The Score

14 Capitulo 14 - De volta ao lar.


Notas iniciais
Espero que gostem do capítulo, o próximo será o reencontro de Ana e Grey. Beijos e comentem!

Os raios de sol me atingiam violentamente, como se eu tivesse horas exposta ao mesmo. Eu podia sentir minha pele corar e minha boca ressecar gradativamente, enquanto na minha cabeça, eu já tinha a plena certeza de quem era a responsável por abrir as cortinas do quarto:

–Fecha! – disse, ainda grogue, pondo a mão em frente ao rosto.
– Bom dia, bela adormecida! Já passou da hora de levantar.
– Me deixa dormir mais um pouco, Kate.

– Negativo. Eu quero passar muito tempo com a minha melhor amiga, antes dela pegar a estrada.
Eu abri os olhos, escutando o tom de felicidade que soava das palavras dela, parecendo realmente sincero, o que me fez pensar se o dia anterior teria mesmo acontecido:

– Você não está brava?
– Porque estaria?
– Você sabe...O José bebeu e ...

– Ambas sabemos que o José é um idiota egoísta. E não, não estou brava!

Eu sentei na cama, a observando parada de braços cruzados perto da janela.

– Me desculpe por ontem. Sei o quanto era importante pra você.
– Eu perdoo você, — ela abriu um largo sorriso – se me confirmar se isso aqui é pra mim.

Ela começou a pular com um papel branco na mão e eu não entendi nada. Mas ela subitamente deu um pulo na cama se jogando em cima de mim, e me apertando:

– Não acredito que comprou uma passagem para o Havaí, Annie.
– Ah, sim! É o seu presente de formatura. O que achou?
– É MEU MESMO? EU NÃO ACREDITO!

– Claro que sim, amiga. Você merece.

– Porque isso que é ótimo ter esposa de magnata como amiga. – ela riu e eu logo fechei a cara, mas disfarcei.
Só falar nessa historia de casamento eu pirava.
– Que bom que você gostou!

– Como hoje é seu ultimo dia, vamos sair e curtir sua despedida de Princeton, e a minha admissão a Seventeen.

Eu a olhei fixamente para ela, e era visível sua felicidade, quase não se continha de tanta alegria.
– Como assim, Kate? Você vai trabalhar na Seventeen?

– Isso não é louco? O editor da revista estava na minha festa de formatura, acredita nisso? Parece que a sobrinha dele também estava se formando, e papo vai papo vem, a gente meio que ficou e ....

– PERAÍ. Você ficou com o cara? Como assim, Kate?

– Não pira, deixa eu explicar. Eu não sabia que ele trabalhava na revista quando a gente trocou uns amassos e tal, mas ele comentou depois e me ofereceu um emprego.

–E você teve coragem de aceitar? – eu a olhava incrédula.

Ela levantou da cama, já sentindo minha reprovação.

– O que você queria que eu fizesse, Annie? Recusasse?
– Eu acho que...é.. eu não sei...

– Mas Annie, eu acabei de me formar, estou desempregada. Em que mundo alguém da Seventeen, a revista mais famosa para adolescente do país, ia me dar um emprego? Nunca!
– Você dormiu com ele?
– Não! Claro que não, Annie!
– Toma cuidado, Kate. Isso pode ser perigoso.
– Poxa, você não pode ficar feliz por mim, pelo menos só uma vez na vida? Você vai para a Califórnia, o José provavelmente vai esquecer que eu existo... eu vou acabar ficando sozinha aqui.

– Mas eu to feliz por você, amiga. Só não quero te ver em furada.

