The Score
29 Capitulo 29- Explicações e bebedeira
Notas iniciais
Pra ser sincera, a minha vontade foi de mandar todo mundo ir tomar no cu, descer daquele avião e ir embora...embora pra qualquer lugar do mundo. Mas se eu fizesse isso, eu estaria desistindo, estaria abrindo mão de saber quem eu sou e porque eu tava ali.
Eu me recusei a pronunciar qualquer palavra no trajeto de volta para a mansão, guardando esse tempo que eu tinha pra formular todas as perguntas que eu faria para Taylor.
– Será que eu posso me juntar a vocês? – ele perguntou, humilde, enquanto atravessávamos o jardim da casa.
Era fim de tarde e o sol se preparava para se pôr, deixando o clima gélido ainda mais intenso.
– Não, quero conversar a sós com ele! – Eu disse, sem titubear, e ele não falou mais nada.
Eu caminhava ereta e convicta, e assim que pus os pés na casa, eu me dirigi imediatamente até a cozinha, encontrando os dois:
–Taylor!
– Olá criança, como...
– Podemos conversar?
Ele mudou o semblante, parecia já ter uma breve noção do que viria a seguir.
– Claro!
Eu me virei, mas pude sentir que ele me seguir, então me dirigi a um lugar onde ninguém escutaria nossa conversa, o jardim.
Ainda havia lindas flores, mas não eram como na primavera, mas ainda sim, não deixava de ser um jardim muito bonito.
– Sem rodeios...Quero que me conte tudo, absolutamente tudo!
Ele me olhou fixamente e com o rosto duro, travado, como se quem tivesse medo de expor aquilo tudo;
– Como teve coragem de me privar dessa história, Taylor? Porque não me contou a verdade?
–Eu jamais faria isso. Simplesmente porque gosto muito de você, criança. Imagino que saber a verdade deve ser um grande fardo, não desejaria isso nem ao meu pior inimigo.
– Eu te imploro, Taylor...Me conte tudo!
Ele olhou em volta, ainda relutante, mas consentiu.
– Ok. –Ele respirou fundo. –Não é uma história tão longa assim...Quando você nasceu, sua mãe ficou completamente apaixonada por você, mas os Greys são tradicionalmente filhos únicos, jamais houve um bebê feminino na historia da família. Bom, sim já houveram alguns, mas foram executados com poucos meses de vida...
– Então, ao invés de me matar eles me esconderam?
– Seu pai também te amou muito, você era a menina dos olhos dele. Mas o fardo da tradição quase o enlouqueceu, e ele foi obrigado a escolher, entre matar você ou se separar de você...
– E pra me manter viva...
–Ele te mandou para longe, onde você jamais fosse encontrada por ninguém daqui, mas ele sempre soube de tudo sobre você...- Ele suspirou.- Eu lembro bem de quando seus pais souberam que você iria para a escola pela primeira vez....- ele riu sozinho...- Sua mãe ficou radiante aquela semana.
Sinceramente, eu me recusava a crer naquela baboseira toda:
–Isso não tem lógica, Taylor...É como se eu tivesse perdido minha identidade, como se eu não soubesse mais quem eu sou!
Ele me olhou piedosamente:
– Eu imagino como você deve estar se sentindo...É um mundo de cobras, Annie, sinto pena de cada criança que nasce nessa casa, é como se já tivessem um destino marcando ou premeditado.
–Taylor...-Pausei.- Sinto muito por Christian.
Eu podia imaginar o sofrimento dele. Ter que ‘dar’ um filho para o mundo da máfia não deveria ser fácil.
Ele pigarreou, mas continuou a falar:
–Ele tinha 6 anos na época, era um menino forte, estudioso e inteligente. Era o xodó do patrão, mas quando a nuvem de desastres pairou sobre a família, ele veio me fazer uma proposta injusta: Pediu que o deixasse criar Christian, lhe dando um sobrenome. – Ele começou a se exaltar, não gostando muito daquele assunto:- Como se meu filho já não tivesse um sobrenome. Nós estávamos explodindo de felicidade naquele momento, já tínhamos Christian, e Mia acabara de nascer...Uma menina linda e saudável.
– O que aconteceu com ela?
– Bom, obviamente, eu e Gail recusamos a proposta de Carrick, mas ele estava sendo pressionado por terceiros e chegou a um ponto em que não tivemos escolha. –Ele me olhou fixamente.- Ele ordenou que entregássemos Christian para ele, ou então, Mia seria excutada!
