The Rebellion
7 Damn Dixon
Notas iniciais

—O.K...dá pra alguém dizer alguma coisa? — Perguntei impaciente com Ash ao meu ombro — Quer dizer, eu já disse algo, então digam mais alguma coisa.
Todas aquelas pessoas desconhecidas continuavam paradas encarando-nos como se fossemos exposições, muito raras, em um grande museu.Eu tinha força mas não conseguiria sustentar o velhote muito mais, e um detalhe muito importante: eu não tenho paciência.
—Pete...?Reg...? — Foi a vez de Aaron quebrar o silêncio, ele olhava os corpos dos homens que jaziam no chão — Mas o quê?
—Rick? — Perguntou Daryl, com uma calma bem estranha — O que aconteceu?
O tal Rick, coberto de sangue e ataduras, parecia perplexo mas não havia uma gota de arrependimento em seus olhos claros.Havia uma mulher segurando o corpo de um dos homens, ela estava, realmente, desesperada e seus olhos pareciam arder em chamas furiosas e duradouras.Eu ia fazer um comentário super aleatório, mas resolvi não atear mais fogo em um circo já em chamas altas.
—Avalon...? — Disse Ash, em um quase, inaudível, suspiro logo cambaleando para o meu lado e quase me derrubando.
Daryl pareceu notar.
—Antes que qualquer um fale mais qualquer coisa: esse cara vai morrer em poucas horas se não nos apressarmos. — Disse o caipira, ainda segurando o braço esquerdo do idoso — Mas se vocês quiserem um convite formal, ele vai morrer aqui mesmo porque eu não sou de convidar.
Nesse exato momento uma mulher de cabelos curtos nos ombros e olhos claros se aproximou de nós com um olhar estranho; era uma mistura de preocupação com desconfiança.Ela não demorou muito para dizer alguma coisa.
—Certo.Vamos levar ele para a ala hospitalar, — Disse a moça, logo fazendo um sinal para eu me afastar de Ash e eu me afastei, ela parecia querer tomar as rédeas da situação — Denise, você vem comigo.
Uma mulher de cabelos loiros, presos em um rabo de cavalo baixo, e com um olhar inocente pareceu tremer quando ouvira seu nome.
—M-Mas eu não...Maggie... — Gaguejou a loira, se levantando em seguida — Não posso, eu...não posso.
—Pode sim, e vai. — Respondeu a tal Maggie, com um olhar impaciente na face — Não se preocupe, eu sei o que fazer.
Denise não pareceu ter escolha, logo se juntou a Maggie e pegou o braço esquerdo de Ashton, o mesmo que o caipira segurara há alguns segundos.Os três caminharam, ou melhor, mancaram, até uma casa branca em meio a escuridão.
O silêncio pairou sobre as pessoas novamente, Morgan continuava a encarar Rick com um ar de confiança e esperança, e o homem de olhos claros parecia ter o mesmo olhar sobre o moreno.
—Nós temos muito para conversar. — Disse Rick, ainda com a arma em mãos.
Parecia que Morgan estava pronto a contar a história de sua vida quando um homem alto, musculoso, com um bigode estranho e muito ruivo, soltou a voz grave.
—Certo pessoal, acho melhor vocês entrarem.A reunião já era por hoje.
Alguns minutos depois a maioria das pessoas, que antes estavam presentes, tinham se dispersado e tomado seus caminhos, pareciam muito assustadas.
—Por que está aqui Morgan? — Perguntou Rick, ele parecia muito esgotado.
—Por muitas razões, mas agora não importa muito mais.
—Acho melhor você não conversarem aqui fora. — Uma mulher com cabelos grisalhos e olhos muito claros se pronunciou — Rick?
Rick parecia um pouco avoado, pelo menos era isso que seus olhos estavam expressando.
—Certo. — Afirmou logo começando a andar — Me sigam.
Morgan não perdeu tempo e logo já estava na cola de Rick, a mulher de cabelos grisalhos e mais algumas pessoas o estavam seguindo em direção a uma casa bem grande.Com isso eu resolvi ir atrás de Ash, até ser parada.
—Onde você pensa que vai, pirralha? — Perguntou Daryl, me olhando com um ar irônico que me deu irritação.
—Atrás do meu amigo. — Respondi logo voltando a andar na direção contrária.
—Ele está em boas mãos, você vem com a gente.E, além disso, precisa cuidar dessa coisa na tua perna. — Daryl apontou para a queimadura, que até eu tinha esquecido que existia.
—Eu estou bem, só pra você saber.
—Larga de ser teimosa e vem logo, antes que eu te leve de volta para aquela floresta úmida onde eu te encontrei.
