The Sound Of War
19 I will see you again
Notas iniciais
No início do mês de Maio, August chegou à vinícola pedalando sua bicicleta. Sentou-se com James e Mary Margaret no pequeno jardim e bebeu a nova safra de rosé direto do tonel. Exausto e mais magro do que antes, ele lhes informou como os Maquis, aquartelados nas encostas cobertas de florestas de La Garde-Freinet, estavam se preparando para a invasão da região sul.
“Os alemães estão sendo enganados. Acham que a invasão vai começar nos portos de Marselha e Toulon, mas os aliados estão planejando pousar nas praias, perto de Cavalaire e Rematuelle. E nós, a Resistência, estamos fazendo o que podemos para confundi-los e dificultar suas vidas” ele disse, sorrindo. “Estamos cortando cabos telefônicos, explodindo pontes ferroviárias e capturando seus comboios com armamentos. Há milhares de nós agora, todos lutando pela mesma causa. Os britânicos estão trazendo, secretamente, uma quantidade enorme de armas para nós e estamos bem organizados. Ouvi dizer que os americanos vão liderar o ataque na costa sul pelo mar.”.
As notícias eram realmente empolgantes, mas Mary Margaret não conseguiu resistir à tentação de perguntar. “Você tem alguma notícia sobre Gold?”.
August suspirou, franzindo as sobrancelhas. “Eu não ouvi mais nenhuma notícia dele desde o momento que ele conseguiu encontrar o filho. Tanto ele, quanto o garoto e Jefferson desapareceram.” Ele suspirou. “Sinto muito.”.
Conforme o parto de Belle se aproximava, ela lutava para subir as escadas do porão, devido à barriga enorme. Mesmo assim, tinha um ar tranquilo e gozava de ótima saúde.
Mary Margaret conseguiu encontrar alguns novelos de lã e um par de agulhas de tricô no quarto da velha governanta do château, e sentava-se com Belle no jardim murado durante as tardes para fazer casaquinhos, chapéus e sapatinhos para o bebê. Às vezes, Mary olhava para Belle com um pouco de inveja, afinal, ela tinha o sonho de formar uma família com James. Agora, estava vendo seu desejo de ser mãe realizado por outra mulher.
Nas noites quentes, ela e James frequentemente se sentavam à mesa no jardim da casa, cercados pelas videiras jovens que protegiam os brotos verdes e pequenos que não tardariam em se transformar em uvas gordas, suculentas e saborosas.
“Não vai demorar muito até chegar a época da colheita. Mas, não sei se vou conseguir contratar pessoas para ajudar com essa tarefa” James suspirou. “Todos estão pensando em coisas mais importantes do que fazer vinho. Quem diria, uma agente secreto fazendo vinho.”.
“Vou ajudá-lo” Mary Margaret ofereceu, sabendo que era um gesto inútil.
“É uma oferta gentil, querida, mas creio que talvez precisem de sua ajuda em outro lugar. Você sabe alguma coisa sobre ajudar bebês a nascerem?” James perguntou.
“Não. Jamais pensei que teria que saber isso” ela respondeu com ironia na voz. “Nos livros que eu li, todos se ocupam com toalhas e água quente. Bem, não sei exatamente como, mas acho que vou conseguir lidar com isso quando a hora chegar, e também tentarei entrar em contato com Johanna. Sei que ela pode me ajudar.”.
“Receio que algo possa dar errado e que Belle possa precisar de ajuda médica. O que faríamos neste caso? Não podemos nos arriscar a levá-la ao hospital.” James comentou, preocupado.
“Como eu disse, farei o meu melhor”.
“E isso, minha querida Mary, é só o que podemos fazer” James suspirou.
Durante certa noite, Mary Margaret estava sentada próxima a lareira, pensando em no perigo que os próximos meses iriam trazer, caso os americanos realmente fosse invadir a França.
Repentinamente, James entrou na sala de estar com o rosto consternado. “Mary Margaret, há alguém xeretando do lado de fora. Fique atenta. Vou ver quem está lá.”.
James pegou a carabina que sempre estivera presa na parede acima da lareira, mas que agora deixava atrás da porta da casa, e saiu.
Depois de apagar as luzes, Mary Margaret voltou ao andar inferior e encontrou James em pé na sala de estar, com a arma apontada para um homem baixo de cabelos negros quase grisalhos e barba espessa, com as feições marcadas pela dor. Ele estava com os braços erguidos em sinal de rendição.
“Fique longe! Ele é alemão!”
James o cutucou no peito com o cano da arma.
“Sente-se ali” ele disse, indicando a poltrona perto da lareira, onde o homem ficaria encurralado.
Quando o homem se sentou, Mary o olhou nos olhos imensos em seu rosto emagrecido, com os cabelos negros compridos enlameados e o que sobrava da sua camisa e calças envolvendo o corpo esquelético. Ela o olhava fixamente e seu coração começou a bater. Pensou que iria desmaiar com o choque.
