The Sound Of War
18 New Hope
Notas iniciais
Rodez, França, 1944.
“Alguém está chegando!” James gritou. “Onde está Belle?”
“No portão, dormindo” Mary Margaret respondeu, imediatamente colocando-se em estado de alerta.
“Vá até lá e avise-a de que não deve gritar”.
Imóvel, James espiava pelo olho mágico da porta da cave.
“Espere... É August!” ele comentou, virando-se para Mary com um suspiro de alívio, e abriu a porta para recebê-lo. Mary observou August enquanto ele encostava sua bicicleta contra a parede externa e entrava no lugar. Depois de um mês sem ver ninguém além de James e Belle – Johanna havia deixado o château no início do mesmo para ir morar junto com o filho em outra casa da região -, Mary estava extraordinariamente feliz ao se deparar com seu rosto sorridente.
Os dois homens se abraçaram, e James conduziu August pela passagem até sua casa.
“Sente-se, meu caro, e compartilhe as notícias. Faz tempo que não recebemos nenhuma. Mary, pode preparar um pouco de café?”
Mary assentiu, relutante, querendo ouvir cada fragmento de informação que August tinha a oferecer. Sua função atual, de servir como governanta e consoladora para Isabelle, uma Belle que, durante o último mês, se recusava a sair da cama no porão para respirar ar puro no jardim murado do château, não comia direito e não reagia aos pedidos de Mary Margaret para que não entregasse os pontos, estava ficando cada vez mais difícil.
Colocando três xícaras apressadamente numa bandeja e despejando o café nelas, Mary as levou para a sala de estar.
“Obrigado, Mary Margaret. E feliz Ano Novo para você!” August disse, enquanto retirava uma das xícaras da bandeja e bebia o conteúdo com gosto.
“Rezemos para que 1944 seja o ano da libertação do nosso país” James acrescentou, convicto.
“Sim” disse August, assentindo enquanto retirava uma pequena caixa retangular da bolsa. “Isso é para a mademoiselle Isabelle, mas tenho certeza de que ela não se importará se você abri-lo, madame. Há boas notícias aqui.”.
Mary pegou a caixa e a abriu. Olhou para a solitária rosa vermelha que jazia dentro do embrulho e sorriu.
“Uma rosa vermelha” comentou, olhando para James com os olhos brilhantes. “A rosa vermelha que Belle mencionara para mim. Isso significa que ele está a salvo?”.
“Sim, madame. Gold está em segurança” August confirmou. “E, ele está muito perto de encontrar o filho, embora esteja em uma situação um pouco delicada e perigosa. Tenho certeza de que mademoiselle Isabelle vai ficar mais animada ao saber que ele está vivo e bem. Porém, não acredito que ele consiga voltar nem se quisesse. Ele está afastado daqui justamente para protegê-la.”.
“Sabe alguma coisa sobre Laura?”.
“Não há qualquer notícia sobre ela, eu lamento” August disse, balançando a cabeça com tristeza. “Como várias outras pessoas, ela simplesmente desapareceu. E como está Belle?”.
James e Mary Margaret se entreolharam.
“Ela não está mal” James disse, enfastiado. “Está triste por causa de Gold e sente falta da liberdade. Mas o que podemos fazer até que a guerra termine?”.
“Diga-lhe que não deve perder a esperança. Tudo vai acabar rapidamente e todos nós sairemos dessa escuridão. A data da invasão dos Aliados está chegando e nós estamos fazendo o que podemos para ajudá-los.” August disse, sorrindo para Mary. A fé e a esperança nos olhos do homem a ajudavam a restabelecer suas próprias forças. “Bem, preciso ir agora.”.
James e Mary Margaret observaram enquanto August pedalava sua bicicleta para longe, sentindo-se gratos pela mudança na vida solitária que vinham tendo. Belle podia se sentir uma prisioneira no porão do château, mas, na superfície, seus carcereiros se sentiam igualmente pressionados pela responsabilidade de protegê-la.
