The Sound Of War

3 Unexpected Admirer


Notas iniciais
Once Upon a Time não me pertence.

O avião tocou o chão suavemente num campo de pouso, guiado por pequenas lanternas guiadas por mãos invisíveis que estavam em terra. O piloto deu meia-volta e fez um sinal, erguendo o polegar.

“Tudo parece estar em ordem. Adeus, senhorita. E boa sorte” acrescentou enquanto Belle descia as escadas até o gramado.

“Bem-vinda” disse um homem, que passou por ela a passos apressados, indo em direção às escadas do avião com uma bolsa de lona. Ele jogou o pacote para dentro da aeronave e, em seguida, trancou a porta e voltou correndo para avaliar sua nova recruta.

O avião já estava começando a viagem de volta. Belle olhou para aeronave com um forte sentimento de inveja, desejando ter coragem de correr em direção a ela, embarcar e seguir seu coração de volta à Inglaterra.

“Siga-me” disse o homem que colocou a bolsa dentro do avião. “E ande logo. Vi um caminhão alemão passar por aqui há poucos minutos. Eles devem ter ouvido a aterrissagem.”

A agente e o seu guia correram pelo campo. Era uma bela noite francesa de céu limpo e temperatura agradável, e, ao correr para acompanha-lo, Belle teve uma sensação de familiaridade em meio à estranheza. A França tinha o mesmo cheio de sempre: o ar quente e seco com o aroma de pinheiros, tão diferente da umidade do interior da Inglaterra. Ela reconheceria aquele cheiro em qualquer lugar. O país trazia consigo a lembrança da sua amada mãe.

Após algum tempo, o guia abriu a porta de uma cabana de madeira abrigada no interior de uma floresta densa. Dentro, o chão estava cheio de colchonetes encimados por cobertores. Havia também um lampião a gás no canto, que o anfitrião rapidamente ascendeu com um palito de fósforo.

“Devemos ficar aqui dentro até o dia raiar, quando se encerra o toque de recolher. Em seguida, eu a levarei até a estação de Vieux-Briollay, que fica a cerca de vinte minutos de bicicleta daqui. Por favor, fique à vontade. Tire o traje de aviação e o pendure naquele canto. Ele ficará comigo” Instruiu o homem. “Vou preparar um pouco de café enquanto isso.”

Belle se livrou do traje e se sentou no colchonete enquanto o guia dava uma caneca esmaltada de café para ela.

“Meu nome é Leroy” anunciou o guia. “E sei que você deve ser Rosa, madame. Em nome da França, eu lhe dou as boas-vindas. Tenho certeza de que você irá se sair muito bem, qualquer que seja a sua missão. Muitos de seus compatriotas, especialmente na região de Paris, foram presos nos últimos dias. Não temos certeza do que aconteceu com eles, mas acreditamos que deve haver um traidor infiltrado no grupo para permitir que a Gestapo consiga reconhece-los com tanta facilidade. Só posso lhe dizer que não deve confiar em ninguém” Leroy enfatizou, repetindo o mesmo conselho que Regina lhe havia dado. “Agora é hora de dormir um pouco enquanto ainda pode. Vou montar guarda e irei alertá-la, se for necessário. Boa noite”.

Belle adormeceu após algum tempo, mas acordou com Leroy lhe agitando o corpo e viu que a luz entrava através da pequena janela da cabana.

“Bom dia, Rosa” Leroy disse. “Pronta para partir? Quer café?”

“Sim, obrigada”

Belle sentou-se na soleira da porta observando o sol, que agora já estava acima das árvores e iluminava o chão.

“Bem, Rosa, vou lhe contar o que vai acontecer a seguir” falou Leroy, entregando-lhe uma caneca de café e sentando-se ao lado dela, ascendendo um cigarro. “Bem, creio que você já foi informada de que recentemente a Gestapo prendeu alguns dos nossos melhores agentes.”

“Sim” Belle confirmou.

“Não recebemos nenhuma mensagem do operador de rádio, o que indica que ele também foi preso.” Leroy esmagou o cigarro com a sola do sapato. “Recebi uma comunicação há três dias, dizendo que estavam à sua espera e a encontrariam na estação de trem de Montparnasse. Não sei quem estará esperando por você” acrescentou Leroy, ascendendo outro cigarro rapidamente. “É muito perigoso que eu a acompanhe neste momento. Você terá que fazer a jornada sozinha”.

“Entendo” Belle disse, segurando a caneca com força.

