto de Adrian Gold invadiu seus sonhos sorrateiramente, o que a fez acordar perturbada todas as vezes. Ela havia lido mais de cinco vezes os artigos que lhe foram entregues; sabia que Gold havia nascido na Escócia e era filho único de uma das famílias mais poderosas da região. Seu pai havia participado da primeira grande guerra, o que motivou o filho a lutar. Não havia registros informando se Gold era casado ou tinha algum filho, e também não havia relatos concretos sobre o seu desaparecimento.
Instantes depois, a Sra. Mills adentrava a sala, acompanhada do Sr. Buckmaster.
“Srta. French!” Buckmaster cumprimentou Isabelle com entusiasmo. “É muito bom revê-la. Devo dizer que o seu pai encontra-se em perfeitas condições, embora esteja sentindo sua falta.”
“Obrigada, Sr. Buckmaster. Também estou com saudades dele” Belle disse, sentindo-se mais tranquila ao receber as notícias de seu pai.
“Srta. French, acredito que tinha recebido o meu envelope.” A Sra. Mills perguntou após cumprimentar Belle e pedir para que todos se sentassem.
“Sim, senhora”
“E o que achou?”
“Eu achei muito... Intrigante” Belle colocou o envelope na mesa a sua frente. “Embora eu tenha algumas dúvidas em relação a isto”
“E quais duvidas seriam estas, senhorita?”
“Bom, conforme a senhora havia me informado antes, estou sendo designada para uma missão de espionagem, na qual, provavelmente, quem eu devo espionar é o Sr. Adrian Gold. Mas, como eu posso espionar alguém que está desaparecido?”
“Porque ele não está desaparecido”
“Senhora?”
Regina sorriu, abrindo uma documentação sobre a mesa, e entregando uma folha para Belle.
“O nosso companheiro Gold foi selecionado para uma missão na França em 1940, logo que a SOE foi criada. Durante o período que ele atuou, ele foi considerado o nosso melhor agente. Em 1941, após um ataque organizado pelos rebeldes na França, Gold desapareceu. Acreditamos que a Gestapo havia prendido ele e a única coisa que podíamos fazer era rezar para que as sessões de tortura não o fizesse abrir a boca” Mills ascendeu um cigarro, oferecendo outro à Belle, que recusou. “Mas, após alguns meses, um de nossos agentes viu claramente Gold jantando com alguns oficiais alemães.”
“Ele simulou o próprio desaparecimento para se unir aos alemães?” Belle perguntou, incrédula. Não conseguia imaginar o que poderia fazer alguém querer se unir aos nazistas.
“Foi o que pensamos também” Buckmaster concordou. “No começo pensamos que ele estava utilizando uma dupla identidade, e que poderia nos fornecer informações valiosas sobre os ataques da Gestapo e os planos da SS, mas não foi o que aconteceu”.
“Começamos a sofrer grandes perdas do nosso lado, e deduzimos que Gold anda passando informações nossas aos nazistas”.
“Mas, como ele está tendo acesso a nossas informações? Foi captado algum sinal de rádio ou algo do gênero?”
“Não, e é exatamente essa a sua missão Srta. French. Você deve descobrir tudo sobre Adrian Gold, custe o que custar”. A Sra. Mills frisou as últimas palavras, o que fez Belle estremecer.
“Após o fim do seu treinamento passaremos as últimas informações que irá precisar.”
“Você vai se sair muito bem, Srta. French. Você nunca participou da guerra, então ninguém irá reconhecer o seu rosto.” Buckmaster a estudou seriamente. “Mas devo lembrá-la para jamais mencionar o seu sobrenome. Ao contrário da sua fisionomia, seu nome é bem conhecido”.
“Sim, senhor. E qual o nome que Gold utiliza na França?”
“Segundo nosso informante, ele é conhecido como Anton Carruthers. Mas quando você chegar à França você receberá todas informações necessários sobre Adrian Gold” Mills falou, se levantando. “Lembre-se Srta. French, que o possível destino de nosso sucesso está em suas mãos.”
