The Sound Of War
16 Separate Ways
Notas iniciais
Separate Ways
Belle estava sentada na cozinha, segurando uma xícara quente de chá e comendo alguns croissants, e observando Gold que estava sentado na cadeira oposta a sua, com um jornal do mesmo dia, seguro em suas mãos.
Belle observou Gold de soslaio, que acompanhava a sequência das notícias com um forte interesse. Ela frequentemente se apanhava observando Adrian, maravilhada e impressionada por ele haver entrado em sua vida e a transformado de maneira irrevogável.
Ele a salvou. Tudo estava diferente agora, parecia que havia acordado de um sonho longo e doloroso, e saído para caminhar sob o sol. Embora relutasse em se aventurar nos sentimentos que tinha, temendo que Gold a enganasse e a entregasse aos alemães, o carinho estoico que ele demonstrava acabou por derrubar todas as barreiras. E agora, após ambos terem sido sinceros um com o outro, ela se deixava cercar pelo amor que sentia por ele, florescendo como uma flor seca que repentinamente recebeu água.
Sentados ali, podiam ser considerados como um casal que há anos estavam juntos, como se nada interferisse no amor deles.
Gold percebeu que Belle o estava olhando e sorriu. Ela sabia que nada iria separá-los, nem mesmo a guerra.
Foi quando Jefferson entrou quase correndo na cozinha. Belle ficou assustada. Jefferson tremia da cabeça aos pés e a feição em seu rosto era de puro desespero. Algo estava errado.
“Senhor, peço desculpas por entrar dessa maneira.” Jefferson disse apressado. “Mas vim avisá-lo de que a Srta. Isabelle corre grave perigo. A Gestapo suspeita há tempos de que Bougton seja um membro da Resistência. Eu soube que Gaston foi informado que um de seus oficiais reconheceu Bougton quando os membros da rede foram presos no Café de La Paix, naquela noite. Eles irão até a casa dele quando Gaston retornar à Paris, daqui a dois dias.” Jefferson falou. “Se eles encontrarem os Bougton, irão prendê-la também. Você precisa tirá-la daqui agora.”
Toda a cor pareceu desaparecer do rosto de Belle. Ela olhava para Jefferson tentando compreender o que estava acontecendo... A Gestapo estava atrás dos Bougton? Todo o seu disfarce havia sido destruído e James e Mary Margaret estavam em perigo...
Gold olhava para Jefferson com um misto de tensão e medo em suas feições.
“Não há tempo a perder” Gold concordou, indo até Belle e puxando-a pelo braço, a conduziu junto com Jefferson para a porta da frente.
“Onde... Onde você está me levando?” Belle perguntou, enquanto pegava o casaco e a bolsa que Jefferson estendia para ela, e saiu com Gold até o Citröen preto que estava parado em frente da casa.
“Para um lugar seguro. Você não pode ficar aqui.” Ele falou, enquanto Jefferson dirigia para longe daquele lugar.
“Mas... Mas e James e Mary Margaret?” Belle perguntou. “Eles estão correndo mais perigo do que eu! Temos que ir buscá-los...”.
“Não se preocupe, senhorita French.” Jefferson a interrompeu. “Eles já estão no lugar que estamos te levando, esperando por você”.
Dezenas de perguntas e receios desfilavam pela mente de Belle, mas ela não teve coragem de perguntá-las. Pela primeira vez ela estava com medo do desconhecido. Finalmente o carro parou na Rue de Cherce Midi, e os três subiram para o apartamento, que era muito menor do que a casa de Gold. E ficava no quinto andar – sem elevador. Porém, Gold transformara o estúdio num apartamento encantador com dois quartos, e decorara todas as paredes. Tinha chuveiro e bidê. A cozinha consistia num canto isolado por um vidro, com fogãozinho de duas bocas e uma geladeira. Havia um par de poltronas fundas e confortáveis, uma mesa para quatro pessoas e, a um canto, um grande divã rodeado de estantes de livros.
Quando eles entraram, Belle foi recebida com um abraço de uma chorosa Mary Margaret. Laura, a governanta, estava sentada a um canto, e olhava desconfiada para tudo ao seu redor, e James estava de pé ao fundo da sala, conversando com um homem de pele clara, cabelos escuros e olhos verdes. Belle o reconheceu como sendo o homem que se disfarçara de Gold, na noite em que ela entrara na casa.