“Mary Margaret, sou eu, Adrian” o homem disse, falando com a voz rouca. “Talvez você não esteja me reconhecendo por causa da barba”.
Mary Margaret forçou-se a voltar a olhá-lo no rosto. A expressão que ele tinha nos olhos era a única pista sobre quem ele realmente era. Ela percebeu o medo em seu olhar e, com um suspiro de alívio, o reconheceu.
“Adrian? Adrian Gold?” James perguntou, com o rosto transfigurado pela descrença.
“Sim... É ele” ela assentiu. “É Gold.” Mary respondeu, olhando nos olhos de James, percebendo nele o próprio choque que ela sentia.
James, com um aceno afirmativo de cabeça, baixou a arma. Virou-se para Gold. “O que você está fazendo aqui? Disse que não viria para cá.”.
“Vim ver Belle, como prometi que faria. Ela ainda está aqui?”.
Mary e James permaneceram em silêncio. Não confiavam em Gold como Belle confiava.
“Como podem ver” Gold disse, indicando suas roupas. “Não sou mais quem costumava ser. Na verdade, sou um homem procurado. Se me encontrarem, vão me levar de volta à Paris e serei fuzilado imediatamente.”.
James soltou uma risada cruel.
“Você realmente espera que acreditemos nessa história? Como podemos saber que isso não é um truque? Não seria a primeira vez que você estaria mentindo para conseguir algo em troca.”.
O contorno dos lábios de Gold se contorceram em uma linha reta. “Não posso provar o que estou dizendo. Tudo o que posso fazer é lhe dizer a minha verdade” ele disse e virou-se para Mary Margaret. “Depois que eu os deixei na estação, eu sai de Paris. Sabia que Gaston não descansaria até que eu fosse levado à justiça por ajuda-los a escapar. Não fora a primeira vez que ele duvidou da minha “lealdade”. Ele quer me ver morto, ainda mais agora... No início do ano, eu consegui localizar meu filho, e eu e Jefferson conseguimos resgatá-lo de um casarão em Lyon, onde alguns membros da Resistência estavam presos.”.
A dor e a exaustão nos olhos de Gold eram palpáveis. Sem seu costumeiro terno e sua bengala, ele parecia muito mais vulnerável.
“Para onde você estava viajando, Gold?” Mary Margaret interveio.
“Mary Margaret, meu único pensamento era conseguir chegar até aqui para ver Belle, como prometi. Quando saímos de Lyon, começamos a nos esconder. Viajamos até os Pireneus, onde Bae e Jefferson estão agora. Usei desde subornos até a gentileza de estranhos para permanecer vivo. Não me expus, chegando até mesmo a ordenhar cabras e alimentar galinhas, e esperei até que fosse seguro viajar pela França, para encontrar Belle. Parti há muitas semanas para chegar até aqui.”.
“Você conseguiu viajar uma distância muito longa sem que fosse capturado por algum dos exércitos”.
“Foi a ideia de rever Belle que me deu ânimo para continuar. Mas tenho certeza de que minha sorte não vai durar muito tempo. Existe uma pessoa que sabe para onde eu viria e que se importa o bastante para querer me caçar” Gold suspirou, balançando a cabeça. “Não importa. Sei que a minha morte é inevitável, seja pelas mãos dos britânicos seja pelas dos alemães. Eu só queria ver Belle uma última vez. Por favor, Mary Margaret. Pelo menos me diga se ela está bem e em segurança. Ela ainda está viva?”.
Mary Margaret percebeu que os olhos de Gold estavam cheios de lágrimas. Sentado sob o olhar de James, quase irreconhecível, ela sentiu que seu coração se deixava convencer pelas palavras do escocês. Ele escolheu arriscar a vida para ver a mulher que amava, em vez de escapar e salvar sua própria pele. Qualquer que fosse sua nacionalidade, perspectiva política, ou mesmo o que tivesse feito nos últimos anos, ali estava um ser humano que merecia alguma simpatia.
“Sim, ela está segura e está bem” Mary afirmou. James lhe lançou um olhar de advertência, mas Mary o ignorou. “Está com fome? Duvido que tenha comido nas últimas semanas.”.
“Mary Margaret, qualquer coisa que você tenha sobrando será bem-vinda, mas, por favor, me diga. Belle está aqui? Posso vê-la?” Gold implorou.
“Vou lhe trazer comida e então conversaremos. James, pode guardar a arma. Gold não vai nos fazer mal.”
“Se você acha que podemos confiar nele” James disse, guardando a arma atrás da porta com relutância. “Confiarei”. Mary Margaret percebia que seu marido tinha dúvidas se confiava ou não naquele homem, mesmo após ele ter os ajudado a fugir.
