Notas iniciais
Once Upon a Time não me pertence

Chovia intensamente e as rajadas de vento bruscas faziam com que a água que precipitava das nuvens batessem com força contra as vidraças. O barulho fez com que Belle acordasse; ainda estava escuro e a chuva parecia não dar indícios de que iria logo cessar. Olhando as horas em seu relógio, Belle viu que ainda era 4 horas da manhã. James e Mary Margaret deveriam estar dormindo ainda, assim como Laura; não iria levantar e fazer qualquer barulho que os acordassem.

Como era estranho o quarto em que estava. Não se parecia nada com o seu quarto na casa de James. Este aqui era muito mais espaçoso e tinha um aroma agradável de ervas e couro...

Mas, era porque este não era o seu quarto. O que havia acontecido? Belle estava tentando se lembrar...

Recordava-se de ter fugido da casa de Gold com os arquivos que há tanto tempo estava procurando, mas ela não os entrara à Regina. Por que ela não os entregou a Regina?

Alguma coisa estava errada...

Havia algo errado com as informações contidas naqueles documentos. Neles havia descrito dois ataques alemães que ocorreram em Scapa Flow; o segundo deles havia causado a morte de várias pessoas. Durante o ataque, o filho de Gold estava no local em que os bombardeiros ocorreram. Belle não poderia matá-lo, e então havia decidido voltar à casa dele para devolver os documentos. Porém, algo havia acontecido...

Oh, ela se lembrava. Belle se lembrava de tudo e ainda assim, não conseguia acreditar. Será que não havia sido apenas um sonho? Ou talvez ela realmente estivesse morta. Mas, em nenhum momento em suas lembranças Gold havia a matado...

O que estava em sua memória não tinha nada relacionado à morte, mas sim à vida. Belle virou-se lentamente na cama para o seu lado esquerdo e se deparou com a prova de que não havia sido um sonho: Adrian Gold estava deitado ao seu lado, dormindo profundamente.

Belle permaneceu em silêncio, apenas observando-o dormir; ela nunca pensou em vê-lo tão relaxado, tão sereno.

Como aquilo foi acontecer? Ele estivera prestes a matá-la, mas ainda assim ele não o fez. Ambos haviam compartilhado algo maravilhoso e impossível. Tão impossível que ela ainda não conseguia acreditar.

Mas, o que Gold iria fazer com ela quando acordasse? Provavelmente perceberia o grande erro que havia cometido e a rejeitaria.

Belle deslizou as pontas dos dedos suavemente sobre o peito nu dele, desenhando linhas invisíveis por toda a extensão de sua pele.

O que ela havia feito? Como pode deixar-se envolver com aquele homem? Como pode deixar as coisas chegaram a tais proporções? Sem dúvida, com o que ocorrera entre eles, Belle acabara sentenciando a própria morte, e Regina jamais a deixaria em paz.

“Você não devia fazer isso” Gold falou. Belle tirou rapidamente a mão do peito dele, assustada ao perceber que ele estava acordado, mas ao contrário do que ela esperava Gold não a olhava com ódio ou repreensão.

“Me desculpe... Eu não quis acordá-lo.” Belle falou. Ela não sabia qual seria a reação dele e se surpreendeu quando seu lábios tocaram suavemente a sua testa.

“Bom dia” Ele murmurou, sorrindo.

“Bom dia” Belle retribuiu o sorriso, e riu suavemente quando ele a puxou para perto de si, e procurou seus lábios com um beijo intenso. Ambos permaneceram assim até que foram obrigados a se separar para que pudessem respirar. “Eu acho que isso significada que estou perdoada?” Belle perguntou, colocando uma das mechas do cabelo dele atrás da orelha.

“Talvez...” Ele respondeu, beijando a ponta do nariz dela.

Os dois ficaram em silêncio então, apenas olhando um para o outro. Belle pode sentir que toda a tensão que estava sentindo antes dele acordar dissipara por completo de seu corpo. Ali, deitada nos braços de Adrian, Belle sabia que jamais teria que teme-lo. Os seus olhos estavam quentes e suaves; um marrom tão escuro e intenso que chegava a penetrar todo o seu ser e alma.

Belle estava a salvo com ele.

“Por quê?” Ela perguntou, quebrando o silêncio. Era uma pergunta tola a se fazer e que abrangia dezenas de respostas, mas Belle sabia que ele a entendeu; Por que ele não a matara?

“Por quê? Bem, você é um verdadeiro enigma. O dia em que eu te conheci, eu soube que você era diferente” Gold suspirou. “Você estava encantadora, de tirar o fôlego...”

