The Sound Of War
9 Trapped
Notas iniciais
Nos dias seguintes, Belle passou horas debatendo consigo mesma se deveria contar a alguém sobre o que havia acontecido na Opéra, entre ela e Gold. Pensou em contar a Mary Margaret, mas desistiu, pois a mulher jamais iria compreender o que Belle estava sentindo e provavelmente contaria a James sobre o acontecido. Se o que tivesse acontecido entre eles chegasse aos ouvidos de Regina, Belle seria acusada de traição e teria de retornar à Londres para ter que enfrentar as consequências das suas ações.
Ela não poderia correr o risco de ser acusada de traição. Por que Gold a beijara? Belle não acreditava que poderia deixar de pensar naquele homem. Como iria seguir a sua missão com os pensamentos voltados para aquele beijo? Em seu íntimo, ela ansiou poder beijá-lo novamente. O que estava acontecendo com ela?
Belle passou a sair para passear, atravessando a Pont de La Concorde, que levava até o Jardin des Tuileries, apenas para conseguir afastar-se da claustrofobia da casa e dos pensamentos que a afligia. Mas era óbvio que esses pensamentos jamais a abandonariam.
A cada instante, Belle se via pensando em Adrian Gold; na dança que eles desfrutaram juntos, no modo como ele a abraçou, como se ela fosse a coisa mais delicada e preciosa que ele segurava... Na suavidade dos lábios dele. Ela precisava se concentrar. Não poderia mais pensar naquele homem.
As ordens de Regina foram claras o bastante; descubra o que for possível sobre a relação dele com os alemães e depois o mate. Não se envolva com ele. Belle teria que matá-lo, mas como executaria aquela ordem se a cada vez que se aproximava de Gold ela não tinha vontade nenhuma de mata-lo. Jamais mataria uma pessoa sequer, como poderia matar uma criatura tão intrigante como aquela? Adrian Gold é que iria mata-la.
Em uma dessas caminhadas, ela estava voltando para casa quando viu um rosto familiar pedalando sobre a ponte. Ela parou, chocada, enquanto os olhos verdes registravam um instante de reconhecimento, mas a bicicleta continuou seu percurso sem se deter.
Ruby...
Belle se segurou para não dar meia-volta e se certificar de quem vira; caso houvesse olhos inimigos a observando, isso seria um problema e continuou o percurso de volta à casa de James.
Os cabelos longos e negros de Ruby foram cortados num comportado penteado ao estilo Chanel, e as roupas que usava foram criadas para se mesclarem ao cenário urbano, ao invés de atrair as atenções para si, como a velha Ruby preferia.
No dia seguinte, Belle repetiu a caminhada pela ponte até o jardim num horário similar, sentou-se num banco e apreciou o magnífico tapete vermelho e dourado de folas secas que o outono trazia. Talvez Ruby vivesse nas proximidades. O coração de Belle ansiava por ver aqueles rostos familiares de perto, abraçar alguém que fosse familiar e que houvesse conhecido em seu passado.
Ela repetiu a caminhada no mesmo horário, todos os dias, durante uma semana, mas não voltou a ver Ruby.
Embora, aparentemente, nada houvesse mudado no ritmo diário da casa, a pulsação subjacente estava mais acelerada. Certa manhã, Belle soube que James passara a noite inteira fora de casa e voltou somente ao amanhecer. Parecia cansado quando se sentou ao seu lado na sala de jantar para tomar o desjejum.
“Preciso viajar a negócios” anunciou James após a refeição. Mary Margaret olhou para o marido, preocupada. “Espero que você se lembre da nossa conversa, Isabelle. Mary Margaret ficará aqui para protegê-la. Se alguém perguntar a meu respeito, diga-lhes que fui visitar nosso chateâu em Pirineus. Voltarei na quinta-feira”.
Ao dizer aquilo, James se levantou e saiu pela porta.
Outro dia vazio se apresentava para Belle. Mary Margaret ainda não havia se levantado, então, dirigiu-se até a pequena biblioteca e abriu um livro de Jane Austen. Os livros estavam se tornando sua única válvula de escape e Belle se deixava encantar pelos personagens que povoavam as obras.
Durante a semana, Belle teve de confortar Mary Margaret, que não conseguia parar de perguntar sobre o marido.
“E se algo acontecer com ele, Belle?” Ela choramingou, durante uma tarde em que estavam sentadas sozinhas no terraço. “Eu jamais conseguiria viver sem ele!”
