The Sandman — Olhando Para Dentro
4 Capítulo IV — A Verdade
SENTADO NA POLTRONA, ISOLADO do seu mundo fantástico, Morpheus sente a perturbação que a voz do tomo mágico causa ao reverberar dentro de sua mente como ondas de dor. Ele nota que, embora não pareça, a voz do livro também não está feliz com a atual situação: tocado por uma entidade Sem-Fim — um dos Sete Perpétuos como são conhecidos —, mas que não pode enxergá-la para aprender...
... E é notável a sua frustração.
Diria que é muito frustrante, sim. A voz escarnecida que soa como dobradiças enferrujadas se faz presente, outra vez. Mas em caráter de curiosidade, eu não devia sentir coisa alguma, apenas registrar conhecimento, adquirir informações e obter poder... Estar nessa situação é tão novidade para mim quanto pode parecer para você, Lorde dos Sonhos.
━━ Já tem conhecimento suficiente sobre mim, criatura — Morpheus responde em voz alta, claramente irritado por não ter se livrado daquela voz invasora... pelo menos, não ainda. ━━ Sabe quem eu sou, isso deveria bastá-la, ou servir de alerta para que não tente nada contra mim, ainda mais em meu reino.
Oh, está preocupado com o que eu disse? Sobre "obter poder"? Oras, pode soar como uma ambição de um ser inanimado prestes a conquistar o mundo e tudo o que há nele, mas... é só a minha natureza se manifestando, Vossa Alteza.
Morpheus não esconde a fúria por aquele zumbido maldito, que se tornou a voz do livro em sua cabeça, agir como se não tivesse nada a perder.
Não sentindo qualquer empecilho de continuar falando, a voz se compele em discorrer:
O que seria de um livro se não pode oferecer tudo o que está escrito em suas páginas? Sou mágico, porém, continuo sendo um livro... E só sei quem você é, Lorde Morpheus, porque sua amiga bibliotecária compartilhou conhecimentos comigo. Mas ressalto que não deve culpá-la por negligência, afinal, você me entregou diretamente nas mãos dela. Não se pode esconder de mim o que sabem quando me tocam... Bom, até agora... Até me deparar com o Rei Sonho, é claro.
━━ Basta. — Morpheus se levanta da poltrona, colocando as mãos em suas têmporas ao sentir a dor piorar a cada palavra dita pela horrenda voz do livro. ━━ Seja você quem for, não ficará hospedado aqui por muito mais tempo. Será banido para a escuridão e me deixará em paz...
Ao redor e sob os pés de Morpheus, uma sombra profundamente escura surge como uma criatura faminta. Não há nada que possa ser visto dentro dela; só há o completo breu, que desfaz um ponto de luz que chega pela única janela daquele cômodo como se não fosse nada, como o fogo que destrói uma simples folha seca, a mando do Mestre daquele mundo onírico.
Os olhos frios do Lorde dos Sonhos, que eram de um azul-acizentado, cintilam como estrelas no vasto negrume do espaço, e seu sobretudo se ergue e esvoaça com violência por conta de uma ventania que o atinge debaixo para cima, dada à vontade e poder do Senhor do Sonhar de destruir à criatura que faz moradia em sua mente...
Pode até tentar, mas isso não vai acontecer, Lorde Morpheus, porque não sou uma criação sua que você pode desfazer ao seu bel-prazer quando algo simplesmente dá errado. Eu sequer sou uma criatura, além de uma voz na sua cabeça. E se pretende me levar para algum lugar, o Senhor terá que ir junto. Porque tudo o que desejo é que você faça uma jornada de autoconhecimento.
A voz maligna soa com tranquilidade debochada, sequer parece ter sido atingida ou intimidada pela sombra do mundo da escuridão... Nem a intenção de Morpheus destruir o livro surte qualquer efeito nela... Pelo contrário.
