The Sound Of War
5 The Ragged Lady
Notas iniciais
Um mês se passou desde que Isabelle se tornou parte do lar dos Bougton. Recebeu uma elegante coleção de trajes para compor seu guarda-roupa, com sapatos de couro macio, de um tipo que não se via desde o início da guerra, e vários pares de meias de seda. Ao organizar as peças na cômoda, Belle suspirou ao perceber a amarga ironia da situação. Estava vivendo como uma princesa, em uma casa onde o dinheiro parecia não ter fim e onde era servida e auxiliada a todo momento pelos empregados e governantas, enquanto era obrigada a ver pessoas que um dia foram tão ricas quanto ela, mas que agora mendigavam nas ruas.
Não somente ela se deitava à noite em sua cama, sentindo saudades de seu pai até seu coração doer, mas também nos homens e mulheres, como Ruby, com quem havia treinado e que agora estavam em campo, constantemente em perigo, sofrendo privações que ela mal conseguia imaginar.
Depois da tarde que passara no Café de Flore, Adrian Gold não voltara a frequentar o local. Belle pensou que isso significava que ele havia suspeitado de algo; de que ela era Rosa e agora ele precisava tomar medidas rigorosas a fim de evitar qualquer contato com ela. No dia seguinte ao encontro deles, James veio lhe informar que Gold estava fora da cidade, viajando, e que voltaria dali uma semana.
Durante uma semana, Belle pensou que iria enlouquecer. Regina havia entrado em contato com James, pedindo para que Isabelle lhe transmitisse um relatório com dados sobre o progresso na missão que ela estava efetuando. Mas, não havia nada para transmitir à Mills, pois Belle não conseguira obter nenhuma informação nova à sua missão, e ela sabia que se não apresentasse avanços consideráveis, logo ela seria mandada de volta à Londres.
A sua única salvação naquele lugar era Mary Margaret, de quem passou a gostar muito. Com uma percepção aguçada, ela sempre sabia quando Belle estava triste simplesmente pelo tom de sua voz.
Recentemente, enquanto conversavam no terraço durante um pôr do sol morno, Belle falou a Mary Margaret sobre seu pai e a dor que a saudades lhe causava. Mary havia lhe dito que, assim como Belle, Maurice estava atuando em campo, comandando ações de diversos batalhões em várias zonas de conflitos pela Europa.
Belle acreditava que poderia confiar nos Bougton, mas ainda assim, ela não tinha provas de que eles não a estavam mantendo como um prêmio para ser entregue aos nazistas, quando lhes fosse conveniente. Mas, ela precisa confiar alguém.
E há duas noites, o coronel Alfred Von Gaston aparecera de surpresa na porta da frente. Laura veio procurar por Belle, que estava sentada com Mary na sala de estar.
“A senhorita tem visita, mademoiselle Isabelle” Laura dissera, avisando-a do perigo com os olhos.
Belle assentiu e, sentindo seu coração acelerar, foi até a sala de artes, para onde Gaston fora conduzido.
“Fräulein Isabelle! Ora, eu acho que você está ainda mais bela do que quando a vi pela última vez” disse o alemão, vindo em sua direção e beijando-lhe a mão.
“Obrigada, coronel. Eu...”.
“Por favor, lembre-se de que devemos nos tratar pelo primeiro nome” Gaston a interrompeu. “Eu estava passando pelo bairro a caminho do quartel-general e pensei comigo mesmo: ‘Vou visitar a encantadora prima de James para perguntar como ela está! ’”.
“Eu estou muito bem, obrigada” respondeu Belle, sentindo-se enrijecer.
“Eu estava imaginando se, mais tarde, após terminar uma entrevista, eu poderia vir até aqui e leva-la a algum outro lugar. Gostaria de sair para jantar comigo e, depois, talvez dançar um pouco?”
O estômago de Belle se revirara.
“Eu...”