Belle abraçou a mulher, tentando confortá-la. “Tenho certeza de que ele está bem”. Belle observou durante vários dias o relacionamento de James e Mary Margaret. Ela sentia um pouco de inveja. O que eles compartilhavam era algo que ela mal conseguia compreender, algo que ela havia apenas lido nos seus livros de contos e que jamais acreditava que poderia existir. Eles não tinham apenas o desejo carnal de uma relação entre homem e mulher, mas eles tinham outros desejos. Ambos ansiavam pela companhia um do outro que ia além da luxúria que existe entre um casal. Era uma relação que chegava a ser viciosa, e assim como Mary Margaret havia lhe dito, era algo que ela não poderia viver sem.
Belle sorriu ironicamente com os seus pensamentos. Ela ansiou em ter uma vida como a de Mary Margaret uma vez; sonhou em se casar e ter filhos, em formar uma família. Mas, esse era um sonho antigo, e o que Belle mais queria na vida era poder viver aventuras. Ironicamente, agora que ela estava ali, vivendo a sua aventura. Viver uma vida como a de James e Mary Margaret era algo que parecia estar no futuro de Belle e, ela pensou amargamente, uma vida de romances também não. Ela vivia pelas aventuras. Mas, o que seria o amor se não uma grande aventura?
James regressou da viagem que fizera dois dias depois. Parecia exausto e foi diretamente para o seu quarto; Naquela noite Belle soube que houve um arrombamento seguido por invasão na noite passada no escritório da STO na Rue des Frances-Bourqeois.
Belle foi informada a respeito do programa STO durante seu treinamento. Era um sistema pelo qual o registro de jovens franceses, num total de quase 150 mil nomes, era mantido em arquivo. Vários desses jovens eram continuamente capturados e enviados para a Alemanha para trabalhar em fábricas de munição e linhas de produção. A deportação daqueles milhares de jovens causava um enorme mal-estar entre a população francesa, e fez com que o governo de Vichy se tornasse extremamente impopular. Belle sentiu satisfação em ouvir tais notícias, sobre o sucesso da Resistência, mas também ficou preocupada, pois sabia que James havia participado daquela ação.
As semanas seguintes foram repletas de noites de sono interrompidas; Belle não conseguia obter notícias sobre Gold, além do fato de que ele estava viajando. As noites também eram interrompidas quando as sirenes de ataque aéreo cortavam o ar estagnado de Paris, forçando seus residentes a se refugiarem nos porões em busca de segurança. Belle soube que os ataques da RAF atingiram as fábricas da Peugeot e da Michelin, que ficavam nas regiões industriais ao redor de Paris. Se estivesse em sua casa, na Inglaterra, ela receberia essas notícias com alegria enquanto lia a edição diária do The Times, mas, ali, os jornais estavam repletos com o número de civis franceses inocentes que foram mortos nos bombardeios.
Saindo para dar seu passeio matinal até o Jardin des Tuileries, Belle quase conseguia sentir a pulsação de uma cidade e das pessoas que lentamente perdiam a esperança de que a guerra acabaria algum dia. A invasão dos Aliados ainda não havia se materializado, e Belle estava começando a se perguntar se, algum dia, viria realmente a acontecer.
Sentado no mesmo banco de sempre, percebendo que o ar já se enchia com a névoa, como se também quisesse se livrar logo deste dia miserável, Belle viu que Ruby vinha em sua direção.
“Querida! Você está mais linda do que eu me lembrava!”
Ruby estava vestindo um casaco de pele, disfarçando-se de mulher rica. Mas Belle não deixou de reparar que a pele da mulher estava quase transparente e seu rosto estava desesperadamente esquálido.
Ruby se aproximou e abraçou-a, sussurrando em seu ouvido de maneira rápida e clara:
“Chame-me de Christine, eu moro perto de sua casa em Saint-Raphaël” Ela se afastou e sentou-se ao lado de Belle. “O que acha do meu cabelo?” perguntou tocando-o com as pontas dos dedos. “Decidi cortar quase tudo recentemente. Pensei que era hora de crescer!”
“Acho que fica muito bem em você, Christine” respondeu Belle.
“Obrigada, querida” ela disse, puxando um maço de Gauloises. “Cigarro?”
“Não, obrigada.”
“Estou usando essas coisas malditas para sobreviver. Ajudam a diminuir a fome.” Ruby acrescentou, ascendendo um. “Aqui podemos conversar. Você nunca sabe quem pode estar olhando e ouvindo. As paredes realmente têm ouvidos nesta cidade.”
Belle assentiu. “Precisa de dinheiro para comprar comida?” Belle perguntou, sentindo que isso, pelo menos, era algo que ela poderia oferecer.
“Não, obrigada. O problema é que sempre estou correndo de um lado par ao outro e não consigo ficar no mesmo lugar duas vezes caso os alemães rastreiem meu sinal. Estou sempre em trânsito com a minha bicicleta, de um lado ao outro. É difícil encontrar tempo para sentar e comer algo.”
“Como estão as coisas?” Belle perguntou.
