DE VOLTA AO CASTELO, Lorde dos Sonhos caminha silenciosamente pelo salão principal e, aos pés da escada para o seu trono elevado, avista um livro aberto no chão, como se o objeto tivesse sido esquecido por alguém que desistira de lê-lo... ou que o deixara cair sem perceber que o perdera...

Enquanto deduz as possibilidades para aquele volume se encontrar jogado por ali, visível a qualquer um que pudesse ver, Morpheus aproxima-se, agachando-se sobre um joelho, e vira a capa de couro para cima para ler seu título – as páginas estão em branco, nem um pouco elucidativas quanto ao que se trata –, descobrindo também que este não está intitulado.

━━ Lucienne... — Morpheus chama sua bibliotecária em tom sussurrado, como se não precisasse elevar a sua voz mais do que aquilo para que a leal funcionária pudesse lhe ouvir.

Morpheus ainda está preocupado com as consequências que surgem e ainda hão de surgir em seu reino devido ao Vórtice Onírico. Embora tenha presenciado poucas anomalias, sendo a maioria fácil de lidar, o trauma de ver o Sonhar completamente em ruínas e sem vida, após o seu rapto, deixou uma marca profunda no coração do Príncipe das Histórias.

E ver aquele livro sem ter uma página usada, faz Morpheus se lembrar de quando soube pela própria Lucienne que, enquanto esteve enclausurado numa redoma de vidro, no mundo desperto, as histórias registradas nos livros da sua biblioteca foram se apagando com o tempo.

Os mortais haviam parado de sonhar... de almejar qualquer coisa que não fosse apenas dormir uma noite tranquila ou viver a vida que perderam enquanto dormiam por décadas.

Contudo, Lorde Modelador teve êxito em escapar de seu cárcere e recuperar seus pertences e poderes, além de reassumir a sua função, a salvo, em seus domínios, certificando que os humanos pudessem sonhar – à noite ou em pleno dia – com as aspirações, anseios ou com as ideias que se formam ao longo da vida; com o futuro que desejam para si ou com o que poderiam ter feito, sem empecilhos.

Ainda assim, o Criador do mundo inconsciente está diante de um livro sem uma grande história que pudesse ser lida...

O que isso significa?”, indaga-se Mestre dos Sonhos consigo mesmo.

━━ Sim, Milorde? — Lucienne aparece de imediato ao lado de Sonho, numa postura ereta, pronta para cumprir com quaisquer especificações que forem pedidas. Mas, assim que seus lindos olhos castanhos ornados pelo óculos de armação arredondada caem sobre o livro na mão de Morpheus, Lucienne não esconde o alívio e a confusão que lhe acometem. ━━ Oh, isso é...! Céus, então estava no Sonhar esse tempo todo? Mas como veio parar aqui e não na biblioteca?

━━ Era o que eu estava prestes a te perguntar, Lucienne... — Morpheus se levanta e, com o livro em mãos, folheia algumas folhas com tranquilidade sem se surpreender por não encontrar coisa alguma num livro vazio. ━━ Resolvi a questão da Taberna, mais cedo. No entanto, agora, me deparo com este livro de páginas em branco jogado aos pés de meu trono, fora do seu devido lugar. Tem alguma ideia do que pode ter acontecido...? Ou os livros voltaram a escapar da biblioteca? — Ele entrega o livreto para Lucienne, aguardando uma resposta.

A bibliotecária, por sua vez, não disfarça o desagrado ao ouvir aquela alfinetada de Morpheus, como se ela tivesse culpa no cartório quando a biblioteca desaparecera no meio daquele caos que se tornara o Sonhar – perdendo boa parte dos milhões de acervos catalogados há milênios – em decorrência ao desaparecimento do Rei dos Sonhos e Pesadelos durante uma “visita” ao mundo desperto para capturar Coríntio: o pesadelo que fugira de seus domínios por puro capricho.

Porém, Lucienne resolve ignorar a própria vontade de responder ao seu Senhor à altura, ao perceber que, na verdade, o livro não corresponde com a descrição que Lorde Morpheus fez dele.

━━ Hã... este livro não está em branco, Milorde... — Lucienne folheia algumas páginas como se para provar que todas elas estão ocupadas por palavras ali escritas, numa letra de mão bem desenhada e alinhada. ━━ Inclusive, este tem registrado uma frase de um amigo seu...

Morpheus a interrompe, contrariado com aquela informação um tanto absurda:

━━ Ele está vazio, Lucienne. Completamente em branco. Nem sequer um título existe nesta capa. — Apesar da etérea voz monótona, Morpheus deixa claro que não está feliz não só com a possibilidade de ser o único a não enxergar o que tem escrito naquele livro, mas com o fato de ter que lidar com mais uma suposta anomalia, seguida de outra, em tão pouco tempo. ━━ Então, não tenho outra suposição a fazer que não seja considerar este fenômeno como mais uma anomalia em meu Sonhar... Eu darei um fim nisso, agora.

Lucienne olha para o livro, na primeira página, e lê em silêncio a dedicatória que traz um possível significado para Morpheus não conseguir ver as palavras redigidas lindamente em suas folhas.

━━ Milorde... — Ela o chama com cautela, repousando a mão sobre a folha do livro aberto. É o mais próximo que Lucienne ousa tocar num assunto tão espinhoso quanto este com Morpheus. ━━ Aqui diz: “O amor acrescenta uma precisa visão aos olhos”... É uma epígrafe de um velho amigo seu, embora este livro não seja de autoria dele ou de qualquer outro autor conhecido... mas a frase serve como tema do livro e ela é de William Shakespeare. Mas devo alerta-lo, meu Senhor, que este não é um livro como os outros que costumam ser postos nas prateleiras comuns... ainda que “comum” não seja o termo correto para classificar o que se tem guardado em vossa biblioteca.