Naquele momento, obviamente alertado por Laura sobre a presença do coronel, James entrou na sala.
“Gaston! Que surpresa agradável!” ele disse, cumprimentando-o com um aperto de mão afetuoso.
“Eu estava sugerindo à sua encantadora prima que talvez pudesse desfrutar de sua agradabilíssima companhia esta noite” Gaston repetiu.
“Infelizmente, fomos convidados para jantar perto de Versalhes por outro primo” James disse, olhando carinhosamente para Belle. “Querida, você ficou muito tempo longe de Paris. Parece que sua presença está sendo bastante requisitada. Talvez, no sábado, você poderá se juntar a nós no Café de La Paix”.
“Sim. Seria perfeito” Gaston bateu os saltos das botas um contra o outro, e estendeu o braço para frente. “Heil Hitler! Preciso ir agora. Até sábado, Fräulein Isabelle” ele disse, curvando-se.
Quando o alemão saiu, Belle havia se sentado em uma cadeira. James voltou à sala.
“Lamento Isabelle, mas parece que o nosso coronel tem uma queda pela minha bela prima” ele disse, segurando-lhe as mãos. “Sugeri que ele nos acompanhasse no jantar porque, pelo menos ali, nós estaremos por perto para protegê-la.”
“Oh James...” Belle suspirou, desconsolada, balançando a cabeça.
Ele acariciou suas mãos de maneira reconfortante.
“Eu sei, querida. É uma mentira horrível, mas você precisa resistir da melhor maneira que puder.”
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Para desagrado de Isabelle, o dia do jantar chegara mais rápido do que ela esperava. James havia lhe dito que Gold ainda estava viajando e não compareceria ao jantar naquela noite, o que a decepcionou imensamente, pois não poderia dar continuidade à sua tarefa de espioná-lo. Naquele mesmo dia, antes que a noite chegasse e Belle tivesse que se arrumar para o jantar, ela escreveu uma carta em resposta à Regina Mills, sobre os avanços que ela havia obtido em sua missão; até aquele momento o único fator relevante que ela havia descoberto, era que Adrian Gold costumava ser um frequentador assíduo do estabelecimento denominado Café de Flore, local conhecido pelos nazistas por receber clientes que eram líderes da Resistência Francesa. Belle chegou à conclusão que era desta forma que Gold conseguia obter detalhes sobre os planos e os locais de encontro destes grupos e que assim que detinha destas informações, ele não hesitava em transmiti-las aos alemães.
Durante toda a semana ela passou os dias tentando descobrir para onde Gold costumava viajar todo mês e por que. O fato de ele conseguir deixar a cidade de Paris com tanta facilidade era outra demonstração do poder que ele havia adquirido entre os nazistas. Ninguém conseguia deixar a cidade sem que fossem barrados por oficiais em postos de guarda da milícia, mas, aparentemente, Gold tinha livre passagem por qualquer barreira criada pelos alemães.
Eram tantas dúvidas que ela não conseguia responder e que precisa encontrar uma maneira de descobrir; mas não naquela noite.
Naquela noite, Belle teria que usar o seu disfarce para sobreviver às garras de Gaston. Precisaria ter sangue frio para poder aguentar a companhia daquele tirano. Ela tinha sorte de que James e Mary Margaret estariam junto com ela, pois não teria forças o suficiente para esconder o seu desgosto para com aquele homem.
Olhando o seu reflexo no espelho, Belle mal conseguia se reconhecer. Usava um vestido verde-esmeralda que deixava a base do seu pescoço até a altura do ombro expostos, mas que descia pelo seu corpo elegantemente. O cabelo caía em cascatas, com algumas mechas presas no topo da cabeça, o que fazia com que os seus olhos azuis ganhassem destaque no seu rosto.
Belle pensou sobre os seus olhos. Eles a incomodavam. Podia ver que eles já não exalavam o brilho que transmitiam antes de vir à França, e continham apenas uma sombra de quem ela realmente fora um dia.