“Oh, você sabe, Belle” disse Ruby, com uma forte tragada em seu cigarro. “Avançamos um passo e retrocedemos dois. Pelo menos nossa equipe está um pouco mais organizada do que quando cheguei aqui, no verão. Mas sempre podemos contar com mais alguém. E eu estava pensando que, talvez, não importa o fato de que você, oficialmente, não tenha sido designada para trabalhar em campo, como a gente. Não há motivo pelo qual você não possa nos ajudar como uma cidadã francesa comum. O que me diz?”
Belle relutou alguns instantes. Seria loucura fazer aquilo. Não fora designada para nenhum outro tipo de ação, a não ser espionar Gold. Embora tivesse todo o treinamento necessário, Belle sabia que aquilo era arriscado demais, porém, não era ela que sempre ansiara em poder mostrar o seu verdadeiro valor? Mais do que tudo, Belle queria poder ajudar aos outros. Queria ser brava.
Num dos cantos de sua mente, Belle estava considerando o fato de que James jamais a perdoaria se as suas ações afetassem Mary Margaret.
“Tem certeza, Ruby? É muito arriscado.”
“Para ser honesta, Belle, já deixei de me importar.” Suspirou Ruby. Porém, Belle não poderia arriscar a sua missão, ou a sua vida, para ajuda-la. Não era porque Ruby já havia desistido que Belle também iria desistir. “Tem certeza de que não mudou de lado, Belle?” Em seguida, repentinamente, deu uma gargalhada. “Bom, se mudou, eu já estou morta mesmo. Que importância isso tem?”
Ruby estava pedindo a ela que provasse sua lealdade. Belle suspirou enquanto aceitava o inevitável. Precisava demonstrar a sua lealdade à sua amiga e ao seu país, quaisquer que fossem as consequências.
“Tudo bem, vou ajudá-la.”
Ruby sorriu carinhosamente para Belle e ela viu um lampejo repentino da beleza da sua amiga transparecer por entre o véu da exaustão.
“Ótimo. De qualquer forma, preciso correr.” Ela disse, levantando-se. “Vou lhe dar os detalhes exatas sobre onde quando a reunião acontecerá na quinta-feira. Portanto, até lá, e boa sorte”.
Conforme o combinado, Belle voltou ao Jardin des Tuileries na quinta-feira, mas Ruby não apareceu. Nos quatro dias seguintes, sentou-se no banco no horário combinado e, no quarto dia, Ruby chegou, empurrando sua bicicleta. Passou por Belle como se não a reconhecesse. Depois voltou, parou em frente ao banco, olhando diretamente para frente, e comentou em voz baixa:
“Café de la Paix, nono distrito, às vinte e uma horas”.
Então ela seguiu seu caminho.
Belle passou as horas seguintes imaginando como deixaria a casa sem que sua ausência fosse notada. James não permitiria que ela saísse desacompanhada. Decidiu que o melhor a fazer seria dizer que estava com uma dor de cabeça horrível e se recolher aso aposentos após o jantar. Era quando James geralmente se fechava em seu escritório, e Mary Margaret já estaria em seu quarto. E, quando James já estivesse ocupado com seus afazeres, iria até a cozinha e sairia da casa pelo porão.
Naquela noite, após o jantar, assim que James deixou a mesa e ela estava se preparando para fazer o mesmo, a campainha tocou e Laura foi atender. Em seguida, a governanta voltou para a sala de estar.
“O coronel Alfred Von Gaston veio vê-la, mademoiselle Isabelle. Ele a aguarda na sala de artes.”
Quase a ponto de chorar com o horário infeliz que o alemão escolheu para visita-la, Belle caminhou pelo corredor e forçou-se a abrir um belo sorriso quando entrou na sala de artes.
“Olá Herr Gaston. Como está?”
“Estou bem, mas não a vi nos últimos dias, Fräulein, e senti saudades da sua beleza. Vim perguntar-lhe se não gostaria de me dar o prazer da sua companhia para dançar esta noite.”
Belle começou a balbuciar uma desculpa, mas Gaston balançou a cabeça e calou-a, pousando-lhe um dedo sobre os lábios.
“Não, Fräulein. Você já me rejeitou várias vezes. Esta noite, não me darei por vencido. Virei buscá-la às vinte e duas horas.” Gaston foi andando em direção à porta e, em seguida, parou, como se houvesse se esquecido de mencionar alguma coisa. “Espero estar com um excelente humor. Meus oficiais têm um compromisso importante no Café de la Paix esta noite.” Ele disse, com um sorriso. “Até mais tarde, Fräulein.”
Horrorizada, Belle acompanhou o alemão com os olhos até que ele saísse da casa, com o coração batendo com força contra o peito. Era a mesma cafeteria para onde ela deveria ir. Tinha que avisar Ruby de que a Gestapo já sabia sobre a reunião. Voltou correndo para o quarto, vestiu seu chapéu e voltou em disparada para a porta. Ao abri-la, estava com um pé na soleira da porta, quando uma mão agarrou seu braço.