“Como seu codinome ainda não está nos arquivos da Gestapo, é pouco provável que você levante suspeita durante a jornada.” Ele disse “Você encontrará seu contato na plataforma da estação, logo em frente à tabacaria. Você terá que comprar um maço de Gauloises e, quando o fizer, deixe que caia no chão, como se fosse um acidente. Pegue os cigarros e ascenda um deles com estes fósforos” disse Leroy, tirando uma caixa de fósforos do bolso e entregando a ela. “Neste ponto, um homem se aproximará de você. Ele vai leva-la para um de nossos esconderijos.”

“E se ele não aparecer?”

“É um sinal de que há algo errado. Você conhece Paris?”

“Sim”

“Então não terá problema para encontrar este endereço.” Disse Leroy, entregando-lhe um pedaço de papel. “Chegando lá, pergunte por “Encantado””.

Belle leu o endereço, com alguma surpresa.

“Fica na Rua de Varenne. Minha família tinha alguns amigos lá”.

“Então sua família, provavelmente, estava envolvida com a alta sociedade. É uma das áreas mais prósperas de Paris” disse Leroy, levantando uma sobrancelha. Belle sabia que seu pai deveria conhecer mais da metade das pessoas que moravam naquela região.

“E... Caso “Encantado” não esteja lá?” ela perguntou. “Devo desistir e pegar o tem de volta para cá?”

“Irmã...” disse Leroy, pisando com força nos restos do cigarro. “Se chegar a esse ponto, você terá que usar a cabeça. Hospede-se em uma pensão e espere até que Encantado retorne. Bem, agora é hora de nos despedirmos. E lembre-se: você não deve circular pelas ruas de Paris após o toque de recolher. É o horário mais perigoso de todos”.

Belle examinou as bicicletas antigas que eles pedalariam até a estação de tem. “Quem é esse Encantado?” Belle perguntou ao montar na bicicleta, equilibrando a mala precariamente entre a cesta e o guidão.

“Pelas nossas regras, ninguém faz perguntas. Mas ele será a pessoa responsável em guia-la na sua missão. Ele irá lhe fornecer todas as informações e o suporte necessário de que precisar”.

O trajeto de bicicleta até a estação correu sem qualquer anormalidade. A cidade não parecia estar diferente do que Belle conhecera antes da guerra. A única diferença era a bandeira com a suástica desfraldada sobre a prefeitura.

Leroy comprou a passagem de Belle e lhe entregou o bilhete. Ela percebeu a maneira que os olhos do francês esquadrinhavam repetidamente a plataforma da estação.

“Preciso partir agora. Adeus, madame” ele disse, beijando-a carinhosamente nas duas faces, como se ela fosse uma parente querida. “Mantenha contato” acrescentou e, acendendo mais um cigarro, andou casualmente em direção à bicicleta, deixando Belle sozinha na estação.

O trem chegou pontualmente às onze horas. Belle embarcou, guardando sua mala no compartimento que havia acima dos bancos. Quando o trem deixou a estação, Belle fechou os olhos, esperando que a familiaridade relaxante do movimento do trem ajudasse a acalmar seus nervos. Mas, a cada estação, seus olhos se abriam para examinar qualquer pessoa que entravam em seu vagão.

Finalmente, às cinco horas, seu trem chegou à estação de Montparnasse, em Paris. Belle se juntou aos passageiros no desembarque e andou pela plataforma, preparando-se para passar pelo primeiro posto de guarda da milícia. Viu que pediram para vários dos passageiros colocarem suas malas sobre uma mesa e abri-las para inspeção. Belle sentiu que seu coração estava prestes a sair pela boca, mas nenhum dos policiais lhe dirigiu um olhar sequer.

Belle procurou pela tabacaria, ao passar sem ser incomodada. A estação estava cheia de trabalhadores que retornavam às suas casas, e ela finalmente viu o quiosque num canto e foi até lá. Seguindo as instruções que recebera, ela comprou um maço de Gauloises. Ao pegar o troco, deixou o maço cair no chão.

“Ah, mas que diabo...” murmurou, recolhendo o maço e retirando um cigarro. Ela acendeu da maneira mais casual que conseguiu, com os fósforos que Leroy lhe dera, ao mesmo tempo em que olhava ao redor para perceber se qualquer pessoa se destacava da multidão e vinha em sua direção.