E, como que por instinto, a sombra que ocupa o recinto se recolhe para onde viera e em decorrência do esforço quase descomunal usado, Morpheus sente-se fraco como nunca antes; de repente, ele cai de joelhos quando as suas pernas bambeiam, falham em apoiá-lo.
E, ao olhar para trás, em busca do único móvel existente no cômodo para se escorar, Sonho vê que, no lugar onde costumava ficar a sua linda poltrona de couro, está o que pedira para Lucienne guardar na biblioteca: o maldito livro.
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Mervyn entra na biblioteca carregando um balde e um esfregão, parando ao lado da mesa de Lucienne como quem não quer nada.
━━ E aí, Lucy? O que manda pra hoje, hein? — Enquanto espera por uma resposta, Mervyn deixa suas ferramentas de lado e tira do bolso da frente de sua jardineira jeans um cigarro, que não demora para acendê-lo e tragá-lo com prazer e de maneira ruidosa.
A fumaça branca escapa por todos os buracos vazados, desenhados na abóbora.
━━ Preciso que aumente o corredor leste — diz Lucienne sem erguer os olhos de um tomo enorme sobre a mesa. ━━ Há um acervo grande que foi recuperado recentemente do Senhor Edgar Allan Poe e preciso organizar isso com urgência.
━━ Certo, mãos à obra, eu diria... Mas me diz uma coisa, Lucy. Cadê o seu chefe? — Mervyn se apoia com as mãos sobre a mesa e persiste no assunto em tom conspiratório, deixando o cigarro grudado no canto de sua bocarra. ━━ Ele não aparece há dias, o que tá pegando, hein? Não me diga que ele está deprimido por ter levado mais um pé na bunda?
Lucienne ergue os olhos aguçados para encarar Mervyn, sabendo que nada do que disser vai aplacar a vontade do cabeça de abóbora de dizer o que "vem a cabeça". Mas a bibliotecária não se deixa levar pela tentativa falha de zombaria vinda do zelador do Sonhar, que nada mais é uma preocupação velada.
Desde que Morpheus se trancou em seu cômodo particular – há mais de uma semana, precisamente –, ninguém mais o viu. E o mais estranho foi Lucienne constatar que o livro que aparecera na Sala do Trono também desapareceu de onde o deixara guardado.
━━ Desconheço de qualquer caso amoroso que ele tenha se envolvido, mas se soubesse de algo, eu não te contaria — responde ela, voltando-se para o tomo. ━━ Mas se está tão preocupado com o coração de Vossa Majestade, Mervyn, basta chamá-lo. Por que não tenta?
Mervyn se afasta da mesa e segura o cigarro com os dedos longos de madeira.
━━ Não sei se o cara tem psicológico pra ouvir umas verdades — justifica o zelador, sem deixar de olhar para os lados para não ser surpreendido pela presença do Soberano. Afinal, ele não quer que sua opinião seja tirada de contexto.
━━ Foi o que eu suspeitei — Lucienne sussurra, passando as páginas enormes do tomo do qual consulta desde quando sua intuição gritou que algo não estava certo.
Mervyn, alheio ao assunto que de fato Lucienne se refere, faz auréola de fumaça com a boca e, por fim, faz mais uma demonstração de sabedoria que ninguém pediu:
━━ Não deveria estar tão surpresa, Lucy, um cara como eu sabe a realidade nua e crua...
Lucienne fecha o tomo com força, assustando o zelador no processo.
━━ Não estou falando disso, Mervyn. Refiro-me ao livro! Ele não é fruto do Sonhar! Nem deveria estar aqui pra começo de conversa! Não há sequer uma nota sobre ele neste tomo de registro que atualizo constantemente a cada novo exemplar que surge na biblioteca, mas fiquei me perguntando por que eu sabia tanto sobre ele...
O zelador faz uma carranca bastante expressiva diante daquela confusão.
━━ Que papo estranho, Lucy, tá falando de quem?