Eu bufei, isso era completamente ridículo:
– Executada???
– Sim. Ele estava desesperado na época, não sabia o que fazer, eu cheguei a pensar que ele enlouqueceria...Ele falou que a semelhança entre você e Mia poderia complica-lo no futuro. Então, ele ordenou que escolhêssemos entre entregar Christian, ou salvar a vida de Mia.
Nossa! Eu estava completamente perplexa. Que tipo de homem é esse? E que mundo cão era esse que me fez filha de um crápula como ele?
Minha mente estava confusa...
Eu comecei a me culpar por tudo, como se o fato de Christian ter virado um monstro fosse minha culpa, como se o fato de que Mia fora embora também fosse culpa minha, e era!
– Entretanto, uma parte de mim é grata por poder acompanhar o crescimento do meu filho de perto, por mais que eu não concorde com a maioria das coisas que envolve essa merda de tradição. – Ele suspirou, orgulho. – Christian é um homem de ouro, é forte e corajoso, tenho certeza de que ele tivesse a oportunidade, ele jamais escolheria ser um Grey...afinal de contas, quem nesse mundo gostaria fazer parte dessa família?
O baque tinha sido tão grande, que eu começava a ter a sensação de que tudo ao meu redor começa a girar. Eu não teria mais coragem de encarar Gail, não depois do que eu fiz pra ela.
A dor de abrir mão de dois filhos deve ter sido insuportável, e a minha presença deveria ser muito incômoda pra ela, já que eu era o motivo de tantas mudanças em sua vida.
E os flashes de memórias foram instantâneos: Gail sempre chorava quando me via nas roupas de Mia e Taylor chegou a comentar que eu era muito parecida com ela, talvez, ver meu rosto os dias naquela casa, trouxesse mais lembranças pra eles.
– A minha vida deu um giro de 360 graus depois disso. Eu e Gail nos separamos, porque brigávamos muito: Ela queria deixar a mansão, mas eu insisti em ficar, porque queria acompanhar de perto o crescimento de Christian, mesmo ele tendo se tornado meu patrão.
– Vocês se separaram?
– Infelizmente sim, mas isso não diminui meu amor por ela. Gail é o amor da minha vida, nunca encontrei uma mulher tão guerreira quanto ela. Mas somos grandes amigos hoje em dia, e fico feliz por isso.
– Mas é o suficiente pra você? – eu perguntei, olhando-o.
– Não, jamais será. Mas nossa família jamais será a mesma de novo. Christian agora exerce o dever de um Grey legítimo, e Mia está longe...Não existe mais uma família.
Eu abaixei a cabeça:
– Sinto muito por isso, Taylor. Sinto muito por ser o motivo da ruína da sua família. Imagino que você deteste minha presença, não é?
Ele riu.
– Odiar você? Quem odiaria você? – ele me encarou.- Eu confesso que fiquei muito perturbado quando Christian a trouxe, a seis anos atrás, mas ao conhece-la melhor, pude perceber que temos muito em comum...Nós dois odiamos a família Grey!
Eu não quis mais fazer perguntas, me recusei a escutar mais sobre aquela historia. O ar gelado da noite já se fazia valer, e tudo o que eu mais queria era ficar longe daquela casa por um tempo, e assim o fiz.
Assim que Taylor voltou para o interior da casa, eu peguei meu carro e fui parti para um lugar onde talvez, eu não fosse muito bem aceita.
– Onde você está? – Eu liguei pra ele, enquanto dirigia.
– O que você quer?
– Estou indo pra sua casa.
– Não vai me encontrar lá. – Ele estava grogue, com certeza estava bebendo.
– Você está bebendo?
– Vai me controlar agora, mamãe?
– Deixa de graça, José, onde você ta?
– Eu to na merda!
Ele desligou.
Eu não esperava por uma conversa mais amigável do que essa, ele devia estar puto demais comigo para me tratar bem. José nunca precisou fingir nada pra mim, se estava com raiva, ele demonstrava, doa a quem doesse.
Eu estacionei em frente a casa dele, mas nem precisei descer do carro para saber que de fato ele não estava em casa, porque todas as luzes estavam apagadas, então eu comecei a pensar, e em poucos segundos eu tive uma ideia de onde encontra-lo: No bar mais próximo dali.