Belle fumou o cigarro até o fim, mas ninguém apareceu. Apagando-o com a ponta do pé, ela olhou para o relógio e suspirou, como se alguém que ela estivesse esperando houvesse se atrasado. Dez minutos depois, retirou outro cigarro do maço, usando a mesma caixa de fósforos. Novamente, fumou até a brasa chegar ao filtro.

Após o terceiro cigarro, Belle já sabia que ninguém viria ao seu encontro.

“Perfeito” murmurou consigo mesma e saiu da estação para andar pela primeira vez nas ruas de Paris após a ocupação alemã.

Nunca se sentira tão sozinha nesta cidade com milhões de pessoas. E, embora conhecesse algumas pessoas em Paris, parentes da família de sua mãe, qualquer contato com eles era estritamente proibido.

Sobressaltando-se cada vez que ouvia o barulho do motor de um veículo nazista se aproximando, Belle seguiu para o norte e finalmente chegou à Rua de Varenne, um boulevard amplo e arborizado, ladeado por casas graciosas e elegantes. Muitas delas estavam escuras e silenciosas, mas, ao avistar de longe o endereço informado por Leroy, ela viu que a casa estava ocupada. Respirando fundo, Belle atravessou a rua, subiu os degraus até a porta da frente e tocou a campainha.

Alguns segundos depois, uma arrumadeira idosa abriu a porta. Olhando Belle de cima a baixo, ela lhe dirigiu um arrogante “Sim?”.

“Estou aqui para falar com Encantado” Belle sussurrou. “Por favor, diga-lhe que Leroy manda lembranças” acrescentou.

A atitude da arrumadeira se transformou imediatamente. Uma expressão de alerta se formou em seu rosto enrugado.

“Por favor, madame, entre discretamente, vou chama-lo” e abriu a porta para Belle.

Enquanto a arrumadeira desaparecia por entre uma das portas do corredor, Belle admirou a mobília em estilo antigo e a elegante escadaria recurva que emoldurava a porção principal do hall. Os ocupantes desta casa vinham de um mundo de riquezas que ela conhecia muito bem e no qual se sentia confortável.

Alguns segundos depois, um homem alto, de cabelos castanhos claros, surgiu vindo de uma das salas, vestindo um robe.

“Srta. Chesneau? Não esperávamos que viesse hoje!” ele disse, envolvendo Belle em seus braços. “Havia dado ordens que trouxessem você aqui amanhã”

“Cheguei até a estação e não havia ninguém lá” respondeu assustada.

A expressão no rosto do homem fez com que Belle ficasse em alerta.

“Vá para o andar de cima com Laura. Descanse um pouco e conversaremos mais tarde.”

Após ser conduzida por Laura a um suntuoso quarto no andar superior, foi deixada a sós enquanto a governanta preparava seu banho, Belle estava sentada em uma poltrona.

Laura a levou pelo corredor ao quarto de banho e ela se deliciou brevemente ao entrar na água quente da banheira, após dois dias com poder se lavar. Permitiu-se um sorriso efêmero, saiu relutante da banheira e andou rapidamente em direção ao quarto que lhe foi concedido.

Laura estava sentada na poltrona que havia aos pés da cama.

“James, que você conheceu no hall de entrada, pediu que você se juntasse a ele assim que possível” ela falou, deixando Belle sozinha no quarto.

Enquanto descia às escadas, Belle pensou se deveria confiar naquele homem que a abrigara. Lembrou-se do aviso que Regina e Leroy lhe deram, que ninguém mais era digno de confiança. Mas ele sabia o seu nome, então provavelmente ela estava no lugar certo. Indo até o local indicado por Laura, ela bateu na porta no fim do corredor e entrou.

James estava sentado em uma confortável poltrona de couro defronte uma lareira, em uma suntuosa sala de estar. Ele levantou os olhos do jornal quando Belle entrou.

“Srta. Chesneau, por favor, sente-se” O homem ofereceu a poltrona a sua frente, enquanto colocava um pouco de conhaque numa taça e ofereceu à Belle. “É realmente uma surpresa você estar aqui. Mills havia dado ordens específicas para que você fosse trazida até esta casa apenas amanhã. Você disse que não havia ninguém na estação”

“Exato... Senhor?”

“Me perdoe. Meu nome é James Bougton” ele olhou preocupado para Isabelle. “Se não havia ninguém lá, provavelmente a Gestapo chegou até ele antes. Vamos torcer para que ele não conte nada sobre você. Sabe se alguém mais a viu ou a seguiu até aqui?” James perguntou com os olhos cheios de apreensão.

