The Sound Of War
6 In middle of lions
Belle entrou no salão após respirar profundamente, tentando se recompor. Não poderia permitir que Gold confirmasse que era ela quem ele havia visto ajudando a mulher esfarrapada na rua lateral ao restaurante.
Para sua surpresa, Gold já estava sentado na mesa junto de James, Mary Margaret, e um Gaston que aparentava estar desconfortável com a presença do recém-chegado.
“Querida!” James levantou, puxando uma cadeira para que Isabelle pudesse se sentar junto ao grupo. “Veja quem resolveu se unir a nós esta noite.”
Belle sorriu timidamente para Gold, tentando aparentar surpresa ao vê-lo ali. “Sr. Carruthers, é um prazer revê-lo”.
“Igualmente, Srta. Chesneau” Ele assentiu sem desviar o olhar dela, mirando-a intensamente. Mas Belle pensou que, se ele realmente a tivesse reconhecido na rua, ele não hesitaria em entrega-la imediatamente aos alemães. Talvez ele não a reconhecera... Ainda assim, ela precisava ficar atenta a qualquer movimento que ele fizesse naquela noite; Belle não estava segura ali.
Durante toda a refeição, Belle fez o possível para parecer animada enquanto conversava com Gaston e demonstrar que a companhia dele era agradável, mas, conforme a conversa se desenrolava, ela percebeu que o alemão nunca seria uma companhia que poderia apreciar. Gaston não desviava a atenção dela, embora em nenhum momento ele perguntasse sobre a vida dela. O alemão se gabava em contar suas conquistas durante a guerra e como era fácil conseguir qualquer tipo de informação dos civis que ele capturava e torturava. Aquele tipo de conversa a deixava ainda mais desgostosa, sentindo sua repulsa apenas aumentar. Enquanto conversavam, Belle percebeu que o Sr. Gold não desviava a atenção dela também, observando cada expressão que cruzava o rosto da mulher.
Belle sentia-se muito desconfortável por ter de suportar a presença do alemão ao seu lado e de Adrian Gold, observando-a como se ela fosse uma presa muito fácil de capturar. O terminarem o jantar, Gaston pediu para dançar junto com ela. Belle tentou parecer lisonjeada com o convite, mas sentiu seu corpo enrijecer. Olhou diretamente para James, tentando pedir algum auxílio para se desvencilhar daquele homem, mas o amigo apenas exibia um sorriso triste no rosto; não havia nada que ele poderia fazer. Belle engoliu em seco, antes de olhar para Gold, e se não tivesse desviado o olhar rapidamente, ela poderia jurar que a expressão que estava marcada em suas feições era de um ódio avassalador, e Belle pensou por um instante... Ciúmes.
As mãos de Gaston deslizavam pelas costas de Belle enquanto dançavam. Toda vez os dedos do alemão tocavam a pele desnuda entre seus ombros e o pescoço, Belle sentia um estremecimento de repúdio e terror. Aqueles dedos, de acordo com o que James lhe dizia, não tinham qualquer reserva à ideia de enrodilharem ao redor do metal frio de um gatilho e matar um ser-humano à queima-roupa. Ela sentiu o cheiro do hálito rançoso e alcoolizado de Gaston em seu rosto enquanto ele tentava aproximar os lábios dos seus.
“Isabelle, você já deve saber o quanto a desejo. Por favor, diga que eu posso tê-la para mim” Ele gemeu, enquanto acariciava lhe o pescoço com o nariz.
Preenchida pelo nojo, Belle enrijeceu e forçou-se a não seguir seus instintos que insistiam que ela devia se desvencilhar das garras de Gaston. Percebeu que qualquer que fosse a nacionalidade daquele homem, ela se esquivaria de seu toque. Olhou ao redor do salão e viu que outras mulheres francesas dançavam com alemães. Nenhuma se vestia tão elegante quanto ela. Pela aparência que tinham, algumas eram pouco mais do que prostitutas comuns. Mas o quanto ela seria melhor que aquelas mulheres?
Desviando os olhos do alemão, Isabelle viu que Gold a olhava atentamente, acompanhando cada movimento que fazia na pista de dança. Ele não movia nenhuma parte do corpo e segurava firmemente a bengala, com uma pressão exagerada sobre o objeto, como se aquilo fosse a única coisa que o mantinha preso no lugar que ele estava sentado. Belle sabia que ele estava tentando se conter para não ir até eles e espancar o alemão com a bengala que segurava; e ela não entendia porque Adrian Gold estava tão perturbado.
