Notas iniciais

Essa cena fervia na minha cabeça. Tudo o que eu tinha comigo era uma mochila com alguns cadernos e a roupa do corpo, isso era tudo o que era de fato, meu. Nada mais era real. Meu pai estava morto. MORTO! Minha mãe morta e meu pai, morto.
E agora? O que seria de mim? Eu não me imaginava mais, não sabia mais quem eu era, ou o que seria de mim.
Tudo o que eu sabia, é que eles, aqueles três homens mataram meu pai, e estavam me levando pra algum lugar... Uma floresta, ou praia deserta, ou sei lá... Qualquer lugar onde pudessem me matar e jogar o corpo fora.
— Pra onde você vai me levar, seu desgraçado? E quem é você? É o chefe deles? Ou está trabalhando pra alguém? E porque matou meu pai? Ele não roubou nada de vocês... eu disse.

— Você faz muitas perguntas.

Ele respondeu, sem ao menos olhar pra mim.
Desgraçado. Eu não conseguia me conter, não ia esquecer nunca o que aquele filho da mãe fez.
Sem pensar duas vezes, eu me virei em direção a ele, e comecei a chuta-lo, com força:

— O QUE VOCÊ QUER SEU CRETINO? JÁ NÃO MATOU MEU PAI? VAI FAZER O QUÊ, ME MATAR TAMBÉM?

E eu chutava aquele filho da puta com toda a minha ira, sujava todo o roupa de marca que ele usava, gritava e o xingava, mas antes que os amiguinhos dele tomassem uma providencia, ele mesmo o fez. Sacou um revolver do bolso e apontou para mim:
— Eu acho melhor você cooperar agora!

Eu fiquei estática. Tudo aquilo era surreal. Hoje de manhã eu ia para o shopping com o meu pai, e agora eu ia pra onde? Pra guilhotina?

— ATIRA, ATIRA AGORA SEU IMBECIL. MATA-ME QUE NEM FEZ COM O MEU PAI.
Eu cheguei perto dele, o mais próximo possível e encostei o cano da arma no meu peito:

— ATIRA VAI, MATA UMA ADOLESCENTE DE 19 ANOS, À QUEIMA ROUPA. FAZ ISSO!

Ele me olhou fixamente, pensou por alguns segundos e abaixou a arma. Pegou o celular e discou um numero rapidamente:

— Félix? Já estou a caminho. E a propósito: — ele me olhou fixamente – Eu já tenho a garota!

Ele desligou após isso. E o carro parou. A porta do meu lado se abriu e um dos homens me puxou pelo braço, me arrancando do carro.
Eu puxei minha mochila comigo, e a pus nas minhas costas.
Do lado de fora, eu pude reconhecer facilmente onde eu estava. Era um aeroporto particular. Onde um avião de alto porte estava pousado, a alguns metros de distancia de nós.
Eu tentei olhar pra trás e os outros dois homens também se dirigiam a ele.

— Pra onde você está me levando?

— Pra casa!

As escadas do avião desceram e ele me empurrou pra dentro do monstruoso transporte. Por dentro, era quase tão impressionante quanto por fora. Era claro que esses homens eram ricos, ou melhor, milionários. Era tudo impecavelmente limpo e luxuoso, um avião inteiro para aqueles três maníacos.
Ele me direcionou para uma das poltronas, e logo se sentou do meu lado. Mais a frente os outros dois se sentaram, em outras poltronas e o avião ameaçava decolar.

Eu tirei minha mochila, e a apertei firme contra o meu peito. E eu chorei, novamente.
Incrédula e perplexa com o que havia me acontecido. E me perguntava o porquê de tudo aquilo ter acontecido comigo e com o meu pai. O que fizemos de errado? Será que era algum tipo de agiota? Eu não sei, eu não sabia de nada.
Mas o que você faz quando seu pai é assassinado na sua frente? O que você sente quando esta sentada ao lado do homem que deu um tiro no seu pai? O que você diz quando está num avião com os caras que tiraram de você a pessoa que você mais amava que você mais admirava a pessoa que cuidou de você a vida inteira, a única pessoa que te restou no mundo desde que sua mãe morreu? Aquela pessoa que te ajudou a dar os primeiros passos, que ficou triste em saber que sua primeira palavra foi ‘mamãe’, mas que continuou lá, firme, te segurando. Dando-te apoio moral, quando você conseguiu abandonar as rodinhas da sua primeira bicicleta. Que te deu um abraço forte e sorriu para o fotografo, na sua formatura da quarta serie. A pessoa que trabalhou por dois pra te sustentar, e nunca, jamais em nenhum instante, reclamou disso. O que você faz nessa hora? O que você sente? O que você diz?
Eu me fazia todas essas perguntas, e as lágrimas rolavam instantaneamente.

