The Sound Of War

4 Tea with the Devil


Notas iniciais
Once Upon a Time não me pertence

Tea with the Devil

Belle acordou com um sobressalto na manhã seguinte, desorientada por um instante, enquanto observava o quarto em que estava. Verificando o horário em seu relógio, ela notou que já passava das dez horas da manhã. Levou a mão à boca, em choque. Nunca em sua vida dormiu até tão tarde. Levantando-se da cama, abriu sua mala e vestiu a blusa e a saia discretas que a Seção F considerava adequadas ao seu disfarce de bibliotecária. Arrumando rapidamente o cabelo em frente ao espelho, desceu até o térreo para tentar encontrar James ou Mary Margaret.

“O Sr. Bougton está no escritório, mademoiselle” disse Laura, ao perceber que Belle estava sozinha no hall de entrada. “Ele pediu que fosse até lá quando se levantasse”.

“Obrigada” Belle disse. Ela seguiu Laura até uma porta, bateu e entrou.

James estava em pé próximo a janela do escritório. Era uma sala confortável com um sofá de couro, além de uma pequena lareira, uma escrivaninha. Havia também uma pequena estante com alguns livros.

“Sente-se, por favor,” James indicou o sofá. “Na noite anterior, você Isabelle, conheceu alguns dos alemães mais poderosos em Paris, além é claro, Gold.”

Belle imaginara diversas maneiras de iniciar a sua missão, mas jamais pensou que acabaria conhecendo Gold daquela forma, brindando. “Senhor, me desculpe, mas qual a relação que Gold estabeleceu com os oficiais alemães?” Ela entendia que Gold era importante para os alemães em fornecer dados e informações, mas não a ponto de ser convidado a participar das mesmas festas e jantares.

“Acredito que você tenha notado que Gaston não gosta do Gold, não é mesmo?”

Belle havia notado o desconforto do alemão quando Gold se reuniu ao grupo, e não somente Gaston sentia-se assim, mas os outros convidados agiram da mesma forma. “Sim. Mas por quê?” Ela não conseguia entender. “Gaston possui mais autoridade e direitos do que Gold. Se ele quisesse acusa-lo de traição, bastaria Gaston estalar os dedos para prendê-lo.”

“Cuidado Isabelle, não se precipite com as suas deduções. Gold possuiu uma personalidade forte e dominadora que ele faz questão de exercer sobre os outros. Eles temem Gold como se ele fosse o próprio Führer”.

“Mas isso é... Impossível!” Belle estava surpresa em saber que os alemães temiam Gold, mas, acima de tudo, ela estava intrigada. Quem era Adrian Gold? “Como ele conseguiu tanto poder?”

James sorriu tristemente. “Isso Isabelle, é você quem terá que descobrir. E, como você ouviu ontem, você deve redobrar o seu cuidado.”

Belle sabia que James tinha razão. “A Gestapo sabe que eu estou na França...”.

“Exato, e infelizmente, Gold também sabe. Você notou como ele ficou intrigado em saber que há outra agente em campo”.

Ela concordou. Aquilo a deixava extremamente preocupada, pois, se Gold era considerado o melhor agente da SOE, Belle tinha certeza de que ele estaria tentando descobrir tudo a respeito de Rosa.

“Você ficará conosco o tempo que for necessário. Eu e Mary Margaret estaremos tentando ajuda-la conforme o possível, mas temo dizer que você está sozinha a partir de agora” Ele falou, acompanhando Belle até a porta.

“Eu entendo” Belle sabia que James e sua esposa não poderiam arriscar os disfarces deles para ajuda-la na sua missão. Era perigoso e arriscado demais. Ela sabia que estava realmente sozinha.

“Ótimo. Agora, vá encontrar Mary Margaret no andar de cima”.

Três semanas se passaram desde a noite em que Belle conhecera Adrian Gold. Desde então, ela não havia conseguido obter nenhum avanço na sua missão. Durante todos os dias, ela passava as tardes conversando com Mary Margaret, e percebeu que se tornavam cada dia mais amigas.