O dia passou tranquilamente, Kate era felicidade só. A tarde nós fomos até um barzinho que costumávamos ir, perto de casa mesmo, que tinha um karaokê incrível, mas ficamos só bebendo mesmo. Ela bebia algumas cervejas e eu alguns energéticos, nada com álcool, porque logo mais a noite eu enfrentaria 3 dias de viajem de carro até a Califórnia. E essa também era uma novidade, eu tinha um carro. Era uma velharia, que demorava horas para funcionar, mas quebrou muito o meu galho de alguns anos pra cá.
E correu tudo perfeitamente bem, minhas malas estavam todas no carro, com meus poucos pertences que eu acumulei nesses anos e alguns documentos. Kate não parava de falar um minuto. Dizia que logo se mudaria para Nova Iorque para trabalhar no escritório da Seventeen de lá, e que sentiria muita falta de mim, também pudera, com o gênio forte que ela tinha, era de se assustar que tinha alguém como amiga. Mas ela também dava graças a Deus que nunca mais veria o José de novo, e naquele momento eu senti pena dele. Ele era um homem por fora, mas por dentro ainda era um menino irresponsável, que não ia saber se virar sozinho em Princeton, e eu falei isso pra ela:

–Annie, pára com isso. O José não é criança, ele tem 27 anos e tem um trabalho. Ele pode muito bem se virar sozinho.
– Se virar sozinho? O José? Ele não sabe nem ferver água, Kate.
– Ele aprende. Ta na hora de você deixar ele seguir em frente, Annie. Você acabou virando a mãe dele, sabia? Ele apronta de tudo e você sempre passa a mão por cima, sempre põe panos quentes. Ele nunca parou com mulher nenhum na vida, só você pra aturar isso. Ele é um folgado.

– Por isso mesmo, ele não tem estabilidade, não vai conseguir...

–Mas ele precisa começar a crescer. Ele é um agente do FBI que tem uma babá de 24 anos, linda, gostosa e muito bem casada. Isso não tem cabimento, Annie.
– Eu só me preocupo com ele. – disse entre um gole e outro do energético.
– Preocupa? Você faz a comida dele, passa as camisas, lava as cuecas, limpa a casa dele, cura as ressacas... Você é uma empregada pra ele, Annie. Por isso ele te mantém por perto, porque você trabalha de graça.

– Não é assim, Kate. Não tem nada a ver...

–Nada a vêr? Pensa bem, Annie: Quantas mulheres passaram mais de uma semana na vida dele?

Eu tentei evitar, mas acabei pensando por um instante.
– Nenhuma. E você está a seis anos com ele. Acredite: agora que você vai para a Califórnia, ele nunca mais vai procurar por você!

Logo tratamos de desviar daquele assunto. A ideia de que eu não era importante na vida de José não era confortável, porque eu tinha quase certeza que ele tinha sim, muita consideração por mim.
O dia seguiu tranquilamente, o barzinho começava a encher e Kate a ficar cada vez mais solta. Eu a policiava para que não bebesse alem da conta.
Quando o sol se escondia e a noite começava a imperar eu comecei a me preparar para pegar estrada, e a tensão já pairavam sobre mim, e os pensamos eram inevitáveis.
Como seria minha chegada, o que ele sentiria no momento em que me visse, qual seria sua reação ao me ver... essas perguntas me assombravam a dias.
– Vou sentir tanta sua falta amiga.
– Mas você está intimada a ir me visitar na Califórnia. – eu sorri a abraçando forte.

– Promete que vai manter contato?
– Claro que sim amiga. Vou a Nova Iorque sempre que der.
– Eu vou cobrar viu?? E seu amiguinho, não vai vir te dar um abraço de despedida?

– Pelo visto, ainda está mal por causa da bebida de ontem. Mas agora eu já to indo, tarde demais...
Ela segurou meu rosto e me deu um beijo demorado no rosto, já não sabendo mais quando iria me ver novamente. Depois de 6 anos eu me despedia da minha irmã, da minha melhor amiga.
Mas antes que eu começasse a chorar e lamentar a minha partida, eu me virei e caminhei até o meu carro, adiantando de uma vez o que deveria ser feito. Mas antes que eu pudesse dar a partida, o som estridente de uma buzina chamou minha atenção, e logo eu reconheci o sujeito que estacionou e caminhou em direção ao meu carro.