Belle tinha certeza que se ele a tivesse reconhecido àquela noite no beco, entregando dinheiro àquela mulher, ele a entregaria a Gaston sem hesitar. Ele iria denunciá-la ao alemão que Isabelle Chesneau era uma traidora da causa alemã e, provavelmente, Gold estaria presente durante a sua execução, divertindo-se com o desespero dela. Porque então ele mal conseguia ver ela nos braços do alemão, se era à Gaston que ele a entregaria na primeira oportunidade que tivesse?
A única explicação plausível, talvez, era de que Adrian Gold não apoiava Hitler. Porventura aquele homem detestava os alemães tanto quanto ela, e o fato de Gaston roçar as pontas dos seus dedos pelo pescoço de Belle fazia com que Gold tivesse vontade de quebrar cada osso do corpo daquele homem. Estaria ele realmente com ciúmes dela ou tudo não se passava de um blefe?
Não, ela não poderia deixar que aqueles pensamentos tomasse conta de si e se acomodassem. Ela e Gold mal conversavam entre si, e Belle sabia que qualquer tipo de envolvimento com ele significaria a sua sentença de morte. Seria acusada de traição assim como ele fora... Ninguém iria apoiá-la, especialmente o seu pai, que sempre fora claro em relação a quem a sua lealdade pertencia. Para Belle, a sua lealdade jazia onde o seu coração estivesse, mas, onde ele estava agora? Belle precisava erguer a sua barreira.
Adrian Gold era um traidor. Adrian Gold era um assassino.
“Talvez seja possível escapar das garras do seu primo superprotetor na próxima semana” disse Gaston a Belle enquanto olhava para James que, assim como Gold, observava cada um se seus movimentos da mesa onde estava. “Poderemos ficar a sós”.
“Talvez” Belle disse, perguntando a si mesma por quanto tempo seria possível esquivar-se desse homem, tão acostumado a escolher e obter o que queria. “Com licença, preciso retocar o pó” ela disse quando a banda tocava as últimas notas da canção.
Quando Belle retornou à mesa, viu que Gaston dançavam com Mary Margaret e James conversavam com alguns oficiais alemães do outro lado do salão, e apenas Gold permanecera sentado à mesa, sozinho, observando as pessoas ao seu redor.
“Importa-se?” Belle perguntou, ao se aproximar dele, apontando para a cadeira vaga ao lado do homem. Aquele era um momento oportuno. Com Gold estando sozinho, ela poderia conversar com ele e tentar ter mais conhecimento sobre a vida daquele homem e ter a certeza de que a sua missão não estava em risco.
Gold assentiu, permitindo que ela pudesse sentar ao seu lado. “Pensei que gostaria de dançar mais um pouco com o nosso amigo Gaston, querida” Ele falou ironicamente, tomando um gole de vinho da taça que segurava nas mãos.
“Uma dança apenas é o suficiente para ele.” Belle respondeu secamente, sem demonstrar nenhuma afeição ao alemão. “Eu pensei que o senhor estava viajando, Sr. Carruthers. James havia me dito que o senhor não estaria presente esta noite...” Belle falou, tentando não ser rude com ele.
Gold sorriu, aparentemente se divertindo “Felizmente minha viagem durou menos tempo do que eu esperava” ele falou. “Voltei à Paris durante o começo da tarde, e quando soube deste jantar eu fiz questão de comparecer. Eu sabia que seria extremamente... gratificante.” Ele a olhou intensamente, fazendo com que ela estremecesse. O modo como ele a olhava denunciava qualquer suspeita que ela tivesse. Gold havia a visto ajudando a mulher maltrapilha; Belle tinha certeza disso, mas não conseguia compreender porque ele não a havia denunciado aos nazistas ou porque ele próprio ainda não a matara. Porque ele não fazia nada?
“Gratificante?” Ela perguntou, tentando aparentar inocência em suas ações.
“Você está encantadora esta noite, Srta. Chesneau” Os olhos que a esquadrinhavam não demonstravam qualquer malícia, como normalmente Gaston a olhava, e sim uma reverência como se ela fosse a criatura mais bela que fora enviada até ele, tornando-se o seu inferno particular. Belle sentiu seu rosto corar com o elogio que recebera, desviando o olhar dele antes que ela se sentisse constrangida. “Espero que sua viagem tenha sido proveitosa” Ela falou.
“Talvez... De qualquer forma, é sempre bom voltar à Paris” Ele falou, tornando a olhar para as pessoas que dançavam à frente deles.