“Belle, graças a Deus!” Mary Margaret a abraçou fortemente. “Minha querida amiga, eu pensei que você... Que você...”.
“Eu estou bem Mary” Belle a tranquilizou. “Vocês estão bem?”
“Sim! Graças ao seu amigo Jefferson. Ele alertou James esta manhã e viemos para cá o mais rápido possível”.
“Nossa casa está sob suspeita... Embora Gaston não esteja em Paris, a Gestapo pode estar lá a qualquer momento” James falou, indo se postar ao lado da esposa.
Um sentimento de vergonha se apoderou de Belle naquele momento. “Oh James! É tudo minha culpa. Se eu não tivesse me encontrado com Ruby nada disso teria acontecido.”
“Não Belle, não é sua culpa. Todos sabíamos que nosso disfarce não iria durar por muito tempo.” Ele respondeu.
“O que iremos fazer agora?” Mary Margaret perguntou.
“Todos nós temos os documentos necessários. Iremos para a estação de Montparnasse e pegaremos o primeiro trem pela manhã”. Laura falou pela primeira vez, demonstrando ter mais lucidez do que sempre aparentou ter.
“E depois, para onde irão?” Gold perguntou, apoiando-se na sua bengala.
Laura lançou um olhar tão duro para James que ele não se manifestou. “Para onde vocês irão?” Gold tornou a perguntar.
Para os outros o tom de voz dele parecia soar inquisidor, mas Belle reconheceu que aquilo era desespero.
“James, por favor.” Belle falou. “Eles nos trouxeram até aqui e estão nos oferecendo ajuda e proteção... E confio em Adrian com a minha própria vida. Por favor...” Belle suspirou, olhando suplicante. “Para onde nós iremos?”
James suspirou, olhando para Gold. “Viajaremos para o château da família de Mary Margaret em Rodez”.
“Muito bem... Senhor Booth, esteja aqui amanhã às 4 horas da manhã para leva-los à estação.” Gold falou para o homem que estivera conversando com James. Em seguida entregou uma chave para James. “Eu voltarei mais tarde... Irei trancar a porta deste apartamento por fora, mas fique com esta cópia da chave caso precisem sair às pressas. Tentem não fazer muito barulho.” Falando isso, Gold pediu para Belle o acompanhar até a porta, enquanto August e Jefferson desciam as escadas.
“Não se preocupe, minha querida” Ele a abraçou, sussurrando em seu ouvido. “Eu voltarei mais tarde e tudo vai ficar bem”.
Belle não ousou pronunciar alguma palavra, pois não confiava que sua voz não soasse sem transparecer a dor que estava sentindo. Concordou em silêncio e Adrian beijou seu rosto, descendo as escadas, deixando Belle sozinha na porta de entrada.
James explicou como iriam deixar Paris, usando identidades falsas para chegarem até Rodez.
Belle percebeu que Mary Margaret não conseguia parar de lançar olhares à ela, e por fim, quando ambos estavam finalmente sozinhas em um dos quartos, ela perguntou: “Belle, o que está acontecendo entre você e o Gold?”
Belle permaneceu em silêncio, ajeitando as suas coisas dentro de uma das malas que Laura trouxe junto consigo. Ela não iria explicar tudo o que Adrian havia lhe contado para aquela mulher. “Eu amo ele. Isso é tudo o que você precisa saber.”
Mary Margaret mordeu os lábios, segurando o impulso de fazer outra pergunta à jovem.
“Espero que você saiba o que está fazendo.” Ela falou por fim, e antes que Belle pudesse dar uma resposta, saíra do quarto.
Era incrível como as pessoas achavam que Belle não era capaz de tomar as próprias decisões sozinha. Belle amava Gold. Nada iria mudar aquilo.
Mais tarde, naquela última noite, Gold voltara, como havia dito. Laura dormia no divã na sala e James e Mary Margaret ocupavam um dos quartos próximo à cozinha. Belle e Gold estavam em outro quarto, em que o papel que adornava as paredes estava decorado com desenhos de rosas; parecendo um jardim. Belle estava envolta nos braços daquele homem, porém nenhum deles estava dormindo. Aquela era a última noite que estavam juntos.
Belle não conseguia acreditar na ironia do destino; após terem passados por tantas dificuldades, quando finalmente estavam juntos, eles seriam separados.
“Eu não gosto desse plano” Belle murmurou. O problema que enfrentariam não era sair de Paris, mas sim conseguir chegar ao destino final vivos.