– Não acredito que ia partir sem me dar um beijo.
Ele vinha correndo, parecia disposto, limpo como um José que eu não via a muito tempo. Eu saí do carro, corri até ele, e ele me agarro no colo, me dando um abraço apertado:
– Não acredito que você veio, José.

– E porque eu não viria?

– Ah, sei lá!

A felicidade era visível, agora sim estava tudo bem, ou não. Com eles ali, era mais difícil a despedida. Kate olhava José me abraçar e se mantinha ereta, com os braços cruzados.
– Até que enfim apareceu.
– Claro que eu ia vir, eu não ia deixar a Annie embora assim.
– Hum, e dispensou quantas prostitutas para vir aqui ?

– Deixa de ser imbecil, Kate, se toca! ,
Ela fechou a cara, e ele segurou meu rosto, me olhando fixamente:

– Não liga para o que ela fala, Annie. Eu jamais ia deixar você ir assim.

– To feliz que você veio. Obrigada.

Eu sorri alegremente.
– Então, vamos?

– Como assim, ‘vamos’?
– Ué, eu vou para a Califórnia. Ou você acha que eu ia deixar você sair assim da minha vida?

Eu comecei a rir encarando aqueles olhos azuis que também me olhavam na maior tranquilidade possível:

– Eu vou com você!

– Pára de graça, José. – Eu segurei o rosto dele e o beijo na bochecha, sorrindo já me despedindo.

– Você não ta acreditando em mim?

Ele saiu de perto subitamente, voltando ao seu carro, e eu parei para observa-lo tirar algumas bolsas do porta malas. Ele voltou até mim, e parei na minha frente.

– Eu não to mentindo, Annie. Eu vou com você.

Eu trocava olhares com a Kate várias vezes, que desdenhava da cena.

– Como assim "vai embora’’? E seu trabalho?

– Eu pedi transferência. Vou trabalhar no Departamento de Policia da Califórnia.

Ele ria como uma criança.

– Mas e onde você vai viver?

– Eu já acertei tudo, aluguei um lugar pra mim. E seu carro, está vendido.

– Como assim? Meu carro?

– Você não achou que íamos viajar 3 dias dentro dessa lata velha não é?

Resmungou se referindo ao meu velho companheiro e já pegando as minhas malas do carro.
Eu olhei para a Kate, e ela já sabia o que eu pensava:

– Relaxa, mesmo se ele ficasse aqui, eu jamais ia visitá-lo. Agora se manda, e cuidado!

Ela me deu um abraço forte, assim como ela. Não chorou, mas era visível a sua tristeza.
E assim, eu entrei no carro do José, deixando pra trás a minha cidade do coração, tal cidade que talvez eu nunca mais voltaria a ver!

Assim que ele deu partida, deixando Kate sozinha, de braços cruzados na porta do bar, as perguntas vieram claramente a mente:
– Pode me explicar que loucura é essa?

– Do que você está falando?

Ele sorria, feliz, como se tivesse ganhado na loteria. Fazia tempo que eu não o via assim, acho que desde o verão passado quando fomos à fazenda visitar a mãe dele. Ele estava especialmente bonito naquele dia. Vestia uma calça jeans velha, sapatos pretos, e uma jaqueta meio bege, eu gostava. O cabelo, Ah o cabelo! Sempre lindo, brilhoso e tratado. Ele só penteava para trabalhar, então sempre estava bagunçado, e ele não ligava muito, quanto mais desajeitado melhor. Os olhos azuis, eram sempre muito azuis. Na luz do dia, olhar em seus olhos, era como ver a janela de um oceano, lindo. E eu me perguntava se meus olhos também eram assim.

– Você não ta indo pra Califórnia. Isso não é possível!

– Claro que é, Annie. Eu acertei tudo a alguns meses, queria te fazer essa surpresa. Não vou deixar você ir embora assim.