Eu não conhecia muito bem as redondezas, mas bar é como igreja, tem em cada esquina e a algumas quadras dali, eu reconheci o carro dele estacionado frente a um barzinho.
Eu também estacionei o meu e desci do carro.
Eu entrei no bar, olhando em volta e parecia mais com um daqueles cenários faroeste: Tudo sujo e velho. Tinha apenas um ou dois homens bebendo no balcão e como já era de se esperar ele realmente estava lá, sentado em uma mesa, sozinho.
Eu fui até a mesa e me sentei na cadeira de frente pra ele:
–Anastácia? – ele me olhou assustado.
Com os olhos completamente vermelhos, não porque estava chorando mas porque estava completamente bêbado.
– Você ta bêbado???
– Vai embora! – O cheiro dele era horrível, e ele mal conseguia falar uma frase.
–José, o que aconteceu com você? Porque ta tão bêbado assim?
– Vai embora daqui!
– Eu não vou embora, eu vou ficar.
– Eu já falei: VAI EMBORA.
– Eu já falei que não vou embora! Porque fez isso, José? O que aconteceu com você? O que você tem? Fala pra mim...
Ele me encarou, meio zonzo.
– Eu tenho tudo, menos você!
Eu tentei não levar em consideração o que ele falava e tratei de afastar o copo de cachaça que estava diante dele:
– Vamos embora!
– Ei! Me devolve, eu ainda não terminei!
– Chega, José!
– Ei, garçom! Me traz mais uma rodada.
Ele levantou as mãos, completamente desengonçado.
José, chega! Eu já falei, vou te levar pra casa agora!
Ele me encarou, e se exaltou:
– E porque você ta aqui? Ele te deu um chute? – Ele ria. – Porque se foi isso, pode voltar pra lá, porque eu já to cheio de ser desprezado, to cheio de ser seu reserva, Annie. To cheio de ser capacho, de ser aquele amigo babaca, eu cansei. Vá embora, vai, vai. – Ele empurrava minhas mãos, que estavam em cima da mesa. – Volta pro seu mundo!
Eu não me continha, e continuava a insistir.
– Quer parar, José?
– Não, eu não quero. O que eu quero é que você levante e saia daqui, ou melhor saia da minha vida, esqueça que eu existo. Eu jamais imaginaria que você realmente me trocasse por ele, é....decepcionante. E sabe o que mais me dói nisso tudo, senhora. Grey?
– O que?
– É que eu ainda...- Ele pegou a garrafa de cachaça e deu uma golada. -....Continuo apaixonado por você.
Ele ficou de cabeça baixa, não chorava mas soluçava muito, e o cheiro de cachaça era impregnante.
– Vamos embora!
– Se quer ir pode ir, eu vou ficar.
– Você esta sendo infantil, José. Quer se fazer de difícil e me dar um gelo...
– E o que você espera, senhora Boa Demais em Tudo? Que eu passe 24 horas do meu dia implorando pra você ficar comigo? Você já escolheu, Annie. Você quer ficar com o cara mais errado do mundo, eu já entendi isso. Agora você me dá o fora e depois vem aqui como se nada tivesse acontecido, é demais pra mim. Eu to começando a achar que você gosta de ter 2 a sua disposição, não é? – Ele riu. – Mas não é, porque eu tenho sentimentos.
– Eu não to fazendo nada disso, caramba. Eu to preocupada com você, não vou deixa-lo aqui sozinho, com....
– Você me ama?
Eu engoli seco.
– O quê? Ma-mas do que você ta falando?
– Você me ama, ou não?
Eu tentei pensar rapidamente, e sinceramente a resposta era confusa. Eu não sabia se amava o Christian, e ainda mais agora que minha vida estava de cabeça baixo, e já o José...Bom, eu o amava sim, ele era o meu melhor amigo, e como ele mesmo havia dito antes, nós temos uma atração muito forte, mas será que isso era amor?
– E-eu não sei, José. Você é meu melhor amigo e eu...
– Corta essa de melhor amigo, Annie. Eu to perguntando se você me ama, como homem, como um cara que você aceitaria ficar, não como um amigo que te manda um peru em todo dia de ação de graças.
–José....Sim, eu te amo, não duvido disso...Mas eu também amo meu marido... É muito confuso, eu não sei se isso é possível, mas acho que amo você dois, de jeitos diferentes....