Mary Margaret era uma mulher extremamente bondosa e inteligente. Durante os dias antes da chegada de Belle à casa, Mary havia conseguido obter algumas informações sobre Gold que poderiam ser usadas para a missão. Aparentemente, ele não tinha nenhum familiar que morasse com ele em Paris. As únicas pessoas que eram vistas junto com ele era o motorista e um mordomo. Além disso, Gold costumava sair pouco, mas quando o fazia, ficava mais de cinco horas fora, e ao menos uma vez a cada dois meses ele viaja para outras cidades da França durante um prazo de no máximo uma semana.

Enquanto permanecia na cidade de Paris, Gold mantinha apenas um hábito regular; às quintas-feiras ele fazia questão de ir ao Café de Flore na Rue de Saint-Germain; chegava ao local em torno das cinco horas da tarde e desfrutava algumas horas de descanso, sentado em uma das mesinhas do lado de fora do estabelecimento, tomando uma xícara de chá ou café enquanto lia jornal.

Aquele pequeno detalhe que Mary Margaret lhe contara fora o bastante para aguçar os seus sentidos. Isabelle sabia que o Café de Flore era um local em que vários escritores e filósofos costumavam se reunir para desfrutar da tranquilidade que o estabelecimento oferecia. Mas, o Café de Flore era também conhecido por ser local de encontros de alguns líderes da Resistência Francesa. O que Gold estaria fazendo num local como aquele, em que se concentravam os inimigos dos alemães?

Belle sabia que para avançar na sua missão ela não poderia ficar apenas ouvindo os relatos de Mary Margaret. Precisava de um novo plano. Nas duas primeiras semanas após a sua chegada, Belle decidiu passar próximo ao Café de Flore e, exatamente como Mary Margaret havia lhe dito, Gold estava lá.

Mas, ela precisava obter mais informações sobre ele para ter sucesso, e para isso, ela não poderia ficar apenas observando de longe. Na terceira semana, ela sabia que precisava mudar sua estratégia e deixar a defensiva de lado.

Na quinta-feira, ela almoçou em meio ao silêncio da casa. Depois, ainda relutante, Belle se vestiu como se fosse passear e desabou na cama. Ficou observando os ponteiros do relógio se moverem até a posição das quatro e meia. Decidida, pegou seu chapéu e deixou a casa.

Quinze minutos depois, ela estava entrando no Café de Flore. Sentando em uma mesa ao ar livre, Belle estudou o cardápio, pedindo Gâteau au Chocolat Opéra, uma torta de chocolate que era uma das especialidades do local, e Chá de frutas cítricas para acompanhar.

O recinto estava repleto de mulheres alegres, e, felizmente, não havia nenhum uniforme alemão à vista. Dez minutos haviam se passado, e ela não viu nenhum sinal de que Gold. Pegando um livro que trouxera consigo, um exemplar do Morro dos Ventos Uivantes de Emilie Brönte, ela começou a lê-lo, enquanto saboreava a sua torta e o seu chá.

A história era uma das favoritas de Belle; a história de Catherine e Heathcliff era uma das mais tristes e belas que ela já lera. Heathcliffamava Catherine desesperadamente, e mesmo após a morte de sua amada, Heathcliff não conseguiu viver um momento de sua vida sem que cada sentimento seu fosse devotado para ela.

Belle estava tão imersa e concentrada na leitura que demorou a perceber que alguém estava falando com ela.

“... Me Desculpe?” Belle levantou o olhar das páginas do livro para ver que Adrian Gold estava parado em pé na sua frente.

“Eu apenas disse Olá” Gold falou com o seu francês carregado pelo seu sotaque. Ele estava parado em frente à mesa que ela estava, usando um terno e apoiado na bengala. O homem sorria, mas sem mostrar os dentes, e Belle percebeu que aquele sorriso não chegava a alcançar as linhas dos olhos.