– Logo agora que eu ia me ver livre de você! – eu sorri brincando.
Ele puxou meu cabelo de leve e logo esticou o braço, aumentando o volume da rádio, que tocava uma musica bem animada. Ali eu percebi que seria uma viagem longa, e com muitas surpresas.

Nas primeiras horas, nos cantamos ou melhor gritávamos no carro, cantando nossas musicas favoritas, e rimos, contamos piadas, tudo o que sempre fazíamos quando estávamos sozinhos. Ele me falou que vendeu meu carro naquela mesma manhã, por mil dólares, e aquilo foi uma coisa que realmente me tirou do sério.

–Como assim, você vendeu meu carro por essa mixaria?
– Quem daria mais do que mil naquela lata velha? Aquele treco nem funcionava direito.

– Eu, José. Eu dei 5 mil no meu carro. Era velho, sujo mas era meu.
– Porque você fez isso? Aquele carro não vale nada. Mas graças a mim, você ta livre.
– Cadê o dinheiro? Ele é meu, por direito...
– O cara vai depositar na minha conta, gatinha!

– Pára de me chamar assim, e eu vou cobrar viu! Você não tinha esse direito, José. O carro era meu!

– Relaxa, Annie. Você não ia andar com aquele dinossauro na Califórnia, ia?
Eu pensei e sabia que eu realmente não ia, mas ele não devia fazer aquilo, era crime.

– Como detetive, meu dever é me impor contra infrações a lei, sabia disso?

Eu o olhei fixamente, espiando o seu ar de deboche.
– Nossa! Que medo, será que eu devo ligar para os meus advogados?
Eu dei um soco de leve no braço dele, já rindo também e assim a viajem seguiu por mais algumas 4 horas sem parar. E a noite já imperava acima de nós, e o cansaço imperava na nossa cara. Necessitávamos de uma parada para dormir, um hotel, pousada, qualquer coisa, e assim começamos a procurar por algum lugar!

– Você é maluca!

– Você que é um burro!
– Não me chama de burro, porque você sabe que eu não gosto!

– Você é um burro!
– Não sou eu que estou com o mapa de cabeça para baixo.
E ele estava certo, o mapa estava ao contrário. E o ódio começava a brotar no meu corpo, estava noite, frio e eu estava com fome. Já passava das 10 da noite e ainda estávamos procurando algum lugar. O mapa não ajudava em nada, e nenhum de nós sabíamos nada sobre aquelas estradas. Olhávamos para a esquerda, só tinha mato, olhávamos para a direita só tinha mato. E aquilo me apavorava a cada segundo:

– Eu to com fome!
– Eu também estou, então não começa a reclamar no meu ouvido, porque eu não tenho culpa.

– Você ta querendo dizer que a culpa é minha?

– Não, Annie. Eu não quis dizer isso. – Ele bufou.

– É bom mesmo, porque a ideia de vir atrás de mim foi sua.
– O que isso tem a ver? Eu não reclamei disso. Porque vocês, mulheres são tão...

– Tão, o quê?

– Tão doidas!

– Ah, pelo amor de Deus, José...

– Eu estou mentindo? A algumas horas atrás estávamos contando piadas e rindo, agora você esta gritando dentro do meu carro que nem uma louca.

– E porque esse orgulho todo em dizer que eu estou no SEU CARRO? Quer que eu desça do seu precioso veículo?
– AH! –ele gritou. – Fica quieta, mulher!
– Fica quieto você, e dirige essa merda! A culpa é sua de eu não ter um carro agora!

– Mas que porra, você vai voltar a falar daquele carro ridículo?
– Não xinga, você sabe que eu odeio isso!

– Odeia, é? – ele me olhou de relance, e logo começou a berrar. – PORRA, PORRA, PORRA, PORRA ,PORRA, PORRA, PORRA...

– CALA ESSA BOCA! Deixa de ser tão infantil!

– Você é muuuito !
Ele ria descontroladamente, debochando do meu humor. Eu odiava quando ele provocava essas situações:

– Não tem jeito, a gente vai ter que parar aqui mesmo!

