The Song Perfect
2 É assim que minha vida foi pro brejo!
– Charlotte, vam’bora, se não by Text-Enhance\\\">você vai se atrasar — berrou meu pai da escada. Minha convivência com ele sempre foi boa, nada demais. Óbvio que não tínhamos aqueles diáaaalogos, meu pai não é daqueles que conversam muito, ou sei lá o que. É mais na dele, o que me faz ser exclusivamente expansiva e tagarela, bem o oposto dele. Nem pareço sua filha... Ok, deixemos isso para outra hora. E eu sou filha dele.
– Tá, tá, já tô indo — gritei de volta, pegando minha mochila e descendo as escadas.
- Já devia estar pronta — falou meu pai, apoiado na escada.
– Já tô aqui, não tô? — falei, em pé no último degrau.
– Vamos — falou, me dando as costas e saindo. Fui atrás dele e entrei no carro. Pouco by Text-Enhance\\\">tempo depois eu já estava na escola.
A multidão já se acotovelava pelos corredores do colégio. Centenas de alunos correndo, se esbarrando, conversando e até se pegando, para finalmente chegarem as suas aulas. Eu já estava bem acostumada com isso, já sabia bem como andar naquele corredor. Fui me desviando das acotoveladas, abaixando quando vinha bolinhas de papel em minha direção, deixando passar rebeldes que cismavam em correr pelo corredor, para finalmente, conseguir chegar inteira em minha sala.
– Ei! Fala aí pequena! — falou Miguel, sentando-se na carteira ao meu lado.
– Oi gay — sempre o cumprimentava assim. E não, ele não é gay. É bem homem, por sinal.
– E ai, falou com teu pai? – perguntou ele, pegando dois lápis e começando a batucar na carteira.
– Ainda não — falei, abrindo minha mochila e tirando meu caderno da mesma.
– Quando você pretende falar com ele? – parou de batucar e me encarou.
– Relaxa, eu falo hoje. Ta legal? — o olhei séria. Que pentelho! Ok, ele era a pessoa mais bichinha que eu já vi!
A aula começou e eu nem prestei muita atenção, só na de biologia mesmo, eu gosto. Acho que vou ser bióloga quando crescer... É, seria bem legal. Seria foda uma bióloga que sabe cantar e tocar violão, não é? Eu poderia cantar pros peixinhos virem até mim! Ta, viajei.
Voltei a escrever a música que estava criando. Miguel me olhou e balançou a cabeça negativamente, e olhou para o quadro, como se dissesse pra eu prestar atenção na maldita aula de matemática. Como se eu fosse aprender prestando ou não atenção! Af!
As aulas até que passaram rápido, eu nem vi quando acabou a última, estava concentrada terminando minha música. Miguel me chamou, guardei meu material e fomos embora. Ele voltava comigo o caminho pra casa, mesmo ele morando dois quarteirões à frente. Caminhávamos em silencio.
– Não se esqueça de falar com ele — pediu quando chegamos em minha casa.
– Miguel, dá pra parar? Eu já sei, ta? — falei lhe dando as costas e entrando. Ele sabia ser chato quando queria, mesmo sendo meu melhor amigo, às vezes me irritava.
Ele estava sendo chato assim por que, daqui a dois meses vai ter uma apresentação de talentos no colégio, onde os alunos poderão se apresentar, mostrar o que sabem fazer.
Chamado “The Best Song”. Nada a ver o nome, mas, ta né? Miguel estava animado para tocar comigo. Falei pra ele que eu não tocava em publico mas, não adiantava. Ele insistira tanto, que cheguei a dizer que tocava se meu pai deixasse, é claro que ele iria deixar, não tem nada demais nisso mesmo, mas, eu não queria me apresentar, eu não queria ter que tocar em publico, não gostava e não me sentia bem, só que Miguel é um porre...! Então deixei que falasse.
Disse que ia perguntar ao meu pai e depois falaria se eu ia ou não, ou seja, se meu pai deixou ou não. Quase menti pra ele dizendo que tinha falado e ele não deixou, mas como eu conheço Miguel, ele seria capaz de perguntar pessoalmente pro meu pai, só pra confirmar o que eu havia falado, então deixei quieto.
– Charlotte? — ouvi meu pai chamar.
– Que?