“Sei que podemos” Mary assentiu. “Bem, Gold, venha até a cozinha e conversaremos enquanto lhe prepara algo para comer.”.
Com algum esforço, Gold se levantou e Mary percebeu que cada passo que ele dava exigia esforço. Havia alcançado o fim da jornada e a exaustão, a fome e o desespero estavam tomando o lugar da adrenalina. Mary fechou a porta da cozinha firmemente e indicou que Gold deveria se sentar numa cadeira de madeira em frente à mesa.
“Mary Margaret, por favor” ele implorou novamente. “Ela está aqui?”.
“Sim, Adrian, Belle está aqui”.
“Oh, meu Deus, meu Deus” Gold disse, enfiando a cabeça nas mãos e começando a chorar. “Às vezes, enquanto estava vindo para cá, dormindo em valas e procurando restos de comida no meio do lixo, eu pensava comigo mesmo que ela poderia estar morta. Imaginei isso tantas vezes, eu...” Gold enxugou o nariz na manga da camisa e balançou a cabeça. “Me desculpe, Mary Margaret. Entendo que você e seu marido não sintam simpatia por mim, mas você não faz ideia do inferno pelo qual passei para conseguir encontrá-la.”.
“Beba isso aqui” ela disse, colocando um copo de vinho na frente do escocês e tocando-o gentilmente no ombro. “Estou pasmada por você conseguir chegar até aqui vivo.”.
“O que o ajudou foi o fato de tanto os franceses quanto os alemães saberem que alguma coisa está prestes a acontecer. A França está tomada pelo caos e a Resistência ganhou força. Os alemães estão tendo dificuldades para impedir suas ações. E o último lugar em que qualquer pessoa esperaria me encontrar seria aqui. Qualquer pessoa, exceto uma.”.
“Aí está. Coma” Mary disse, oferecendo-lhe um pedaço de pão e fatias de queijo.
“Eles já vieram até aqui para revistar o château?” Gold perguntou enquanto enfiava o pão e o queijo na boca, sem se preocupar em mastigar.
“Sim, já revistaram o lugar e não encontraram nada. James e eu estamos fazendo de tudo para que o château permaneça fechado e Belle continue escondida. No momento, ninguém suspeita de que ela está aqui.”.
“Bem, não posso ficar por muito tempo. Sei que cada segundo que passo neste lugar coloco suas vidas em risco” Gold disse, engolindo os últimos pedaços de pão e queijo com um largo gole de vinho. “Portanto, verei Belle e depois partirei. Pode me levar até onde ela está? Eu lhe suplico, Mary Margaret. Por favor!”.
“Sim. Venha comigo.”.
Mary Margaret levou Gold até a vinícola, fez com que ele entrasse no tonel de carvalho e o conduziu pelo túnel.
“Oh, minha pobre, pobre Belle” ele resmungava, com dificuldade para avançar no percurso devido à perna manca. “Como ela suporta isso? Ela chega a sentir o calor do sol tocando seu rosto?”.
“Ela não tem escolha. Sua segurança depende de que ela consiga passar por todo este sofrimento” Mary disse ao chegar até a porta. “Ela está aqui e pode estar dormindo. E, Adrian...” ela disse, virando-se para encará-lo. “Acho que você vai ter uma grande surpresa, se prepare.”.
Mary bateu na porta três vezes e a abriu lentamente. Belle estava sentada na poltrona ao lado da janela, com um livro aberto sobre a barriga.
“Mary?” ela disse, levantando o rosto.
“Sim, sou eu” respondeu, andando até onde Belle estava sentada e pousando a mão sobre seu ombro. “Não tenha medo, você tem uma visita. Acho que você ficará feliz quando souber quem veio vê-la.”.
“Belle... Belle, meu amor, sou eu, Adrian” sussurrou uma voz vinda do buraco da porta, atrás de Mary. “Estou aqui, minha querida”.
Belle estreitou os olhos, tentando distinguir a feição do homem que agora caminhava lentamente até onde ela estava. Seu corpo estava magro, esquelético, e os cabelos negros estavam crescidos e se uniam com uma barba espessa. Mas os olhos... Os olhos eram do mesmo tom de marrom chocolate que ela se lembrava, e que assumiam uma tonalidade caramelo que era destinado apenas a ela. Por um momento, Belle não conseguiu falar. “Estou sonhando? Adrian?” ela sussurrou. “É você mesmo?”.
“Oh, sim, Belle, sou eu!”.
Belle estendeu os braços para recebê-lo e o livro caiu no chão.
Mary Margaret se afastou, observando sob o batente da porta enquanto Adrian foi até Belle e a tomou nos braços. Lágrimas encheram seus olhos enquanto ela saia silenciosamente do quarto, fechando a porta.
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