–Mas esse lugar é nojento!

– Ou a gente dormir aí, ou dorme no carro, sem comida e cobertor!

Eu pensei bem, e pensei olhando para o lugar a nossa frente. E era um MOTEL. Sim, um motel! Depois de horas procurando um lugar, esse era o único que achamos, e estava caindo aos pedaços, como uma casa abandonada!
Eu olhei bem para ele, que me olhou, cansado, e bocejando e por consideração, eu tive que concordar:
– Mas você dorme no chão!

Eu estiquei o braço até o banco traseiro e peguei apenas uma mochila minha, logo ele fez o mesmo e descemos do carro, sem falar nada. Entramos no estabelecimento, e esperamos alguém aparecer na recepção.

– Eu to morto.

– É melhor rezar pra que tenha vaga aqui!

Eu olhava em volta, e o lugar era deplorável. Paredes rachadas, estruturas condenadas e pisos velhos, parecia que estava prestes a desabar.
– Posso ajuda-los?
De dentro de uma sala minúscula, saiu um senhor, de bengala, com uns 70 anos e óculos fundo de garrafa.

– Sim, senhor. O senhor tem vagas?
– Estamos lotado hoje!
– Não diz isso, senhor. Estou dirigindo a 6 horas sem parar. O senhor pode verificar se não tem algum quarto.

O homem me olhou, de cima a baixo, ajeitando o óculos no rosto, talvez para enxergar melhor.

– Bom, com uma moça bonita dessa, acho que posso te arrumar alguma coisa!

Eu sorri, agradecida pelo elogio e alguns minutos depois ele diz que sim, tem vaga, porém somente um quarto. Tradução: Eu teria que dormir no mesmo quarto que José, mas o cansaço que pairava sobre nós, era mais forte do que qualquer rixa que pudesse vir a surgir.
Subimos um velha escadaria e logo encontramos nosso quarto. No interior, o lugar não era dos piores.
A cama era redonda, com lençóis brancos, e tinha comida e bebida numa pequena mesa no canto. Era um motel simples, mas ajeitado. Eu joguei minha mochila em cima da cama, e com ela eu também fui, me jogando na cama:

– Eu vou tomar banho!
Sem muito assunto, ele também jogou a mochila dele na cama e logo entrou no banheiro. O cansaço da viajem me deixara irritada, ainda mais com o José enchendo meu saco, mas eu agradecia mentalmente por ele estar ali comigo. Eu sabia que era importante e um enorme sacrifício o que ele estava fazendo por mim. Pedir transferência do emprego, se mudar para outro estado, não era uma coisa simples, e eu reconhecia isso.
Antes que ele pudesse voltar, eu abri o velho armário e peguei alguns lençóis e os estiquei no chão, deixando tudo muito bem ajeitado com travesseiro e cobertor.
Na minha mochila, peguei minha escova de dentes e uma camisola branca.
E como eu já devia esperar, ele saiu do banheiro só com a toalha amarrada na cintura, olhando confuso para os lençóis arrumados no chão:

– O que é isso?
– É a sua cama. Você não achou que ia dormir comigo na cama, não é?

Eu sorri e logo entrei no banheiro, sem dar chances para ele responder.

Eu o encarei incrédula:

– Fazer o quê, José?

– Ah Annie, não seja boba!

Ele disse, num tom safado acariciando meus cabelos. E eu rapidamente me afastei dele, me levantando e caminhando até a mesa, pegando água:
– Que ideia idiota, José. Ta maluco?
– Vai desperdiçar todo esse corpinho, Aninha?

Na cama, ele se insinuava para mim, deitado de lado, passando a mão por dentro do cabelo, exibindo o corpo sarado e bronzeado.

– É melhor você sossegar, ou vai dormir no chão, ouviu?
Eu voltei para a cama, me deitando exatamente como antes, desdenhando das provocações dele.
Ele ria como se tudo aquilo fosse uma grande piada.