“Como ela está hoje?” James perguntou enquanto Mary levava as xícaras de café para a cozinha.
“Como sempre. É como se houvesse desistido de viver.”.
“Talvez as notícias de que Gold esteja a salvo e com saúde ajudarão a animá-la.” James disse, dando de ombros.
“Vou descer e contar a ela.” Mary disse.
James assentiu em silêncio quando Mary Margaret voltou à cozinha. Ela pegou uma jarra lacrada com leite na despensa, colocou-a na bolsa de lona que usava para levar suprimentos até o porão e colocou-a sobre os ombros.
“Tente estimulá-la a sair um pouco do porão para tomar ar fresco” James acrescentou.
“Vou tentar”.
Mary se enfiou no enorme barril de carvalho, removeu o fundo falso, acendeu o lampião a óleo e iniciou a jornada pelo túnel. A jornada por aquele labirinto era parte de sua rotina diária. Quando alcançou a porta, ela a abriu e percebeu, pela luz fraca e cinzenta da pequena janela, que Belle ainda estava dormindo. Já era quase hora do almoço.
“Belle, acorde” Mary disse, agitando-a suavemente. “Tenho boas notícias”.
Belle rolou sobre a cama e se espreguiçou. Sob a camisola branca, já era possível perceber que sua barriga estava maior – durante os primeiros dias que estavam ali, Belle ficara bastante cansada. No começo, Mary pensou que tivesse sido por causa da viagem que fizeram, porém logo a jovem adotara um comportamento estranho. A quase todo momento, se queixava que sentia o corpo doer e os músculos reclamaram por causa da fadiga, e mesmo que dormisse durante horas, quando acordava ela sentia-se ainda mais exausta; Mary Margaret começou a perceber que aqueles sintomas não estavam sendo causados por causa de sua estada ali, e quando no fim do mês Isabelle começou a sentir enjoos constantes por causa da comida que lhe era servida ou simplesmente por causa de algum cheiro, ela não tinha mais dúvidas: Belle estava grávida.
“O que houve?”
“Um mensageiro acabou de trazer ótimas notícias. Gold está a salvo!”
Ouvindo aquilo, Belle se sentou sobre o colchão.
“Ele está vindo até aqui? Ele virá para me tirar deste lugar?”
“Talvez ele não demore” Mary Margaret mentiu. “Mas não é ótimo saber que ele está bem? Ele mandou isto para você” Mary entregou a caixa retangular para Belle, e ao abri-la, arfou, visivelmente emocionada com a pequena rosa. “Lembra? Você me contou quando encontrou uma rosa igual a esta no quarto dele.”.
“Sim” Belle disse, erguendo os joelhos até a altura do peito e colocando os braços ao redor deles. “Eram dias maravilhosos.”
“E eles voltarão, Belle. Eu prometo.”.
“E logo ele virá até aqui para me tirar deste inferno” ela disse, com o rosto virado para um ponto em meio à escuridão. “Meu Adrian...” Belle disse subitamente, agarrando a mão de Mary Margaret com força. “Você não imagina a saudade que eu sinto dele.”.
“Imagino sim. Também já tive que ficar separada de uma pessoa que amo muito. Uma pessoa que amo tanto quanto você ama Adrian.”
“Sim, do seu marido.” Repentinamente, toda a energia de Belle a abandonou e ela voltou a se deitar na cama. “Mas eu não consigo acreditar que esta guerra acabe algum dia. E acho que vou morrer aqui neste lugar miserável.”.
Essas eram as palavras que Mary ouvia, dia após dia, nas últimas semanas. Por sua própria experiência, sabia que não havia muito que dizer ou fazer para tirar Belle daquele torpor.
“A primavera está chegando, Belle, é a chegada de uma nova era. Você precisa acreditar nisso.”.
