The Scene After Kiss and Tell
1 When you walk, you don't leave tracks... When you talk, they don't talk back...
Notas iniciais
Testando... Um, dois, três... Som... Som... Muito bem! Está funcionando!
Eu poderia começar isto de várias formas, muitas coisas aconteceram para situação chegar onde chegou... Mas vou começar do meio. Não que eu vá ignorar tudo que aconteceu antes, mas é mais dramático começar da segunda-feira depois do feriado. Aquela em que Pedro começou a descobriu tudo.
Falando nele, vamos acompanhá-lo naquela manhã. Seu porte atlético era visível a cada passo que dava, não era a toa que era o capitão do time de futebol da escola. O boné virado para trás disfarçava o cabelo completamente despenteado, mesmo com alguns fiapos pretos escapando pelas laterais. O uniforme da escola ficava meio largo, alguns diziam que era porque ele tinha comprado um número maior por engano, outros diziam que era porque ele ainda esperava ficar mais alto e musculoso pra preencher todo aquele espaço... Hm... Acho que já deu pra perceber: ele era a estrelinha da sala. Todo mundo cumprimentava ele, todo mundo sabia dele. Era praticamente uma Regina George masculina. Mais maligno ou mais bonzinho que ela, depende de quem você perguntar...
Um dos fatos que certamente ajudou nisso era a impontualidade da criatura. Não se sabia de qualquer aula que ele tivesse chegado antes ou até mesmo na hora. O cálculo que Pedro fazia era para chegar no limite do tempo permitido para entrar atrasado... Não se poderia dizer que ele era horrível em matemática, apesar de alguns tentarem.
Naquela manhã, tudo parecia que seria mais do mesmo. Claro que algumas coisas aconteceram no feriado, mas só Gustavo sabia, então nenhuma fofoca ia vir daquilo... Ou, pelo menos era isso que Pedro esperava. Veja, quando ele entrou na sala, triunfante por ser exatamente sete e vinte e a professora não poder impedí-lo de entrar, esperava as mesmas reações de todos os dias: admiração, raiva, graça, desdém, receio... Como a celebridade escolar que era...
O problema começou com a cara de Isabelle.
Honestamente, depois do que aconteceu no feriado, ele e Gus tinham certeza que ela nem daria as caras na segunda. Então, vê-la ali, na primeira carteira da última fileira, já foi um susto. Porém, se fosse só isso, não teria nada com que se preocupar: ele entraria, ela nem olharia nos olhos dele e a vida continuaria como sempre. Só que, no momento em que ele pisou na sala, deparou-se com um sorriso enorme, de orelha a orelha, estampando o rosto de Isabelle.
Foi aí que ele teve certeza que teria problemas.
— Atrasado de novo, hein, Pedro? – dizia a professora, cansada, mais como um desabafo do que como uma bronca.
Ainda um pouco em choque, penetrando pela sala, percebeu que não era apenas Isa que estava esquisita. TODOS olhavam para ele de uma forma completamente estranha. Não que ele decorasse a reação de todo mundo na sala quando ele entrava, mas algo dizia que aqueles olhares julgadores e curiosos não significariam boa coisa.
Pedro se sentou no fundo da sala, entre Vitor e Matheus, que nem lhe deram um "oi". Na verdade, ninguém havia acenado ou sorrido na direção dele como um cumprimento, nem mesmo o resto do pessoal que fazia parte do time de futebol! Talvez as coisas fossem um pouquinho diferentes se Gustavo estivesse ali, ele nunca ficaria estático assim, o que foi outra coisa esquisita... Ele não tinha falado nada no dia anterior sobre faltar...
O que pareceu uma eternidade finalmente acabou quando a professora voltou a falar sobre química e a grande maioria da sala virou-se para a lousa.
Pedro ainda se sentiu observado durante todo o primeiro período. As duas aulas de química e a de biologia passaram sem que ele conseguisse prestar qualquer atenção no que os professores diziam, não que ele se esforçasse muito para isto também... Mas podia ouvir as pessoas conversando e olhando para ele. Uma hora era a galera mais nerd do Caio. Outra, Mirian e seus capachos. Ainda teve o pessoal esquisito que também sentava no fundo. E, até, quem diria, o pessoal alternativo que mal dava bola para ele!
Se quando entrou na sala sentia um incômodo, na hora que tocou o sinal do intervalo já era caso de vida ou morte descobrir o que raios estava acontecendo!
Tinha tentado puxar assunto com Vitor e Matheus, que fechavam o quarteto com ele e Gustavo na sala, mas eles nem deram bola. Duvidava que não estivessem ouvindo seus sussurros durante as aulas, até porque conversavam bastante entre si nessas horas, e não queria chamar confusão assim, sem saber de nada... Contudo, quando soubesse, ah... Aí sim faria uma confusão!
Foi lá pro meio das aulas de química que percebeu que Isabelle devia ter algo haver com aquilo... Aquele sorriso ficara gravado na mente de Pedro, com ele se surpreendo perdendo inconscientemente seu olhar na nuca dela durante aquelas aulas... Tinha que achar um jeito de perguntar pra alguém próximo o suficiente dele para saber alguma coisa, mas também distante o suficiente para não guardar segredo. Ana Bia, a Fofoqueira Oficial Do Segundo Ano™, foi a resposta mais óbvia:
— Você achou que tava na surdina né, Pê?! – ela disse daquele jeito espevitado dela – Isa contou tudo pra todo mundo, que vocês terminaram e tudo mais...
— Hã?! Como assim?! – ele reagiu, duplamente confuso pelo que ela respondeu e pelo fato de ela ter respondido tão fácil assim.
— Ah, não vai se fazer de sonso, fofo – ela avançou a mão em direção ao rosto dele, mas mudou de ideia no meio do caminho – Tudo que vai, volta. É carma. Você não ficava fazendo a menina de boba e faladando mal dela pelas contas com o Gus? – ele não soube dizer se aquela pergunta fora retórica ou não – Achou que a Isa não ia revidar?
— Calma, Ana Bia – ele retrucou, com medo dela mudar de ideia e não falar com ele, que nem o resto da sala parecia fazer – O que a Isa disse?
— Não precisa se fingir de tonto – Ana Bia disse, sorrindo maliciosamente – Ela contou TUDO. Tudo mesmo.
— Tudo?!
— Claro, bestão – essa liberdade que ela tinha pra falar com todo mundo era bem característica de Ana Bia – não precisa mais esconder seu caso com o Gus – a boca de Pedro foi ao chão, tamanho o espanto – Bem... Não é todo mundo que vai ficar de boas, mas né? Fazer o quê?
— Ana Bia, você não vem?! – uma voz gritava de fora da sala.
A menina olhou para Pedro, sorriu e disse, andando em direção à porta:
— Bem, tenho que ir – ela fez uma referência irônica – meu público me chama.
Ele ficou observando enquanto Ana Bianca saía da sala, sem saber ainda processar o que estava acontecendo ali. Isabelle disse para todo mundo que ele estava tendo um caso com Gustavo... Onde estava ele numa hora dessas?!
Sem pensar, tirou o celular do bolso e ligou para o amigo. Todos tinham saído da sala, seja porque ele tinha ficado ali ou não, então aquele era o melhor momento pra tirar aquilo a limpo sem nenhum ouvido curioso.
O tempo que a linha chamava pareceu tão eterno quanto à entrada na sala de aula. Por que raios não mandou uma mensagem de whats?! Quem lig–
— Alô? – disse a voz de Gustavo do outro lado da linha, assustando Pedro.
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