Por um momento franzi o cenho e o encarei.Eu estava com uma vontade muito grande de desobedecer, e eu meio que já sabia o porque, só não queria enxergar o que estava bem a minha frente.
—Eu odeio obediência. — Disse logo mudando meu rumo, já estava quase ao seu lado — Ah, e, obrigada por me lembrar do machucado que, até agora, não estava doendo.
—De nada. — Respondeu Daryl em um sorriso irônico, logo me empurrando, levemente, a sua frente.
Eu poderia chutá-lo, literalmente, mas resolvi agir como uma pessoa madura uma vez na vida, pelo menos.E foi o que eu tentei fazer ao máximo.
Aaron estava um pouco mais à frente do nós, ele parecia extremamente perturbado e calmo ao mesmo tempo, o que me deixou bem curiosa sobre os dois caras mortos. A mulher, que antes chorava em cima do corpo de um dos homens, ainda continuava lá, e o cara super ruivo conversava com ela, logo ele pegou o cadáver e saiu, sendo seguido pela mulher e por um cara alto e muito mais novo que os dois.
—Pode entrar, garota. — Uma voz feminina, era suave.
Quando percebi estava parada a frente dos degraus da varanda de uma casa enorme.A mulher de cabelos grisalhos estava parada bem próxima de mim, segurando a porta da frente.Eu estava viajando, mas logo voltei para a órbita e subi alguns dos degraus, deixando rastros de lama por todos os lados.Parei bem em cima do tapete de boas vindas, esse dizia:”Se sinta em casa”.
—Hum...acho melhor eu esperar aqui fora. — Disse olhando para meus tênis sujos de lama e sangue, encharcados pela chuva — Eu não quero deixar uma marca...hum...no piso da sua sala de estar.
—Que besteira é essa pirralha? — Perguntou Daryl, arqueando a sobrancelha direita.
—Olha só pra mim, cara, eu vou sujar a casa toda! E pelo que eu estou vendo as pessoas daqui não gostam de lama e sangue misturados à água.
—Entre. Não se preocupe com isso. — Disse ela, logo eu não tive muita escolha.
Tirei os pés do tapete e dei um passo a dentro.A casa era iluminada com energia, o que me deixou bem impressionada; havia um sofá enorme e duas poltronas, cuidadosamente posicionadas. Éramos sete pessoas no total, todos envolta da sala de estar, essa era ligada diretamente a cozinha, sem paredes.
—Você não faz ideia de quanto tempo faz que estou te procurando, Rick. — Disse Morgan, com um sorriso aparentemente sincero nos lábios.
—Por que? — Perguntara Rick, um olhar de liderança pairava em sua face.
—Porque você podia ter me matado, mas não matou.
Eu estava ligeiramente confusa com aquela situação, eles já pareciam tem uma história, todos eles juntos. Logo os olhos de Rick se fixaram em mim, o que me fez engolir o seco.
—E essa garota?Está com você? — Rick agora parecia um pouco mais relaxando do que antes.
—Nós achamos ela em um casebre na floresta, à algumas milhas daqui. — Disse Aaron — Acidente de carro, ela deu conta de levar aquele outro homem por um caminho bem complicado.
—O nome dela é Avalon. — Agora era a vez de Daryl abrir o bico — E eu tenho de admitir, a garota é durona.
Aquilo me fez olhar para ele, o mesmo tinha surpresa e desconfiança nos olhos. Daryl, seu filho da puta estranho.
—O que aconteceu para vocês se acidentarem daquele jeito? — Perguntara Aaron, com curiosidade no olhar.
—O quê? Quer saber a história da minha vida agora, é isso? — Ironizei, vendo que não tinha a menor graça — Certo...estávamos seguindo o resto do nosso grupo quando ficamos perdidos em meio a toda aquela neblina.
“Aí, do nada, um walker apareceu e ferrou com tudo. O velhote tentou desviar com a picape mas perdeu o controle e a gente acabou batendo de frente com uma árvore gigantesca. Resumo: o Ashton ganhou um furo no ombro, eu nos tirei da picape minutos antes de ela ir pelos ares, arrastei ele pela floresta até aquela casa minúscula, vocês me acharam e agora eu estou aqui.”
—E esse ferimento na sua perna? — Perguntou a mulher grisalha, que até aquele momento eu não sabia o nome.
—Não importa mais mesmo, o estrago já está feito.
—Carol, pode cuidar disso? Eu e o Morgan temos muito para conversar. — Pediu Rick, ainda com os olhos em mim — Depois nós conversaremos melhor, garota.
Então o nome dela era Carol, eu estava achando que ela combinava com “Regina” mas depois vi que “Carol” combinava mais.