Já não era mais uma criança, embora todos ali ainda a vissem de tal maneira. Talvez fosse isso o que ela realmente era. Uma criança perdida em meio aos tanques de guerras e bombas. Belle suspirou tristemente. Mesmo que fosse tratada como uma criança e que talvez ainda fosse uma, Belle não poderia mais agir como tal. Ela precisava encarar o mundo de outra maneira. Ela precisava crescer.
Laura bateu na porta, avisando-a que ela era aguardada no hall de entrada. Passando um batom vermelho nos lábios, Belle saiu do quarto e seguiu para uma noite de martírio.
Uma limusine negra da Gestapo os aguardava do lado de fora. Gaston sentou ao seu lado, e exibia um sorriso confidente no rosto, enquanto conversava com James. O percurso até o Café de La Paix demorou vinte minutos, e quando a limusine parou em frente ao local, Belle não ficou aliviada em poder sair de dentro do automóvel e ficar longe de Gaston, pois em segundos, o alemão estava parado prontamente ao seu lado, oferecendo o braço para que ela fosse guiada para dentro do restaurante.
Embora cada parte do seu corpo relutasse em fazer contato com qualquer parte do corpo daquele homem, Belle não poderia arriscar a confiança que ele depositava nela, e, exibindo um sorriso falso, mas que para Gaston parecia ser o mais belo de todos, ela segurou o braço de Gaston.
Belle olhou em direção aos prédios ao redor, e uma tristeza tomou conta de si. Agora, bandeiras nazistas substituíam os pavilhões tricolores da França nos mastros.
O local em volta do restaurante estava lotado de oficiais alemães e outras pessoas que, assim como James, estavam acompanhando os oficiais durante diversos jantares.
Enquanto Belle era conduzida pelo alemão pela calçada até a porta de entrada do restaurante, várias pessoas caminhavam ao redor deles, fumando seus cigarros, e desfrutando o início de mais uma noite em Paris. Quando, sem que Belle percebesse, uma mulher, que aparentava ter mais de quarenta anos de idade, cruzou à sua frente, quase esbarrando em Gaston. Os cabelos ruivos dela estavam visivelmente sujos e desgrenhados, marcados pelo mau trato. A roupa que ela usava estava em estados ainda mais lastimáveis; usava um casaco grosso, rasgado e sujo, que ela provavelmente havia encontrado em meio a latas de lixo, e os tecidos que ela usava por baixo do sobretudo também estava rasgados e com marcas de lamas, e Belle também concluiu, de sangue.
“Hey, você!” Brandiu Gaston ao seu lado, dirigindo-se àquela mulher. Era visível o nojo e a raiva nas feições do alemão. “Volte aqui!”
Belle notou que a mulher começara a tremer convulsivamente, e olhou amedrontada para eles, com a cabeça baixa, não ousando fazer contato com os olhos do oficial.
“Herr” Ela murmurou em alemão, mantendo a cabeça baixa.
“Como se atreve a cruzar na minha frente schmutzig” Gaston olhou-a com nojo.
“Me perdoe, Herr” Ela sussurrou, visivelmente desesperada; lágrimas escorriam pela sua face. “Por favor, não me mate!” A mulher esticou a mão para tentar tocar o braço do alemão, suplicante.
“Não me toque!” O homem vociferou, cuspindo no rosto da mulher, fazendo com que ela se encolhe-se, como se fosse um animal. “Saia da minha frente!”
Belle fechou os olhos por um segundo, sentindo um nó forte e sufocante na garganta ao ver a mulher ser maltratada daquela maneira. Queria poder ajuda-la. Mas não podia arriscar o seu disfarce. O que Gaston iria pensar se ela socorresse aquela pobre criatura? Antes que pudesse formular qualquer plano em sua mente, o alemão a conduziu junto consigo para dentro do restaurante.