“Visitar os familiares pode ser realmente estressante às vezes...” Belle palpitou. Talvez ele tivesse alguma esposa ou filhos a quem ele tivera ido visitar.
“Oh não. Esta não foi uma viagem para visitar parentes... Eu não tenho família.” Gold falou, a expressão tranquila que ele exibia no rosto desapareceu de seu semblante, sendo substituída por outra que Belle demorou a perceber ser... De tristeza.
“Sem família? Mas o senhor não é casado ou não tem filhos?” Ela perguntou calmamente, sem realmente querer pressioná-lo, embora precisasse ter acesso a qualquer tipo de informação sobre ele.
Gold não respondeu de prontidão e seus olhos miravam o nada, como se sua mente estivesse muito distante do presente. Belle podia ver a tristeza e a solidão marcados em seu semblante, e ela teve uma estranha sensação de querer abraça-lo e confortá-lo. Naquele momento ela compreendeu algo que poucos conseguiam enxergar. Adrian Gold não era um monstro. Ele era apenas um homem.
“Havia... Havia um filho...” Ele falou, sua voz nada mais do que um murmúrio. “Bealfire era o nome dele...”.
“O que aconteceu?” Belle perguntou, percebendo que a sua voz também nada mais do que um sussurro.
“Eu o perdi... Assim como perdi a mãe dele...” Ele concluiu e Belle percebeu naquele instante que ela descobrira uma das maiores fraquezas de Adrian Gold.
Belle tinha encontrado a chave principal para desvendar o mistério que era aquele homem. O ponto fraco. O modo como Gold mencionara o filho era suficiente para Isabelle saber que aquilo era a sua fraqueza. O filho. Mas, Belle sabia que do mesmo modo que o filho que ele de certa forma perdera era o seu ponto fraco, ele também se tornou o ponto forte de Gold.
No momento que Gold falara sobre o filho, Belle obteve um avanço indiscutível em sua missão, mas ela não teve nenhuma sensação de orgulho, mas sim de pena. Novamente ela percebeu que a fera era nada mais do que um simples homem, que assim como qualquer outra pessoa, também sofria.
Belle queria poder dizer algo, confortá-lo, mas nenhuma palavra bastaria para trazer consolo a ele. Não sabia como era perder um filho, mas Belle se lembrou da noite em que deixara a casa de seu pai. Seu pai carregara o mesmo fardo de Gold, pois ela sabia que seu pai havia lhe perdido aquele dia.
Esticando a mão, Belle a pousou delicadamente sobre a mão de Gold que estava apoiada sobre a mesa. Talvez aquele gesto pudesse não consolá-lo, mas demostrar que ela se importava com a dor que ele estava sentindo. “Eu sinto muito...” Ela sussurrou, olhando ternamente. Belle não conseguia se lembrar quando havia começado a se preocupar com tanto com aquele homem... Ela deduziu que talvez tenha sido na noite em que Regina lhe entregara os documentos sobre ele... Sim, fora naquela noite que ela não conseguira mais parar de pensar em Adrian Gold.
Gold olhou para as suas mãos, de certa forma unidas, e ao olhá-la, Belle notou a expressão de tristeza e também de gratidão. Assentindo em silêncio, ele retirou a mão do aperto dela.
Naquele instante, Gaston retornou à mesa, guiando Mary Margaret, embora ele estivesse olhando fixamente de Isabelle para Gold. Ele havia visto praticamente toda a cena, e era claro que ele estava irritado, pois, sempre que tentava compartilhar o mais breve dos toques possíveis com Belle, ela não hesita nenhum instante em tocar Gold.
“Fräulein Isabelle, você me concederia a oportunidade de dançar mais uma vez comigo?” Ele estendeu a mão para que Belle segurasse. Ela estremeceu novamente ao pensar no alemão deslizando os seus dedos inibidos pela suas costas.
“Eu...”
“Desculpe comandante, mas a Srta. Chesneau prometeu que eu poderia desfrutar da companhia dela na próxima dança” Gold interrompeu Isabelle, segurando a mão dela firmemente na sua, guiando-a para a pista de dança, sem esperar por uma resposta de Gaston.
Belle percebeu que o alemão ficou mais irritado do que antes, enquanto a via ser levada para longe dele. Parecia que ele iria arrancá-la as forças dos braços de Gold, e Belle compreendeu que Gaston era definitivamente um homem que ela tinha medo, pois a qualquer momento ele poderia liberar a sua ira contra ela ou qualquer outro civil.
Gold deve ter percebido o desconforto de Belle em relação ao alemão, enquanto repousava uma das mãos nas costas dela, e com a outra segurava a mão da mulher junto ao peito.
