The Sound Of War

8 The destiny symphony


Notas iniciais
Once Upon a Time não me pertence.

Nos dias seguintes, Belle ficou debatendo consigo mesma se deveria ou não seguir as novas ordens de Regina Mills. Se ela o fizesse, estaria traindo a si própria; estaria traindo tudo aquilo em que acreditava ser certo ou errado. Ela não era uma marionete para ser conduzida de acordo com as vontades dos outros. Ela era livre para decidir o queria ou não fazer com o seu destino. Mas... Se decidisse não obedecer às novas regras impostas, isto não seria o mesmo que estar colocando a vida de James e Mary Margaret em risco?

Talvez, ela encontraria as repostas de que precisava naquela noite, na ópera, onde Gold estaria presente. Aquela noite seria decisiva para Belle por um ponto final nas suas dúvidas e perceber ao lado de quem ela deveria permanecer e em quem deveria confiar.

Naquela noite ela optara em usar um vestido dourado, que lhe adornava o corpo perfeitamente, deixando os ombros à mostra e descia graciosamente até a altura dos calcanhares. Em torno do pescoço, ela prendeu a sua gargantilha com um pingente de lágrima, que pertencera à sua mãe, e que sempre lhe trouxera sorte e segurança.

Ouvia-se o burburinho de uma plateia glamourosa por toda a Place de L’ Opera, que consistia de alemães de alto escalão, oficiais do governo de Vichy e a população burguesa de Paris. A milícia francesa montava guarda na entrada.

Embora o cenário desta noite demonstrasse que a vida seguia seu curso normalmente, tudo não se passava de uma fraude, de um pastiche sombrio de como as coisas realmente deveriam ser. É claro que não era a mesma coisa... Nada mais era o que costumava ser.

Belle esperava ansiosamente por aquela noite, embora ela desejasse que a ópera não fosse uma das obras de Wagner, mas era o tipo de música que os alemães mais apreciavam.

Enquanto James cumprimentava alguns alemães no trajeto até o camarote, Mary Margaret guiava Belle pela escadaria grandiosa. Seus olhos esquadrinhavam o local a sua volta atentamente.

“Não se preocupe” Mary Margaret sussurrou para ela. “Eu e James estamos aqui para protegê-la” Mary disse, com seu belo rosto se abrindo num sorriso quando Belle sentou-se ao seu lado em uma confortável cadeira de veludo.

Gaston foi o próximo a chegar ao camarote.

Fräulein Isabelle” ele disse, após beijar a sua mão como de costume. Ele a observou cuidadosamente. “Seu vestido é lindíssimo. As damas francesas são verdadeiramente as mais elegantes do mundo. Talvez, com o tempo, as mulheres alemãs consigam absorver um pouco da elegância francesa.”

Gaston pegou uma taça de champanhe e, ao fazê-lo, a porta se abriu novamente para revelar James e outros oficiais alemães. Belle percebeu que Gold não estava entre eles, e pensou o que poderia estar atrasando o homem.

Ela tentou disfarçar a decepção que sentira e, por sorte, as luzes se apagaram lentamente antes que alguém percebesse, e os convidados do camarote se sentaram. Gaston tomou apressadamente a poltrona vaga ao seu lado.

“Gosta de Wagner, Fräulein Isabelle?” perguntou Gaston, enquanto sorvia o champanhe e colocava a taça de volta na bandeja.

“Não é um compositor que eu conheça bem, mas gostaria de me formalizar com ele” respondeu Belle, diplomaticamente, embora fosse mentira. Assim como os livros, ela era uma amante da música, e embora respeitasse as obras de Wagner, o compositor era um dos menos apreciados por Belle.

Gaston iria falar, mas suas palavras foram engolidas pelo dramático coro de abertura de Die Walküre.

Belle nunca chegou a gostar de Wagner, achando que sua música e suas histórias eram pesadas demais. Assim, passou a maior parte do tempo observando discretamente o auditório e as pessoas que estavam ali, tentando ver se Gold estava entre elas, mas não havia nenhum sinal de que o homem estava ali. O que poderia ter acontecido? Por que ele não estava ali?