“Verifiquei cuidadosamente e não vi ninguém que estivesse usando um uniforme nas proximidades”.

“Tudo o que podemos fazer é esperar que você não tenha sido notada, porque é um rosto novo no cenário. Talvez tenham presumido que você era simplesmente uma cidadã qualquer. “

“A Sra. Mills disse que eu era a única pessoa que ela podia mandar à Paris, pois eu seria uma desconhecida e não estaria em nenhuma lista da Gestapo”. Belle explicou.

“E vamos torcer que continue assim. Por sorte eu não fiz contato pessoalmente com quem deveria te encontrar na estação. Não teria sido nada producente caso eu o tivesse feito”.

“Senhor?” Belle estava se esforçando para entender o que James queria dizer.

“Vejo que a Regina não falou nada sobre mim a você” ele a olhou com simpatia. “Eu tenho uma reputação a manter aqui, por assim dizer. Durante os últimos anos que atuei aqui em Paris, eu consegui obter uma posição de respeito aos olhos dos nossos inimigos. Enquanto eu finjo apoiar a causa Nazista, eu consigo descobrir muitas coisas que possam ajudar o nosso lado nesta guerra. Consequentemente, consegui encontrar o nosso amigo Adrian Gold, mais conhecido como Anton Carruthers” James olhou com cautela para Belle. “Eu sei o quanto a senhorita deve estar cansada, Srta. Chesneau, mas temo que terei que lhe passar todas as informações necessárias sobre Gold ainda hoje.”

“Certamente! Quanto antes eu souber com quem eu estarei lidando, melhor será” Ela falou.

“Ótimo, Isabelle” James falou, ajeitando-se na poltrona como se estivesse prestes a contar uma história. “Como você deve saber, Gold passou a ser membro da SOE logo após a sua fundação, em 1940. Nós tivemos muitos sucessos, pois Gold era o nosso melhor agente. No mesmo ano, Gold foi enviado para cumprir missão na França, quando o Terceiro Reich e os representantes da República Francesa acordaram o armistício de 22 de junho. Ele estava desempenhando um trabalho magnífico... até que tudo aconteceu. Foi quando, em uma revolta dos Revolucionários, tivemos notícias de que Gold estava no local e havia desaparecido. Vários agentes foram designados a procurar por ele e alguns até foram presos e mortos, mas não tivemos nenhum sucesso. Após o desaparecimento de Gold, começamos a ter grandes perdas de nossos agentes. Ninguém conseguia escapar. Foi nesta época que me designaram para vir à França, agir como agente duplo, assim como você. Com o tempo, eu consegui ganhar a confiança de alguns dos alemães mais importantes; com isso eu também tive acesso há várias informações que salvaram várias vidas. Eu passei a ser convidado pelos nazistas a participar de jantares e encontros, conforme eu passava à eles informações supostamente valiosas. Infelizmente, os alemães passaram a descobrir informações além das que eu passava para eles, e eu não conseguia entender como. Até que, em um desses jantares, eu fui apresentado a para ninguém menos do que o próprio Adrian Gold” James bebericou a bebida em seu copo. “Eu não conseguia acreditar naquilo. Assim que eu pude, eu avisei imediatamente às autoridades da SOE que Adrian Gold estava vivo”.

“E é ele quem está passando as informações sobre nossos agentes aos alemães.” Belle concluiu.

“Foi o que deduzi” James confirmou.

“Mas por que você não foi designado para espionar Gold? Porque precisam de mim?”

“Porque você é um rosto desconhecido. Não posso arriscar a minha posição” ele suspirou preocupado. “O codinome de Gold era “fiandeiro”. Você deve tomar muito cuidado com ele, pois Gold ainda continua sendo o melhor agente que a SOE já teve.”.

Belle assentiu, tomando um gole da bebida. Ela sabia desde o início que este homem, Adrian Gold, era alguém que ela deveria tratar com extrema cautela.

“Este será um jogo de raciocínio, senhorita Chesneau. Cada ação sua deverá ser estritamente planejada.”

“Sim, eu entendo” Belle concordou. “Leroy disse que eu deveria entrar em contato com Londres para passar o meu relatório assim que fosse possível” ela acrescentou.

“Isso não será necessário. Eu não trabalho para o governo britânico, mas conheço algumas pessoas que estão no topo da hierarquia do serviço de inteligência de nosso país, e nós trocaremos informações.” James se levantou e pediu para que Belle o acompanhasse. “Para todos os efeitos, você é minha prima de segundo grau. Você veio do sul para visitar-me. Agora, vá descansar. Você tem que estar disposta para amanhã à noite” ele abriu a porta para que Belle saísse.