“Mas você sequer olhou para mim” Belle franziu as sobrancelhas, lembrando-se de como Gold estivera alheio a todos ao seu redor naquela primeira noite.

Gold exibiu um sorriso triste “Para mim você era apenas outra francesa qualquer... Só fui realmente nota-la quando fomos informados de que havia uma nova agente britânica em campo. Você encaixava perfeitamente nas descrições de Rosa; no começo não havia motivo algum para me preocupar, pois pensei que você fosse trabalhar para a Resistência, provavelmente como operado de rádio. Eu precisava ter certeza, e acabei por descobrir que os britânicos haviam enviado alguém para me espionar. Seria um desperdício ter que matá-la, mas antes de tudo eu precisava de provas. Eu precisava ficar de olho em você” Enquanto falava, Gold começara a enrolar as pontas do cabelo de Belle em seus dedos. “Por apenas um momento eu pensei que estava errado, principalmente após o nosso encontro no Café de Flore... Eu fiquei desapontado em ver o quanto você parecia concordar com os ideais de Hitler. Por um instante, eu pensei que você era apenas uma simples mulher... Até que eu a vi, aquela noite, ajudando uma mulher que havia sido maltratada por um alemão da Gestapo.”

“Eu não aguentei ver aquela mulher ser tratada daquela forma... E eu também não esperava vê-lo lá.” Belle falou, desviando o olhar dele.

“Foi realmente estúpido da sua parte em se arriscar daquela forma, mas também foi muito nobre... Eu acho que foi naquele momento que eu soube que você era Rosa, e me assustava saber que eu deveria matá-la...”

“Mas você não me matou... Por quê?”

“Eu percebi que eu não era o único homem que havia sido cativado por você” Belle se encolheu; sabia perfeitamente a quem Gold estava se referindo. “Coronel Alfred Von Gaston sempre fora visto como um homem que sempre conseguira tudo o que desejasse, principalmente quando se tratava a mulheres.” Gold sorriu com ironia. “E, mais uma vez você surpreendeu a todos quando o rejeitou. Infelizmente, isto acabou criando nele uma determinação de que enquanto ele não te possuísse jamais te deixaria em paz... Eu não podia deixar aquele homem encostar um dedo sequer em você, e ainda assim...” Adrian fechou os olhos, sentindo uma onda de culpa e ódio voltar ao seu corpo, ao se lembrar como a mulher que agora estava ali com ele, havia sido despedaçada. Como uma rosa.

Gold estava tão machucado quanto ela. O fato de ter prometido a ela que jamais deixaria Gaston a machuca-la e saber que havia falhado o deixou aos pedaços.

Durante todo este tempo, Belle quis arranjar desculpas para culpa-lo, mas a verdade era que não havia ninguém culpado nesta história. Talvez, a única culpada era ela: a guerra. Tudo o que acontecera e que viria acontecer eram consequências desta guerra que parecia que jamais iria acabar.

“Eu me senti tão segura àquela noite em que dançamos juntos. Era errado confiar em você. Era contra todos os princípios que aprendi. Você era o inimigo, mas... Eu decidi acreditar em você... E eu ainda acredito.” Belle prendeu o rosto dele entre as suas mãos, esperando que ele abrisse os olhos, mas Gold relutou em fazê-lo, com vergonha de si próprio e com medo de encontrar a sua própria culpa refletida nos olhos dela... “Adrian, olhe para mim”

Gold respirou profundamente ao ouvi-la pronunciar o seu nome e finalmente cedeu, olhando-a. “Não foi sua culpa...”.

“É claro que foi. Eu prometi que iria te proteger. Mantê-la segura” Ele retrucou com raiva de si próprio.

“Não Adrian, não foi! Você jamais poderia imaginar que ele iria se encontrar comigo. Graças a Deus você conseguiu salva James...”

“Mas eu não consegui salvar você!” Ele bufou; a verdade era que ele érea um homem mesquinho e ele preferia ter salvado Belle do que James.

“Não foi sua culpa!” Belle repetiu, começando a ficar aborrecida. A questão não era saber que era culpado ou não, pois independentemente disto, nada faria com o que havia sido feito fosse desfeito.

Gold não respondeu, e era visível em suas feições que ele não concordava com ela.

“Eu pensei que ele estava no Café de La Paix naquela noite. Foi estupidez ir até lá. Eu precisava alertá-los sobre os alemães, mas já era tarde demais. Mas então, em meio àquele caos, eu vi Bougton e ele estava prestes a ser morto. Eu não pensei duas vezes em atirar no alemão... E tudo finalmente fazia sentido”. Gold falou.