Sentia-se muito desconfortável por estar tão próxima de Gaston, mas o que podia fazer? Se, como James lhe dissera, suas ações ocorressem em prol de uma causa maior, deveria se resignar a engolir sua repulsa enquanto Gaston deslizava a mão por seu joelho coberto pelo vestido de seda.

Gold dissera que a protegeria, mas onde estava ele agora? Belle não conseguiria ficar nem mais um minuto sequer naquela sala sufocante junto do alemão. Discretamente, ela pediu licença, dizendo que precisava ir ao banheiro, deixando o camarote.

Respirando profundamente, ela começou a se afastar daquela sala. Os corredores e salões da ópera estavam vazios, pois todos estavam assistindo ao espetáculo no interior do teatro, e Belle podia andar tranquilamente, sem ser incomodada por ninguém. Ela andava rapidamente, sem saber ao certo onde estava indo. Qualquer lugar longe de Gaston já era o bastante.

Adentrando em um dos corredores opostos, ela abriu uma porta, acreditando que fosse o banheiro, mas se deparou com uma sala que provavelmente não era ocupada a anos, e que servia aparentemente servia apenas para colocar objetos que já não tinham mais valor ou que estava estragados.

A janela aos fundos da sala estava aberta, permitindo que a luz do luar iluminasse o aposento sutilmente. Belle encontrou o interruptor, mas a lâmpada estava queimada, e não havia nenhuma outra fonte de luz a não ser a que era proveniente da janela, mas não fora necessário mais claridade para que Belle percebesse algo no fundo daquela saleta.

Próximo à janela, jazia um piano feito de uma madeira escura e que curiosamente era adornado por pequenos detalhes de rosas; o instrumento era tão negro quanto o céu naquela noite. Fechando a porta às suas costas, Belle se aventurou na sala, e se aproximou lentamente do piano, examinando-o curiosamente por alguns instantes.

Talvez estivesse trancado, mas, na primeira tentativa de abri-lo, o tampo cedeu gentilmente, permitindo que as teclas pretas e brancas se revelassem para ela. Deslizando as pontas dos dedos suavemente pelas teclas, Belle percebeu o quanto sentia falta de poder tocá-lo.

Quando criança, ela tivera aulas de piano com a sua mãe, antes dela falecer. Logo ela aprendera a tocar as mais belas músicas mas nada se comparava quando a sua mãe sentava-se ao piano.

Belle e seu pai costumavam se sentar na biblioteca, em sua casa em Londres, só para ouvir à sua mãe. Ela podia ficar horas a fio observando como os dedos da sua mãe dedilhavam as teclas.

Após a morte de sua mãe, Belle nunca mais ousou tocar alguma peça no instrumento, pois sabia que aquilo lhe traria muitas lembranças da sua amada mãe.

Hesitando, pensou se alguém iria lhe ouvir, caso ela tocasse alguma coisa, mas ela sabia que não havia ninguém próximo àquela saleta. Sem mais delongas, Belle sentou-se ao piano e pôs-se a tocar.

Conforme seus dedos percorriam as teclas graciosamente, uma melodia triste começou a ser emitida, preenchendo cada pedaço, cada brecha daquele lugar. Enquanto tocava, Belle se lembrou do que sua mãe sempre lhe falava quando estava praticando; qualquer pessoa poderia interpretar as músicas mais belas e difíceis, mas, para que uma peça transmitisse e fizesse despertar os sentimentos mais profundos, elas deveriam ser entoadas com a alma e o coração. Qualquer peça que ela fosse tocar, desde à mais simples a mais complicada, deveria ser tocada com todo o seu ser.

A melodia tristonha do noturno de Chopin preenchia cada parte da sua alma, e Belle podia sentir os efeitos da música fazerem-na relaxar. Ali, na solidão daquele lugar, Belle podia se deixar levar pela falsa esperança de que tudo estava bem. Não existia guerras, perigos, ou qualquer tipo de ameaça. Não precisava se preocupar com os alemães, com James ou Mary Margaret, com Regina ou com Gold. Ela estava segura ali. Era apenas ela ali. Somente ela e a sua triste melodia.