“O que acontecerá amanhã à noite, senhor?” Ela perguntou.

“Você irá conhecer Adrian Gold. Boa noite, Srta. Chesneau”.

Belle acordou na manhã seguinte desorientada por um instante, enquanto observava o quarto em que estava. Lembrando-se dos acontecimentos do dia anterior, ela voltou a se deitar. Sonhara a noite inteira com Gold e, infelizmente, a luz do novo dia que entrava no quarto não aliviaram seus pensamentos. Ao contrário, ela sentia o seu coração bater com força e uma estranha sensação percorria o seu corpo. Ela não estava com medo, mas apreensiva. Hoje ela iria ter a sua primeira e possivelmente a única chance de começar a sua missão e ser bem sucedida nela.

Laura a acompanhou durante toda a manhã, passando mais alguns detalhes sobre James e sua família. Durante o início da tarde, Belle teve a oportunidade de conhecer a esposa de James, Mary Margaret.

A Sra. Bougton era uma bela mulher de cabelos negros e de pele clara como marfim. Ela possuía uma elegância natural que era refletida em seus movimentos e enquanto falava. Assim como Belle e James, ela também era agente da SOE.

“Minha querida Isabelle, não se preocupe” Mary Margaret segurou as mãos de Belle entre as suas. “Você será perfeita esta noite. A Laura pegou alguns vestidos da minha falecida mãe que ficarão esplendidos em você, embora a sua beleza já faça todo o serviço sozinha. Vou deixa-la agora aos cuidados de Laura. Nos veremos à noite durante o jantar. Boa sorte”

Belle agradeceu em silêncio à mulher. Embora as palavras de Mary Margaret fossem sinceras, nenhuma trouxe à Belle o conforto de que ela precisava. A cada momento, conforme começava a anoitecer, o seu nervosismo aumentava. Laura estava fazendo um trabalho excelente com seu cabelo, prendendo apenas algumas mechas e deixando o restante do cabelo pender em uma cascata de cachos. Após aplicar-lhe a maquiagem, ela ajudou Belle a vestir o magnífico vestido azul marinho que caía graciosamente pelo seu corpo. Os diamantes que Laura lhe emprestara para adornar as orelhas e o pescoço completaram o disfarce de Isabelle Chesneau.

Vinte minutos depois, Belle estava em frente á porta da sala de artes. Ela fez uma oração, e pensando no que sua mãe lhe falara antes de falecer, que ela deveria ser corajosa, abriu a porta e entrou.

“Isabelle!”

Imediatamente, James se afastou do grupo que estava na sala e a beijou carinhosamente nas duas faces.

“Vejo que está suficientemente recuperada dos rigores da viagem. Você certamente está ótima” acrescentou James, admirando-a.

“Estou sim” Belle respondeu, sabendo que os olhares dos outros homens estavam fixos nela.

“Venha, deixe-me apresenta-la a meus amigos” disse James, oferecendo seu braço a Belle. Enquanto caminhava em direção aos homens, ela viu uma vasta gama de uniformes que fora treinada para identificar.

“Hans, permita-me apresenta-lo à minha querida prima Isabelle Chesneau, que nos honra com sua amável presença durante sua curta estada em Paris. Isabelle permita-me apresentar-lhe o Kommandant Hans Leidinger.”

Hans Leidinger era o perfeito homem louro e ariano. Ele estava vestido no que ela sabia ser o uniforme de um Abwehr do escalão, um oficial alemão da divisão de inteligência militar.

“Fräulein Chesneau, estou feliz em conhecer outra encantadora mulher da família de James”

“Coronel Alfred Von Gaston” James foi até o próximo homem, que vestia o uniforme da temida Gestapo.

Gaston era um homem de cabelos castanhos claros e de aparência musculosa. Ele admirou-a de cima a baixo, sem disfarçar seu interesse. Em vez de cumprimentar Belle apertando a mão que ela lhe estendia, Gaston levou-a até a boca e a beijou. Seus olhos, de um tom castanho claro, se fixaram nos dela por um instante, antes de dizer num francês perfeito:

“Fräulein Chesneau, onde seu primo James a estava escondendo?”

As palavras, ditas de maneira inocente, desencadearam imediatamente uma onde de pânico em Belle.