“Eu também não gosto, querida. Eu também não” Ele respondeu com os lábios pressionados em sua testa. “Mas se isso for mantê-la a salvo... Então você deve ir”.
“Oh Adrian... Não é justo...” Sua voz falhou ao dizer aquilo, traindo suas emoções. Belle fora tola em acreditar que eles pudessem ficar juntos, mas tal como acontecera com a sua mãe e seu pai, ela estava perdendo-o. Ao pensar nisso, lágrimas surgiram em seus olhos e ela virou o rosto, tentando evitar o olhar de Gold, encarando para o outro lado do quarto e envolvendo os braços em torno de si mesma.
Gold percebeu a agonia que Belle sentia, pois ele também estava se sentindo daquela forma. Segurando o queixo dela, Gold fez com que Belle o olhasse. Os olhos dele brilhavam estranhamente, e por alguma razão ele estava apreensivo. “Eu prometo que iremos ficar juntos.” E após outro momento de hesitação, ele falou: “Case-se comigo, Isabelle!”.
“O quê?” Ela sussurrou; seu lábio inferior tremendo ligeiramente.
Gold se mexeu para o lado, pegando algo de dentro da gaveta do bidê ao lado da cama. Segurando firmemente em sua mão, Adrian mostrou para ela uma pequena caixinha de veludo preto, repetindo novamente: “Case-se comigo, Belle” e a abriu.
E naquele instante de sua vida, Belle deparou-se com a perfeição. Reconheceu que estava olhando para a aliança mais linda que já vira. Era enorme, pura, uma safira azul-celeste, cuja beleza fora rodeada por um cintilante círculo de diamantes.
Quando viu a caixa, Belle prendeu a respiração de pura perplexidade, depois ficou maravilhada; em seguida respirou profundamente. E finalmente, quando terminou de olhar para a aliança, jogou os braços ao redor do pescoço de Gold quase gritando.
“Sim. Sim, sim! Eu o amo mais que tudo” Ela sorriu, sentindo as lágrimas escorrendo pelo seu rosto, enquanto Gold retirava a aliança da caixinha e colocava-a em torno do dedo da mão direita dela. “A mais linda aliança do mundo. E é minha para sempre, como o tolo do meu noivo escocês, que sempre amarei. Vou guardar esta aliança por toda a vida; então, um dia, daqui a muito, muito tempo, ela será de nossa filha.”.
Naquela última noite, quando fizeram amor, ambos sabiam que cada toque, cada beijo, era uma promessa de que eles iriam voltar a se encontrar e ficariam juntos para sempre.
Quando Belle acordou, percebeu que a cama já estava vazia ao seu lado. Arrumou a roupa e pegando sua pequena mala, foi até a cozinha, onde todos já estavam devidamente prontos e a postos.
Na estação, James e Laura compraram os bilhetes do trem, e o embarque já estava sendo efetuado; James iria acompanhar Mary Margaret, enquanto que Laura seria a sua companheira de viajem.
Disfarçando, Belle olhou tristemente para Gold; queria poder beijá-lo e abraçá-lo, mas em cada canto da estação, havia um grupo de soldados alemães com fuzis presos às mãos, e observando cada pessoa que passava pela plataforma de embarque, e não podia arriscar atrair a atenção daqueles homens a eles. Por fim, restou apenas segurar-lhe a mão.
“Senhorita French...” Laura a apressou, quando os últimos passageiros estavam embarcando, e dava-se o sinal de que o trem partiria logo.
“Nós nos encontraremos de novo, minha amada Belle. Eu prometo.” Gold falou quase num sussurro para que apenas ela pudesse ouvi-lo, e relutante em ter que soltá-lo, Belle se afastou do homem que tanto amava, entrando no vagão.
Ao invés do luxo da primeira classe, os quatro embarcaram num vagão de terceira classe, apropriado ao status inferior. O vagão, com pessoas apinhadas, estava sujo e cheirava a suor. Após alguns minutos, o trem partiu.
Não passou de um vislumbre, mas pelas janelas encardidas do trem, Gold a viu e ela o viu também. Não se atreveu a fazer qualquer sinal especial. Então, à medida que o trem ia se afastando lentamente, receou que ele levava consigo uma parte de si para sempre, que nunca mais tornariam a trilhar os caminhos do amor, e percebeu que Belle acenava em sinal de adeus, não apenas para ele, mas para Paris.
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