“Sr. Carruthers, me perdoe. Eu não o ouvi. Eu me distraio muito fácil quando estou lendo” Belle sorriu, levantando-se e estendendo a mão para cumprimenta-lo.

“É um prazer revê-la, Srta. Chesneau” Desta vez, Gold apenas segurou a mão dela brevemente. “E eu consigo entender perfeitamente o motivo para tal distração. Emilie Brönte é realmente encantadora de se ler” Ele falou. “Não sabia que a senhorita frequentava este Café. A senhorita costuma vir muitas vezes aqui?”

“Na verdade é a primeira vez que venho aqui. James falou sobre o local para mim e decidi vir aqui hoje.” Ela falou, tentando parecer convincente. E realmente era a primeira vez que ela vinha ao Café de Flore como cliente; nas outras vezes que passara próximo ao estabelecimento fora para observar o homem que estava falando com ela.

“Interessante” O modo como Gold falara fez com que ela estremecesse um pouco; era como se ele soubesse que ela estava mentindo. Por um instante Belle considerou a possibilidade de que Gold havia visto ela o observando, mas era impossível, pois Belle tomara todos os cuidados necessários para que não fosse notada. Nas duas vezes que estivera ali, ela usara uma peruca loira que a deixara praticamente irreconhecível. Gold jamais suspeitaria dela. “James acertou em falar sobre este lugar. É realmente muito bom e aconchegante. Ideal para mulheres que gostam de se distrair com uma boa leitura.”

Belle sentiu o rosto corar com o comentário que ele fizera, e isso era, para a sua missão, inaceitável.

“A senhorita se importaria se eu me juntasse à você?” Gold perguntou, apontando para a cadeira vazia ao lado dele, defronte à Belle.

“Seria adorável. Por favor, fique a vontade” Ela indicou a cadeira, pedindo para que ele se sentasse. Gold havia mordido a isca e agora Belle poderia dar início ao jogo de raciocínio contra ele.

“... Empereur Chen-Nung, s’il vous plait” Gold pediu para o garçom. “Vejo que Paris está lhe fazendo muito bem” ele comentou após fazer o seu pedido.

“Sim, certamente é uma mudança agradável em relação à vida rural do sul” respondeu Belle, bebericando um pouco do próprio chá.

“E a senhorita escolheu uma ótima época para visitar a cidade” Ele falou, fitando-a. “Paris é encantadora nesta época do ano”.

Belle sorriu com aquele comentário. Para ela Paris sempre fora encantadora, independentemente de qual época estiverem. “Há quanto tempo o senhor está vivendo aqui em Paris?”

“O que a faz pensar que eu não sou parisiense?” Ele perguntou, tomando um gole do chá que acabava de ser colocado na mesa.

“O mesmo motivo que me faz acreditar que você também não é francês” Belle sorriu. “O seu sotaque” ela falou calmamente.

Gold passou a mão pelo próprio cabelo enquanto concordava. “É sempre difícil esconder meu sotaque escocês”

“Escócia?” Belle tentou parecer a mais surpresa possível, como se não soubesse daquilo. “É um lugar encantador”.

“Normalmente as pessoas discordariam desta sua opinião” Gold comentou. “O que fez com que a senhorita achasse o país tão... Encantador?” Ele repetiu a última palavra com demonstrando curiosidade, como se a resposta que ela lhe desse fosse extremamente valiosa.