“Coronel Von Gaston...” Belle não sabia o que dizer ao alemão, mas não precisou, pois uma outra voz irrompeu atrás dela.

“Ora Coronel, poupe a pobre moça com o seu charme barato” Embora o homem estivesse falando francês, Belle conseguiu identificar facilmente o sotaque escocês na voz dele. “Você irá assustá-la desse jeito”.

Isabelle olhou para o homem e o reconheceu imediatamente. Adrian Gold acabava de se unir ao grupo. Tinha cabelos castanhos que caíam em volta do rosto dele, exatamente como na foto que ela havia visto. Diferente dos outros, ele não estava usando nenhum tipo de uniforme militar, mas um smoking completo, assim como James, porém muito mais elegante. Uma das mãos estava repousada graciosamente em uma bengala. Mas, o que prendeu a atenção de Belle foram os olhos dele; eram de um castanho escuro, mas Belle conseguia ver alguns traços de um tom esverdeado e dourado. Aqueles olhos a esquadrinharam de uma forma diferente do que Gaston havia feito. Gold a olhava com um interesse diferente e muito, muito mais perigoso, intrigante e... Encantador.

O sorriso que estampava o rosto de Gaston se desfez no mesmo instante. Era possível perceber o desconforto que Gold causava a ele.

“Isabelle, este é Anton Carruthers” James falou ao seu lado. Gold a cumprimentou sem exibir nenhuma expressão de interesse, embora Belle pudesse perceber que seus olhos demonstravam certo interesse nela.

“É um prazer conhece-la, Srta. Chesneau.” Gold falou. “James nunca havia falado sobre a senhorita”

“Deve ser porque fazia muito tempo que eu não vinha visita-lo.” Disse Belle, calmamente. “Moro no sul e acho a viagem até Paris bastante árdua”

“Em que lugar do sul sua família vive?”

Mas James já a estava apresentando ao homem seguinte, vestido no uniforme da SS, a Polícia do Estado Alemão.

“Com licença” Belle desviou os olhos de Gold e concentrou a sua atenção no Kommandant Schultz.

“Até breve, Fräulein Isabelle” ela ouviu Gaston dizer em voz baixa.

James colocou uma taça de champanhe em sua mão enquanto Belle conhecia outros oficiais alemães, que estavam junto a um oficial do alto escalão da milícia francesa. Posteriormente, foi apresentada a dois outros franceses, um advogado e um professor universitário. Com os nervos à flor da pele, Belle tomou um gole enorme de champanhe e desejou silenciosamente que James tivesse a fineza de coloca-la em uma mesa junto à segurança da presença de Mary Margaret.

“Senhoras e Senhores, por favor, vamos até a sala de jantar” disse James, conduzindo os presentes até a sala adjacente.

Colocando-se discretamente entre o professor francês, Belle andou até a sala de jantar. Laura indicou seu lugar à mesa. Ela se sentou, aliviada ao ver que o professor estava ao seu lado e que o advogado do outro, em pé, atrás da cadeira. Laura se aproximou rapidamente do advogado assim que ele fez menção de se sentar. Ela murmurou algo em seu ouvido e o francês foi imediatamente até o outro lado da mesa. Repentinamente, Belle percebeu que Alfred Von Gaston estava sentado ao seu lado.

“Fräulein Isabelle, espero que não se sinta ofendida por eu haver pedido para sentar ao seu lado no jantar desta noite” ele disse com um sorriso. “Não é sempre que tenho a oportunidade de ter uma mulher tão bela como companheira à mesa. Agora, precisamos de mais champanhe”.

Gaston fez um sinal para Laura, que se aproximou rapidamente enquanto Belle desviava o olhar daquele homem. Ela havia esperado que Gold pedisse para se sentar ao seu lado, mas se enganou. O sorriso nos lábios dela se desfez no momento que ela deixou de olhar para o coronel ao seu lado, quando, para sua surpresa, seus olhos pararam no homem sentado a sua frente. Gold a observava sorrateiramente; novamente a expressão impassível em seu rosto. Belle não desviou os olhos dele até que Gold o fez, iniciando uma conversa com Mary Margaret, que estava sentada ao lado dele.

“Primeiramente, um brinde” James ergueu a sua taça. “Este jantar está sendo oferecido em honra ao trigésimo segundo aniversário de nosso convidado e amigo, Alfred Von Gaston”.

Todos na mesa ergueram os copos.

“A você, Gaston”.