“Eu quero acreditar. Eu realmente quero, mas sozinha aqui embaixo, à noite, acho muito difícil conseguir acreditar em algo bom.”.
“Eu entendo que deve ser muito difícil para você, mas não pode perder a esperança.”.
As duas mulheres ficaram sentadas em silêncio na penumbra. Mary Margaret ponderava por que Belle ainda não havia mencionado o fato de que estava grávida. Com certeza já deveria saber, com as mudanças pelas quais seu corpo passava. Várias vezes sentira vontade de conversar com ela a respeito. Pelas suas contas, aquela mulher daria à luz um bebê em menos de seis meses. E, naquele momento, Mary tinha certeza de que aquilo era a única coisa que poderia tirar Belle do desalento em que se encontrava. Teria que tocar no assunto.
“Belle, você sabe que, dentro de pouco tempo, dará à luz um bebê?”
As palavras ecoaram pelo ar úmido e fétido por tanto tempo que Mary imaginou se Belle havia voltado a dormir.
Finalmente, Belle falou:
“Sim.”.
“E é o bebê de Gold?”
“... Sim.”. Belle respondeu, e por um breve momento Mary Margaret pode ver que havia certo carinho quando Belle afirmou aquilo. Mas, Mary sabia quais seriam as consequências daquilo; por mais que Belle soubesse que Gold estava arrependido de seus atos, sua palavra não o salvaria de uma condenação, muito menos um bebê.
“E você sabe que mulheres grávidas precisam fazer de tudo para que seus filhos estejam bem nutridos? Não apenas com comida, mas com ar fresco e boa disposição?”.
O silêncio continuou por mais algum tempo.
“Há quanto tempo você sabe?”.
“Desde os primeiros dias que chegamos aqui” Mary respondeu.
“Sabia que você iria perceber” Belle disse, suspirando e movendo-se para encontrar uma posição mais confortável na cama. “Me perdoe, Mary Margaret. Eu sei o quanto você se importa comigo e o esforço que faz para cuidar de mim, e sou muito grata por isso. Em relação ao bebê, eu estava envergonhada demais para lhe contar. Entendo o que isso significa, entendo o que eu fiz” Belle disse, juntando as mãos, em desespero. “Talvez seja melhor que eu morra. O que o meu pai pensaria sobre isso? Meu Deus, o que ele vai dizer?”.
“Ele vai entender que você é humana e que fez o que fez por amor” Mary mentiu. “E agora, o fruto desse amor é uma nova vida que chegará ao mundo. Belle, você não pode desistir de tudo. Você deve lutar, como nunca lutou antes, pelo bem dessa criança.”.
“Mas meu pai nunca vai me perdoar, nunca. E você, Mary Margaret, como eu poderia lhe dizer que por eu ter me deitado com Adrian traria desgraça para sua família? Por minha culpa vocês foram obrigados a abandonar suas vidas para me protegerem. Você deve me odiar!” Belle disse, balançando a cabeça, desesperada. “E aqui está você, cuidando de mim, simplesmente porque é uma mulher gentil e não tem outra alternativa. Mas Mary, você não entende o que é ser um fardo para todos à sua volta. Desde a infância, quando perdi minha mãe, eu nunca fui deixada sozinha. Sendo tratada como uma criança frágil e debilitada, sem ter o colo de uma mãe para chorar. E meu pai jamais deixou de me ver como uma garotinha indefesa. Eu queria poder fugir, mas não podia fazer isso com ele. Se eu fugisse estaria arruinando-o. Mas, de certa forma foi o que fiz, quando decidi vir para a guerra.” Belle choramingou, passando os dedos pelos cabelos. “Me perdoe pelo meu comodismo.”.
“Entendo” Mary disse, pousando a mão sobre o ombro de Belle. “Deve ser realmente horrível para você”.