“Bom...” Belle hesitou alguns instantes, lembrando-se das florestas que ela teve que percorrer durante o treinamento antes de vir para a França. “Justamente pelas pessoas acharem o lugar... Diferente, que me deixou mais intrigada. Para mim, o silêncio que as florestas ao redor das cidades transmitiam era algo que chegava a ser... confortável. As pessoas temem esses lugares justamente por sentirem inquietas diante da tranquilidade que é transmitida e talvez até sintam-se intimidadas, mas na verdade, para mim, é como um grande mistério a desvendar...” Belle hesitou novamente, sem olhar diretamente para o homem. “As pessoas julgam apenas pela aparência e não percebem que estão na verdade perdendo uma grande aventura...” Ela mordeu os lábios levemente, parando de falar. Acabou falando mais do que realmente esperava. Precisava tomar cuidado, pois era ela quem devia fazer perguntas e tentar descobrir algo sobre aquele homem. Belle percebeu que Gold ficara em silêncio, e ao olhá-lo, ele não estava sorrindo, mas o seu semblante era sério. Não do modo como ele olhava para Gaston ou para James, mas uma seriedade profunda, como se algo que Belle dissera tivesse o incomodado de alguma maneira.

“É realmente um lugar diferente.” Ele falou por fim. “Você viaja muito?”

“Oh não.” Ela sorriu. “Eu só tive a oportunidade de ir à Escócia apenas. Mas eu sempre quis conhecer outros lugares... Poder conhecer o mundo...” Belle não terminou a frase, desviando o olhar novamente, tomando um gole do seu chá. Ela estava se sentindo desconfortável, pois ela percebeu o quanto era fácil conversar com Gold.

Gold a fitou intensamente, provavelmente tentando decifrá-la. “Provavelmente quando a guerra acabar você possa ter a oportunidade de viajar” Ele falou.

“Mesmo após o fim desta guerra, levará algum tempo para que todos se adaptem ao governo alemão.” Belle tomou cuidado para que seu desgosto em relação aos alemães não transparecesse em sua voz.

“E você realmente acredita que Hitler ganhará esta guerra?” Gold perguntou silenciosamente, para que ninguém ao redor deles o escutasse, olhando-a intensamente para analisar a reação da mulher.

Isabelle não esperava que Gold a perguntasse aquilo. Por um instante ela pensou que o homem sentado à sua frente não apoiava o Führer; Por um instante ela pensou que Adrian Gold era inocente. Mas Belle se lembrou que ele era acusado de fornecer informações aos alemães e que várias pessoas morreram por culpa dele. Era óbvio que ele estava testando-a.

“Você não acredita, Sr. Carruthers?” Ela perguntou, esperando que assim pudesse saber quais eram as verdadeiras intenções de Gold.

O homem não respondeu, apenas assentiu, o que a deixou mais intrigada do que estivera antes. Se Gold, que havia traído a confiança dos ingleses para apoiar a causa nazista, não afirmava abertamente o seu apoio a eles? Ambos ficaram em silêncio por alguns instantes, apenas apreciando a companhia um do outro. Belle guardou o livro que trazia consigo dentro da bolsa, pois percebeu que logo iria anoitecer, então deveria se aprontar para ir embora.

“Obra interessante para se ler” Gold comentou quando ela guardou o exemplar de Emilie Brönte. “Tome cuidado com estes livros. Os alemães desfrutam de um prazer insaciável em queimar obras que eles consideram repugnantes ou que simplesmente não sejam o Mein Kampf”.

“Eu jamais permitiria que queimassem meus livros. Eles são a minha vida...” Belle falou, percebendo que Gold absorvia cada palavra que ela falava atentamente, e Belle observou que os olhos dele continham novamente aquele estranho tom dourado-esverdeado. Ele a olhava intensamente, e ela sentiu como se estivesse presa a ele.

“Eu notei que a senhorita realmente gosta de livros. Durante o jantar na cada de James percebi como você falava sobre eles com o professor” Ele falou. Então James estava certo ao falar para Belle que Gold não havia desviado a atenção dela um minuto sequer naquela noite. Ela não sabia se aquilo lhe apavorava ou agradava. “E os seus planos para o futuro?” Ele perguntou.

“Creio que é difícil para qualquer um de nós fazer planos para o futuro até que essa guerra chegue ao fim” ela disse enquanto terminava de tomar o chá.