– Você não tem senso de humor, Annie. Parece que nunca ouviu falar de sexo!

– Mas o que é isso agora?
– Sexo. Você sabe o que é sexo, não é?

– Me erra . Eu tenho 24 anos, esqueceu?
– E é casada, mas seu marido sumiu no mundo. O que me leva a pensar que você não faz sexo há muito, muito tempo!

Ele me olhava fixamente, realmente interessando em saber da minha vida sexual.

– Você sabe que essa é uma pergunta pessoal, não sabe?
– Qual é , eu sou o seu melhor e único amigo. E você sabe de tudo da minha vida, porque faz tanto mistério em relação a sua vida de casada?

– Porque eu sou casada, e pronto. Nada demais nisso. – Eu o encarei.

– Como assim nada demais? Seu marido nunca apareceu em Princeton. Você é casada com um milionário e nunca tocou no nome dele, nem ao menos usa uma aliança de casada.
– Minha aliança está na mochila. E sim, sou casada com ele, o que tem demais nisso?
– Nossa! Eu só queria saber... Você nunca fala disso.
Ele fechou a cara, e virou para o outro lado.
– Ta bom, o que você quer saber, realmente?

Eu me virei de lado, e logo ele sorriu, também virando-se, e ficamos assim, cara a cara.
– Você já transou com ele?

– Mas que pergunta mais boba, José. Ele é meu marido. – e o gosto do ódio pairava na minha boca ao chama-lo de ‘meu marido’!

– Não é uma pergunta boba. Você tinha 18 anos quando te conheci. Era completamente inocente, eu fiquei na dúvida. E desde então, você nunca mais...

– Não. Desde então, eu nunca mais fiz amor.
Ele riu, como se eu tivesse dito a coisa mais estranha do mundo:

– Não estou falando de ‘Amor’, estou falando de sexo. Você nunca mais transou com ninguém?

– Claro que não.
Ele parecia não acreditar naquilo.
– E porque não?
– Eu sou casada, José. Quer motivo maior que esse?

– Depende, você o ama?

Eu respirei fundo, pensando em algo que me desviasse daquela pergunta . Os olhos azuis dele me olhavam inocentes, e o cabelo caia sobre a testa, o deixando mais irresistível.
– Eu sou casada, José. E tenho respeito meu marido.

– Porque, Annie? Ele sempre aparece ao lado de mulheres lindas em revistas de fofocas. Será que ele mantém o mesmo respeito por você? Confesso que se eu não tivesse visto sua identidade, diria que você é uma mentirosa, porque ele nunca ligou para você, muito menos a visitou.

– Ele é um homem ocupado, José. E eu respeito isso. Sou grata a ele por manter nosso casamento em sigilo, por que só assim eu teria a oportunidade de estudar sem ter paparazzis a minha volta todo o tempo. – Menti.
Ele olhou para o teto, pensativo, acredito que tentava assimilar todas aquelas informações.

– Eu não consigo acreditar, me desculpe. Não estou te chamando de mentirosa, longe de mim. Mas que casamento é esse, que o marido deixa a mulher por 6 anos? E o pior de tudo é que ele está com varias mulheres e você aqui, sem sexo a anos, isso é terrível.
Eu acabei rindo, também olhando para o teto.
– Casamento não é só sexo, José.

– Ele foi o primeiro?

Ele me encarou, sério. Eu apenas virei o meu rosto, observando cada traço do seu rosto. Os olhos, as sobrancelhas marcantes, a boca, tudo tornava mais difícil estar na cama com ele, falando sobre sexo. Eu tentava não me aprofundar nesse assunto, mas ele parecia tão indefeso, curioso em saber um pouco mais sobre minha vida. E eu não via o porquê, não lhe contar pequenas coisas.
– Sim, o primeiro e o único, em uma única noite.
Ele ergueu as sobrancelhas, cada vez mais incrédulo.
– Uma única noite? – Ele sussurrou.- Você só transou uma única vez...na vida?