Ao contrário das impressões iniciais de Ruby, as semanas seguintes testaram cada um dos agentes até seus limites. Todos os dias foram preenchidos com rigorosos exercícios físicos e mentais; se não estivessem em uma trincheira aprendendo a detonar dinamite, estavam subindo em árvores e se escondendo em meio aos galhos.
Castanhas, frutas arbustivas, cogumelos e folhas de plantas comestíveis eram identificados, assim como intermináveis sessões de treino de tiro e a inescapável corrida de oito quilômetros que ocorria todas as manhãs.
Belle ficou surpresa com a capacidade que tinha para suportar os rigores do treinamento.
Um mês depois, o treinamento preliminar chegava ao dim. Cada agente foi convocado para uma longa e extenuante sessão com o capitão, que, sem qualquer cerimônia, apontou quais eram seus pontos fortes e fracos.
“Você se saiu extremamente bem, Isabelle. E todos aqui estão satisfeitos com o seu progresso. Tenho certeza que seu pai ficará orgulhoso” confirmou o capitão. “A única crítica feita pelos oficiais responsáveis por seu treinamento é que você às vezes demora demais para tomar decisões. No campo de operações, seu destino pode ser decidido por sua reação imediata a uma situação. Entendido?”
“Sim, senhor”
“Você provou que tem bons instintos. Confie neles e eu duvido que a deixarão em maus lençóis. Vamos enviá-la a Escócia com os outros agentes que passaram pelo treinamento básico aqui.” Concluiu o capitão. “Isso irá completar seu treinamento para as missões que cumprirá no futuro” Ele se levantou e estendeu a mão par ela. “Boa sorte, madame Chesneau” ele disse sorrindo.
“Obrigada, senhor”
Quando Belle fechou a porta atrás de si, ele acrescentou:
“E que Deus a acompanhe”
Belle, Ruby e outros dois companheiros foram enviados às terras selvagens da Escócia para começarem o treinamento avançado de guerrilha. Longe de qualquer forma de habitação, os quatro praticaram suas habilidades em explodir pontes e navegar em barcos pequenos sem afundá-los. Também aprenderam a carregar armas alemães, britânicas e americanas, e a escondê-las em caminhões em meio a completa escuridão.
A importância da Linha de Vichy foi explicada em todos os seus pormenores e os agentes em treinamento foram informados sobre como os alemães haviam criado uma fronteira que cortava a França em duas, separando a zona “ocupada” do norte ao sul.
As habilidades básicas de sobrevivência que haviam aprendido em Wanborough Manor se tornaram em realidade quando eram abandonados nos charcos escoceses para aprender a viver com os recursos que conseguiam coletar ou caçar durante vários dias. Um assassino treinado chegou para ensiná-los como matar um agressor de forma rápida e silenciosa.
Depois de duas semanas do início do treinamento na Escócia, Ruby foi retirada do grupo.
“Graças da Deus” ela comentou, enquanto fazia as malas apressadamente. “Aparentemente, serei enviada a Thames Park para aperfeiçoar minhas habilidades de comunicação com rádio. Há algo muito sério acontecendo na região do Canal da Mancha, pois estão precisando urgentemente de uma pessoa especializada nesse tipo de comunicação. Oh Belle” ela disse, abraçando sua amiga. “Espero que nos encontremos em breve na França”
Alguém veio bater à porte.
“Srta. Lucas, o carro a está esperando na porta da frente”.
“Hora de partir” Ruby disse enquanto pegava sua mala e caminhava em direção à porta. “Foi um prazer conhece-la”.
“Você também. Por favor, continue acreditando” pediu Belle. “Você vai conseguir passar por tudo isso”
“Vou tentar” concordou Ruby, abrindo a porta. “Mas tenho certeza de que vou morrer quando estiver lá, Belle, Eu sei que vou”.
Ruby deu de ombros.
“Adieu!”
“Bem, Isabelle, você concluiu o treinamento e está prestes a ser enviada à França. Como se sente?”
Belle estava de volta a Londres, no escritório central da Seção F, sentada em frente à escrivaninha de Emma Swan.