“Mas o fim é inevitável, não é?” Gold perguntou, com um olhar penetrante que parecia querer invadir Belle.

“É claro” ela respondeu, rapidamente. “Mas até que o povo da França compreenda o que é melhor para ele, há muito perigo no ar”.

“E que a senhorita considera que seja o melhor para a França, Srta. Chesneau?”

Belle estremeceu com aquela pergunta. Ela percebeu que em nenhum momento Gold deixou de testá-la. Relutou por alguns instantes pensando se ele havia planejado tudo aquilo, e não ela; se ele esperava que ela estivesse ali naquele dia, se ele já sabia da sua real identidade. Mas, se ele soubesse, ela pensou, por que não a matara ainda? Talvez aquilo significasse que ele não sabia de nada e estivesse apenas fazendo uma pergunta sem importância. Ainda assim, Belle percebeu que quem estava sentado na sua frente não era o homem conhecido como Anton Carruthers, mas o fiandeiro, ex-agente da SOE.

“O fim da guerra” Ela falou por fim, fitando-o assim ele fazia; os olhos dele agora estavam sólidos, sem nenhum traço do dourado ou do verde que ela havia notado antes. Desta vez ela desviou o olhar primeiro. “Acredito que eu deva ir agora” Belle olhou para o relógio, levantando-se. Logo o toque de recolher seria soado. “Não quero demorar a chegar em casa”.

“Por favor, permita-me que eu a leve.” Gold levantou também. “Não é seguro para uma mulher andar sozinha pelas ruas de Paris nos tempos de hoje”.

Belle sorriu, agradecendo em silêncio, e após Gold pagar as contas, embora ela tivesse dito que não havia necessidade, ele a conduziu até o carro, onde o motorista, um homem alto de cabelos negros, barba espessa e olhos azuis, aguardava por eles, abrindo a porta para que Belle pudesse entrar.

Embora tivessem conversado bastante no Café, o percurso até a casa de James seguiu em um profundo e desagradável silêncio. Gold não pronunciara nenhuma palavra além de falar o destino para o motorista, e Belle não ousou quebrar o silêncio.

Apenas o som da respiração das três pessoas preenchia a atmosfera estranhamente densa dentro do automóvel. Belle notou que Gold estava sentando o mais longe possível dela, como se ela fosse algum tipo de doença contagiosa.

Finalmente, após o que pareceu décadas, o motorista parou em frente à casa de James. Gold fez questão de descer do carro e abrir a porta para que ela pudesse sair.

“Srta. Chesneau...” Gold segurou a mão de Isabelle, levando-a até a boca e pressionou os lábios na sua pele suavemente, beijando-a. Belle teve a mesma sensação da noite na casa de James, quando ele fez o mesmo gesto, e novamente, uma sensação estranha percorreu o seu corpo como uma corrente elétrica. “Foi um prazer desfrutar esta tarde com a senhorita. Espero revê-la em breve” E lá estava novamente aquela estranha cor dourado-esverdeado nos olhos do homem. Belle sentiu o seu rosto corar inesperadamente.

“Até breve, Sr. Carruthers” Belle assentiu, entrando na casa, e fechando a porta sem olhar novamente para Gold. Ela se encostou contra a porta, com os olhos fechados, apenas escutando o som do automóvel se distanciar da casa.

O que estava acontecendo com ela? Por que ela corou quando Gold beijou a sua mão, sendo que era um gesto completamente normal e sem nenhum significado a mais. Ela precisava ser cautelosa não apenas com as suas ações, mas com o seu coração.

Belle precisava criar uma barreira contra qualquer tipo de afeição que ela poderia desenvolver por Adrian Gold. Ele era desleal. Havia traído a Grã-Bretanha para se aliar aos alemães. Os nazistas, que haviam feito barbaridades com o povo francês, mas Belle sabia que a crueldade do Führer ia além da França, e só o fato de pensar naquilo e nas coisas horrendas que estavam acontecendo, ela sentia o seu estômago revirar e o gosto de bile subir pela sua garganta. Quem seria capaz de conseguir se unir a uma causa tão repugnante quanto esta? Gold se unira a eles. Isto seria o suficiente para criar uma barreira.