“Minha vida sempre foi assim, até que conheci um homem que me enxerga diferente, que não me trará como a minha família o faz, como se fosse uma criança incapaz. Não, Adrian me trata como mulher. Ele escuta o que eu tenho a dizer sem paternalismo, ama quem eu sou por dentro. Mas, por azar, ele faz parte da minha missão, eu tinha que matá-lo. E, por causa disso, eu não posso, não devo amá-lo, pois estarei traindo a minha família, o meu país e causando-lhes outros problemas. Agora ele desapareceu e eu trago seu filho dentro de mim. É mais um fardo sobre os ombros das pessoas que estão à minha volta. Mary Margaret, você ainda se pergunta por que eu fico aqui deitada, esperando e desejando morrer? Eu sei o quanto a vida de todos seria mais fácil sem mim!”.
Mary Margaret ficou chocada com a força da explosão de Belle. Aquelas palavras fizeram com que ela percebesse, pela primeira vez, que Belle realmente compreendia o mundo em que vivia e tinha um profundo sentimento de culpa por ter feito ela e James virem para o château.
“Se não fosse por minha causa, Laura não seria presa por estar naquele trem” Belle continuou. “Provavelmente, ela está morta agora, ou foi enviada para um daqueles campos horríveis, onde acabará morrendo dentro em breve.”.
Mary procurava pelas palavras certas.
“Belle, sua presença na vida da nossa família é tão valiosa que não pensamos nos cuidados que te prestamos. Assim como para o seu pai. São pessoas que amam você”.
“E como eu retribuo esse amor? Trazendo a desgraça à minha família.” Belle balançava a cabeça, lágrimas corriam pelo seu rosto. “Não importa o que você diga, meu pai nunca me perdoará por isso. Como eu poderei contar a ele?”.
“Vamos pensar nisso mais tarde, Belle” Mary concluiu. “Por ora, o mais importante é cuidar da sua saúde e da saúde da criança também. Você deve fazer o que puder para ajudar seu bebê a vir ao mundo. Belle, você quer essa criança?”
Houve um longo silêncio antes que Belle lhe respondesse.
“Às vezes acho que seria melhor se nós dois simplesmente nos deitássemos aqui embaixo e morrêssemos. Mas, em seguida, penso que todas as pessoas que amei se foram e que a vida dentro de mim é tudo o que tenho. E é uma parte dele, uma parte de Adrian... Oh, Mary Margaret, estou tão confusa! Não me odeia pelo que fiz?”.
“Não, Belle” Mary suspirou. “Eu não a odeio, de maneira alguma. Você precisa perceber que não é a única mulher que se encontrou nesta situação, e não será a última. Concordo que as circunstâncias são muito complicadas, mas lembre-se de que essa vida pequena e inocente, que cresce dentro de você, não têm qualquer noção sobre o que aconteceu. E, qualquer que seja o legado que essa criança receba, ou qualquer que seja seu futuro, você precisa dar a seu filho uma chance de viver, não é? Já houve muitas mortes, muita destruição. Uma nova vida é uma nova esperança, sejam quais forem as circunstâncias da concepção. Um bebê é um presente de Deus, Belle.” Quando terminou, Mary imaginou se sua criação católica latente fora responsável por trazer aquelas palavras emocionadas à sua boca. Percebeu que acreditava em cada uma delas. “Acho que, por enquanto, tudo o que pode fazer é valorizar aquilo que está crescendo dentro de você” acrescentou em voz baixa.
“Sim, tem razão” Belle disse. “Você é muito inteligente e gentil, Mary Margaret, e não há palavras para agradecê-la pelo que está fazendo por mim. Algum dia, espero poder encontrar uma maneira de retribuir.”.
“Bem, talvez você possa fazer isso se não ficar enfurnada neste lugar, desejando apenas morrer” Mary sugeriu. “Por favor, Belle. Deixe eu ajudar você e seu bebê também”.
Belle suspirou.