–Não, isso não é possível. Sou eu, ou é ele?
–Você ta me pressionando, e....Bom...Eu acho que te amo mais do que a ele.
Ele rolou com os olhos, desenhando daquilo:
– Então eu sou sua primeira opção? É isso que ta querendo me dizer?
– Bom...sim...eu acho que sim!
Ele deu mais uma longa golada da cachaça:
– Então, pode ficar com ele! Porque você me amasse de verdade, não teria uma segunda opção!
Ele levantou bruscamente, e saiu andando, cambaleando.
Como já era de se esperar, eu fui atrás dele. Ele estava embriagado não tinha a mínima condição de dirigir, por mais que a casa dele ficasse a 3 minutos dali.
Com muita relutância, ele me deixou leva-lo no meu carro, mas também, assim que sentou do banco, ele apagou.
E tornou-se realidade mais uma vez, a cena que eu já era acostumada a ver: Eu carregar o José completamente bêbado pra casa. Eu o larguei no sofá e caminhei para a cozinha tranquilamente para preparar a famosa sopa ‘ante-ressaca’, era tiro e queda.
Eu levei o prato até o sofá em que ele estava cuidadosamente. Ele estava apagado, parecia estar num sono pesado, e as roupas, nossa...Fediam a bar de quinta categoria. Eu tratei de mexer a sopa com a colher, para esfria-la um pouco antes de acorda-lo, mas ele por conta própria começou a se movimentar:
– Hey, Acorda!
Ele grunhia alto, como se tivesse rejeitando a mim e a sopa.
– Como é que é? Levanta logo!
Eu já começava a perder a paciência!
– Anda, José. Levanta de uma vez!
Ele ainda ficou um tempo, mas logo se levantou, arrastando-se no sofá. Ele ficou sentado, de frente pra mim, com a cara toda amassada, sem forças até pra abrir os olhos:
– Anda logo, abre a boca!
E ele o fez, gradativamente:
– Seu carro está lá, amanhã de manhã você busca!
Ele fez que sim com a cabeça, e continuou comendo lentamente. Era quase entediante. Mas antes de terminar o prato, ele perguntou, ainda sem abrir os olhos:
–Annie?
– O quê?
– Porquê ta aqui?
– Acreditaria em mim se dissesse que senti sua falta?
– Hum...Não.
Ele abriu os olhos pra mim. E foi como se eu tivesse visto aqueles olhos pela primeira vez, era um azul absoluto, forte e hipnotizante. Ele ainda estava bêbado e provavelmente não se lembraria de muitas coisas no dia seguinte, mas com certeza estava bem melhor:
– Pois é a verdade. Esse é lado ruim de ter somente um amigo.
– Para de me chamar de amigo!
– E do que você quer que eu te chame? – eu perguntei, lhe dando mais sopa.
– De ‘meu amor’.
Eu ri, e ele não se importou.
– Você tem que ir dormir, tem que trabalhar amanhã.
– Não quero mais trabalhar.
– Ah é bonitão, e vai fazer o quê da vida?
– Vou virar pescador.
Eu gargalhei.
– Nossa, é um futuro promissor.
–Talvez eu pesque uma sereia loira de olhos azuis qualquer dia desses.
– Putz, essa cantada foi horrível.
– É, não foi a minha melhor.
– Com certeza, não. E você precisa de um banho. Seu cheiro ta horrível.
–Eu gosto do seu cheiro. – ele afirmou.
– Na maioria das vezes, eu também gosto do seu.
– Eu gosto quando você vêm aqui, sabia. As vezes eu fico sozinho...É ruim!
Eu não falei mais nada, ele já começava a viajar de novo, a falar coisas que não tinham nada a ver. Eu o ajudei a levantar e o encaminhei até o banheiro, o larguei lá tomando banho, e peguei uma roupa leve pra ele: Uma cueca, um short e uma camisa.
Eu fiquei no quarto, arrumando a cama pra ele deitar, e me surpreendi, sabendo que já devia esperar por isso...Ele apareceu somente de cueca:
– Cadê sua roupa?
– Tinha roupa demais lá.
Ele se jogou na cama, de bruços.
– Você vai tomar banho?
– Vou.
– Quando terminar, quero que durma aqui comigo, entendeu?
E antes que eu pudesse responder, eu já sabia que ele tinha apagado novamente.
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