Morpheus permanece calado, atento ao que Lucienne tem a dizer.

E a bibliotecária aproveita o silêncio de seu Senhor para continuar:

━━ Este exemplar é diferente de qualquer outro que já se ouviu falar no Sonhar, Milorde. Pode-se dizer que se trata de um tomo mágico. Não “mágico” como a magia de Faerie. Mas de um povo ainda mais antigo que as fadas... que acreditava que este livro em específico poderia ler quem também o lesse.

━━ “Um povo antigo, você diz. — Morpheus apoia o queixo em sua mão. Pensativo. Mas parece mais irritado agora do que quando saiu para resolver a questão da Taberna. ━━ É curioso, qual a razão de ter um pensamento de Shakespeare escrito numa das páginas de um livro mágico de um povo... antigo?

Lucienne suspira, como quem precisa de paciência, antes de responder:

━━ Como eu disse, Milorde, este livro não é como os outros. Ouso dizer que este exemplar tenha pelo menos 10 mil anos de existência e que se adapta com o passar das eras. Antes, só existiam nele figuras e ranhuras com as quais eram usadas como linguagem. Com a civilização em constante evolução, a linguagem também transmutou, e o livro acompanhou a mudança. E ele lê quem se aventura em suas páginas. E aprende. Mas o que acho mesmo curioso é o Senhor ter dito não enxergar coisa alguma neste livro. Insistir em dizer que ele está em branco. Será que podemos deduzir que ele também não possa lê-lo? Mas por quê?

Talvez Lorde dos Sonhos já soubesse a razão, mas só não queria dizer. Talvez essa história o fizesse lembrar de algo que ainda não consegue pensar com clareza, ou lidar da forma correta... ou ainda... admitir um erro, no fundo do seu coração... Algo que o remete ao passado e que seu orgulho não deixa-lhe ver de outra maneira que não seja a perspectiva de alguém com um ego ferido e que não deseja mais passar por aquilo de novo.

Então, de repente, Morpheus ouve uma voz...

Claro... onde já se viu ousarem rejeitar o amor que o próprio Rei dos Sonhos estava disposto a dar, não é... Lorde Morpheus?

Aquela voz não veio dos pensamentos de Lucienne, muito menos de Mervyn, o cabeça de abóbora, que de tempos em tempos verbaliza suas bravatas um tanto longe dos ouvidos do próprio Lorde, a quem vive a criticar... Não, não é a voz de qualquer criatura que tenha nascido em seus domínios. Embora agora estivesse presente apenas na mente do Senhor do Sono.

Morpheus olha para o livro nas mãos de Lucienne com atenção. A voz se cala, mas a sensação é de que está deliberadamente zombando do Soberano daquele salão.

━━ Pouco importa o porquê disso acontecer, Lucienne — responde ele depois de um tempo à indagação da bibliotecária. De fato, Morpheus não está se importando se consegue ou não ler um livro... principalmente aquele que agora parece falar consigo em sua mente. ━━ Leve o livro daqui, guarde-o em segurança, longe da vista de todos.

Lucienne franze a testa, estranhando o comportamento de Lorde Morpheus. Ainda que, no coração do Sonhar, a razão se é pouco utilizada, é estranho presenciar a falta de interesse repentina em seu Senhor para com uma situação tão... incomum. Por fim, a bibliotecária apenas obedece o pedido, porque é a única coisa que lhe resta a fazer, pois o seu Senhor simplesmente some de sua frente sem se despedir.

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Morpheus se desvencilha de uma enorme sombra que utilizou como passagem para viajar pelo Palácio, e que ocupa a maior parte daquele cômodo quase vazio, exceto por uma poltrona de couro no meio do recinto... Longe o suficiente de todos e isolado de praticamente de tudo.

A irritação que se mantém em seu espírito é estranha, invasora e incomum. E só aconteceu depois que tocou naquele livro... Morpheus acredita que, estando longe o bastante da influência do tomo mágico, não poderá ouvir qualquer asneira que aquela criatura pujante pretende vociferar em sua cabeça...

Ledo engano, Mestre dos Sonhos... Ledo engano. Pode tentar me esconder ou se afastar de mim, Lorde Morpheus, mas continuarei aqui, dentro da sua cabeça... Até o Senhor conseguir me ler... e eu lê-lo de volta.

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Notas finais
Olá, pessoal! Tudo bem? Pois é, estou aqui de novo, trazendo uma nova história com Morpheus e sua turma do Sonhar, porque a inspiração e a inquietação não me deixaram em paz. Preferi dar ouvidos aos conselhos de uma amiga e, pronto, deu nisso. As postagens acontecerão independente da repercussão, porém, dependerão da minha disposição: decidi dar férias pra mim da escrita, pelo menos por um ano, por uma questão pessoal. Mas como já mencionei antes, fiquei pilhada pra escrever sobre Sandman, porque a vida está uma desgraça. Enfim, estou divagando: o que quero dizer é que essa nova história não será uma longfic, tá? Mas é uma continuação direta da primeira parte. Vocês notarão que a ideia é ir escrevendo como arcos fechados. Vou postar os capítulos assim que forem surgindo. E é isso. Espero que gostem do que eu aprontar aqui. ✨ Deixem um comentário para que eu saiba o que estão achando, isso é importante pra mim. No mais, obrigada por lerem! ♡