“Sim, é verdade. Estou sendo egoísta em relação a mim mesma, quanto tantas outras pessoas estão sofrendo muito mais. Vou tentar ter esperança de agora em diante. E, talvez, quando Adrian chegar, poderemos traçar algum plano.”.
Mary Margaret olhou fixamente para Belle, sem acreditar que ela ainda pensava que isso seria possível.
“Você realmente acredita que ele virá?”.
“Eu sei que ele virá” Belle respondeu, com toda a certeza que o amor lhe dava. “Ele disse que viria me encontrar e o meu coração sabe que ele não vai me decepcionar.”.
“Então, Belle, você também não deve decepcioná-lo.”.
Nos dias seguintes, Belle reagiu. Começou a se alimentar adequadamente e subia as escadas para ir até o château ou para respirar ar fresco no jardim murado, onde caminhava com Mary Margaret para se exercitar. Certa manhã, ela inspirou o ar.
“A primavera está chegando. Posso sentir seu cheiro. A vida vai ficar bem mais agradável.”.
Março chegou e, com ele, as flores e folhagens voltaram a cobrir o jardim murado. O château não recebeu nenhuma visita e James se recusava a deixar que Mary Margaret fosse até a vila em sua bicicleta para comprar mantimentos, insistia em cuidar de todas as compras. Viviam num alerta constante em relação à possibilidade de uma visita dos soldados da Gestapo que agiam nas proximidades, mas toda a atenção que receberam nas últimas semanas foi de um recruta alemão que chegou para exigir cem garrafas de vinho e dois barris de álcool para a fábrica de torpedos.
“Nossa vida solitária é uma vida segura” James disse certa noite. “Não se pode confiar em ninguém e, enquanto Belle estiver sob minha proteção, não podemos ficar complacentes. Assim, devemos suportar a solidão e a monotonia, e aproveitar a companhia um do outro até que tudo esteja terminado.” James disse, levantando uma sobrancelha e sorrindo para a mulher.
Mary Margaret sentia que existia uma escuridão perpétua tanto nos aposentos subterrâneos de Belle quanto nos quartos do château, com suas janelas permanentemente fechadas. Ocasionalmente, ela levava Belle ao térreo da casa e sentava-se com ela na magnífica biblioteca que os pais de Mary haviam criado. Belle pegava um livro da estante e o lia para Mary Margaret sob a luz do lampião.
Quando a primavera chegou, o corpo de Belle cresceu. Com a gravidez avançando, seu rosto estava rosado após passar todas as tardes sentada sob os ramos protetores da nogueira, que ficava dentro do jardim murado. Sempre que Belle estava ali para respirar ar puro, James vigiava a área ao redor para o caso de haver visitantes indesejados. Mary observara que seu marido adotara uma postura protetora com Belle, como se fosse seu irmão.
Certa noite, quando Mary foi colocar Belle para dormir no porão, James pegou uma ânfora de vinho e serviu uma taça para si mesmo e outra para a esposa.
“Sabe quando o bebê vai nascer?” ele perguntou.
“Pelos meus cálculos, em junho.”
“E o que vamos fazer quando isso acontecer? Será que um bebê pode passar as primeiras semanas de sua vida num porão frio e escuro? Além disso, o que faremos se o bebê chorar e alguém escutar? E como Belle conseguirá cuidar do bebê?”.
“Em circunstâncias normais, ela teria uma babá para ajudá-la. Mas as circunstâncias em que nos encontramos não são normais” Mary disse.
“Realmente não são.”.
“Bem, parece que eu serei a babá. Sei que posso ajudar Belle, embora não tenha a menor ideia sobre como cuidar de um bebê.”.
“Eu estava imaginando, querida, se o melhor a fazer não seria levar a criança diretamente a um orfanato. Assim, ninguém, exceto você, eu e Belle saberíamos de sua existência. Qual futuro esse bebê poderia ter?” James disse, balançando a cabeça, desconsolado. “Quando o Major French descobrir a verdade, eu nem me atrevo a pensar no que ele fará.”.