– Vem cá, por favor. — fui até onde ele estava, ou seja, na cozinha. Vi uma senhora sentada à mesa. Meu pai me olhou e sorriu. Os olhei confusa e surpresa, eu não conheço essa mulher. — Char, esta é sua avó — falou meu pai olhando pra velha.
– Minha avó? — perguntei e comecei a rir — Pai, o que você bebeu? E quem é você? — perguntei franzindo a testa pra senhora a minha frente. – Eu sou sua avó, criança — falou, levantando-se.
– Não, minha vó morreu. — tipo “pai, você trouxe uma desmiolada aqui em casa”
– Sou sua avó materna. — falou ela e eu a encarei surpresa. Sua voz era suave até demais para uma mulher de sei lá, 50 e poucos anos? Não aparentava ser mais velha do que isso, é até bonita, tirando a pele que começara a enrugar.
Minha expressão se definiria em: boca aberta e olhos arregalados. Eu nunca conheci minha vó materna, minha mãe nunca havia me falado dela, e ela nem aparece, ou liga, então imaginei que estivesse morta. Bom, parece que não.
– Ahn, oi.
– Filha, sente-se — falou meu pai indicando uma cadeira. Dei a volta na mesa e me sentei de frente pra minha... Vó — Sua vó está aqui por que... — ele olhou para ela, como se pedisse ajuda — Você vai precisar passar um tempo morando com ela. — desembuchou rápido demais, eu não entendi... Morar com ela?
– O que?! Perai, o que você ta me dizendo? — perguntei, me levantando e o encarando.
– Eu terei que viajar por 3 meses por causa do trabalho, então liguei pra sua vó. E ela concordou em você passar esses 3 meses com ela.
– Você só pode ta maluco! — exclamei, o olhando como se ele fosse um COMPLETO PIRADO!
– Não, não estou. — falou sério, levantando-se da cadeira. Minha vó apenas me olhava, talvez esteja pensando no que havia se metido. — É pro seu bem, você não vai ficar sozinha aqui, então vai morar com sua avó. E já está decidido, não adianta discutir — o olhei de boca aberta, espantada com a audácia de me mandar morar com uma velha que eu nem conheço e que mal sabe da minha vida.
– Eu não vou.
– Já está tudo pronto Charlotte, você vai amanhã — falou e saiu da cozinha. Eu fiquei ali, em pé, o olhando sair. Olhei pra minha vó e ela me encarou. Sai dali batendo o pé e fui pro meu quarto, a deixando sozinha. Entrei em meu quarto batendo a porta. Andei de um lado pro outro, batendo o pé e bufando, como eu o odeio! Peguei meu violão e me sentei no chão. Ele era o único que podia me acalmar. O colocando no colo, pensei em alguma música. Me lembrei de “Apologize” e comecei a tocar, e a cantar.
– I'm holding on your rope, Got me 10 feet off the ground, I'm hearin' what you say but i just can't make a sound (...) – fechei os olhos para poder sentir a música, a melodia voar a minha volta.
Terminando de tocar, olhei para fora da janela, onde o sol batia iluminando meu quarto. Como contar pro Miguel que eu ia viajar? E eu nem sei pra onde! Meleca!
Amanhã vai ser um longo dia, contar pro Miguel, viajar... Conhecer novas pessoas... Minha vida foi pro brejo!
Quando vi, estava acordando no meio do quarto. Peguei no sono ali mesmo. Acordei e desci. Meu pai preparava o jantar e quando me viu não falou nada, só colocou minha comida no prato.
Comecei a comer e mal o olhava, estava puta com ele e não queria papo, e não acho que ele daria. Terminei de comer e já ia saindo da cozinha quando ele me chamou:
– Charlotte? — voltei e o fitei — Arrume suas coisas — bufei e voltei ao meu quarto batendo com a porta.
Peguei todas as minhas roupas e as joguei na mala, tudo que era meu: fotos, perfumes, tudo! Joguei na mala, a fechei e a coloquei no canto do quarto. Olhar pr'aquilo me fez sentir raiva de tudo e de todos, do meu pai, da minha avó que aparecera logo agora, de ter que me despedir de Miguel, do Show de Talentos... na real, eu agora quero muito me apresentar... Mas é claro, não vai dar! Peguei meu violão e o coloquei junto à mala, me joguei na cama e dormi de novo.
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