“Isabelle, onde você está indo a esta hora e com tanta pressa?” Ela se virou para James, sabendo que seu rosto traía o pânico que estava sentindo.
“Preciso sair agora! É uma questão de vida ou morte! Por favor, você não está entendendo!”
“Venha, vamos conversar no escritório. Venha e me diga o que a deixou tão aflita.”
Puxando-a firmemente de volta para o corredor, de modo que não deixasse qualquer margem para recusa, James fechou a porta do escritório.
“Por favor” Belle implorou. “Não sou sua prisioneira! Você não pode me manter aqui contra minha vontade. Tenho que sair agora ou pode ser tarde demais!”
“Isabelle, você não é minha prisioneira, mas eu também não posso correr o risco de deixar que saia daqui sem me dizer para onde está indo. Se não me contar, serei forçado a trancá-la em seu quarto. Não pense que suas atividades, como seu encontro com uma “amiga” no Jardin des Tuileries, passaram despercebidas.” James disse, com a voz amarga. “Já lhe falei várias vezes que não podemos correr o risco de que qualquer conexão entre esta casa e a Resistência seja estabelecida.”
“Sim” Belle confessou, horrorizada ao ver que James sabia do encontro.
“A mulher que encontrei no Jardin des Tuileries treinou comigo na Inglaterra. Ela pediu minha ajuda. É uma amiga e eu não podia negar.”
“Bem, então me diga. Aonde você precisa ir agora à noite?” James repetiu a pergunta, enquanto Mary Margaret entrava na sala para se unir à eles.
“Minha amiga me disse, hoje à tarde, que sua rede vai se reunir às vinte e uma horas no Café de la Paix. Gaston acabou de me dizer que também sabe a respeito dessa reunião. A Gestapo estará esperando por eles. Eu preciso avisá-los, James. Por favor” Belle implorou. “Deixe-me ir!”
“Não, Isabelle! Você sabe que não posso deixa-la fazer isso. Se você fosse capturada e presa... Nós sabemos quais seriam as consequências para as pessoas que vivem nesta casa.”
“Mas eu não posso simplesmente ficar aqui enquanto ela está indo para uma armadilha! Lamento James, mas, seja lá o que você tenha a dizer, eu vou até a cafeteria” Belle exclamou, andando com determinação em direção à porta.
“NÃO!”
James a agarrou pelos ombros enquanto ela tenteava se desvencilhar, explodindo em lágrimas de frustação quando percebeu que não teria condições de vencer aquela luta física.
“Isabelle! Acalme-se, por favor, ou serei forçado a lhe dar um tapa no rosto. Você não vai sair hoje para avisá-los.” James disse, olhando para ela e suspirando profundamente. “Eu irei.”
“Você?”
“Não! James, você não pode ir!” Mary Margaret segurou firmemente o braço do marido, suplicante. “É muito perigoso!”
“Eu ficarei bem, querida. Tenho muito mais experiência nesse tipo de situação do que você jamais terá, Isabelle.” Ele disse verificando o relógio. “A que horas sua amiga disse que a reunião vai acontecer?”
“Às vinte e uma horas. Daqui uma hora.”
“Então, talvez haja tempo de entrar em contato com alguém que possa levar uma mensagem antes que a reunião aconteça” James disse, forçando-se a abrir um sorriso para Mary Margaret. “Se não conseguir, eu mesmo irei até lá.”
“James, não faça isso! Por favor, James!”
“Minha querida... Você precisa confiar em mim. Prometo que vou fazer tudo o que eu puder para avisá-los.”
“Oh, meu Deus, James!” Os últimos resquícios da força de Belle sumiram, e ela levou a cabeça às mãos. “Perdoe-me por trair sua confiança.”
“Conversaremos mais tarde. Preciso sair agora para conseguir chegar lá a tempo. Se qualquer pessoa vier me procurar ou telefonar, diga que estou na cama com uma crise de enxaqueca.”
Belle subitamente se lembrou de algo importante.
“James! Gaston vai voltar para me levar para danças às vinte e duas horas!”
“Então, é melhor que eu esteja de volta antes disso.”
James abraçou Mary Margaret, beijando-lhe na testa e murmurando algo em seu ouvido, e então saiu do escritório. Belle deixou-se desabar sobre uma das poltronas e, alguns minutos depois, ouviu o som da porta da frente se fechando.
“Oh, Mary, me perdoe! Coloquei a vida de James em perigo...” ela olhou para a mulher.
“Não se preocupe, Belle” Mary Margaret foi até a janela, olhando pelas frestas da cortina. “Ele vai ficar bem e vai voltar para mim. Ele sempre volta.”
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