Seus dedos caminharam lentamente para as notas finais, e quando a música chegou ao fim, ela permaneceu sentada de olhos fechados, absorvendo aqueles preciosos minutos de paz.

“Adorável” Uma voz surgiu às suas costas, fazendo com que Belle levantasse num único movimento, assustada.

Adrian Gold estava parado próximo à porta, apoiado em sua bengala. Belle não conseguia ter uma visão clara do rosto do homem, que estavam escondidos na sombra, mas Belle sabia que ele a olhava intensamente.

“Sr. Carruthers! Me perdoe, eu não o ouvi entrar.” Belle sentiu o rosto corar. Há quanto tempo ele estivera ali parado, apenas a ouvindo tocar?

“Eu iria chama-la, mas eu jamais poderia interrompê-la” Ele falou calmamente, se aproximando dela. “É uma bela música...”.

“Obrigada” Belle respondeu, sem ousar se mover, enquanto acompanhava o homem com o olhar, vendo-o se aproximar. Agora ela já conseguia ter uma visão mais clara do rosto dele, mas o que ela viu não trouxe nenhum alívio. As feições dele estavam distorcidas em uma mistura de tristeza e, Belle percebeu... Admiração.

“No entanto, eu devo dizer que é um pouco perigosa para ser tocada, dada as circunstâncias em que vivemos, não acha?” Gold lhe perguntou. Ele estava a testando, por alguma razão.

“Eu não vejo o porquê seria perigosa” Belle respondeu, sem medo. “Só porque Chopin era polonês e ainda os alemães se recusam a perceber que as obras dele são muito mais grandiosas do que as que eles costumam ouvir? Desculpe-me, mas eu não tenho medo de tocar um compositor polonês.” Ela replicou, sem se deixar abalar pelo olhar que Gold a lançou, demonstrando surpresa. “Eu não tenho medo deles.”

Belle não desviou os olhos dos de Gold, que exibiam novamente aquele estranho brilho, de que ela gostava de pensar ser reservado apenas para ela. Mas, ela sentiu estremecer quando percebeu que o homem ao invés de se afastar dela, se aproximava cada vez mais, cruzando o seu espaço particular. A expressão dele, no entanto era indecifrável. Ela não conseguia entender a mistura de emoções que percorriam pelo rosto daquele homem; havia tristeza, ódio, rancor... Mas havia também algo além daquilo... Algo muito mais intenso e, Belle teve que admitir, extremamente cativante.

Hesitante, Gold tocou o rosto de Belle suavemente. As mãos dele não eram ásperas como ela imaginara, mas sim extremamente suaves, o que a fez ter vontade de se aproximar do seu toque ao invés de repeli-lo.

“Realmente, medo nenhum...” Ele murmurou, com a voz um pouco mais rouca do que o normal. Belle ficou mais alerta quando não se afastou dela. Aquilo fez com que sua respiração se tornasse descompassada, e quando ele continuou a se aproximar, ela não conseguiria jamais desviar os olhos dos dele; indecifráveis olhos negros que a penetravam intensamente, como se ele pudesse ver a sua alma. Finalmente a distância entre eles foi quebrada, quando ele, tão suavemente, pressionou os seus lábios contra os dela.

Ela poderia ter esperado que o hálito dele fosse rançoso, mas ele apenas cheirava a ervas e algo a mais que ela não conseguiu decifrar. Cedo demais e ao mesmo tempo tarde demais, Belle percebeu o que estava acontecendo e se desvencilhou dos braços daquele homem, tomando uma grande distância dele.

“Oh, me desculpe Sr. Carruthers” Ela sentiu o rosto corar fortemente, enquanto se afastava, sem ousar olha-lo diretamente. “Me desculpe... Boa noite, senhor” ela murmurou novamente, saindo o mais rápido possível daquela sala, sem esperar para ouvir qualquer coisa que ele teria para lhe falar, mas ainda assim, ela ouviu um “boa noite, Isabelle”. Aquilo fora o bastante para não apenas ser ouvido por seus ouvidos, mas por seu coração.