“Sua mão está trêmula” ele observou, gentilmente.
Belle suspirou. “Não sei se irei conseguir aguentar o comandante Gaston por muito tempo...” falou, estremecendo.
“Não se preocupe” Ele respondeu, apertando-lhe a mão com firmeza, aproximando-se dela e sussurrou em seu ouvido. “Você sempre estará segura comigo, Isabelle”.
Belle sentiu seu coração parar de bater por alguns instantes apenas para retornar em um ritmo acelerado e descompassado. As palavras de Gold tomaram conta dela, e mais do que tudo na vida, ela queria poder acreditar nelas. Porque ele dissera aquilo ela não sabia, mas tinha certeza de que elas poderiam ser verdadeiras. Percebeu que de certa maneira, ela sempre estaria segura com ele... E agora ela tinha certeza de que sua missão estava comprometida.
A música tomava conta do lugar, mas eles não estavam dançando. Na verdade, mal estavam se movendo. Belle repousou sua cabeça naturalmente contra o peito do escocês, percebendo que ele a abraçava com carinho. Havia um quê de... Belle procurou pela palavra correta... Intimidade na linguagem corporal dele, uma proximidade que contradizia o fato de que haviam se conhecido há tão pouco tempo.
A barreira que ela criara estava praticamente em ruínas. Adrian Gold é um traidor? Adrian Gold é um assassino? Nenhuma dessas palavras fazia mais sentido para ela. Belle concluiu que Adrian Gold era apenas um homem. Um homem comum. Mais do que tudo, ela queria acreditar naquilo; queria poder acreditar que Adrian Gold a protegeria.
A voz de Regina invadiu os seus pensamentos em uma lembrança que parecia muito distante agora... Não confie em ninguém. Talvez Gold a protegeria dos alemães, mas quem iria protegê-la dele? O que iria acontecer se aquele homem, que a abraçava tão ternamente naquele momento, soubesse que ela era na verdade Isabelle French, uma agente da SOE enviada para espioná-lo?
Talvez, ela pensou, Regina estivesse certa. Ela não poderia acreditar em ninguém, muito menos se esse alguém fosse Adrian Gold. Aquela dança que eles compartilhavam com tanto afeto não se passava de mais um jogo que ele, sem dúvida, estava adorando, e simplesmente para usá-la e, Belle percebeu, para descobrir as fraquezas dela. E, infelizmente, ele perceberia, cedo ou tarde, que uma das fraquezas daquela mulher era ele próprio. Isso sem dúvida facilitaria muito na hora em que ele tivesse que mata-la, pois ele saberia que Isabelle hesitaria.
Então era isto. Adrian Gold não se preocupava com a sua segurança, mas apenas com o próprio sucesso, e na primeira oportunidade ele não a ao alemão, mas a manteria presa aos seus próprios braços, para que ele pudesse mata-la. Era um destino perverso, mas, Belle pensou, um destino que ela receberia de braços abertos...
A única coisa com que ele se preocupava era em relação ao filho que ele dissera que perdera. Apenas o filho, e unicamente o filho.
Adrian Gold era...
Belle não sabia mais definir o que ou quem era aquele homem, e isso a amedrontava.
Naquele instante a banda tocou as últimas notas, e Gold desvencilhou os braços ao redor dela. Belle o mirou, tentando entender o que acabara de acontecer entre eles. Ao que parecia, ele também demonstrava a mesma curiosidade e... Pesar.
James e Mary Margaret vieram ao encontro deles; ambos a olhavam preocupados.
“Ah, Isabelle, você parece estar cansada” James falou.
“Estou um pouco, sim” ela respondeu sinceramente.
“Então é melhor partirmos” disse James, estendendo a mão para Gold. “Nos veremos em breve Sr. Carruthers”
“Tenho certeza que sim. Talvez nos vejamos na ópera, na noite do próximo sábado?” Gold disse, enquanto acompanhava-os para fora do restaurante. Belle não teve a oportunidade de se despedir de Gaston, e não tinha nenhuma vontade de retornar para fazê-lo.
Ela percebeu que tinha então, exatamente uma semana até o próximo encontro com Gold, e durante este prazo ela teria que ter forças o suficiente para estabelecer um ponto definitivo se deveria ou não confiar naquele homem.
Para que progredisse na sua missão ela precisava deixar de lado os seus sentimentos e dar voz a razão. Deveria esquecer quem era Isabelle French e passar a ser a agente que fora treinada para sobreviver aos venenos da guerra.
Adrian Gold era um monstro.
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