“Certamente, essa é uma ideia a considerar” Mary Margaret concordou, embora hesitasse. “Mas não é algo que devemos propor a Belle neste momento. Ela está passando bem.”.
“Com certeza” James assentiu. “Mesmo assim, eu conheço um orfanato administrado por um convento em Draguignan, que cuida de casos como esse.”.
“Talvez.”.
Mary Margaret não achava que seria apropriado mencionar a ligação que Belle estabelecera recentemente com a criança que trazia dentro de si ou a maneira que a via como uma parte de Gold e um símbolo do amor deles. Era uma atitude que a própria Mary havia estimulado para tentar tirar Belle do torpor. James era um homem. Ele não conseguiria entender.
“Veremos” foi tudo o que ela conseguiu dizer.
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Paris
Percorrendo ruas, um Citroën negro parou na entrada de uma ponte do Sena. Um soldado, que estava na ponte, bateu no vidro do carro com o cano de uma Luger. O motorista abaixou o vidro da janela e falou com o soldado em alemão, mostrando um maço de papéis. O soldado olhou para o banco traseiro, demorando-se em uma mulher de cabelos negros e pele clara, que trajava um elegante vestido de noite, confeccionado em cetim vermelho.
“Guten Abend” disse a mulher com o que pareceu um perfeito sotaque alemão.
“Guten Abend” murmurou o soldado, examinando os papéis e, depois, gesticulando para que atravessassem a ponte.
Subindo uma ampla escadaria de pedra de um salão municipal de banquetes, cuja fachada clássica exibia uma série de colunas, e onde homens em trajes noturnos passavam de braços dados com lindas mulheres. Soldados alemães guardavam a porta. A mulher de cabelos negros passou pelos soldados sem problemas, chegando ao interior aquecido, barulhento e luxuoso do salão de banquetes.
Levou alguns momentos para ela se acostumar ao ruído e à luz estranha, mas, quando o fez, percebeu que a sala de jantar era longa e estreita, com um teto alto. As paredes tinham espelhos que refletiam a multidão, capturando a nuca de uma mulher aqui, o brilho de uma corrente de relógio ali... Galhardetes vermelhos estampados com suásticas negras estavam pendurados nas paredes, a intervalos regulares. As mesas ostentavam toalhas de linho branco, conjuntos de porcelana e, no centro, buquês de flores – rosas. Candelabros de cristal lançavam uma luz oscilante sobre o piso de ladrilhos escuros, que se refletia nos sapatos de cetim. Champanhe, joias e gente bonita reunida à luz de velas. Mãos que se erguiam brindando com taças de vinho – Zum Wohl! Zum Wohl!
No momento que entrara no grande salão, um homem alto de cabelos castanhos escuros, vestido em um uniforme da Gestapo veio cumprimenta-la.
“Regina” Ele segurou a mão dela, beijando-a. “É um prazer revê-la.”.
“Digo o mesmo, Coronel Von Gaston.” Os lábios de Regina, pintado de vermelho, se abriram em um sorriso perverso. “Fico grata que tenha concordado em conversar comigo.”.
“É sempre uma honra recebe-la. Mas por favor, me acompanhe ao meu escritório” Ele falou, oferecendo o braço para que ela segurasse. “Poderemos conversar a vontade lá sem sermos interrompidos”.
O alemão conduziu Regina para uma porta que se localizava no segundo andar do prédio; era um escritório imenso, com uma escrivaninha no centro. Gaston ofereceu a cadeira em frente, e sentou em seu lugar costumeiro atrás da mesa.
“Minha cara Regina, não pensei que fosse encontra-la novamente. Como conseguiu entrar na França?” Gaston perguntou, acendendo um cigarro e oferecendo outro a mulher, que aceitou.