Eu procurei não olha-lo para responder, olhei novamente para o teto escasso daquele lugar:
– Sim!

Ele olhou para o teto, e permaneceu alguns minutos em silêncio. Eu também não quis falar nada. Talvez ele acharia estranho pelo fato de ele sempre estar com mulheres diferentes. Talvez acharia aquilo uma besteira, sei lá...

– É inacreditável. Eu não conseguiria. Não passo mais de duas semanas sem sexo.

– Não é questão de sexo por sexo.

– Sei lá, mas fico contente por você, eu acho! Seu marido tem sorte, você é linda, fiel e companheira, muitos homens procuram isso hoje e dia.
Eu sorri, camuflando todo o rancor que eu sentia pelo todo poderoso.

– Sim, somos muito sortudos.
Como ninguém falou mais nada, assim pegamos no sono. E apesar das más instalações eu dormi como se estivesse em casa, deitada na minha cama.

E assim se passaram dois dias de viajem. Por não encontrarmos lugar para dormir nas noites seguintes, acabamos dormindo no carro mesmo. Compramos biscoitos diversos, e nos viramos.
Até eu finalmente reconhecer a cidade que um dia eu deixara, a cidade cuja um dia eu disse Adeus, e por desventura do destino, agora eu falava: Olá!
Quando chegamos na Califórnia, era noite, por volta das 11 horas da noite e estávamos cansados da viajem, desejando loucamente por uma cama macia e confortável. Mas meu objetivo tinha mudado, agora eu era uma nova Anastácia. Eu não seria mais a mesma, e José presenciaria toda essa mudança. Anastácia Steel, tinha morrido e dado lugar a Anastácia Grey. A esposa do empresário rico, e eu me comportaria como tal.
– Eu preciso parar em uma loja qualquer.
– Como assim ? Está tarde, não tem nada aberto.

– Estamos na Califórnia, deve ter alguma coisa. Precisamos comprar roupas.
– Roupas? Como assim?

– Você vai entender. Continue dirigindo!

Ele continuou dirigindo pelas ruas da Califórnia que não parava nunca. Era tarde sim, mas também era sábado e as ruas estavam lotadas. As lojas se preparavam para fechar, e as pracinhas estavam cheias.
Depois de darmos muitas e muitas voltas, acabamos achando uma loja sofisticada bem no centro da cidade.
No interior, apenas uma mulher de meia idade veio nos atender, e logo ela mudou sua expressão facial ao olhar para José.
– Posso ajuda-los?

– Sim, procuramos trajes de festa.
– Festa de gala?
– Não, um traje mais sofisticado, para um importante jantar, por favor!

Ficamos alguns minutos dentro da loja e tínhamos tudo em mãos. Um lindo vestido azul com detalhes em preto no decote para mim, e um terno preto para José, que caía perfeitamente bem nele.
– Como você pretende pagar isso, Sra. Grey?
– Apenas observe. –Eu sussurrei e tirei um cartão de créditos da bolsa, pagando uma fortuna naquelas roupas.

Deixamos o lugar logo em seguida e saímos dali.
– Com que dinheiro você pagou?
– Esqueceu que eu sou uma mulher milionária, gatinho? – eu ri triunfante.

Eu pedi que ele dirigisse até a primeira pousada que encontrasse. Tudo o que deveríamos fazer agora, era tomar um bom banho e nos arrumar. E não demorou muito até que encontrássemos uma casa simples, tão simples que era um abuso chamar de pousada.
Uma simpática senhora nos atendeu super bem, e cobrou uma mixaria para que pudéssemos tomar um banho, mas logo o fizemos.
José foi primeiro, tomou um banho rápido e quando saiu do banheiro parecia outro homem. Cabelos penteados, barba feita, com um cheiro impactante e olhos mais azuis do que nunca.
– O que achou? – disse, dando uma volta.
– Perfeito.
– Não gostei desses sapatos.