Belle não conseguiria olhar Gaston sem deixar transparecer o desgosto que ela sentia por ele. Ao serem conduzidos para a mesa que ocupariam, ela pediu licença, dizendo que precisava ir ao toilette. No momento em que ela viu que ninguém a estava observando, Belle seguiu pelo corredor oposto aos banheiros, saindo pela porta lateral do restaurante, vendo que estava agora na rua lateral ao estabelecimento. Era possível ver a rua principal dali, defronte ao estabelecimento, assim como as pessoas que caminhavam pelas calçadas. Teve que se esgueirar pelas sombras para que ninguém pudesse vê-la. Precisava ter cuidado.
Olhando atentamente as pessoas, Belle conseguiu distinguir entre elas, a mulher que Gaston havia maltratado. Para sua sorte, ela estava bem próxima ao local que Belle se escondia. Sorrateiramente, fez sinal para que a mulher se aproximasse. Sabia que estava fazendo uma loucura e que aquilo era totalmente contra ao que aprendeu durante o treinamento da SOE, mas não era capaz de ver uma pessoa ser maltratada daquela maneira na sua frente e não poder fazer nada para ajuda-la.
“Mlle...” A mulher murmurou, com medo de se aproximar de Belle e de que aquilo fosse algum tipo de armadilha para entrega-la aos alemães. “Eu sinto muito ter cruzado o seu caminho, me perdoe...”.
“Você tem comida?” Belle a interrompeu. “Dinheiro? Qualquer coisa?”
A mulher olhou-a assustada.
“Não, Mlle...” Ela sussurrou.
Belle não hesitou, abrindo a bolsa que carregava consigo, e retirou um maço de notas de dinheiro. “Pegue.”
A mulher na sua frente arregalou os olhos ao ver a quantidade que Belle a estava oferecendo “Eu... Minha senhora, eu não posso aceitar...”.
Segurando firmemente a mão da mulher nas suas, Belle depositou o dinheiro, fechando os dedos dela entre as notas. “Pegue. Compre algo para comer. Agora vá!”
Lágrimas começaram a escorrer pelo rosto sujo da mulher quando ela viu que Belle não estava enganando-a. “Oh, Minha senhora! Deus a abençoe!” Ela beijou as mãos de Belle, em agradecimento.
“Vá!” Belle sussurrou, apressando a mulher. Tinha que voltar o mais rápido possível para o restaurante antes que Gaston ou os outros notassem a sua demora e resolvessem procura-la.
A mulher voltou a lhe agradecer, e escondendo o dinheiro dentro do sapato, saiu da rua escura, e voltou a andar em meio às pessoas na calçada, se distanciando do local.
Belle ficou olhando a mulher quando percebeu que alguém a olhava de um dos carros que acabavam de parar em frente ao restaurante. Naquele instante, ela sentiu seu coração parar de bater e a respiração cessar. Não conseguia respirar.
Adrian Gold estava parado em frente ao restaurante e olhava fixamente para onde ela estava escondida nas sombras. Belle não ousou mover um músculo sequer, com medo de que ele captasse qualquer movimento seu. Ele não desviava o olhar nem um segundo sequer, e na primeira oportunidade, ela se esgueirou novamente para a porta lateral, entrando e fechando a porta atrás de si.
Não conseguia acreditar que havia colocado a sua missão em risco. Ela tinha certeza de que Gold havia lhe visto dando dinheiro para àquela mulher. Aquele era o seu fim. Naquela noite não restariam dúvidas para Adrian Gold de que ela era Rosa.
Não. Ela não podia entrar em pânico. Talvez ele não tenha conseguido ver o seu rosto, pois ela estava escondida nas sombras. Precisava acreditar naquela hipótese.
Respirando profundamente, Belle retomou o percurso ao salão de jantar, rezando para que Gold não a tivesse visto e para que ele não a entregasse aos alemães. Precisava acreditar naquilo. Sua missão estava em risco. Sua vida estava em risco.
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