“Acredito que minha preparação foi a melhor possível” respondeu Belle automaticamente, uma frase que não expressava nem um ponta de seus pensamentos e sentimentos. Depois do mês que passou na Escócia, foi transferida para Beaulieu, em Hampshire, outra casa apropriada pelo governo da Inglaterra, onde suas habilidades de espionagem foram ainda mais refinadas. Ela aprendeu a distinguir os diferentes uniformes das milícias francesas e alemãs (a extensão policial do detestável governo de Vichy) e aprendeu o que deveria procurar ao recrutar cidadãos franceses para sua rede de contatos. Ela também aprendeu a importância de nunca registrar no papel o que houvesse aprendido. “Acho que vou me sentir melhor quando estiver em campo” concluiu.
“Ótimo. É isso que gostamos de ouvir” respondeu a Srta. Swan, alegremente. “Sua viagem para a França está programada para a próxima noite de Lua cheia. Acho que vai gostar de saber que não terá que entrar no país de paraquedas; em vez disso, será levada num avião Lysander e pousará em segurança no solo francês.”
“Obrigada” Belle disse, sentindo-se aliviada com aquele detalhe.
Na noite de 17 de junho, um carro levou Belle e Regina Mills até o aeródromo de Tangmere, em Sussex. No hangar, elas se sentaram ao redor de uma pequena mesa perto dos fundos da estrutura e Regina entregou uma folha de papel a Belle.
“Por favor, passe os próximos vinte minutos memorizando tudo que está escrito neste papel. Seu codinome será “Rosa” e será usado sempre que estiver em contato conosco ou outros agentes no campo de operações, tanto britânicos quanto franceses. Quando pousar na França, em Vieux-Briollay, você será recebida por um comitê de recepção. Eles cuidarão de você e lhes darão o transporte necessário, além dos detalhes de onde você irá ficar lá”
“Sim, Sra. Mills”
A Sra. Mills colocou uma pequena mala de couro na mesa.
“Aqui está tudo de que vai precisar. Documentos de identidade em nome de Isabelle Chesneau, uma bibliotecária que vive em Paris. Você tem vários parentes no sul da França e é de lá que você vem. Essa será a sua justificativa, se precisar cruzar a Linha de Vichy para entrar ou sair da zona de ocupação no norte do país”.
Belle observou enquanto a Sra. Mills retirava um pequeno tubo de vidro que continha um comprimido.
“Essa é a sua pílula C. Você deve guarda-la dentro do salto do seu sapato”.
Já sabendo como as coisas funcionavam, Belle retirou do pé o sapato especialmente adaptado e abriu uma tampa que cobria a sola do salto. A Sra. Mills inseriu a pílula na cavidade.
“Espero que nunca precise usá-la”.
“Eu também” Isabelle concordou, sabendo que aquele comprimido de aparência inocente continha uma dose letal de cianureto de potássio, caso ela fosse presa ou torturada.
“Bem, está preparada?” A Sra. Mills disse, em tom mais jovial.
“Sim”
“Então, vamos embarca-la no avião”.
As duas caminharam em direção à pequena aeronave, pintada de preto para evitar que fosse detectada em uma noite enluarada. Ao chegar aos degraus, a Sra. Mills parou.
“Não confie em ninguém Isabelle. Hora de embarcar, querida.” A Sra. Mills disse bruscamente. As hélices dos motores do avião começaram a girar. Regina Mills estendeu a mão para cumprimentar Belle. “Adeus, Isabelle, e boa sorte.”
Estupefata, Belle subiu as escadas e entrou na cabine apertada do avião. Enquanto prendia o cinto de segurança em seu assento, tentava processar o que acabara de ouvir. Belle mordeu seu lábio com força para reprimir as lágrimas. Naquele momento ela queria poder estar em casa, envolta aos braços de Sarah e de seu pai.
Sentindo o coração pesar no peito, ela entendia a razão pela qual não a deixaram escrever para o pai. Eles sabiam que aquilo iria fazê-la abandonar todo o treinamento e que daria as costas à tarefa aterrorizante que estava prestes a desempenhar.
Mas agora não havia como retroceder. Enquanto o avião decolava, invadindo o céu noturno, Belle olhou pela janela e observou o negrume que cobria aquela região rural da Inglaterra.
“Adeus, Papa” sussurrou. “Juro que voltarei assim que puder”.
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