– Mas é um sapato social, custou uma fortuna, devia me agradecer.
– Porque estou vestido assim? – disse, não gostando nada de estar vestido assim.

– Espere e verá. Agora é minha vez de tomar banho!

Eu sorri e logo me dirigi até o banheiro, onde tomei um banho rápido, sem lavar os cabelos, logo após vesti o lindo vestido e a sandália branca de salto alto que também havia comprado. Na minha mochila eu tinha praticamente tudo o que uma mulher precisa, maquiagem, secador, esmaltes, entre muitas outras coisas. Eu demorei muito para finalmente ficar pronta, mas quando deixei a casa, renovada, olhei para José que me esperava encostado no carro, visivelmente impaciente.
Assim que ele me viu, a expressão facial mudou completamente, ele se pôs ereto, ajeitando a gravada, para estar tão elegante como eu. O olhar dele acompanhou cada pequeno movimento que eu fiz até finalmente chegar bem próximo ao seu corpo, até parar diante dele:
–Annie, você está...Deslumbrante.
– Obrigada. – Eu sorri.
– Porque estamos assim? – ele olhou para nossas roupas.

– Porque hoje é uma noite especial, José. Devemos estar vestidos a caráter.

– Se é assim, -ele sorriu.- Madame?

Logo, ele abriu a porta do carro, para que eu entrasse, eu sorri e acenei com a cabeça, preparando-me mentalmente para o passo seguinte. O meu passado tinha virado presente. E eu estava pronta para finalmente dar de cara com ele.

Continuamos a viajem em silencio, no trajeto, pedimos informações a pessoas na rua, pois com o tempo eu tinha me esquecido onde ficava a mansão, mas uma casa daquele tamanho não era difícil de ser achada, em poucos mais de meia hora depois, estávamos diante do portão da mansão.
E o medo e a tesão me resumiam. Eu estava entregue ao momento, eu teria que fazer valer a pena tudo o que eu aprendi ali, naquele exato momento, era agora ou nunca, definitivamente.
Logo o porteiro, deu passagem para entrarmos e eu estranhei de imediato. Me perguntei o porquê dele não pedir para que nós nos identificarmos. E logo a explicação se tornou evidente, e uma coisa que eu realmente não esperava, acontecia na mansão.

– Vamos entrar lá?
– Com certeza.

Uma festa. Sim, acontecia uma festa na mansão Grey. O lugar estava cheio de gente elegante, espalhada pelo jardim e também no interior da casa, mesmo de longe eu podia ver.
José desceu do carro e logo veio abrir a porta para mim, me dando apoio para que eu descesse do mesmo, como um verdadeiro cavaleiro medieval.
Eu desci do carro, olhando fixamente para a casa, matutando um plano B de imediato e concluí que aquela situação era melhor do que eu tinha imaginado antes, era perfeito:
– Bom, chegamos.
Eu me virei para José, que olhava deslumbrado para a estrutura externa da casa.
– Esse cara é podre de rico, não é?
– Provavelmente, — eu segui seus olhos, olhando a mansão, mas logo tornei a olha-lo.- José, eu tenho algumas coisas para te falar.

– O que é?

– Eu não sabia que teria um festa da casa hoje, então tudo que você pode fazer é entrar e se sentir em casa. Beba, conheça gente, faça o que quiser, mas eu te peço algumas coisas...Em hipótese alguma fique bêbado, e não, de jeito nenhum procure por mim, uma vez que estamos dentro da casa, você me entendeu?

– Beber, ver mulheres gostosas e ricas, comer de graça, e não procurar por você, moleza gatinha.

Ele sorriu, animadíssimo com a boca livre, e eu por minha vez, estava pronta para a guerra que seria começada em poucos minutos.

Notas finais
Gente queria saber a opinião de vocês sobre o José, vocês acham que ele é um bom amigo ou não? Que ele gosta ou não da Ana... enfim o que vocês acham dele, irei postar o próximo rapidinho!