—Claro, venha comigo Avalon. — Carol deu as instruções, pedindo para que a seguisse.
Se vocês quisessem que eu saísse era só pedir, pensei, eu sairia numa boa. Eu não tinha muita escolha, se não seguir Carol. Ela se dirigiu até a porta da frente, segurando-a novamente para que eu passasse primeiro. Ainda estava coberta de lama e sangue, e isso deixou marcas pelo chão, no tapete e no próprio piso, mas já não importava mais.
Segui Carol pela rua, iluminada pela luz amarelada dos postes, até uma outra casa, essa, por outro lado, parecia menor do que a primeira. No caminho eu pude notar que duas pessoas, pareciam um garoto e uma garota, estavam sentados em um telhado; eu não consegui enxergar muito bem mas, pelo que percebi, o garoto tinha um chapéu de cowboy na cabeça e a garota brincava com um isqueiro.
—Está conseguindo andar? — Perguntou Carol, me fazendo tirar os olhos das duas pessoas.
—Claro, andei o dia todo, andar um pouco mais não vai fazer diferença. — Já estou na merda mesmo.
—Se você prefere assim. É aqui.
Logo paramos a frente da casa azulada, menor, ou melhor, era uma mini mansão por que era muito maior do que as casas normais.
—____ _____
—Eu não sei o que você fez mas, preveniu um problema grande — Disse Carol, terminando de enfaixar, corretamente, a minha coxa.
—Você é médica? Quero dizer, era médica? — Perguntei — Parece saber bastante sobre o assunto.
—Ah, não. Um amigo me ensinou algumas coisas, mas já faz um bom tempo.
Carol se levantou, indicando que ela tinha acabado. Ela parecia um pouco avoada, seria por causa da pergunta estúpida que eu fiz? Eu não sabia.
Logo a mulher se dirigiu à cozinha ampla, ela parecia querer tirar algo do forno.
—Bem, acho que você está com fome, sorte que ainda tem um pouco.
Quando vi o que ela tirara quase tive um ataque.
—Puta merda! Só pode estar e brincadeira com a minha cara...
Uma travessa de vidro cheia de macarronada agora estava sobre o amplo balcão que separava a cozinha do resto da casa.Puta que pariu!Isso ainda existe?!Me aproximei e sentei, aquilo era quase impossível pois se me dissessem que ainda havia comidas desse tipo no mundo eu teria mais uma razão para viver.
—Pode pegar, você não poderia ter reagido melhor.
—___ ____
Carol me deixou sozinha com a macarronada minutos depois, a senhora disse que iria arranjar algo para mim vestir pois, de acordo com a mesma, eles tinham chuveiros e água quente. Aquilo era como o paraíso, eles tinham tudo que nós perdemos em anos, como se eles não fossem tão afetados como o resto do mundo.
Deixei o prato de lado de me debrucei no balcão de mármore, eu ainda não sabia se ficar era uma boa ideia, onde estariam Raj e os outros? O que diabos tinha acontecido? Eu não sabia, a única coisa que eu sabia era que eu e Ash estávamos vivos, ferrados mas vivos, e em um lugar completamente estranho.
Antes que eu percebesse minha pálpebras, antes pesadas, tinham cedido .A calma escuridão chegou a mim, pela terceira vez naquele dia.
—___ ____
“O que você acha que pode acontecer,Amélia?Eu nunca vou estar longe o bastante.”
Meus olhos se abriram rapidamente, logo seguidos por raios fracos de luz. Olhei em volta: um quarto branco e espaçoso, uma janela grande coberta com cortinas, e lençóis sujos.
Minha mente ainda estava tentando acorda e eu, ainda, estava grogue de sono. Logo todos os acontecimentos do dia anterior me atingiram como um tiro.
—Ah, droga... — Soltei antes de me levantar da cama macia.
Quando finalmente consegui pude notar o quão sujos os lençóis estavam, provavelmente minha culpa. Eu não me lembrava de ter dormido naquela cama, antes eu tivesse achado aquele quarto, como eu tinha ido parar lá?
Não demorou muito para meus olhos mudarem de alvo e se fixarem em uma cadeira, que se localizava bem perto da cama; roupas e um pedaço de papel jaziam sobre o assento.
“Não sei como conseguiu dormir tão rápido, mas aconteceu.
Enfim, eu achei algumas roupas que acho que vão servir, tem um banheiro no fim do corredor. Pode usar água quente se quiser.
Carol.”
As roupas pareciam ser do meu tamanho, como eu poderia recusar uma oferta daquelas? Fiz exatamente o que qualquer um faria, peguei as roupas e abri a porta do cômodo, cuidadosamente. Não havia ninguém do lado de fora e , pelo que percebi, aquele quarto ficava no segundo andar.