“A Gaston” Veio o coro de vozes. Belle observou que Gold não se uniu às vozes.

Gaston fez uma mesura exagerada, quase cômica.

“E a nosso anfitrião, James Bougton e sua adorável esposa, por oferecem esta festa. E, ao que parece, ele também me deu um presente de aniversário inesperado” ele disse, olhando para Isabelle com o canto dos olhos. “A Fräulein Isabelle, que veio do sul para se juntar a nós nesta ocasião”.

Belle tentou manter seus nervos sob controle enquanto todos os olhos ao redor da mesa se voltaram em sua atenção; ela podia sentir que Gold a fitava novamente. Nunca poderia imaginar que sua chegada em Paris seria celebrada com um brinde por um grupo de oficiais nazistas e muito menos, por Adrian Gold. Ela tomou um gole do champanhe, sabendo que deveria manter a cabeça no lugar e não bebeu mais nada. Sentiu-se aliviada quando Laura começou a servir a entrada do jantar e a atenção da sala se desviou dela.

Para sua sorte, o professor à sua esquerda era um profundo conhecedor de livros e, assim, em face da atenção insistente que recebia de Gaston, conseguiu fazer um relato verdadeiro relacionado à sua carreira de bibliotecária. O diálogo respaldou seu disfarce e ela reparou nas expressões discretas de aprovação que James lhe lançava, enquanto navegava por entre as perguntas de Gaston e usava seu charme para desviar sua atenção com olhares e sorrisos. Mas, para o seu desgosto, ela percebeu que Gold deixara de prestar atenção nela, e durante todo o jantar, ele ficou submerso nos próprios pensamentos, conversando brevemente com James.

“... A Resistência Francesa está causando mais problemas a cada dia.” Belle ouviu Gaston iniciar uma conversa com James. “Mas ontem conseguimos obter um avanço sobre os ingleses da SOE” O homem contou com orgulho. A menção da SOE atraiu a atenção de Belle, e pela primeira vez ela realmente prestou atenção no que Gaston falava.

“São ótimas notícias Gaston” James falou.

“Eles pensam que são mais espertos do que nós, mas não. Capturamos um agente dele ontem, próximo à estação de Montparnasse. Ele estava indo se encontrar com outro agente que estava chegando à Paris” Gaston falou. “Infelizmente não conseguimos capturar o outro suspeito”

“Mas tenho certeza que isso não tardará a acontecer”

“Não, e conseguimos arrancar algumas informações do bastardo. É só eles serem ameaçados com uma arma que eles contam até os maiores pecados” Gaston fez questão de falar em alto e bom som para que todos ouvissem. “Temos uma inglesa andando pelas ruas de Paris”.

“A SOE manou uma mulher?” O Kommandant Hans falou com desdém.

“Ela é conhecida como “Rosa”. Uma rosa que eu farei questão de destroçar.” Gaston tomou um gole da bebida, enquanto os outros oficiais o gratificavam com orgulho.

Belle estremeceu ao ouvir que a Gestapo sabia que havia uma nova agente na França. Por sorte, os soldados não a encontraram na estação. Ainda assim, o que a preocupava não era o fato dos nazistas saberem disso, mas sim Gold, que naquele momento estava mostrando grande interesse em ouvir Gaston falar. Agora, mais do que nunca, ela deveria ter o dobro do cuidado ao planejar suas ações, pois qualquer passo errado resultaria na sua morte.

“Ao seu sucesso na captura desta Rosa, Gaston!” Um dos oficiais brindou, seguido pelo cora das pessoas. Belle desviou o olhar de Gaston novamente para recair nos olhos penetrantes de Gold. Ele observava Belle com muito mais interesse naquele momento e ela podia notar o lampejo que percorreu os olhos daquele homem.

Ao final da noite, quando os oficiais alemães estavam saindo, Gaston novamente beijou-lhe a mão.

“Fräulein, apreciei muito a sua companhia esta noite. Percebi que não é somente bonita, mas também é inteligente” ele disse, com um meneio de cabeça que indicava sua aprovação. “E eu gosto de mulheres inteligentes”.

Belle sentiu seu corpo enrijecer com desgosto daquele homem. Percebendo que nenhum som iria sair de sua boca, ela apenas agradeceu com um sorriso.

“Eu espero ter o prazer de revê-la, e logo. Heil Hitler!”

Fitando-a com olhos castanhos claros, Gaston seguiu os outros homens para fora da casa.