O brutamonte passou o braço na minha frente e abriu a janela:

— Tem uma vista excelente daqui! Devia aproveitar Miss. Steel.

Eu fiquei naquele avião por cerca de nove horas. A cada 10 minutos eu olhava o meu relógio de pulso, e enquanto o homem do meu lado dormia, eu não preguei o olho, matutando alguma coisa pra ir embora dali.
Não seria fácil, mas eu ia conseguir. Mesmo se eles tivessem me levando pra outro país, como eu entraria lá? Eu sou brasileira, não tenho permissão para morar em outros pais sem passaporte ou greencard. Eles iam se ferrar, com certeza. As autoridades me deportariam pro Brasil e eu ficaria num internato, ou juizado, sei lá. Mas com certeza não ia ficar com aqueles homens.
Eu senti a turbulência, e pensei que o avião pousaria em breve. Eu olhei para a janela e senti frio. Já era noite e provavelmente era inverno, seja lá onde eu estava naquele momento. Olhei para baixo, avaliando as roupas que eu usava: Um tênis allstar preto, calça jeans, uma regata branca por baixo de um casaco de malha rosa claro, com um capuz bem vagabundo nas costas. Pus o capuz na cabeça e fiquei-me alerta quando os homens que sentaram na frente se levantaram.
Prontamente, eu fiz o mesmo, passando na frente do cara que ainda dormia do meu lado. Assustado, ele acordou e também desceu do avião.
Do lado externo, tinha um luxuoso carro à espera, com um motorista, a posto. Ele abriu a porta para os homens, sem abrir a boca pra dizer nada, e eu reivindiquei:

— Eu não vou entrar aí. – Eu dei uns passos pra trás, pronta pra correr.
— Julian, segure-a . – disse o suposto patrão deles.

E ele rapidamente, segurou meu braço, me empurrando em direção ao automóvel:

— Vocês não podem fazer isso, é ilegal. Eu sou uma cidadã Brasileira. Não posso entrar em outro país assim, eu vou denunciar vocês, isso é sequestro. – eu gritava.

Julian: Fica quieta garota.

E novamente ele me jogou no carro. Eu já estava de saco cheio disso. Mas dessa vez ele ficou. Só o patrão, e o outro capanga seguiram viagem. E no banco traseiro, novamente, o homem sentou do meu lado. E eu precisava começar a entender o que acontecia ali:

-Você é o patrão? É o chefe? —
Perguntei encolhida do canto, segurando minha mochila contra mim.
— Rótulos e mais Rótulos. Eu sou Christian.
— O que você vai fazer comigo?

— Levar-te pra casa!

Ele me olhou, sorriu, e voltou a olhar para frente.
Seja lá o que viria, eu logo ia descobrir.

O trajeto de carro durou cerca de 3 horas. Quando o motorista estacionou, eu logo me ajeitei, a fim de saber onde eu estava.
— Mudança de planos, Roger. Ela fica.
— Disse para o capanga.

— Mas senhor, como assim, ela fica?

-É uma ordem. – respondeu, enquanto mexia brevemente no celular.

— Mas senhor, ela não pode ficar aqui, ela é uma...

— Obrigada pelos seus serviços, Roger. Dispensado por hoje.

Ele saiu do carro e em seguida, bufando algumas coisas em outro idioma, o capacho logo saiu também.
Eu não sabia o que estava acontecendo, mas também desci do carro. E seja lá onde eu estava, era estranho porque era de dia. Muito confuso, porque só de viagem eu tinha calculado umas 6 horas. Talvez o fuso horário, tenha interferido.
E ao olhar pra frente, eu vi umas das coisas mais inacreditáveis que eu já tinha visto na vida. Eu não ousaria chamar aquilo de casa, e nem de mansão. Talvez palácio, ou sei lá...
Era branca e na entrada tinha um jardim, que simplesmente era fantástico.
Dessa vez, ninguém saiu me puxando pelo braço. O capacho, tal de Roger, tinha saído de perto, o motorista tinha tirado o carro e o tal de Christian, provável dono da casa, caminhava em direção à porta da mansão, sem me esperar, ou dizer nada.

Sem pensar duas vezes, eu saí correndo, pra fora dali, ao lado oposto da casa. Corri desesperadamente, em busca da única chance de fuga que eu poderia ter.

Notas finais
Comentem, Favoritem, Recomendem, me mandem mensagens... Preciso da opinião de vocês.
bj