Passava das dez horas da noite quando Belle foi para o seu quarto. Após se lavar e colocar a camisola, ela soltou o cabelo, penteando-o com uma escova para desfazer os nós que haviam se formado. Durante toda a noite os seus pensamentos estava direcionados à Gold.

Não conseguira descobrir algo de importância sobre ele, mas, não estava esperando que fosse realmente conseguir algo. Aquela fora a primeira vez que ambos conseguiram conversar abertamente, e era impossível que ele fosse confiar nela para contar algo que ele acreditasse ser importante.

Mas, para o seu desagrado, fora Gold quem conseguira descobrir coisas não sobre Isabelle Chesneau, a mulher que supostamente viera do sul da França para visitar o primo, mas sim, ele descobriu sobre Isabelle French, a jovem inocente que morava em Londres com o pai e que era apaixonada por livros.

Belle deixou com que o homem tivesse alcance às coisas que eram importantes para ela, e isso a incomodava. Não poderia cometer este erro novamente e deixar com que Gold tivesse conhecimento sobre as coisas que ela guardava em seu coração. Mas, como ela teria forças para lutar contra isso? Infelizmente, Adrian Gold a fazia se sentir segura... Protegida dos perigos que a afligiam. Como isso era possível? Ela mal conhecia aquele homem. Não podia se deixar enganar pelos seus sentimentos. Não era mais uma garotinha que acreditava em contos de fadas e amor a primeira vista. Belle era uma mulher. Uma mulher que precisava ser corajosa.

Adrian Gold era um assassino.

No momento em que aquele pensamento cruzou na sua mente, Belle relutou em aceita-lo. Fora Regina quem lhe dissera aquilo. Mas, ela deveria confiar cegamente nesses relatos? Não havia evidências concretas que afirmava a traição de Gold. Tudo poderia ser uma mentira.

Não. Belle tinha que acreditar em Regina. A SOE jamais mentiria sobre algo tão sério, sendo que eles já tinham problemas o suficiente para enfrentar. Não precisavam inventar histórias para mandar agentes à Guerra. Belle tinha que confiar em Regina.

Entretanto, Belle se lembrou do que Regina havia lhe dito na noite em que fora enviada para a França, de que ela não poderia confiar em ninguém. A única pessoa que ela poderia confiar era em si mesma. No entanto, como confiar em si mesma quando seus sentidos estão tão abalados?

Belle sentiu o cansaço tomar conta do seu corpo. Os olhos começavam a pesar, e Belle os fechou, sentindo que dormiria em breve.

Belle decidiu que precisava encontrar evidências. Assim ela saberia se deveria confiar em Regina ou em Adrian Gold, o homem com olhos traiçoeiros.

E naquele momento, os olhos de Gold tomaram conta da sua mente. Eles eram, para Belle, o maior mistério de todos. Ela percebeu que a cor deles costumava mudar com o humor. Eles costumavam permanecer sempre no tom de castanho-escuro, que ficavam intensos quando ele estava concentrado ou preocupado com algo. Mas, Belle se lembrou dos momentos em que brevemente, havia aquele estranho traço de dourado-esverdeado que adornavam a cor marrom. Belle não conseguia decifrar aquela cor. Talvez eles ficassem daquela cor apenas quando Gold estava com Belle. Não, ela não poderia pensar daquele jeito, se não, estaria perdida.

Fazendo uma anotação em sua mente para prestar mais atenção às mudanças de humor dele, Belle adormeceu com a imagem dos olhos intensos e penetrantes de Adrian Gold.

Notas finais
Comentários são sempre bem-vindos.