“Ele não deveria ter ido lá. Era minha obrigação. Eu é que devia estar lá...”

“O quê?” Gold a interrompeu, sentando na cama para encará-la.

“Eu é que deveria ter ido lá, mas James me impediu...” Belle falou.

“Você é louca? Você ir até lá e avisar os franceses?” Pela primeira vez Belle viu Gold ter raiva dela. “Você poderia ter morrido indo até lá! Eu terei de me lembrar de agradecer Bougton por ter te parado” Gold a repreendeu, ficando em silêncio novamente durante alguns instantes.

“Foi... Foi nesta noite que você descobriu tudo sobre mim.” Belle afirmou.

“Oh não, querida. Eu já sabia quem você era muito antes daquele dia.” Ele falou, traçando a ponta do dedo na testa de Belle, que estava franzida numa expressão de dúvida. “Aquela noite na Ópera, você estava tocando Chopin.”.


Belle se surpreendeu com aquela afirmação. “Como? Você me descobriu por causa daquela música?” Aquilo era impossível. Qualquer pessoa poderia ter tocado aquela mesma música que jamais se chegaria a conclusão de que ela era uma espiã.

Sua música” Gold a corrigiu. “Se você realmente fosse uma simpatizante da causa nazista, jamais tocaria àquela música. E mais uma vez você foi extremamente corajosa em se aventurar daquela forma. Os alemães odeiam Chopin. Para eles as únicas músicas que merecem ser ouvidas são as obras de Wagner.” Gold suspirou. “Aquela fora a última peça do quebra-cabeça. Eu finalmente sabia quem você era e precisava matá-la naquele instante.”

“Mas, ao invés de me matar você... Você me beijou.” Belle murmurou. Agora era ela quem precisava encaixar as últimas pelas do quebra-cabeça.

“Porque eu sou orgulhoso demais e covarde demais. Você é como uma luz para mim no meio da completa escuridão. Você é o meu guia. Eu fui egoísta demais... Sou egoísta demais... Não poderia te perder. Depois de tantos anos vivendo apenas com esta guerra, você era a única coisa que fazia sentido em minha vida. Eu jamais quis alguém como eu quis você... Como eu ainda quero”.

Belle sorriu e o beijou, atenta ao prazer que lhe subia em vagas, enquanto seus corpos nus se roçavam por debaixo dos lençóis. “Faça amor comigo” Ela sussurrou próximo ao ouvido dele, e se sentiu triunfante com o tremor que percorreu o corpo de ambos. Assim, sufocados de beijos, ele não precisava mover um músculo, enquanto Belle, aproximando-se do clímax, passava a se mexer cada vez mais rápido, enquanto Gold permanecia de dentes cerrados pelo esforço de esperar dela seu último estremecimento de satisfação.

Depois, por alguns minutos, ficaram deitados de costas. Gold passou o braço por cima dela, beijando-lhe os cabelos. A chuva cessara, mas ainda estava escuro do lado de fora, e alguns raios tímidos de sol tentavam penetrar pelas nuvens espessas.

Como fora possível terem se apaixonado daquela forma? De todas as maneiras que Belle imaginara que encontraria o amor, jamais pensou que isto aconteceria em plena guerra.

Naquele momento, outra dúvida lhe surgiu à mente. “Eu vi... Eu vi as suas cartas, Adrian” Belle comentou sorrateiramente, e percebeu o corpo do homem enrijecer. Gold fechou os olhos, sabendo o que ela iria lhe perguntar. “O que aconteceu com ele? O que aconteceu com Baelfire?”

Gold ficou em silêncio durante muito tempo, e Belle pensou que ele não iria contar nada à ela, quando ele respirou fundo e começou a falar.

“Durante vários anos, eu fui casado com uma mulher chamada Milah. Nós nunca nos amamos realmente, mas do nosso relacionamento, a melhor coisa que nos aconteceu foi Bae. Quando o meu filho tinha quatorze anos, eu me divorciei da minha mulher. Ela assim pode ficar junto com o marinheiro imbecil que ela amava e que trabalhava em Scapa Flow. Infelizmente, ela levou o meu Bae com ela e eu fiquei morando sozinho em Glasgow durante três anos. Eu podia ir visita-lo, mas então, eu fui requisitado para me apresentar em Londres, em 1940. Nesta época começaram a ser criadas as primeiras entidades secretas pelo governo britânico. Foi então, naquele mesmo ano, quando meu Bae estava completando dezessete anos, que ocorreram os ataques em Scapa Flow. Milah e seu marido morreram no ataque...”