“Ora, você sabe que eu sempre consigo aquilo que eu quero. Vir até aqui foi simples.” Regina retorquiu. Não tinha pressa em discutir o motivo que a trouxera até ali.
“Pois bem, creio que o que você tenha a me dizer seja algo relevante” O alemão falou, assumindo uma postura rígida. “Normalmente as informações que você tem nos passados são de grande valor”.
“Sim.” Regina tragava, saboreando aquele momento. “Porém creio que o que eu vim discutir aqui hoje não seja importante para o Führer. Digamos que seja mais para benefício pessoal. Seu benefício.”
Gaston não respondeu, fitando a mulher a sua frente, intrigado. “Prossiga”. Ele sempre fora ganancioso e orgulhoso, e aquilo certamente chamou a sua atenção.
“Eu presumo que você deva conhecer uma jovem chamada... Isabelle. Estou correta?”
O homem deixou de sorrir naquele momento, tomando uma postura completamente diferente; bruta e maligna. “Isabelle Chesneau?”
“Na verdade, é French.” Regina soprou fumaça do cigarro que tragava, batendo a ponta do cigarro no cinzeiro, deixando as cinzas caírem ali. “Obteve algum sucesso com sua caçada?”.
“Como você... Não importa. A porca sumiu. Assim como os Bougton. Estão desaparecidos há meses.” O alemão grunhiu.
“E eu tenho certeza de que você sabe quem os ajudou a escapar”.
“Aquele que todos conhecem como Anton Carruthers... Adrian Gold!”.
Regina sorriu ao ver o quanto o alemão odiava Gold. “Pois bem, eu tenho um... Presente para você. Digamos que eu saiba exatamente a localização de sua Isabelle... O que você faria caso a encontrasse?”.
“Você sabe onde ela está?” Gaston olhou para Regina, um tanto temeroso porém, com muito cobiça.
“Sim”.
“E por que você me diria isso?” O alemão sorriu, sabendo que a mulher tramava algo. “Tudo têm seu preço”.
“De fato. Digamos que, assim como você, eu também odeio Adrian Gold. Eu também vi tudo o que eu mais prezo ser tirado de minhas mãos.”
“O que seria isto?”
“Poder, é claro.” Ela falou, como se nada fosse mais óbvio. “Diga-me, o que você faria caso encontrasse Gold?”
Gaston manteve o olhar preso ao dela; Havia um mês que o bastardo havia invadido um dos grandes casarões em que eles deixavam presos alguns reféns e libertado o filho; Sabia exatamente o que faria caso encontrasse aquele maldito escocês novamente. “Eu o mataria”.
Regina balançou a cabeça negativamente. “Não seja tão burro.”
“Como ousa...” Gaston levantou, não gostando da atitude daquela mulher. Ele era alemão, superior. Não admitia que falassem com ele daquela forma.
“Se acalme, meu caro colega. Você precisa pensar. De que adianta matar Gold? Com apenas um disparo você acabaria com ele, mas e depois? Você quer fazê-lo sofrer, e qual a melhor maneira de fazer isto atingindo-se o ponto mais fraco de seu adversário? Tenho certeza de que você sabe qual é o ponto mais fraco dele, não é mesmo?”.
Era claro que ele sabia. “Isabelle”.
Regina sorriu diabolicamente para o alemão. “Então?”
“O que você quer em troca é vê-lo aos pedaços...”.
“Assim como você. O que me diz?” Ela se levantou, depositando a butuca do cigarro na mesa.
“Fechado”.
Notas finais
P.S.: Eu agradeço também aqueles que estão pedindo para eu continuar a escrever a minha fic "The Last Angel" baseada no seriado Supernatural. Porém, eu só peço que direcionem seus comentários na página respectiva àquela fanfic. Respeitem o espaço desta para comentários restritos apenas a fic "The Sound of War". Caso tenham dúvidas e queiram saber mais a respeito, peço que mandem em mensagem particular. Agradeço a compreensão! Beijos
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