Enquanto andava até a porta que separava o banheiro do corredor pude perceber o quão frio estava, devia ser toda aquela chuva do dia anterior. Foi aí que eu percebi que meus tênis tinham sumido, sim, eu estava descalça e meus pés estavam frios.
Quando cheguei ao banheiro pude notar o quão limpo ele era, mas isso não me surpreendeu pois tudo ali era limpo, como se o mundo não tivesse desabado encima de nossas cabeças.Logo fechei a porta atrás de mim.
—___ ____
A água quente era uma das coisas que eu mais sentia falta, ainda mais em um dia como aquele, foi um verdadeiro milagre eu ter conseguido experimentar tudo aquilo como se fosse a primeira vez.
Enquanto trançava o meu cabelo visualizei meu reflexo no extenso espelho encima da pia. Eu estava parecendo, mais do que nunca, com a minha mãe; tirando o fato da cicatriz na sobrancelha e do cara acabada. Tanto que meu impulso foi tocar o vidro frio. Eu sentia tanta saudade dela, tanta que eu nem pude perceber que eu estava ficando igual a ela, mas a minha personalidade era o contrário, por isso logo afastei aqueles pensamentos deixando as duas tranças caírem sobre meus ombros.
Minutos depois o banheiro tinha ficado para trás e os degraus da escada estavam sob meus pés descalços. Um cheiro muito forte de uma coisa que eu conhecia bem invadia minhas narinas.
—Não acredito que eles tem o maldito café também. — Disse, em um sussurro quase inaudível.
Minha mãe costumava tomar muito café de manhã antes de ir dar aulas, por isso aquele cheiro era muito familiar, tanto que esse cheiro era o meu despertador para ir à escola.
Uma jarra de café estava sobre o balcão da cozinha, mas não havia ninguém lá. Franzi o cenho, aquilo era café de sumiço? Porque parecia muito.
De repente a porta da frente se abriu, o que me fez, automaticamente, perceber a ausência das minhas armas.
Carol passou pela porta e a fechou atrás de si. Não demorou muito para ela perceber a minha presença, tanto que a expressão dela estava estranha. Tinha alguma coisa na minha cara?
—Ah, você acordou. E vejo que as roupas serviram bem. — Disse a senhora vindo em minha direção, ou melhor, na direção do café. — Daryl quer falar com você, ah, e seus tênis estão perto da porta.
Demorou um pouco para mim tirar a atenção da senhora, pegando a jarra e colocando um pouco de café em uma xícara, mas logo depois que eu o fiz ela saiu por onde entrou. Fiquei um pouco confusa em relação a reação dela, como ela reagia tão normalmente assim? Eu apenas a tinha visto na noite anterior e já parecia que éramos velhas conhecidas. Eu não podia ficar com esses pensamentos em mente, por isso logo os afastei; eu iria encontrar Daryl e correr para a tal da “ala hospitalar” pois eu e Ash tínhamos muito a conversar.
Vesti meus tênis, incrivelmente limpos, e saí pela porta da frente, encontrando Daryl apoiado em um dos pilares de madeira que sustentavam a varanda. Quando ele me viu perdeu a mão da estrada, ele parecia muito surpreso mesmo.
—Nossa, obrigada por me fazer sentir horrível. — Eu disse, logo ficando ao seu lado.
—Não...não é isso. — Ele negou, ainda um pouco perdido — Você está com a cara limpa e se parece com...uma criança mimada.
—Eu nem te conheço direito e você já me tira do sério.
—Eu nem te conheço direito e você já não tem freio na língua. — Retrucou o caipira.
—Rick e Deanna querem falar com você. — Disse Aaron, aparecendo do nada, como um ninja americano.
Quem diabos é Deanna, pensei ainda olhando para Daryl. O caipira parecia ter voltado a si. Primeiro a Carol, depois ele, eu estava tão horrível assim? A vida não estava fácil pra ninguém.
—Avalon, o Daryl vai te levar até eles é só segui-lo. — Disse Aaron com um sorriso no rosto.
—Vamos lá pirralha. — Logo ele já estava a minha frente.
Comecei a segui-lo quando Aaron disse uma coisa, ou melhor, ele nem teve tempo de terminar.
—Ah,e Dixon!... — Antes que ele pudesse completar a frase eu e Daryl o cortamos.
—O quê? — Nós respondemos em coro.
Eu tinha me esquecido completamente que odiava aquele sobrenome, mas não pude evitar responder, afinal, fazia parte do meu nome. Foi assim que eu enxerguei o que estava bem a minha frente, o fato que eu estava ocultando de mim mesma.
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