“Eu espero que ele não a faça sair de Paris as pressas” Gold falou com o seu sotaque escocês, parando ao seu lado.

“Acredito que eu poderei lidar com os elogios dele, embora eu deva dizer que não será nada agradável” Belle falou, olhando para o homem.

Um breve sorriso se formou nos lábios dele, mas que logo desapareceu.

“Quanto tempo pretende ficar em Paris, Srta. Chesneau?”

“Não me decidi a respeito” respondeu, honestamente.

“Isabelle ficará conosco pelo tempo que quiser” disse James, parando ao lado dela.

“Então, tenho certeza que eu irei vê-la novamente” Gold segurou a mão de Belle e levou-a até a boca e a beijou. Para a surpresa de Belle, os lábios dele tocaram a sua pele suavemente e tão breve quanto uma brisa de ar, mas que foi o suficiente para criar uma sensação diferente nela. Belle sentiu seu coração bater um pouco mais rápido e pela primeira vez naquela noite o sorriso que surgiu em seus lábios era honesto.

“Tenha uma boa noite, senhorita” Gold olhou para James, desejando boa noite para ele também, deixando a casa e entrando no carro particular, enquanto o motorista fechava a porta para ele. James fechou e trancou a porta da casa, travando-a também com um ferrolho.

Em pé, no meio do hall, após uma experiência excruciante, Belle sentiu que toda a sua energia de seu corpo se esvaía. Sentiu suas pernas fraquejarem e cambaleou, mas James estava ali para segurá-la, colocando-lhe um braço reconfortante ao redor dos ombros.

“Venha, Isabelle” ele disse enquanto a conduzia até a parte de trás da casa. “Você deve estar exausta. Vamos tomar um conhaque antes de nos recolhermos”.

James fez um sinal para Laura, que aguardava no corredor.

“Traga uma bandeja à sala de estar”

Belle ficou feliz ao poder sentar-se no sofá. Estava tão cansada que chegava a se sentir catatônica. James a observou por alguns momentos enquanto Laura trazia a bandeja com a garrafa de conhaque e os copos. Quando seu copo estava cheio e Laura deixou a sala, ele o ergueu em frente a ela.

“Parabéns, Isabelle. Você foi magnífica esta noite” brindou James. Ela o viu sorrir com sinceridade pela primeira vez e seu belo rosto repentinamente ganhou vida.

“Obrigada” ela disse. “Mas não descobri nada sobre Gold” Belle sentiu-se fraca e angustiada.

“Esta noite foi apenas para você conhece-lo. E parece que você causou uma ótima impressão, e não só para ele. Parece que você conquistou um admirador.” Concluiu James, repentinamente assumindo uma expressão séria. “Gaston é um dos poucos nazistas que eu conheço aqui em Paris que vem de uma família aristocrática. Alfred Von Gaston é um dos homens mais cruéis e mortais dentre todos os que estão no comande de Paris atualmente. É implacável quando precisa expor traidores da causa nazista.”

“Não tenho medo do que ele possa fazer comigo, mas sim com os outros”.

“Não o subestime Isabelle” James falou. “Ele ficou encantado por você, embora eu tenha certeza de que Gaston não vá querer competir com Gold. Ele não desviou a atenção de você um minuto sequer”.

“Senhor?” Belle não entendeu o que James quis dizer com aquilo. Em todos os momentos do jantar que ela olhou para Gold, ele estava submerso nos próprios pensamentos sem prestar atenção no que acontecia ao seu redor.

“Gold é extremamente cauteloso e discreto em suas ações. Ele pode não ter olhado para você como Gaston fez durante todo o jantar, mas sem dúvida ele ouviu cada palavra que saiu da sua boca”.

Belle sentiu um arrepio percorrer seu corpo.

“Você foi perfeita Belle” James disse, oferecendo o braço. “Vamos nos recolher?”

“Sim” Belle disse, reprimindo um bocejo enquanto se levantava. Os dois caminharam lado a lado pelo corredor e subiram as escadas até o andar superior.

“Boa noite, prima Isabelle” sorriu James.

“Boa noite, James”.

Após se livrar das joias e roupas que usava, Belle deitou-se na cama ampla e confortável. Uma onda de exaustão se abateu sobre ela, e embora seus pensamentos estivessem a todo vapor, ela adormeceu profundamente, mergulhando num sonho em que novamente, Adrian Gold estaria presente.

Notas finais
Espero que gostem deste capítulo. Eu adorei escrevê-lo. Por favor compartilhem as suas opiniões!