Gold ficou em silêncio, lembrando-se com pesar dos acontecimentos. Ele nunca amou Milah, mas mesmo assim ela fora a mãe de seu filho e ele a respeitava.

“E o seu filho?” Belle questionou.

“Pensei que ele também estivesse morto. Mas Bae sempre foi muito esperto. Após o primeiro ataque, efetuado pelo submarino alemão, ele fugiu.”

“Ele fugiu?” Belle se admirou, sorrindo com aquilo. “Então ele está vivo?”

“Eu acho que sim. Mas... Mas eu não tenho certeza de onde ele está.” Gold falou, sentando-se novamente para explicar. “O Sr. Hatter vem me ajudando há dois anos a tentar encontra-lo, e acho que finalmente estamos perto. Nós descobrimos que ele também está trabalhando junto com a Resistência, mas não temos certeza aonde”.

“Então, ele pode estar aqui na França?”

Gold assentiu. “Porém, você mesma sabe como funciona a Resistência. As pessoas envolvidas usam identidades falsas, pintam os cabelos, deixam a barba crescer... Tornam-se completos desconhecidos. E acima de tudo, são proibidos de fazer qualquer tipo de contato com algum parente ou amigo.”

Belle refletiu sobre aquilo. “Foi por isso que você foi ao Café de La Paix, tentar alertar a Resistência. Porque o seu filho poderia estar lá?” Gold concordou. Mas havia uma última peça do quebra-cabeça que não se encaixava. “Mas, por que Regina quer te matar?”

Afinal, não havia motivo algum para que Regina perseguisse um homem à procura de seu filho.

“Belle, você não pode se esquecer de que eu sou um monstro.” Gold falou, suspirando. “Para conseguir obter informações sobre o meu filho, eu tive que me infiltrar na cova do leão. Obtendo a confiança dos alemães, eu poderia ter acesso a todos os relatos sobre ataques da Resistência à eles, ou então saber quando ele efetuariam ataques e represálias. Mas, para isso, eu precisei trair o meu país. Passei algumas informações à eles em troca de prestígio.” Ele falou, demonstrando nojo de si mesmo ao contar aquilo. “Eu não me orgulho disso e também não culpo Regina. Ela está apenas fazendo o seu trabalho. Mas eu preciso encontrar o meu filho.” Gold terminou de falar, cobrindo o rosto com as mãos, com vergonha do que havia feito.

Belle ficou em silêncio sem saber como reagir. Então Regina não havia mentido, mas agora, diante dos fatos, Belle não se sentiu aliviada em saber de tudo e como ela queria que tudo fosse realmente uma mentira.

“Agora você sabe quem eu sou e sabe que por detrás desta máscara” Adrian apontou para o próprio rosto, enquanto lágrimas escorriam de seus olhos. “Por detrás desta máscara existe um monstro, um covarde. E eu não mereço nada. Nada além do seu ódio”.

Belle jamais pensou que veria aquele homem em tal estado de sofrimento e rancor. Como poderia encará-lo depois de ter ouvido tudo aquilo? Depois de saber que ele traíra o seu país? Mas, Belle não tinha medo. Sentou-se na cama, defronte a ele, não se importando em esconder o seu busto com os lençóis, se segurou novamente o rosto dele em suas mãos, e com uma determinação assombrosa, falou: “Você não é um monstro e muito menos um covarde. Você é apenas um homem à procura de seu filho. Não digo que você estivesse certo em trair o seu país, mas novamente, você é apenas um homem. E você disse que não se orgulha de suas ações.”.

“Mas isso não faz de mim um homem perdoado por seu país.”

“Não. Não faz. Mas para mim... Para mim você está perdoado. E eu sei que você vai encontrar o seu filho” Belle falou, sentindo-se incrivelmente mais leve.

Gold não hesitou em abraçá-la, escondendo seu rosto nos cabelos dela, e finalmente, chorar. “Eu amo você” Belle o ouviu dizer com a voz abafada e soluçante.

“E eu amo você também” Ela sussurrou, abraçando-o mais forte, deixando que aquele homem, tão temido, chorasse em seus braços.

Pela primeira vez, ambos se sentiam em paz. Porém, a paz não é um período de tempo, mas uma forma de vida. Mal sabiam eles que esta forma de vida logo seria arruinada.

Notas finais
Finalmente. Desculpem a demora para postar este capítulo, mas este tipo de coisa acontece quando se tem um capítulo em que tem que unir as pontas de cada fio para que a história tenha um contexto plausível. Acontece também quando livros maravilhosos ficam disponíveis para a leitura e a autora acaba se esquecendo de escrever o capítulo. Espero que gostem, e por favor comentem!