━━ Do livro! — Lucienne soa alarmada, porque percebe – ainda que tardiamente – a estranheza que sentiu ao tocar o livro quando Morpheus lhe entregara, além de dizer com tanta confiança a origem daquele volume desconhecido como se já soubesse de sua existência. Mas, após deixá-lo numa prateleira segura, teve a sensação desagradável de que tudo o que sabia sobre o livro não era resultado de uma pesquisa minuciosa de sua própria autoria.
Tinha sido algo imposto porque, talvez, esse algo não tenha sido a verdade. Desconfiando também que poderia ter sido ludibriada desde o momento que em botara os olhos no livro.
━━ Pô, é uma biblioteca, Lucienne, livro é o que mais tem aqui! — Mervyn responde a primeira coisa que surge na sua cabeça de abóbora viva, mas se sente instantaneamente arrependido por dizer em voz alta.
E antes de receber uma resposta mais atravessada da guardiã das "histórias não escritas, apenas sonhadas", um estrondo ensurdecedor alcança toda a extremidade do mundo dos Sonhos.
Vidros que compõem as janelas da biblioteca são estilhaçados na hora, dando tempo apenas de Lucienne e Mervyn se esconderem debaixo da mesa em busca de proteção.
Um grito aterrador acompanha aquela violência cacofônica que congela o coração de todos que o ouvem.
━━ Lorde Morpheus! — Lucienne reage àquele grito chamando pelo Rei dos Sonhos.
Percebendo que não consegue se teletransportar para perto de seu Senhor, ela sai por debaixo da mesa e se move com agilidade para desviar dos cacos de vidro que ainda caem das altas vidraças.
━━ Hey! Aonde pensa que vai?! É perigoso, Lucy! — O zelador berra à bibliotecária, mas é completamente ignorado.
Saindo da biblioteca, Lucienne – que também é seguida por Mervyn – corre em direção aos aposentos reais, atravessando o salão principal. No meio do caminho, eles se deparam com Matthew dando rasante para se aproximar.
━━ WROAARK! O que diabos está acontecendo, pessoal?! — indaga ao bater suas asas negras com rapidez para evitar trombar de frente com a bibliotecária, que talvez não tivesse a intenção de sequer parar para prestar atenção no que um pobre corvo assustado queria saber. ━━ Esse grito sinistro foi do chefe?!
━━ Alguma coisa aconteceu e precisamos encontrá-lo — diz Lucienne. ━━ Não posso chegar até ele ou descobrir onde ele está se Lorde Morpheus não permitir... Bem, precisamos descobrir do jeito mais lento e difícil, e não sei se temos tempo. Por isso, você consegue ir na frente, Matthew?
O corvo não se dá ao trabalho de responder obviedades. Ele alça voo pelo salão, ganhando altura e saindo com habilidade por uma falha no grande vitral rachado. Pelo lado de fora daquele exuberante edifício construído com tanto esmero, se dirige para uma das torres mais imponentes do Castelo e o vento, pertencente também ao grande e belo Fiddler's Green, parece feliz em ajudar a pequena ave a chegar ao seu objetivo o mais rápido que pode levá-la com suas rajadas.
Matthew nota que todas as janelas existentes daquele Palácio estão destruídas, e ele teme o pior mesmo sem saber o que ocasionou aquele protesto furioso e cheio de dor de Lorde Morpheus.
━━ Por favor, chefe... esteja bem... — Matthew murmura as palavras como uma prece assim que alcança a torre primordial.
A ave pousa no batente da janela estourada e sente suas penas se arrepiarem com a visão caótica que tem daquele cômodo; não sobrou nada que pudesse contar história. Nem mesmo um tijolo intacto. E, embora não tenha visto qualquer sinal do Chefe, Matthew não tem dúvidas de que ele esteve no epicentro do caos. Agora, porém, Sonho está desaparecido.
━━ Cheguei tarde... — balbucia o corvo, mas um enorme manto negro lhe cobre por completo antes que Matthew possa percebê-lo, fazendo-no soar um grasnar assustado.
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