Belle voltou o mais rápido que pode ao camarote, onde James, Mary Margaret, e infelizmente Gaston, a esperavam.

Durante o restante da noite, ela se tornou submissa a tudo o que acontecia ao seu redor, dando respostas breves às perguntas que lhe eram feitas. Após o fim do concerto, ela recusou ao convite insistente de Gaston para que ela jantasse com ele, alegando estar com uma forte dor de cabeça. Belle não vira nenhum sinal de Gold no grande salão ou nas redondezas da praça à frente da ópera.

“Espero que se recupere logo, Fräulein Isabelle” Gaston falou, enquanto os deixava em frente à casa de James.

“Venha comigo, Isabelle” Mary Margaret segurou os ombros de Belle, levando-a para dentro. “Você está pálida, minha querida”.

Belle não resistiu ao ser conduzida até o seu quarto. Não conseguia sentir nenhuma parte do seu corpo, e ela percebeu que realmente não estava bem.

“Você está bem, Belle?” Mary Margaret perguntou quando ela fez com que Belle se sentasse na cama, olhando-a com preocupação. “Você saiu para ir ao banheiro e quando voltou parecia que tinha sido atacada por alguma coisa.” Belle pensou ironicamente que realmente havia sido atacada... Atacada diretamente em seu coração e em sua alma.

“Eu estou bem...” Ela respondeu, sem olhar para a mulher, com medo de que as lágrimas que estavam pendendo nas bordas dos seus olhos ameaçassem cair.

“Aconteceu alguma coisa?” Mary Margaret perguntou calmamente, querendo ajuda-la. Mas, a única coisa que Belle queria era poder ficar sozinha e se perder em seus pensamentos.

“Mary Margaret, eu gostaria de poder ficar sozinha... Por favor” Belle respondeu.

“Tudo bem. Se você precisar de alguma coisa é só me chamar...” Ela falou, fechando a porta do quarto, deixando-a finalmente a sós.

Belle ficou sentada na beirada da cama, e apoiou o rosto nas mãos, suspirando profundamente.

O que ela havia feito? Como pode deixar que Gold a beijasse?

Jamais poderia ter permitido que ele se aproveitasse dela daquela maneira. Por que ele a beijara?

Belle pousou as pontas dos dedos nos lábios. Ela ainda conseguia se lembrar da sensação de quando ele a beijou. Os lábios dele eram extremamente macios e gentis, e aquilo apenas complicava mais as coisas. Como pudera deixar aquilo acontecer? Ele a beijou com tanta veneração...

Não. Ela não podia pensar daquela forma... Mas, por que ele a beijara? Aquilo fazia parte do joguinho asqueroso que ele estava jogando para descobrir tudo sobre ela ou, Belle ousou imaginar, será que ele nutria algum sentimento por ela?

Mas era claro que não. Adrian Gold não era estúpido em se deixar alimentar sentimentos por ela. Eles estavam em guerra e ele jamais confiaria em Belle. Ele jamais entregaria o seu coração a ela.

Infelizmente, Belle percebeu que, uma parte do seu coração já estava pousado suavemente nas garras daquela misteriosa fera.

Notas finais
Finalmente um capítulo que eu sei que vocês vão gostar e que eu amei escrevê-lo. Era algo que eu queria escrever desde o início e foi um alívio finalmente colocá-lo no papel.
Algumas curiosidades!
O título, The destiny symphony, é o nome da 5ª sinfonia de Beethoven. A BBC costumava tocar as notas principais desta sinfonia, que significam "Vitória".
Eu não tenho nada contra Wagner.
E, para quem tiver curiosidade, esta é a música que Belle estava tocando: http://www.youtube.com/watch?v=tV5U8kVYS88
E, sim, eu amo música clássica.
Por favor, comentem! :)